A falácia do ‘verdadeiro torcedor’

Houve tempo em que os editoriais do jornal ‘O Estado e S. Paulo’, concordasse-se ou não com as premissas assumidas pelo redator, eram exemplos cristalinos de bom discurso e boa lógica. Não mais, infelizmente.
Ao comentar a recente morte de um torcedor após um jogo entre Corinthians e Vasco, o texto opinativo do vetusto diário se sai com a frase gritantemente falaciosa “(…)selvageria, estranha ao esporte e aos verdadeiros torcedores(…)“.
A falácia está em redefinir um termo que deveria ter significado específico (“torcedores”) de acordo com um critério irrelevante para a definição específica (não-selvagens).
Ou, como exemplifica o filósofo Anthony Flew: imagine que um escocês ouça a história de um inglês molestador de criancinhas; ele se enche de orgulho patriótico e diz, “nenhum escocês jamais faria isso”. Ao ser confrontado com o caso de um escocês pedófilo, sai-se com essa: “Não era um verdadeiro escocês”.
Bolas, o que define um escocês não são suas preferências sexuais, e sim o lugar onde nasceu; da mesma forma, o que define um torcedor é o fato de torcer para um time, não seu comportamento, violento ou não.
Essa “falácia do falso escocês” (ou, “do falso torcedor”) é usada para desculpar muita coisa: assassinos suicidas islâmicos não seriam “verdadeiros muçulmanos”; cientistas que fraudam suas pesquisas não seriam “verdadeiros cientistas”; cristãos que cometem atentados contra clínicas de aborto não seriam “cristãos de verdade”; padres pedófilos não são “verdadeiros sacerdotes”.
Seria muito mais produtivo que cada segmento reconhecesse e fizesse algo a respeito dos psicopatas em seu meio, em vez de simplesmente redefinir as fronteiras do grupo a cada nova inconveniência.

Discussão - 10 comentários

  1. Juninho disse:

    Duro reconhecer, mas você está certo.

  2. elvis disse:

    Nada disso, quero poder redefinir a espécie homo sapiens para excluir todo mundo que eu não gosto. Todos estes reocupariam varias espécies desde as amebas, vermes e outras, e talvez tivesse que criar umas novas para abarcar os mais atrozes.
    Cansei de estar na mesma espécie que as aberrações que correm por aí.
    😉

  3. Karl disse:

    Bem lembrado. Isso é um dos muitos efeitos colaterais das pessoas que trabalham com essências, quando o que vale é o “discurso” que os agentes produzem. Discurso aqui, entendido como produção humana, seja ato ou palavra.
    Não importa o time que se torce, importa o ato que se comete. Não importa onde nascemos, importam as ideias que defendemos. Nada disso é atenuante ou agravante para o que foi produzido. Nada é determinante, a não ser a própria consciência a qual estamos entregues. Esse é o ônus. Parafraseando Sartre: Ah, como seria bom se Deus existisse…

  4. Bom post. Uma coisa curiosa é que ocorrem mais mortes aqui no Brasil pela ação de torcedores fanáticos do que por religiosos fanáticos. Talvez se devesse escrever um livro chamado The Soccer Delusion.

  5. Ai, eu não quero criar fama de defensora incondicional dos jornalismo porque não sou, e o exemplo disso é que leio com muita frequência o Observatório da Imprensa (www.observatoriodaimprensa.com.br), o qual recomendo a todos; mas é que apesar de achar bem interessante sua exposição, me bastaram duas buscas na internet para confirmar minha suspeita de suas fragilidades.
    1) Transcrevo uma das acepções de “verdadeiro”, segundo o dicionário Houaiss:
    Derivação: sentido figurado.
    certo, com quem se pode contar, fiel
    Ex.: um v. amigo
    De onde é possível concluir que o “verdadeiro torcedor” é o “bom torcedor”. Essa adjetivação seria improvável numa reportagem, a menos que estivesse dentro das aspas de uma das fontes, mas num editorial de jornal (que é em si uma grande aspa), de teor opinativo, não me parece nenhum absurdo. Daí que “gritantemente falaciosa” me salta aos olhos como um gritante exagero.
    2) O próprio Estatuto do Torcedor usa o termo “mau torcedor” (Cap XI, artigo 39, parágrafo 2o) para se referir ao “torcedor que promover tumulto, praticar ou incitar a violência, ou invadir local restrito aos competidores…”.
    Continuo apreciando a citação de Anthony Flew e acho que ela faz pensar, mas não resisti a colocar esses contra-argumentos, apenas para enriquecer a discussão.
    Abraços

