Arquivo di√°rios:10 de abril de 2018

Cole√ß√Ķes de F√≥sseis de A a Z (de Aldrovandi √† Zabini)

Quem nunca trouxe para casa uma pedra bonita no bolso que atire a primeira pedra.

Museu do Palazzo Poggi, Bolonha, mostrando a coleção de História Natural montada por Ulisse Aldrovandi

O h√°bito de ‚Äúcatar pedrinhas‚ÄĚ √© t√£o antigo quanto a humanidade. Nossos ancestrais adoravam carregar pedras bonitas que encontravam pelos motivos os mais diversos: por que era bonita, por que tinha uma forma familiar, por que tinha uma forma estranha…o fato √© que as pedras nos atraem.

Entretanto, se as “pedrinhas” tiverem um formato conhecido, parecendo um animal ou planta, melhor ainda. Desta forma, ficamos ainda mas fascinados por elas. Ficamos olhando, sentindo na m√£o suas texturas, seus formatos, vendo seus brilhos conforme as olhamos contra a luz. Por vezes, levamos a rocha ou o mineral ou o f√≥ssil para o quarto, colocamos na prateleira. Ao acordar, olhamos novamente fascinados. No entanto, isso n√£o vai ficar por a√≠.

Uma nova coleção tem início.

As cole√ß√Ķes de f√≥sseis

Com o tempo, o h√°bito de colecionar estes objetos fascinantes foi se tornando cada vez mais sofisticado. Por outro lado, as cole√ß√Ķes foram ficando cada vez maiores e mais volumosas. N√£o cabiam mais em simples gavetas e prateleiras. Ao final do s√©culo XVI o s√°bio italiano Ulisse Aldrovandi (1522-1605) foi o curador de uma destas grandes cole√ß√Ķes, que ent√£o envolviam esp√©cies animais, vegetais e minerais.

o Filosofo Natural Ulisse Aldrovandi (1522-1605), o criador da palavra Geologia e um dos maiores S√°bios de seu tempo.

Em s√≠ntese, Aldrovandi tinha uma grande cole√ß√£o de Historia Natural. Tinha animais, vegetais e “o reino mineral”, envolvendo o que hoje chamamos de rochas, minerais e f√≥sseis. As gavetas nas quais guardava os esp√©cimes n√£o eram como hoje, separados por tipos de rochas, por minerais e por f√≥sseis. Era tudo misturado, mesmo porque n√£o se tinham claros¬†os processos pelos quais uma rocha se formava.

Naquele tempo, tais cole√ß√Ķes eram chamadas de “cole√ß√Ķes de f√≥sseis”. O conceito de f√≥ssil durante o Renascimento era muito diferente do conceito moderno, conforme j√° tratamos aqui. A palavra f√≥ssil vem do latim ‚Äúfodere‚ÄĚ, que significa escavar. F√≥ssil era tudo que pud√©ssemos escavar, retirar da terra. Tudo que era retirado da terra era f√≥ssil. Solo, pedra, mineral, rocha, f√≥ssil (no sentido moderno).

O Museum Mettalicum

Assim, Aldrovandi publicou um cat√°logo de sua exposi√ß√£o de f√≥sseis. O catalogo era t√£o imenso, o “Museum Metallicum” (folheie suas p√°ginas aqui), que s√≥ foi terminado muitos anos depois da morte de Aldrovandi, em 1648, por seu disc√≠pulo Batholomeu Ambrosinus. Nele, Aldrovandi e Ambrosinus mandaram fazer xilogravuras detalhadas, mostrando as esp√©cies de sua cole√ß√£o.

Frontispício do grande catalogo Museum Metalicum, elaborado por Ulisse Aldrovandi e seu discípulo Ambrosinus.

Em primeiro lugar, atrav√©s de seu estudo, podemos ter uma ideia da concep√ß√£o de mundo de Aldrovandi. Por outro lado, os crit√©rios utilizados na sua cole√ß√£o baseavam-se, como os de hoje, na vis√£o de mundo do colecionador. Para n√≥s, alguns destes crit√©rios podem parecer estranhos ou mesmo n√£o-cient√≠ficos. No entanto, sabemos que Aldrovandi, se n√£o era um moderno cientista – essa palavra s√≥ foi inventada dois s√©culos depois, no s√©culo XIX ‚Äď era um s√°bio, um Fil√≥sofo Natural dos mais importantes.

