‘Na cabeça das pessoas’

Muito divertida e interessante a repercussão da frase do nobelista português José Saramago, de que “Deus não existe fora da cabeça das pessoas”. Sem entrar no mérito da declaração (com a qual concordo, aliás), o que me interessa aqui são duas reflexões, uma retórica e uma tática, produzidas pelo dito saramaguiano.
A retórica se refere ao péssimo hábito brasileiro (talvez não seja brasileiro, mas certamente é muito usado por aqui) de confundir jogo de palavras com argumentos. Se eu digo que a impressora que comprei semana passada revelou-se uma “bela merda” e alguém me responde , “bom, pelo menos, é bela”, essa resposta pode até ser é uma boa piada, mas certamente não é uma contestação válida da avaliação que fiz da qualidade do produto.
Esse tipo de reação muitas vezes se reduz ao que a língua inglesa chama de disingenuous, um tipo de hipocrisia na qual a pessoa finge ter entendido menos do que realmente entendeu de uma declaração ou questão.
Coisas assim aparecem, por exemplo, em reações do tipo “mas o amor também só existe na cabeça das pessoas, e o amor é importante”, ou “mas afinal, o que existe fora da cabeça das pessoas?”
Ora bolas: o que o escritor estava dizendo é que Deus é apenas uma ideia, um conceito sem referente no universo externo às ficções da mente humana; algo como Frodo Bolseiro ou Conan o Bárbaro. Espero que isto seja claro o bastante até para o mais disingenuous dos disingenuous.
A segunda reação, tática, é a que vem dos ateus mais blasé, para quem Saramago está apenas fazendo jogada de marketing e “irritando padres”, chovendo no molhado, repetindo notícia velha.
Mas, seria notícia velha, mesmo? Muita gente, incluindo o Senado Federal e a Câmara Municipal de Sorocaba, parecem não a terem recebido.

Discussão - 14 comentários

  1. Caro Cretinas, desculpe parecer desingenuous (meu lado Sheldon!): Mas o amor humano existe fora da cabeça das pessoas, como um fantasminha flutuando por ai? Vc acredita no deus EROS dos gregos como uma entidade supra-humana independente do cerebro humano?
    Então, a frase: existem entidades não materiais (ou seja, informacionais) importantes para a vida humana (por exemplo, para certos teólogos, não é que Deus é Amor mas sim que o Amor (personalizado) é Deus, ou seja, o (Amor + um curto circuito cerebral mistico similar a um fenomeno de apaixonamento) é o que as pessoas descrevem como Deus pessoal (seja Jesus ou Krishna).
    Então, não consigo ver onde a frase está errada. Frodo Balseiro e Conan também são entidades miticas que dão sentido à vida de muitas pessoas, vendem muitos livros, ganham dinheiro para quem as veicula, etc.
    Ataque Frodo Balseiro que você receberá uma flechada de Reinaldo Lopes (usando um arco de Legolas…)
    A idéia de que os Mitos e memes tem vida propria, e não são apenas “ideias na cabeça de pessoas”, mas sim replicantes vivos com relativa autonomia e que influenciam a historia humana é uma ideia defendida por Dawkins, Edgar Morin Peter Berger, Durkhein e outros.
    Pelos seus criterios, dado que Capitu ou Hamlet nunca existiram, deveriamos jogar esses livros na lata do lixo, porque são livros que contém apenas mentiras fatuais não cientificas… É isso o que vc está querendo dizer?Não entendi!

  2. Maico disse:

    http://dn.sapo.pt/inicio/opiniao/jornalismocidadao.aspx?content_id=1400559
    Acusam-no agora de publicitário.
    Dentre muitas outras perguntas, faço uma: aos 87 anos de idade haveria interesse nele em ganhar ainda mais dinheiro, pois prestígio já o tem. Penso que não.