  6. cretinas disse:

    Oi, Luciana! Hmmm… Não sei. No contexto do editorial, me parece meio forçado tentar traduzir o “verdadeiro” ali como “bom”. Mesmo porque, opor a categoria do “verdadeiros torcedores” à dos “torcedores selvagens” até parece significar alguma coisa, mas opor os “bons” aos “selvagens” é apenas tautológico.
    Quanto à imprensa, também não tenho nada a priori contra ela (muito pelo contrário, e uma das coisas que mais me incomodam no Brasil é o desprezo com que a liberdade de imprensa rotineiramente é tratada, por exemplo, no judiciário), mas o preço da liberdade é, como dizem por aí, a eterna vigilância…

  7. cretinas disse:

    Sabe que uns anos atrás li uma reportagem sobre como uma das milícias étnicas mais violentas a surgir durante as guerras dos Bálcãs dos anos 90 tinha nascido de uma torcida uniformizada?

  8. Oi (me faz falta um nome a quem me dirigir)
    Sobre sua primeira resposta: eu não acho forçado, ainda mais em um texto de opinião. E eu opus o “bom torcedor” ou “mau torcedor” (o selvagem é por sua conta), e este último, para mim está claro, é o torcedor que transforma um espetáculo que deveria ser disfrutado por todos numa praça de guerra onde se recolhem cadáveres. Você pode até questionar a escolha do significante, mas o significado me parece muito claro, pelo menos na minha leitura.
    Sobre a segunda resposta: Ok, mas não é justamente esse tipo de atitude criminosa(vide exemplo dos hoolingans) que o editorial do jornal está repudiando?

  9. cretinas disse:

    Olá! A oposição entre “verdadeiro” e “selvagem” é o editorial que faz — eu tentei substituir “verdadeiro” por “bom” pra ver se preservava o sentido geral, e não me parece o caso.
    Já a segunda parte da resposta mão era para você (digo, não tinha relevância imediata para a nossa discussão) era para o Osame… pelo jeito o sistema continua empilhando as respostas meio aleatoriamente!

  10. gabriel-dom disse:

    Vou pelo caminho que conheço para expor o que penso.
    Para ser Eletrotecnico(minha profissão) você precisa: ter concluído ensino médio, fazer um curso tecnico certificado pelo mec e que atenda uma grade curricular aprovada pelo CREA e ser aprovado em todas as matérias com aproveitamento minimo de 60%; apresentar no minimo dois relatórios tecnicos baseados nas atividades exercidas durante estágio obrigatório de 6 meses; Ter o curso NR-10;
    Enfim, para ser um eletrotecnico voce precisa disso tudo. se vc fez o curso e foi aprovado com 100% em todas as matérias mas nao aprasentou relatorios de estágio nao concluiu nenhum outro pre requisito, você nao é um eletrotecnico.
    Como lembrado por um comentário acima, o proprio estatuto do torcedor nao exclui o individuo baderneiro, selvagem, vira casaca, torcedor de radinho, etc. da definiçao de torcedor.
    para ser torcedor basta manifestar de alguma maneira sua simpatia pelo time seja usando o uniforme, entoando cantos, adesivando seu carro, indo ao estádio, guerreeando, quebrando tudo vestindo uniforme ou estando um grupos de pessoas usando uniforme, agredir torcedor de alguma equipe seja ela a sua equipe ou nao…
    talvez o código penal defina o torcedor apenas como individuo mas agir de forma incompativel com o ideal esportivo que hoje é o tao sonhado pelos padroes da nossa sociedade, nao exclui o individou da qualidade de torcedor.
    Matar alguem nao te exclui da qualidade de Humano.
    Nao existe tambem uma definiçao para pessoas que nao matam.
    Torcedor seria um prefixo pra quem veste uma camisa de time, o que ele faz quando está usando a camisa seria apenas um sufixo.
    Mas, eu leio noticias como essa interpretando passagens como essas apenas como um recurso para dramatizar e passar o leitor a sensaçao desejada pelo jornalista. é diferente do comentário do elvis(segundo) que enfatiza o erro dos outros para destacar as exelentes qualidades dele sem citar nenhuma.
    o jornalista enfatiza a barbaridade para dar ao leitor a dimensao da barbaridade e crueldade e seja lá o que for.

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