Aldrovandi e a Geologia

Foi Aldrovandi, inclusive, quem inventou a palavra ‚Äúgeologia‚ÄĚ, num livro que publicou em 1603. Em sua defini√ß√£o, geologia seria o estudo de objetos aflorantes e enterrados‚Äď os f√≥sseis. O uso mais recente da palavra geologia, pr√≥ximo do que utilizamos hoje, foi utilizada a partir do final do seculo XVIII.

Em s√≠ntese, o conceito de rochas e minerais mudou. Minerais s√£o subst√Ęncias org√Ęnicas ou inorg√Ęnicas naturais, com composi√ß√£o qu√≠mica definida e propriedades f√≠sicas que refletem a sua estrutura interna. Desta forma, um cristal de halita (sal gema ou sal de cozinha) tem as mesmas propriedades que as mol√©culas de NaCl. Por outro lado, rochas s√£o definidas como agregados de minerais.

Cristais de Halita, ou sal gema, ou sal de cozinha. Os cristais refletem a estruturação das moléculas de NaCl presentes em sua composição.

F√≥sseis, no sentido moderno, s√£o restos ou marcas¬† de organismos preservados por in√ļmeros processos de litifica√ß√£o. Alguns processos foram discutidos aqui no blog, tanto pela professora Fr√©sia quanto pela professora Carolina. para uma discuss√£o mais abrangente veja aqui.

Dinossauros no IG?

Nesta semana abriu uma exposi√ß√£o sobre dinossauros no Instituto de Geoci√™ncias da Unicamp. Chama-se ‚ÄúDinossauros (?) no IG‚ÄĚ e vai at√© setembro no sagu√£o principal de nosso novo pr√©dio, na rua Carlos Gomes, 250, no campus de Bar√£o Geraldo em Campinas.

A exposição tem a Curadoria da professora Carolina Zabini, nossa companheira de blog. Carolina, que é bióloga de formação e paleontóloga de carreira e coração e blogueira nas horas vagas(!), montou uma exposição muito interessante, que discute vários aspectos destes ainda estranhos monstros.

Detalhe da Exposição Dinossauros no IG, montada por Carolina Zabini

Desta forma, com uma linguagem ágil e muitas caricaturas engraçadas, feitas de maneira competente pelo Claudinei Fernandes de Oliveira, ela aborda diversos aspectos dos dinossauros: seus hábitos, seus diferentes tipos, as suas linhagens evolutivas. Tudo isso é contado pelas caricaturas e por miniaturas muito realistas e bem-feitas, construídas pelo prof. Luiz Anelli, do IG-USP.

Os Dinossauros no espelho humano

Por fim, uma das partes mais interessantes, ao menos para mim, é a parte em que são apresentadas miniaturas de dinossauros mais antigas (!), feitas nos anos 60. Elas mostram seres reptilianos grotescos e bizarros, como quando eu era menino aprendi que eram os grandes dinossauros . Contudo, de lá para cá, aprendemos também que eles podiam ser coloridos, e que muitos deles usavam penas!

Sim, nossa concep√ß√£o de dinossauros muda conforme nossa vis√£o deles, que muda com os avan√ßos da ci√™ncia. Da mesma forma,¬† muda tamb√©m com nossa vis√£o de n√≥s mesmos. Nos in√≠cios da paleontologia, no s√©culo XIX, os dinossauros eram representados como grandes e ferozes bestas. De l√° at√© o “Baby” de Fam√≠lia Dinossauro, muita coisa mudou. Mudaram os dinossauros e mudamos n√≥s.

Um monstruoso Pteranodon em r√©plica dos anos 60; a foto, tamb√©m monstruosa, √© deste blogueiro…

Desta forma, vimos que as cole√ß√Ķes de fosseis mudaram muito, de A √† Z. De Aldrovandi a Zabini. No in√≠cio, eram meros cat√°logos, separando os esp√©cimes segundo crit√©rios os mais diversos. Hoje, as exposi√ß√Ķes tem conceito, linguagem e s√£o cuidadosamente constru√≠das para p√ļblicos espec√≠ficos.

No entanto, uma coisa n√£o mudou: nosso estranho e esquisito h√°bito de colecionar objetos do mundo natural.

PARA SABER MAIS:

Duroselle-Melish, C., & Lines, D. A. (2015). The library of Ulisse Aldrovandi († 1605): acquiring and organizing books in sixteenth-century Bologna. The Library, 16(2), 133-161.

Ogilvie, B. W. (2008). The science of describing: Natural history in Renaissance Europe. University of Chicago Press.