Privatizando o acesso à órbita terrestre

Se todo o material que andou vazando para a imprensa nos últimos dias se confirmar hoje, durante a apresentação oficial do orçamento federal americano para o ano fiscal de 2011, o presidente Barack Obama estará declarando oficialmente morto o Programa Constellation — a iniciativa para construir bases na Lua e enviar astronautas a Marte ainda na primeira metade deste século — e criando incentivos para que empresas privadas assumam de vez a tarefa de levar astronautas até a órbita baixa da Terra (LEO, no jargão espacial).
O Constellation, proposto pelo presidente George W. Bush em 2004, morre do mesmo problema que já havia dado cabo da Iniciativa de Exploração Espacial proposta nos anos 90 pelo Bush Pai, e que previa a conquista de Marte: falta de dinheiro. Virou hábito, nas últimas décadas, presidentes dos EUA anunciarem grandes planos de exploração do espaço e depois esquecerem-se deles a hora de fazer o orçamento.
Nesse aspecto, seria injusto acusar Obama pela morte do Constellation: ele simplesmente é o coveiro da criança que morreu de inanição durante o governo Bush. Isso tudo me deixa meio puto, já que indica que provavelmente vou morrer antes que um ser humano volte a pôr os pés em outro corpo celeste. Ou será que não?
A ideia de que a Nasa está “atolada” em LEO e que deveria estar cuidando de projetos mais grandiosos em vez de ficar levando astronautas para passear num Big Brother em gravidade zero na ionosfera parece ser a base da proposta de privatizar o acesso à órbita baixa. No entanto, sem o Constellation, que porra de “projetos mais grandiosos” sobra?
Ao que tudo indica, Obama parece ter decidido seguir o chamado “caminho flexível” proposto por um comitê que analisou o programa espacial americano no ano passado. Esse “caminho” propõe visitas a asteroides e às luas de Marte — destinos de baixa gravidade, da onde seria fácil decolar para voltar à Terra. A visita a um asteroide ainda teria a vantagem de testar e demonstrar técnicas de pouso nesse tipo de astro, coisa que um dia talvez tenhamos de fazer por questões de autopreservação.
O “caminho flexível”, no entanto, embute duas armadilhas, uma prática e uma psicológica. A prática é que ele pode ser reduzir a um programa de “pegadas e bandeiras”, no qual os astronautas vão ao destino “X” apenas para sair na foto, mais ou menos como foi o Programa Apollo. Missões tipo “pegadas e bandeiras” não criam um programa sustentável de exploração, elas se esgotam em si mesmas (de novo, como o Apollo).
A psicológica é que ele talvez seja flexível demais. Quando a Nasa pôs homens da Lua, ela tinha (1) uma missão claramente definida e (2) um prazo para executá-la. Já o caminho flexível não oferece, em princípio, nem uma coisa nem outra. O que é uma ótima receita para ir parar no limbo.

Discussão - 1 comentário

  1. Neilton disse:

    Apesar de não ser um fã da exploração espacial, vejo um enorme prejuízo, principalmente para a ciência a não execução deste projeto. É desanimador ver um país como dizem “ponta em tecnologia” detonar as reservas em armamento, guerras e outras besteiras, e esquecer todo resto.
    Tudo bem, que com a tecnologia atual, exigiria muito, muito dinheiro mesmo para a construção de uma base lunar, e talvez até virasse uma legitima obra pública brasileira (defasada depois de finalizada, rsrsrs). Quanto enviar astronautas a Marte (antes de um bom tempo numa base na lua), é uma verdadeira missão “pegadas e bandeira”, a meu ver não seria feito nada que uns robos não façam, (=) desperdicio de dinheiro.

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