Patton e o Dia D

Sábado passado foram celebrados os 65 anos do Dia D, o épico desembarque de tropas aliadas no norte da França que garantiu a abertura do segundo front contra Hitler e a virada da Segunda Guerra Mundial.
Um detalhe pouco conhecido sobre esse evento colossal da história do século passado é o fato de que, na véspera do dia fatídico, o general George Patton fez um discurso para os soldados americanos. A fala de Patton seria considerada politicamente incorreta ao extremo hoje em dia — o que lhe dá a virtude da sinceridade, ao menos — mas, lá pelas tantas, o general cita uma estatítstca:
“You are not all going to die. Only two percent of you right here today would die in a major battle.”
(Tradução: Vocês não vão todos morrer. Só dois por cento de vocês aqui, hoje, morrerão numa grande batalha).
Há várias coisas a comentar a respeito desse trecho — uma delas, o sangue frio de olhar para uma multidão de jovens acreditando que dois de cada cem não viverão para ver a próxima semana; outra, o pouco conforto que a estatística traz (como prever quem vai ou não estar nos 2% de defuntos?) — mas o que me interessa no momento é, como Patton chegou a esse número?
Talvez ele estivesse de posse de um dado do tipo, só 2% de todos os soldados morrem em batalhas importantes, em média. Se realmente tinha esse dado, ele estava certo no que falou, exceto por três pontos:
(a) A estatística poderia muito bem se referir ao total de soldados em uma guerra que morrem em grandes batalhas, não ao dado relevante para o caso, que é o de participantes de grandes batalhas que morrem em grandes batalhas: tipo, entre os 98% de sobreviventes podem estar incluídos os sargentos de instrução que ficaram nos EUA para treinar recrutas (e que tecnicamente são soldados da guerra, embora não travem batalha nenhuma).
(b) Mesmo descontando o ponto (a), nada garantiria que o Dia D seria uma batalha importante “média” (na verdade, morreram ou feriram-se 9 mil homens de uma força de 150 mil no primeiro dia de combates, o que dá uma taxa de baixas da ordem de 6%).
(c) Desconsiderva a taxa de mortalidade em batalhas menos importantes. O cara poderia muito bem sobreviver ao Dia D e morrer um mês depois, numa escaramuça qualquer…
Outro detalhe da guerra: as agências internacionais de notícias divulgaram, no fim de semana, a foto de um senhor britânico de 113 anos, que é o mais velho veterano da 1ª Guerra Mundial e o único sobrevivente do RNAS, um braço da Marinha inglesa que depois daria origem à RAF (“Nunca tantos deveram tanto a tão poucos…”).
Gente assim não devia ter permissão para morrer. Devia ser congelada, e ressuscitada a cada trinta ou quarenta anos para contar as memórias às novas gerações.

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