Paradoxo de sexta (36)

O da semana passada foi um dos clássicos paradoxos de Zeno escritos por Aristóteles — o que tenta demonstrar que é impossível percorrer uma distância qualquer, porque isso implica percorrer um número infinito de etapas intermediárias, e é impossível cumprir um número infinito de tarefas num tempo finito.
Esse paradoxo já foi atacado por vários ângulos. O mais usado é apontar a existência daquilo que os matemáticos chamam de séries infinitas convergentes — isto é: uma soma de infinitos termos, tipo 0,5+0,25+0,125… de fato pode chegar a um resultado finito. No caso, 1.
Mas esse argumento, por si só, é insatisfatório. Ele soa muito como uma mera reformulação do problema: Zeno nos diz que uma distância concreta qualquer pode ser quebrada em infinitas frações. A série convergente nos diz que infinitas frações podem ser somadas para gerar ma distância concreta qualquer. So what?
O truque está em aplicar o argumento da série convergente ao tempo: da mesma forma que uma curta distância finita pode ser dividida em infinitas etapas, cada uma menor que anterior, um número infinito de momentos, cada um menor que o anterior, pode ser somado para gerar um intervalo de tempo finito. Assim, prova-se que a afirmação final do paradoxo, “é impossível cumprir um número infinito de tarefas num tempo finito” é falsa. Realizar uma infinidade de tarefas um tempo finito é possível, se as tarefas puderem ser distribuídas ao longo de uma série infinita, porém convergente, de momentos.
O paradoxo desta semana é o que eu chamo de Paradoxo da Criação Imperfeita. É um paradoxo teológico, e portanto só deve incomodar a quem acredita nessas coisas, mas ele é tão bem sacado que não resisti a apresentá-lo. Foi proposto pelo filósofo australiano John Leslie Mackie (1917-1981), um dos meus heróis intelectuais (seu livro a respeito de argumentos pró e contra a existência de Deus, The Miracle of Theism, é um dos meus clássicos pessoais).
Esse paradoxo é uma tréplica à resposta padrão dos teístas quanto à existência de mal moral no mundo (o mal natural — enchentes, terremotos, vírus Ebola, etc — é outro problema). “Mal moral” é o mal que as pessoas fazem umas às outras: roubo, estupro, assassinato, pura e simples crueldade psicológica…
A noção geral, no quadro teísta, é que o mal moral é o preço da liberdade. Deus quis nos fazer livres, e ter liberdade inclui a liberdade de fazer merda.
(Há outras questões que daria para levantar, tipo por que a liberdade do assassino vale mais que a vida da vítima, mas não vamos entrar nisso aqui).
A questão que Mackie deixa é: óquei, Deus quis nos fazer livres. Por que então ele não quis nos fazer melhores? Um ser humano que sempre faça a escolha moralmente certa ainda é um ser humano livre. O fato de uma pessoa passar a vida inteira sem cometer um crime não a torna menos livre que um assaltante assassino.
O mal moral potencial pode se explicar com o fato de sermos livres, mas o mal moral concreto só se explica porque somos imperfeitos. Por que um Deus bom e onipotente criaria uma espécie deliberadamente defeituosa, que ele sabe (é onisciente também) que vai ter de castigar depois?
Cartas para a redação.

Discussão - 4 comentários

  1. J. Fonseca disse:

    Esse vai ficar difícil responder, precisaria primeiro que eu acreditasse nessa entidade onisciente criadora, como não acredito, não há paradoxo.
    Vou mandar pro site do Edir Macedo, se ele responder eu volto aqui.

  2. Tene Cheba disse:

    Digamos que uma nave partiu da Terra, após vinte gerações, finalmente chega ao seu destino, algum sistema planetário, interessante, captado pelas sondas que buscam planetas extrasolares. Após orbitar,o meis interessante planeta deste sistema, iniciam a abordagem final o pouso,via módulo.
    Chegando lá, os três astronautas se deparam com civilizações avançadas, e, pasmem, com a mesma deficiência que a nossa, acreditam em Deus, tem Igrejas, cultuam o impoderável em termos de racionalismo.
    E agora José? Com tantas assimetrias, nesse Universo, cheio de mistérios, ao que parece estéril, já que se somente nós preenchemos com vida o cosmo, então a vida é algo muito mais que desprezível neste mundo tão cheio de energias e de muito pouco antimatéria. Qual será o paradoxo então?

  3. J. Fonseca, você não precisa acreditar em algo para examinar uma questão filosófica (um experimento mental, digamos assim).
    Minha solução do paradoxo é que o suposto criador não é onipotente. Imagino que quando os livros religiosos dizem que o criador é onipotente, esta não seria uma afirmação filosófica mas sim pleonástica: tipo quando o corintiano diz que o Curintias é “invencível” !
    Ver: Demiurgo, em http://stoa.usp.br/osame/files/1625

  4. Gabriel-dom disse:

    A moral não é algo universal. o que é moral aqui no ocidente pode ser imoral no oriente. moral nao define o que é certo e o que é errado. a moral é diferente de pessoa para pessoa de familia para familia. O deus cristao criou o homem nu, e mesmo depois do homem perder a inocencia deus nao criou a roupa. o proprio homem criou sua roupa, o proprio homem criou sua moral. o homem detem os direitos autorais sobr eo certo e o errado fazedo certo e errado aquilo que lhe satisfaz e é conveniente. se deus tivesse deixado alguma autorizaçao ou proibiçao ao homem, nunca teria ele deixado através de um unico homem, nao porque o homem é imperfeito, e sim por que o homem cria a situaçao que o coloca a ele e seus semelhantes no conjunto do certo e do errado. sendo assim Deus criou o homem perfeito e lhe deu imaginaçao, e animo. e creio eu que se deus quizesse um homem que fizesse tudo certo, de acordo com a moral e lógica de qualquer ateu, teria ele entao escrito livros. e eu como cristao, nao tive até hoje de ler um livro escrito por deus. ser perfeito nao é fazer tudo certo e sim ter capacidade de propor e seguir o que é certo. o fato de ter a capacidade de escolher o certo já te faz perfeito, escolher ou nao te faz inteligente.

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