  3. cretinas disse:

    Oi, Osame!
    Não, não, o que eu estava tentando dizer (acho que fiz o post um pouco curto demais para me expressar bem) é que há, digamos, níveis de “existência” (existir como personagem de ficção, existir como uma emoção, existir como um artefato cultural, etc) e que boa parte da crítica à fala de Saramago se deve a uma confusão, altamente, “disingenuous”, entre esses níveis.
    Acho que muitas vezes metáforas ou analogias extremamente úteis (tipo, “memes têm vida própria”) acabam sendo levadas longe demais ou delibedaramente mal interpretadas, e aí dá um trabalhão desembaraçar as coisas. E aí temos de parar tudo e começar a gastar tinta para explicar que a “vida própria” de uma ideia não é a mesma coisa que a “vida própria” de um bacilo, etc
    Minha crítica ao “disingenuous” é essa: ao chamar atenção para a estrutura da metáfora, esse tipo de crítica acaba desviando do que é o assunto central, que é aquilo a que a metáfora se refere. Saramago estava dizendo que Deus não é um agente no mundo independente das pessoas que nele creem, mas uma ideia/sentimento que essas pessoas usam para atuar no mundo. Assim como o amor. Ou o ódio.

  4. maria disse:

    eu concordo com a declaração do saramago e acho ela absolutamente irrelevante para o sentido que ele quer dar a ela.
    e daí que deus só existe na cabeça das pessoas? desde quando isso é pouco? a religiosidade é a dimensão espiritual das pessoas, e é por isso essencial (mais para uns do que para outros). a dimensão espiritual existe dentro de cada um, óbvio.
    se ele queria com isso dar um golpe à la dawkins, a meu ver fracassou.

  5. cretinas disse:

    Oi, Maria! Pode não ser pouco, mas certamente não é suficiente — ao menos, não para o que a maioria dos crentes espera Dele..,

  6. Fazul Abdullah Mohammed disse:

    Deus pode existir apenas na minha cabeça, mas ele fala comigo. Não como esquizofrenia, mas como resposta a perguntas que não tenho respostas porque não leio livros sujos e blasfemos.
    Eu sigo meus instintos naturais, biológicos se preferir, e se estes instintos dizem que devemos expurgar o perigo, assim o fazemos. Esse instinto é Deus, a voz dentro de nos que obedecemos com louvor, ou sofremos as consequências da desobediência.
    Posso citar analogias, metáforas, alegorias, mas creio que é bem óbvio o que significa ignorar nossos instintos básicos de sobrevivência.
    Na falta de um conceito melhor, chamo de Deus, aquele que cuida de nós, e que veneramos e agradecemos por nossa existência.

  7. Tem um neurocientista muito conhecido (publicou na Nature e na Science, acho) que me disse o seguinte:
    Eu era ateu desde a mocidade. Daí, depois de experimentar a Cannabis, meu ateísmo balançou. Mais tarde, depois de experimentar o Santo Daime, hoje tenho um altar para meus orixás em casa.
    Não que os Orixás existam para ele como fantasminhas voando por aí. Eles existem dentro de seu cérebro de neurocientista (ele é adepto das teorias do livro “The Bicameral Mind” do Jaynes.
    Mas para ele, é importante se relacionar existencialmente e vivencialmente bem com seus Orixás, que são memes que vivem dentro dele (ele é o primeiro a reconhecer isso).
    Todo dia de manha ele toca atabaque em homenagem aos Orixás. Reza, faz capoeira linha de Angola etc.
    Acho que a idéia de Dawkins, Berger e Morin é que a vida dos memes é vida sim (com suporte não-DNA, mas tecnicamente vivo e autonomo sim).
    Você leu “A Vida das Ideias” de Edgar Morin? Conhece as teses da “Artificial Life” Forte, onde a Vida é tida como padrão informacional auto-reprodutor (não importa o substtrato material, se biológico ou cerebral ou informático?)
    Vale a pena dar uma olhada…
    PS: Cret, vc é biólogo? Me sinto desconfortável em te chamar de “Cretinas”, como vc assina. Acho que o SBB deveria banir os pseudonimos, afinal somo divulgadores sérios de ciencia que não estão brincando aqui de gato e rato… risos

  8. cretinas disse:

