Arquivo di√°rios:2 de maio de 2017

Cobras, sombra e √°gua fresca. Enfim, campo!

Uma das maiores vantagens ou alegrias da carreira de paleont√≥logo √©, em minha opini√£o, poder realizar trabalhos de campo. Como bi√≥loga, eu poderia ter escolhido uma √°rea de trabalho que se restringisse ao laborat√≥rio, ou somente √† sala de aula. Mas escolhi atuar em algo que tem tudo isso e um plus: o campo. Mas, o que vem a ser uma sa√≠da a campo, TC (trabalho de campo), CC (campanha de campo), ou simplesmente ‚Äúcampo‚ÄĚ?

√Č sim poss√≠vel que na sua mente, neste momento, a imagem de Indiana Jones se forme e que voc√™, mesmo que por um instante, acredite que todos os campos em paleontologia sejam sempre realizados em locais remotos, com cobras e muitas armadilhas. Bem, as cobras sempre est√£o l√°. Junto com escorpi√Ķes, vespas e aranhas, elas adoram os pared√Ķes em que a gente trabalha. Mas n√£o √© necess√°rio ir a locais remotos para encontrar f√≥sseis. Eu mesma realizei as coletas da minha p√≥s-gradua√ß√£o num afloramento de rocha √† beira de uma estrada, muito pr√≥xima a uma cidade. Era s√≥ parar no acostamento e trabalhar.

Como já passamos da época de estabelecimento das diversas áreas científicas, processo que ocorreu por volta da transição entre os séc. XVIII e XIX, em que pouco se sabia e as áreas científicas (inclusive a geologia e paleontologia) estavam sendo delimitadas, atualmente os trabalhos de campo não são mais (em geral) tão desbravadores assim. Já temos todo um mapeamento geológico do território brasileiro, e com isso temos uma boa ideia da distribuição das rochas e de suas idades. Assim, antes de irmos a campo, olhamos o mapa e vemos onde estão as rochas que queremos procurar e que devem conter os fósseis da idade que estudamos.

Afloramento aberto pela construção de uma estrada, MT

O segundo passo nesta hist√≥ria √© encontrar locais onde estas rochas afloram, ou seja, lugares em que elas est√£o dispon√≠veis em superf√≠cie. Caso elas estiverem somente em subsuperf√≠cie, n√£o teremos como acess√°-las t√£o facilmente. Uma forma de acessar estas rochas ainda ‚Äúescondidas‚ÄĚ √© com a obten√ß√£o de testemunhos de sondagens, muito √ļteis para os paleont√≥logos que trabalham com microf√≥sseis. Como os testemunhos tem um volume de rocha pequeno, a maior quantidade de f√≥sseis que eles podem carregar tem que ser de tamanhos muito pequenos, certo? No entanto, como eu trabalho com organismos macrosc√≥picos (de tamanhos que variam de mm a cm), eu trabalho com rochas que aflorem na superf√≠cie terrestre.

E como fazemos para encontrar tais afloramentos rochosos? Com o mapa em m√£os, sabendo onde as rochas escolhidas podem ocorrer, procuramos por locais onde naturalmente elas podem estar expostas, como pared√Ķes de cachoeiras, margens de rios, c√Ęnions, encostas. Existem outros processos que podem expor estas rochas, e s√£o antr√≥picos: margens de estradas e ferrovias, minas, ou grandes obras que necessitem escava√ß√Ķes, como as lavras, por exemplo.

Afloramento de rochas do Ordoviciano, em Goi√°s

Encontradas as rochas, o nosso trabalho √°rduo come√ßa. Todo o afloramento √© medido e descrito detalhadamente, estrato a estrato. Devemos delimitar o espa√ßo e tempo de trabalho, para fins comparativos. E, enfim, podemos come√ßar a quebrar as rochas com nossos martelos, a fim de procurar os f√≥sseis. Cada f√≥ssil encontrado tem sua posi√ß√£o registrada e recebe um n√ļmero ainda em campo. Depois da coleta, o material √© levado ao laborat√≥rio e uma nova etapa de an√°lise se inicia.

Lembro-me da primeira vez que encontrei um f√≥ssil, ainda na gradua√ß√£o. A sensa√ß√£o de encontrar um resto de um organismo que morreu h√° cerca de 400 milh√Ķes de anos, quase que completamente ao acaso (no sentido de que se eu n√£o tivesse escolhido aquele ponto, mas outro, eu n√£o teria tido sucesso; ou ainda: que se tivesse batido com o martelo de outro jeito, poderia ter estragado ou sequer percebido que aquele f√≥ssil estava ali) foi perturbadora. Pense bem: n√£o h√° como escolher o melhor lugar para se encontrar algo escondido entre as rochas. √Č um lance de sorte. Uma daquelas coisas que nos faz sentir pequenos frente √† vastid√£o da hist√≥ria geol√≥gica e biol√≥gica da Terra, mas que tamb√©m nos faz sentir como parte de algo imenso e maravilhoso. Poder conhecer um pouco do que foi a vida num passado t√£o distante √© sim uma grande aventura, e um privil√©gio.