Arquivo di√°rios:31 de maio de 2017

Coincid√™ncias (milagres??) paleontol√≥gicos: as preserva√ß√Ķes excepcionais

Qual a probabilidade de você conversar com alguém sobre algo que você não sabe muito bem e, no dia seguinte, abrir um livro e encontrar exatamente aquele assunto? Ou então, de você ir a um sebo e encontrar à venda um livro que um parente distante seu havia adquirido há anos atrás? Talvez estes pequenos exemplos não sejam reconhecidos como milagres. Na verdade, eu prefiro pensar em coincidência mesmo. Mas de uma probabilidade infinitesimalmente pequena.

Eu já falei em posts anteriores que o processo de preservação e também o da descoberta de um fóssil é um evento raro. Mas tem alguns casos que são surpreendentes, e é sobre um deles que vou escrever hoje; envolve a descoberta de um nodossauro de 110 M.a. na região de Alberta, Canadá.

Localização da cidade onde uma descoberta incrível ocorreu.

A hist√≥ria, que foi divulgada em v√°rios sites, conta que um operador de m√°quinas de uma mina em Fort McMurray, trabalhava na retirada das rochas arenosas impregnadas com √≥leo (trabalho este que exercia h√° 12 anos pelo menos), quando se deparou com algo distinto, muito mais duro que as rochas do entorno. Em seu cotidiano de trabalho era comum encontrar troncos petrificados, mas nunca havia se deparado com um… resto de dinossauro. Resto de dinossauro! E a hist√≥ria n√£o termina por a√≠. N√£o era apenas um conjunto de ossos de dinossauro, como a maioria dos registros de vertebrados que ouvimos falar…

O animal completo (isto √©, todas as suas partes) deveria estar contido naquela rocha, e isso, por si s√≥ j√° √© raro no registro. Mas o mais incr√≠vel desta hist√≥ria √© que n√£o s√£o somente os ossos que ficaram preservados. As impress√Ķes da pele, escamas, osteodermas, ossos, e, possivelmente, at√© sua √ļltima refei√ß√£o, est√£o ali! E ainda: sua forma original est√° mantida, ele n√£o est√° intensamente deformado e achatado.

Apesar de ter sido encontrado em 2011, at√© hoje os estudos com o esp√©cime continuam. Durante a retirada do f√≥ssil do local em que foi encontrado, somente se conseguiu resgatar a sua por√ß√£o mais frontal, do focinho at√© o quadril, e um outro bloco, com a cauda. Foram necess√°rias cerca de 7.000 horas de trabalho em laborat√≥rio para preparar o cr√Ęnio e a cauda para estudo. Esta prepara√ß√£o consiste basicamente na¬†retirada de rocha do entorno do f√≥ssil. O torso do animal ainda est√° em prepara√ß√£o. O bloco que o cont√©m pesa cerca de 15 toneladas. Hoje ele est√° depositado na cole√ß√£o do Museu Real de Ont√°rio (ROM). Seu nome cient√≠fico √© Zuul crurivastator.

Este é o fóssil mais bem preservado de nodossauro  já descoberto. Este é Zuul crurivastator. Foto da National Geographic

Todo o contexto geológico em que ele foi encontrado é também muito interessante. O animal que, em vida, era terrestre e herbívoro, foi encontrado em sedimentos que registram o fundo de um antigo mar. Acredita-se que seu corpo tenha sido carregado, inflado, boiando e em decomposição parcial, por um rio, e quando a carcaça liberou seus gases internos (produtos da decomposição), ela já estava em mar aberto, onde mergulhou para as profundezas, foi soterrada, e ali permaneceu para ser encontrada em 2011.

Zuul, um monstro do filme Caça-fantasmas

De acordo com o Museu Real de Ont√°rio os nodosauros s√£o dinos pertencentes √† infraordem Ankylosauria e eram vertebrados terrestres com 4 patas, corpos achatados, longos e recobertos por uma armadura √≥ssea. Sua cauda apresentava espinhos, e, por vezes, uma clava em sua extremidade. Quando em vida devia chegar aos 6 metros de comprimento e pesar cerca de 2,5 toneladas. Foi o fato de apresentar narinas largas e 4 chifres no cr√Ęnio (atr√°s e embaixo dos olhos), que levou √† classifica√ß√£o em um novo g√™nero, o Zuul. Este nome, ali√°s, remete a um monstro do filme dos Ca√ßa-fantasmas! H√°! N√£o posso deixar de fazer refer√™ncia a um post anterior do blog (este aqui). J√° falamos que √© poss√≠vel que restos de f√≥sseis de grandes tamanhos tenham dado origem √†s lendas dos drag√Ķes, n√£o √© mesmo? Vejam, no caso de Zuul, o monstro do filme, isto √©, a cria√ß√£o humana para uma hist√≥ria de fic√ß√£o cient√≠fica, √© anterior √† pr√≥pria descoberta do f√≥ssil. Como pessoas influenciadas pelo seu contexto hist√≥rico e social, os cientistas envolvidos na taxonomia do f√≥ssil de Alberta homenagearam a fic√ß√£o! N√£o √© legal?

Vocês acham eles parecidos? à esquerda a reconstrução artística do fóssil Zuul, à direita, Zuul, do filme Caça-fantasmas. Fonte: The guardian.

 

Veja a publicação científica desta descoberta aqui.

Você pode ver as imagens e a matéria que inspirou este post abaixo:

http://www.nationalgeographic.com/magazine/2017/06/dinosaur-nodosaur-fossil-discovery/

https://www.scientificamerican.com/article/new-dinosaur-resembles-ghostbusters-monster-zuul/

 

Fonte das imagens:

https://www.theguardian.com/science/2017/may/10/meet-zuul-destroyer-of-shins-the-75m-year-old-ghostbuster-dinosaur

http://www.nationalgeographic.com/magazine/2017/06/dinosaur-nodosaur-fossil-discovery/