Paradoxo de sexta (26)

O argumento ontológico, que fez o papel de paradoxo da semana passada, é atacável sob várias frentes. Uma delas, mencionada nos comentários, é a de que a mesma estrutura usada na “prova” de deus pode ser usada para “provar” qualquer coisa (“X” é perfeito por definição, as coisas só são perfeitas se realmente existirem, logo “x” existe por definição). Essa, diga-se de passagem, foi a primeira objeção levantada contra o argumento, quando Santo Anselmo o propôs séculos atrás.
A pá de cal sobre o argumento ontológico, segundo a maioria dos filósofos, foi dada por Kant, que notou que “existência” não é uma propriedade que pode ser dada por definição.
O argumento tem uma variante mais espertinha, que se se vale da estrutura lógica da linguagem, e que sustenta que “deus não existe” é uma contradição em termos. Por quê? Porque deus é definido como o ser cuja existência é inevitável, e dizer que “o ser cuja existência é inevitável não existe” é uma contradição em termos. Logo, é impossível articular a ideia da inexistência de deus de forma coerente, e portanto os ateus estão falando uma abobrinha do tipo “triângulos têm quatro lados”.
Bertrand Russell pôs uma pá de cal sobre essa versão, ao notar que a expressão “ser cuja existência é inevitável” pode ser tratada como a definição de um conjunto — como “o conjunto de redatores de blogs chamados Ideias Cretinas”, por exemplo — e a frase pode ser reescrita assim: “o conjunto dos seres cuja existência é inevitável é vazio”. Presto, nenhuma contradição!
Agora, em homenagem à recente onda de autodesmoralização promovida pelas duas casas do Congresso Nacional, vou apresentar um dos três (até a última vez que contei, eram três) Paradoxos da Democracia:
Como um democrata, alguém que acredita no dever de acatar as decisões da maioria, deve agir quando a maioria toma uma decisão que ele sabe que é errada? (veja bem, não é apenas uma decisão da qual ele discorda por uma questão de gosto ou de opinião: é uma decisão que ele, objetivamente, sabe que não presta).

Discussão - 2 comentários

  1. Girino disse:

    > Como um democrata, alguém que acredita no dever de acatar as decisões da maioria,
    Acho que esse paradoxo se resolve por aí: Acatar as decisões da maioria não é a definição de democracia. Num sentido amplo, a democracia é acatar o que Rouseau definiu como “Vontade geral”, que é o conjunto racional daquilo que a sociedade como um todo elege como sendo o melhor pra ela.
    Acatar a vontade da maioria como sendo o conjunto somado de vontades individuais leva a pessoalização do poder, e não à democracia.
    Partindo desse ponto de vista, uma decisão é “errada” quando ela vai contra a vontade geral, ou quando está fora do escopo da vontade geral (que é geral e abstrato), e cai no escopo da vontade pessoal da maioria dos indivíduos. Isso, em princípio, deveria ser previsto na constituição da dita democracia de forma a que essas discrepâncias fossem raras, senão impossíveis (como por exemplo os direitos e garantias pessoais e sociais listados na constituição brasileira).
    Chegamos então a duas hipóteses:
    1) a decisão errada está prevista na constituição e não pode ser implantada, ou
    2) a decisão errada não está prevista na constituição.
    Apenas o caso 2) pode ter existência concreta, e nesse caso, ao invés de acatar a decisão o democrata deve lançar mão dos recursos democráticos a que tem direito para mostrar que a decisão, mesmo tomada por maioria, não tem validade democrática. Seja através de protestos e concientização, seja através de recursos jurídicos, ou mesmo com tentativas de revogar ou alterar a decisão tomada. E por última instância, incluir na constituição novas regras para evitar que esse tipo de erro possa ser repetido.
    Ressaltando ainda que isso só é possível numa democracia “real”, pois numa teórica democracia perfeita nenhum caso poderia cair na segunda hipótese já que a constituição seria naturalmente perfeita.
    Agora voltando a pergunta: não entendi porque isso seria um paradoxo. Ou melhor, isso só seria uma paradoxo numa “ditadura da maioria”, onde não existissem mecanismos democráticos de revisão de decisões nem de proteção dos direitos individuais. Mas aí seria o equivalente a um monarquista ver o rei tomando uma decisão errada…

  2. cretinas disse:

    Oi, Gririno! Realmente o “paradoxo da democracia” que citei é mais um dilema, mas ele é tradicionalmente chamado de paradoxo, então resolvi anexá-lo à minha lista… Sua solução, creio, aplica-se mais ao que seria o SEGUNDO paradoxo da democracia: pode uma democracia votar-se a si mesma até a extinção, como num plebiscito para instaurar uma ditadura?
    O primeiro paradoxo é mais imediatista, e mais pessoal. Não quero dar mais informação sobre o problema antes da próxima sexta, mas minha intenção ao propô-lo foi postular uma situação onde o apego do indivíduo ao processo democrático e seu senso de integridade pessoal sejam mutuamente excludentes. Supondo que um choque do tipo seja possível, claro.

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