Teoria dos Jogos e o ‘jeitinho’

Neste fim de semana, passei a noite de sexta pra sábado num hotel de SP. No mesmo lugar havia uma convenção de médicos — a fila do check-in era de quase uma hora, por conta do influxo maciço de doutores. Bom, quando chegou a minha vez, perguntei ao balconista qual o melhor horário para tomar café no dia seguinte, já que os médicos certamente iriam lotar o restaurante quando descessem em massa.
O simpático rapaz atrás do balcão disse que a convenção de médicos (patrocinada, ao que parece, pela Novartis) tinha um evento previsto fora do hotel, com saída marcada para as 8h. Programei-me, então, para descer para o café por volta das 8h05, quando os médicos já deveriam ter limpado a área.
Você certamente já adivinhou o que aconteceu: o restaurante ainda estava lotado de médicos, que informavam uns aos outros que o ônibus ainda ia esperar “mais um pouquinho”; acho que saiu, no fim, lá pelas 9h.
O que me pôs para pensar nos pobres coitados que tinham acordado cedo para estar de café tomado e dentes escovados a tempo de pegar o ônibus na hora estipulada na véspera, 8h. Deviam estar se sentindo os maiores trouxas da galáxia.
Em termos de teoria dos jogos, essa é a situação clássica onde uma quebra na cooperação entre os jogadores segue sem punição, de forma que quem se esforçou para jogar direito fica com o ônus do esforço empenhado, mas não colhe bônus nenhum.
Simulações matemáticas (e experimentos e a história) mostram que quando “aproveitadores” contumazes seguem impunes, os cooperadores ou desistem de fazer as coisas direito ou são extintos da população, até que a coletividade chegue a 100% de aproveitadores — quando tudo, obviamente, desmorona.
(Qualquer semelhança com o Congresso Nacional é mera coincidência).
Filosofando um pouco, parece-me que a tolerância com o aproveitador é parte do fenômeno conhecido genericamente como “jeitinho brasileiro”.
Percebo que este é o ponto, neste tipo de artigo, onde o autor começa a esbravejar pedindo pena de morte para quem cospe na rua. Não vou fazer isso, mas propor uma reflexão sobre um fenômeno cultural interessante: a tendência nacional de inverter o “ônus da inconveniência”. Ou: parece que entre nós o chato é quem insiste para que as normas sociais sejam observadas, não quem abusa do tempo e da paciência de quem tenta agir direito. Por que será?

Discussão - 8 comentários

  1. Claudia Chow disse:

    Acho q os espertinhos se darem melhor q os corretos nao deve ser privilégio só no Brasil, ne? Espero…

  2. André disse:

    Concordo contigo! Achei que estava sozinho nessa, mas lendo seu comentário reconheci um pouco do que eu penso sobre o jeitinho brasileiro.
    Lendo o post lembrei do vídeo no TED sobre trapaça:
    http://www.ted.com/talks/lang/eng/dan_ariely_on_our_buggy_moral_code.html
    valeu pelo post!
    um abraço

  3. João Carlos disse:

    É!… Mas você não está se lembrando de onde nasceu o “jeitinho”: da monumental burocracia que herdamos de Portugal, aliada a um esquema escorchante de impostos e obrigações para com El Rei (substituído – com enormes sobras – pelos três níveis de (des)governo no Brasil).
    Quando se exaure a autoridade em exigências descabidas, se acaba por desmoralizar todas as normas, sejam elas boas ou más.
    Para encurtar: quer cobrar a observância às normas sociais?… Comece por descartar as que são mero rapapé e “criar dificuldades para vender facilidades”.

  4. São Gulik disse:

    “Por que será?”
    Porque trapacear sai muito mais em conta para se atingir um objetivo, e aqueles que usam dessa vantagem não querem perde-la.
    Pular pro final e deixar os problemas do caminho pro próximo resolver. Essa acumulação já é tão evidente que é algo normal já e ninguém se importa, só os “diferentes”.

  5. Kim disse:

    Engraçado, passei por essa situação do jeitinho hoje mesmo. Tenho prova nesta quarta em São Carlos (3h30 distante de São Paulo, de ônibus) e um compromisso inadiável em São Paulo no mesmo instante. É previsto pelo regulamento da USP que eu tenho direito a outra prova, mas o processo demora e queria dar um jeitinho com o professor, para fazermos nessa semana ainda, ou no mesmo dia.
    Que nada. O sujeito é metódico, seguidor de regras, e não quis saber: falou que é duro fazer provas, que exige planejamento e equilíbrio na cobrança do conteúdo, e que eu devo seguir o trâmite legal para ter direito a ela. E mais: diz que vai reclamar e se possível, impedir.
    O professor está no pleno direito, e até dever, de requerer “seriedade” no cumprimento da disciplina. Contudo, todos a quem expus o problema (inclusive professores) acharam que eu fiz certo, e que ele só está atrás de dor de cabeça para ele e para mim. O jeitinho não será, muitas vezes, um mero uso do bom senso?

  6. cretinas disse:

    Tentando oferecer um “comentário geral” aos comentários: é fato que “espertos” se darem bem por cima dos “certinhos” não é um fenômeno exclusivamente brasileiro, mas imagino que no Brasil haja uma peculiaridade (ainda que não exclusividade) ideológica, a do consenso social que olha pra o esperto com admiração pra o certinho com uma mistura de desprezo e condescendência.
    Como vários comentários notaram, isso possivelmente nasce do excesso de regras absurdas, ou dificiculdades desnecessárias que nossa tradição ibérica-cartorial-patrimonialista cria. Basicamente, as regras ruins ou absurdas acabam contaminando e desmoralizando as boas. Isso sempre me ocorre quando vejo as tais “operações padrão” da Polícia Federal: quando a polícia faz tudo de acordo com as normas, o país pára…

  7. wagner disse:

    É incrível como ainda há quem queira responsabilizar Portugal por todos os nossos males. Só uma sugestão: vá a Portugal e veja que eles já superaram todos esses possíveis problemas oriundos da época colonial como burocracia, jeitinho, sabe com quem está falando, etc. Portugal é um país moderno, muitos pontos acima de nós em cidadania, qualidade de vida etc. Se nós continuamos com os problemas que supostamente vieram deles a culpa é só nossa.

  8. cretinas disse:

    Oi Wagner!
    Concordo plenamente que nossos problemas são nossa responsabilidade; por favor, não confunda a busca de uma explicação histórica com uma tentativa de fransferência de culpa. Se a tolerância brasileira com a flexibilização das regras de respeito ao próximo é mesmo uma herança ibérica, isso não nos exime da responsabilidade de administrar essa herança e de decidir o que fazer com ela.

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