Quando o porco paga o pato

Em meio à onda da gripe suína — desculpe, influenza A/H1N1 — há um ponto saliente que não está recebendo toda a atenção que merece: a situação político-ideológica dos porcos entre determinados grupos religiosos. Da matança de porcos no Egito ao isolamento do único (único!) porco do Afeganistão, os suínos estão pagado o pato.
E esse efeito não é apenas produto da típica combinação de covardia e ignorância que rege muito das ações humanas; na verdade, tem profundas raízes culturais.
O porco é declarado um animal interdito pelo livro de bíblico de Levítico (que também condena o consumo de ostras, corujas e águias, e o homossexualismo, entre um monte de outras coisas) e também no Islã. A matança no Egito aparentemente teve forte inspiração religiosa.
Uma questão curiosa é o quê, afinal, os redatores de livros sagrados têm contra carne suína. Uma teoria que costuma ser bem aceita é a de que, nas condições pouco sanitárias dos povos do deserto de séculos atrás, a carne de porco era um vetor especialmente poderoso de certos parasitas; o tabu teria evoluído a partir da constatação de que comer porco tendia a faz mal.
Outra teoria que também tem uma certa voga é econômica, em torno de uma disputa entre pastores de cabras e ovelhas (que, por alguma razão, também são o tipo de gente que escreve livros sagrados) e criadores de porcos (que tinham uma péssima assessoria de imprensa).
Mas a minha teoria favorita (bem, não é minha, na verdade; só que estou sem tempo de pesquisar direito para achar o devido crédito) é a que parte da grande semelhança entre carne de porco e carne humana.
Em linhas gerais, o cheiro e a aparência de carne de porco assada seria muito semelhante ao cheiro e à aparência de um sacrifício humano. Assim, o tabu contra carne de porco seria um reflexo culinário, digamos, por analogia, da proibição de se assar criancinhas para os deuses.
O porco se tornou “abominável” porque, em determinada época, reacendia na população as memórias olfativas e gustativas da época onde verdadeiras abominações ocorriam nos templos. E, como tabus têm uma inércia cultural enorme, a coisa ficou.
Pode até não ser verdade, mas dá uma boa história…

Discussão - 4 comentários

  1. “Mas a minha teoria favorita (bem, não é minha, na verdade; só que estou sem tempo de pesquisar direito para achar o devido crédito) é a que parte da grande semelhança entre carne de porco e carne humana.”
    Que pena! Eu pensei que a ideia era minha!
    http://comciencias.blogspot.com/2009/04/porcos-e-antropofagia.html

  2. cretinas disse:

    Parabéns pela bela postagem! Mas não, a ideia também não é sua (ao menos, não no sentido de ter sido a inspiração inconsciente da que fiz). Finalmente localizei minha fonte primária. Foi o Christopher Hitchens (http://theperplexedobserver.blogspot.com/2008/09/why-heaven-hates-ham.html). Confesso que fiquei meio chateado ao (re)encontrar esse artigo; eu realmente preferiria que a hipótese tivesse sido defendida por um antropólogo em algum periódico com peer-review.

  3. Liliane Catone disse:

    Cretinas, adorei a sua abordagem (bastante contextualizada)!O Kentaro também comentou em seu blog sobre um trabalho publicado por um cientista da Universidade de Havard no qual ele conclui que os dinossauros teriam gosto de frango… o cientista também fala que a carne humana teria gosto de carne de porco… A relação entre galinha e dinossauro dá até para fazer… mas homem e porco? Fiquei pensando que tribo de antropófagos teria sido consultada… enfim, acho que essa informação não deve ser tão difícil de conseguir mesmo…

  4. cretinas disse:

    Oi, Liliane! Uma fonte interessante da comparação entre carne humana e de porco é o fato de que alguns povos que praticavam o canibalismo se referem ao cadáver humano como “porcão”.

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