ARANHAS, ESCORPIÕES, BARATAS PRÓXIMOS DO INFINITO E TAMBÉM DE UMA CHINELADA!

Existem informações que escutamos numa palestra e nunca mais esquecemos. Um tempo atrás estava eu participando do Congresso de Paleontologia, assistindo as exposições orais, e entre elas uma me chamou particularmente a atenção. Se tratava da apresentação de um colega paleontólogo que estuda fósseis de insetos e ele falou que se nós víssemos uma barata do Carbonífero andando por aí agora …teria chinelada na hora…ou seja, elas eram muito semelhantes as atuais e com certeza ainda existirão por um longo tempo. Quando pensamos em fósseis, não imaginamos nem de longe a diversidade deles, na verdade até se poderia falar que os dinossauros são a ponta do iceberg, e com certeza, existiam muitas baratas e outros insetos, além de aranhas e escorpiões, durante o tempo dos dinossauros.

Exemplares de Trigonotarbida do Devoniano silicificados, Rhynie Chert, Escossia, UK

Os primeiros animais a pisar fora d’água, há uns 420 Ma, foram parentes próximos dos escorpiões e aranhas. Os mais antigos registros desses primeiros habitantes do continente foram os Trigonotarbida, similares com aracnídeos, mas de uma ordem hoje desaparecida. O que permitiu a esses ancestrais dos escorpiões e aranhas sobrevir no meio seco foi o fato de terem apêndices motores (“pernas”) e de poderem respirar oxigênio diretamente da atmosfera, duas características ou pré-adaptações fundamentais para sobreviver fora da água… A partir desse momento começou a se diversificar o enorme grupo dos insetos, que hoje representa o grupo mais exitoso dos animais do planeta Terra, com uma diversidade “próxima do infinito”. Já no Carbonífero, uns 50 milhões de anos depois, os registros fósseis mostram que os insetos foram maiores em tamanho do que os de hoje em dia (como as libélulas e baratas). São conhecidos, por exemplo, fósseis de libélulas de 50 cm e baratas, bom… dá para imaginar …. Mas por que será que eram tão grandes naquela época? Uma coisa que se sabe é que durante o Carbonífero a atmosfera continha muito mais oxigênio do que hoje em dia. Para explicar como uma maior quantidade de O2 influenciou o tamanho dos insetos, há duas hipóteses: uma diz que com mais oxigênio o metabolismo dos insetos poderia suprir corpos maiores; e a outra, que seria uma defesa da fase larval contra o possível envenenamento por excesso de oxigênio. Baratas com mais de 100 exemplares coletados, denominadas como Anthracoblattina mendesi Pinto & Sedor, foram recentemente encontradas no município de Mafra, Estado de Santa Catarina, em camadas de rochas do Grupo Itararé (Permiano). Baratas semelhantes a estas também foram comuns na América do Norte no mesmo período.

Reprodução 3D de um Trigobotarbida devoniano coletado no Rhynie Chert, Escossia, UK . Barra de Escala = 1cm

Embora no Carbonífero existam registros diferentes de insetos voadores, esses ainda não conseguiam dobrar as assas como as borboletas e pernilongos, que vieram a surgir posteriormente, durante a Era Mesozoica.

Enfim, o registro fóssil de insetos é muito rico e variado. Inclusive sabemos do enorme número deles não só por seus fósseis corporais e ecdises (trocas do exoesqueleto, conhecido popularmente como “muda”) se não também por seus icnofósseis, como mordidas em folhas, galhas, minas, fezes etc. muitas vezes observadas em folhas, frutos e troncos. No Brasil, um dos locais com uma enorme quantidade de registros de insetos é a Chapada do Araripe, que fica nos estados do Ceará, Pernambuco e Piauí, onde existem fosseis de abelhas, moscas etc. além dos muito conhecidos fósseis de vertebrados e plantas que datam de mais ou menos 110 milhões de anos atrás, no período conhecido como Cretáceo. Construções associadas com insetos sociais já foram descritas para o estado de Minas Gerais, em solos fósseis (ou paleossolos) da Formação Marília, com idade entre 100 e 72 milhões de anos atrás. Pertinho de Campinas, na Bacia de Taubaté (datada de aproximadamente 50 milhões de anos atrás) também podem ser encontrados fósseis de insetos, mas desta vez, apenas dos vestígios (icnofósseis) que eles deixaram em folhas de angiospermas, e como tem muitos icnofósseis mesmo, essas folhas deviam ser muito gostosas! No Estado de Minas Gerais, na bacia de Fonseca, que tem idade semelhante à da Bacia Taubaté, foram registrados mais de 48 espécimes de insetos das ordens Hemíptera, Coleóptera, Díptera, Hymenóptera, Isóptera, entre outros, que demostram a riqueza de insetos que habitavam a região naquela época.

Outra forma de preservação de insetos dependendo, é claro, do seu tamanho, é no âmbar. Eu já vi abelhas, pernilongos, borboletas e outros insetos mumificados até com as asas abertas dentro de âmbar, dando a impressão de que a qualquer momento bateriam as asas.

Voltando aos escorpiões, os mais antigos que se conhecem datam de 435 Milhões de anos atrás, e já eram bastante assustadores com a sua cauda característica terminada em ferrão. Agora, chinelos fósseis ainda não foram encontrados… logo podemos deduzir que os dinossauros não conseguiam se livrar facilmente das baratas e outros insetos que voavam ao seu redor.

 

Referências para consulta

Nascimento, D.L.; Batezelli, A.; Ladeira, F.S.B. 2017. First record of lobed trace fossils in Brazil’s Upper Cretaceous paleosols: Rhizoliths or evidence of insects and their social behavior? JOURNAL OF SOUTH AMERICAN EARTH SCIENCES, v. 79, p. 364-376.

Ricetti, J. H. Z.; Schneider,  J.W.; Iannuzzi, .R.;  Weinschütz, L.C. 2016. Anthracoblattina mendesi Pinto et Sedor (blattodea, phyloblattidae): the most completely preserved South American Palaeozoic Cockroach I.  Rev. bras. paleontol. 19(2):181-194. doi: 10.4072/rbp.2016.2.03

Raoni de Castro Barbosa. 2010. Tafonomia dos Insetos Fósseis da Bacia de Fonseca, Eoceno Paleógeno de Minas Gerais. Trabalho de Conclusão de Curso. (Graduação em Ciências biológicas) – Universidade Estadual da Paraíba. Orientador: Prof. Dr. Marcio Mendes.

Sobre Fresia Soledad Ricardi Torres Branco

Possui graduação em Geografia - Facultad de Ciencias Forestales, Escuela de Geográfia (1988), mestrado em Geociências (Geologia Sedimentar) pela Universidade de São Paulo (1994), doutorado em Geociências (Geologia Sedimentar) pela Universidade de São Paulo (1998), pós-doutorado no Laboratório de Geofísica Aplicada, I. Geociências, Universidade de Brasília (2008) e Livre Docência em 2013. Atualmente é professor associado do Instituto de Geociências, Universidade Estadual de Campinas. Tem experiência na área de Geociências, desenvolve pesquisas em Tafonomia de vegetais, floras fanerozoicas da América do Sul, novas metodologias para analises paleontológicas e bioclastos associados a carbonatos.

1 pensou em “ARANHAS, ESCORPIÕES, BARATAS PRÓXIMOS DO INFINITO E TAMBÉM DE UMA CHINELADA!

  1. acho que os primeiros registros de chineladas foram registrados somente no final do Holoceno (Ou, se preferir, Antropoceno)

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