Da medicina tradicional à bruxaria

O título desta postagem é o mesmo de um artigo publicado em meados do mês passado pelo periódico online PLoS ONE, e que é o destaque da página de Ciência da Folha de São Paulo desta segunda-feira.
O artigo oferece um modelo matemático para tentar explicar por que terapias inócuas sobrevivem — digo, se não funciona, deveria parar de ser usado, certo?
O estudo desse aparente paradoxo não é exatamente uma novidade (mas, até aí, o estudo das estrelas também não é, e sempre revela coisas novas). O modelo matemático descrito na PLoS reforça a suspeita de que doenças crônicas e/ou doenças que matam devagar, como vários tipos de câncer, são terreno fértil para a crendice e o charlatanismo.
O porquê disso está exemplificado no “Plano Experimental de Freireich”. Seguindo esse plano, nenhum tratamento nunca faz mal, porque, uma vez aplicado, pode acontecer de (a) o paciente melhorar, o que prova que o tratamento é eficaz; (b) estabilizar, o que prova que o tratamento evitou o pior; (c) piorar, o que prova que o tratamento começou muito tarde (ou que o paciente não tem fé, força de vontade, vibrações positivas, etc); (d) morrer, o que segue a mesma explicação de “c”.
Todo o sistema de testes duplo-cego — do que muitas terapias alternativas escarnecem — foi criado para evitar, entre outras coisas, as “conclusões Freireich” (o nome vem de um oncologista americano que recebe o crédito por ter descrito esse processo pelo qual curandeiros tendem a reivindicar todos os sucessos e a culpar o paciente por todos os fracassos).
Bom, voltando ao artigo da PLoS: o modelo sugere que terapias “alternativas” ou “tradicionais” sobrevivem basicamente porque ficam muito tempo em circulação: uma pessoa que toma, digamos, florais de Bach para artrite — minha mãe fazia isso — continua a tomá-los indefindamente, e comenta o fato com as amigas, que então…
Práticas de baixa eficiência às vezes disseminam-se porque sua própria falta de efeito resulta em demonstrações mais prolongadas e salientes e num grande número de convertidos, que mais do que compensam a grande taxa de abandono, diz o texto.
Ou, persistência é uma coisa boa, desde que se saiba a hora de parar.

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