Paradoxo de sexta (46)

O de sexta passada, o da Onipotência (na versão de Mackie) suscitou várias pontos interessantes de discussão, mas eu destaco dois que me pareceram os mais pertinentes à questão imediata:
1. Tudo depende de como se define onipotência.
É aí que reside a solução clássica de Tomás de Aquino, que redefine onipotência como a capacidade de fazer tudo que não seja logicamente impossível. Esse resultado parece satisfazer muita gente — o próprio Mackie, que escreveu um calhamaço de argumentos contra a existência de Deus, considerava-o aceitável — mas a mim, pelo menos, ele me parece capcioso, muito parecido com a Falácia do Verdadeiro Escocês (“Nenhum escocês é pedófilo!” “Ei, mas o McCloud foi preso ontem em flagrante com uma menina de oito anos!” “Ah, ninguém que faça uma barbaridade dessas é um verdadeiro escocês no coração!”).
Enfim: se é preciso redefinir um termo para excluir explicitamente os absurdos, isso, a meu ver, só reforça a ideia de que o termo em si é absurdo. Ao definir “quadrado”, por exemplo, não é preciso acrescentar a ressalva de que “esta definição exclui os círculos”.
(Aliás, essa é uma sensação que a maioria dos argumentos teístas me dá, a de que as definições são postas numa câmara de tortura e espancadas, esticadas, amputadas e marcadas a ferro quente até que digam o que o argumentador queria ouvir. A Suma Teológica é bem assim…)
2. O paradoxo fala de um ser onipotente genérico, não em Deus
Essa pode parecer uma distinção irrelevante, mas não é. Na verdade, o paradoxo é muito mais danoso à ideia judaico-critã-islâmica de deus (onipotente, onisciente, onibenevolente, criador do Universo, fonte das obrigações morais, merecedor de adoração, colecionador de prepúcios, adversários dos contraceptivos, coletor de dízimos, recompensador de homens-bomba, etc, etc) do que, digamos, a Zog, a criatura onipotente do Planeta W.
Primeiro, porque ele revela uma incompatibilidade entre um criador onipotente e o livre-arbítrio das criaturas. Mackie tentou contornar isso pressupondo dois tipos de onipotência, sendo a de Tipo I a capacidade infinita de agir, e a de Tipo II, a capacidade infinita de determinar as ações dos outros e as próprias. Ele poderia então, valer-se da onipotência Tipo II para abster-se de exercer controle sobre suas criaturas.
O argumento, no entanto, fica bem convoluto a partir desse ponto, e no fim a coisa acaba gerando inconsistências. De novo.
Outro ponto é que a própria solução de Aquino é insatisfatória, quando aplicada a uma divindade criadora do Universo: bolas, se o cara criou tudo que existe, ele também criou as leis da lógica. Como pode ser limitado por elas? A menos que as leis da lógica sejam anteriores a ele e ele tenha de se submeter a elas. Mas, então, elas (a) seriam mais poderosas que Deus e, (b) teriam de ter sido criadas antes dele. Por quem?
De volta à câmara de tortura…
Bom, vamos ao desta semana. Desta vez não trarei um paradoxo, mas um enigma leve, adaptado do mais recente livro de Ian Stewart:
Suponha que você é um ladrão que invadiu uma casa e achou uma cômoda com seis gavetas. No escuro, começa a esvaziá-las, tentando, pelo tato e pelo feixe estreito de sua lanterna, encontrar algo de valor. De repente ouve um ruído. O dono da casa voltou!
Sendo um ladrão romântico, na tradição cavalheiresca e não-violenta, você prefere fugir a confrontar sua vítima. Rapidamente, antes de voltar à janela, você retorna o conteúdo às gavetas — você havia feito seis pilhas no chão, uma para cada compartimento. Na pressa, no entanto, você simplesmente enfia uma pilha de conteúdo em cada gaveta ao acaso, sem se preocupar em devolver cada uma à origem.
Saltando pela janela no instante em que as luzes se acendem no corredor, você se vê pensando em qual a chance de ter acertado, por pura sorte, a distribuição das pilhas entre as gavetas. E faz a si mesmo a seguinte pergunta: qual a probabilidade de eu ter errado uma gaveta só?
Ajude nosso amigo ladrão a sanar esta dúvida cruel!

Discussão - 4 comentários

  1. Dark Random disse:

    Eu posso estar errado por causa do sono, mas como ele poderia errar apenas 1 gaveta? Estou tentando compreender essa suposição e não vejo sentido à não ser que, no mínimo, tenha errado duas gavetas (ou nenhuma).
    Porque caso ele tenha errado uma gaveta, foi colocando o conteúdo da gaveta X na gaveta Y, porém, a gaveta X não estaria com seu conteúdo, estaria com o conteúdo de outra gaveta, para uma quantidade mínima de erros ela poderia estar com o conteúdo da gaveta Y e assim duas gavetas apenas estariam erradas (trocadas).
    Então, supondo que não é um erro de digitação e eu não estou suficientemente bêbado de sono, a probabilidade é 0% porque isso é logicamente impossível. XD

  2. Pandalari disse:

    na verdade, é impossível eu ter errado uma só gaveta, já que para erra-la eu precisaria do conteúdo de outra gaveta que logo também estaria errada, ou seja, no mínimo duas gavetas estariam erradas, é impossível errar apenas uma.

  3. Prezado Cret,
    Acho que redefinir termos para evitar absurdos é a pratica tradicional em Matemática: Não é capciosa nem ad hoc, é o pão com manteiga das preliminares do trabalho matemático e lógico.
    Acho que isso está explicado em algum livro do Ian Stwart… rs Mas eu sugiro ler Lakatos (não o filosofo da ciencia, mas o filosofo da matematica!)
    PS: Acho que vou iniciar uma campanha no SBB para que se eliminem os pseudonimos, pois dá impressão que quando te chamo de Cretinas, estou te xingando ou desprezando, o que não é o caso, gosto muito doseu blog, é instigante!

  4. cretinas disse:

    Ei, Osame, pode usar o apelido, sim! Se preferir, meu “handle” no google é “Moc”.
    Ah, sim: eu diria que existe uma diferença entre o redefinir dos matemáticos (que mudam o conceito e deixam claro que ele mudou, é outra coisa agora, que a velha já era, tipo teoria ingênua dos conjuntos) e a dos teólogos, que desinflam o conceito — “onipotência exclui o poder de controlar as leis da lógica” — mas continuam a apresentá-lo à plebe como se fosse o mesmo produto fantástico de antes…

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