Como o Congresso é parecido com uma pilha de areia

O que decisões tomadas por parlamentares numa casa legislativa têm em comum com avalanches numa pilha de areia? Ambas seguem o mesmo tipo de gráfico, chamado “Escadaria do Diabo”, no qual longos patamares de inação de repente dão lugar a grandes saltos (de areia caindo, ou de deputados aderindo em massa a uma nova ideia).
A modelagem foi feita por dois caras da UCLA.
O problema das pilhas de areia é um velho conhecido de quem se interessa por questões como criticalidade, propriedades emergentes, caos e coisas assim: conforme se derrama mais areia sobre o topo da pilha, ela em princípio cresce, ate que se chega a um ponto crítico, no qual ocorre uma avalanche, o que reequilibra as forças e permite que a pilha volte a crescer… mas a partir de um patamar inferior.
No caso de uma casa legislativa (o modelo usado pelo povo da UCLA foi, obviamente, o Congresso americano), os grãos de areia, bem como as forças que atuam sobre os eles (atrito, gravidade) foram substituídos por unidades de pressão política.
Uma “avalanche” seria a decisão de um grupo de deputados de passar a apoiar uma determinada peça legislativa, o que levaria a uma redução momentânea dessa pressão.
No modelo, os “grãos” de pressão têm duas fontes: os colegas congressistas e os eleitores. Uma diferença básica entre a pilha de pressão política e a pilha de areia é que um deputado não pode “entrar na avalanche” (isto é, passar a apoiar a proposta) mais de uma vez, enquanto que um mesmo grão de areia podem se envolver em inúmeras avalanches.
O modelo gerou um gráfico de apoio ao longo do tempo muito parecido com o que descreve o número de assinaturas dadas a uma proposta real (HR 1207, pedindo uma auditoria no Banco Central americano, o Fed). E produziu duas peculiaridades em que as pessoas deveriam pensar, principalmente neste ano eleitoral:
Todos os deputados são iguais: O modelo funciona sem que seja preciso dar pesos diferentes a cada deputado — na hora da avalanche, tanto faz se o cara é líder de bancada ou baixo clero.
Alguém poderia imaginar, diz o paper, que os degraus mais altos na escadaria são causados pela adesão de um congressista muito influente, que traz consigo muitos novos apoiadores, que ele influenciou. Em nosso modelo, os degraus altos são resultado da evolução do Congresso para uma espécie de estado crítico, onde qualquer congressista pode desencadear uma avalanche de apoios.
A pressão popular é um fator decisivo: Diz o texto: Nem todas as resoluções apresentadas ao Congresso obtêm o mesmo nível de apoio. A diferença entre resoluções entra em nosso modelo por meio do parâmetro de pressão pública, lambda. Se for próximo de zero, a resolução não obterá apoio considerável num tempo razoável.
Os autores reconhecem que ainda falta modelar outro tipo de força — por exemplo, a desaprovação popular da medida.
Ainda assim, são resultados curiosos e que tiram um pouco do gás dos velhos mitos dos caciques políticos que resolvem tudo na base do conchavo e do descolamento entre parlamento e população (que talvez só exista quando o eleitorado se omite).
Como os estudos estatísticos que provaram que não existe “mão quente” no basquete, e que foram duramente contestados por técnicos, fãs e jogadores, o resultado da UCLA poderá chocar muitos especialistas em política — de políticos profissionais a analistas e jornalistas. E, claro, não há garantias de que um modelo que funcionou bem em um único caso possa ser generalizado.
Mas uma visão da política que dá menos ênfase (e poder) aos caciques e põe mais peso (e responsabilidade) nos ombros do eleitor merece ser explorada. Ainda que, talvez, só como teoria.

Discussão - 3 comentários

  1. Karl disse:

    Muito interessante! Pô, bota uma medaglia (research blogging) nesse post! Abs

  2. Raíssa Stancatte disse:

    Ideia não tem mais acento
    me add no msn pra gente coversa

  3. cretinas disse:

    Eu sei que não, mas refazer o banner dá muito trampo…

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