    Oi, Osame! Acho que vc poderia dizer que sou “palpitologo”. Quanto ao blog anônimo, ele é útil nem tanto por causa dos colegas/comentadores, mas para evitar “vazamentos” entre ele e minhas outras atividades…
    Voltando à questão deus/vida/meme, eu insisto que é preciso cuidado para destacar quando as palavras mudam de sentido no meio do discurso — por exemplo, não tomar a constatação de que a palavra “deus” pode ser usada para se referir a um meme que ajuda a satisfazer certas necessidades psicológicas, emocionais, sociais, etc, como argumento a favor da existência de outra coisa que atende pelo mesmo nome..,

  9. Caro “Cretinas”,
    “Deus não existe fora da cabeça das pessoas”? Então, ele é algo como a doença de Fulci-Romero (http://www.iamanangelchaser.com/writings/fiction_science/the_case_for_prions.pdf)? “More brains!”
    Um abraço!

  10. Tene Cheba. disse:

    É pecado acreditar em Deus, mas, ao contrário, acreditar que um asteróide, ou, vários, eliminou todos os dinossauros da Terra,de uma vez só, aí não, né?. Famoso cientista afirmou que a vida artificial, é muito dificil, em laboratório, claro. Dificil!? Impossível. Para se produzir vida, só com vida, afirmo. Como a ameba se replicou? Não sei. Mas as incertezas, desde o elétrom até a matéria escura, transformam tudo em um monótono circulo.
    Afinal, Deus não existe, 6 bilhões de produtores de Deus.
    Muita deficiência e, uma esquisita razão.

  11. Felicia disse:

    @Tene Cheba, quem frequenta aulas de biologia sabe como amebas realizam fitose, quem estuda biologia molecular sabe com o quê, e quem estuda genética também. Quem não estuda fica por aí, cacarejando.

  12. Tene Cheba disse:

    Na disciplina de Ergonomia,o professor, seguindo a ementa da matéria falava sobre o maravilhoso ouvido, o requinte da sofisticada natureza, capaz de distinguir as ondas, frequências sem ruídos, o perfeito receptor.
    Jamais gostei de biologia, muito menos de fitose, não se pode calcular a vida, nem ao menos inferir, interpolar, extrapolar, ou, mesmo, deduzir, mas, viva a seleção. Brasiiiiil!!!
    Ignorante, carcarejo. Elétron, em tempo.
    Os ossos e seus estranhos momentos fletores.
    Mas, chutando, vamos levando

  13. Tene Cheba. disse:

    Algunsdos atuais enigmas, talvez, nunca serão resolvidos ou decifrados.Para mim, o maior deles trata-se da extinção dos dinossauros. As teorias não fecham, ocorrendo entre as que se apresentam mais plausíveis, um enorme buraco empírico.
    Foi recentemente apresentada a hipótese de que o vulcanismo, tenha sido o algoz dos frágeis gigantes que dominavam a Terra. O Asteróide assassino, pelo que leio não foi o grande vilão.
    Bom, 300 mil anos de sufoco atmosférico devido a atividades sísmicas intensas e constantes. Estranho, que trezentos mil anos, a adaptabilidade dos seres, ou, adequação ao meio, segundo a teoria da evolução, é possível. Porém o que ocorreu foi a gradativa extinção de enormes variedades de seres vivos. Mas, essa não é minha praia.

  14. Eduardo disse:

    Más ao que se refere a palavra/ruido D’us ??? …
    Deus = Fonte criadora de uma determinada existência.
    Logo… Tudo que se encontra fora da cabeça das pessoas, ou seja, o universo externo poderia ser considerado ciêntificamente falando como: Fonte de existencia ??
    A final, já imaginou você existir sem o ambiente ao seu redor.
    Universo externo ou D’us ???
    O Ambiente Externo é a fonte de existência para toda criatura que nele reside, tão logo o ele é D’us ??
    digamos que um semi-deus??
    pois quem criou o ambiente ??
    quem criou o universo externo …
    Tudo que existe precisa de um ambiente/area/local para existir …

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