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CAmpo de golfe e as antigas cavas de argila mostrando pegadas de Dinossauros e mamíferos, alem de restos de plantas.

No Mesozoico, jogando golf com Fred Flintstone

Estaria o blogueiro pirando? Golf? Mesozoico? Fred Flintstone?

Sim, desta o blogueiro viajou. Era no mês de junho. Estava um sol forte aquela hora da manhã, e eu estava caminhando por uma trilha que levava a estação de trem de Jefferson County, no estado americano do Colorado. Vez em quando passava alguém de bicicleta pela trilha. Foi quando eu vi a plaquinha indicando: Triceratops Trail. Será que eu ia encontrar com um feroz Triceratops na minha frente se eu seguisse aquele caminho? meio receoso, entrei.

CAmpo de golfe e as antigas cavas de argila mostrando pegadas de Dinossauros e mamíferos, alem de restos de plantas.Campo de golfe e as antigas cavas de argila mostrando pegadas de Dinossauros e mamíferos, alem de restos de plantas. Ao fundo o Morro da Mesa (Table mountains), onde estão os basaltos Terciários.

Quando entrei na trilha do Triceratops, a primeira coisa que eu vi foram algumas cavas, com uma vegetação secundaria crescendo de dentro delas. Todavia, eu havia visto algumas maquinas grandes enferrujando no meio do mato. Já nem dava pra reconhecer, mas eu estava entrando numa área antiga de mineração. No entanto,o que isso tinha a ver com o Triceratops?

ENTRANDO NA CAVA DE ARGILA

Soube pelos cartazes que tinham por ai que aquelas perigosas cavas que estava vendo, com v√°rios metros de altura, eram antigas cavas de argila. Estas cavas foram exploradas pela Fam√≠lia Parfet, que produzia cer√Ęmicas, tijolos e tubos de esgoto para todo o pais.¬† Primeiramente, uma foto num cartaz na entrada de uma destas cavas mostrava¬† patriarca George Parfet, sua esposa Mattie e seus seis filhos. Alem do mais, outras fotos antigas mostrava o febril trabalho de escava√ß√£o realizado pela empresa dos Parfett.

Como o cartaz orgulhosamente descrevia, a mans√£o do governador, varias escolas publicas e a antigas sede do f√≥rum do condado de Jefferson foram constru√≠dos com tijolos feitos aqui. Durante quase 70 anos, escavadeiras e draglines escavaram as argilas da forma√ß√£o Laramie para fazer objetos cer√Ęmicos. Nesta hora, eu estava ali andando por entre o que sobrou desas cavas. Parte era um campo de golf, parte um museu geol√≥gico.

Placa na Cava de Argila, mostrando o Triceratops e as marcas deixadas pelo animal
PASSANDO PELO CAMPO DE GOLFE

A maior parte da área era tomada pelo campo de golfe, ocupando as partes mais baixas das antigas cavas de argila. Contudo, a parte do campo de golf não me interessava. Não me interessava aquela grama verdinha e rente. Não me interessava aqueles carrinhos com aqueles senhores de bermuda e camiseta polo. Todavia, com seus chapeuzinhos ridículos, eles passavam acelerados, e nos atropelavam indiferentes em busca de suas ignominiosas bolinhas. Senti o risco iminente de ser uma vitima do golf e me afastei daqueles maniacos.

Alem do mais, o mato ao redor estava cheio de bolinhas de golf, o que provava cabalmente a imperícia dos senhores de tênis e meias brancas. Contudo, lembrei-me de Fred Flintstone, um dos poucos jogadores de golfe pelo qual eu tinha alguma estima. Assim, pela primeira vez, senti alguma conexão ali. Golfe, Fred Flintstone, dinossauros: fui ver os bichinhos.

A GEOLOGIA DE GOLDEN: O COLORADO FRONT RANGE

A geologia de Golden √© muito interessante. Durante o Mesozoico, aquela √°rea era uma grande plan√≠cie deltaica, cheia de p√Ęntanos, rios e lagos. Da mesma forma, nos rios, uma areia fina era depositada, formando barra de meandros. Por outro lado, nas plan√≠cies, uma fina argila branca ia se depositando. Camadas de turfa tamb√©m eram comuns neste ambiente.¬† Al√©m do mais, nesta √°rea, num clima mais quente que hoje, t√≠nhamos muitas palmeiras e muitas especies de animais.

Geologia de Golden, Colorado
Bloco-Diagrama mostrando a geologia de Golden simplificada. a √°rea do Triceratops trail est√° no centro da foto, onde as camadas est√£o verticalizadas.

Mais para o fim do Cret√°ceo, este ambiente √ļmido e quente foi se alterando. Quando houve na regi√£o a transi√ß√£o do Mesozoico para a¬† Terci√°rio, com a extin√ß√£o dos dinossauros, a regi√£o j√° havia se tornado mais quente e seca. Finalmente, lavas bas√°lticas aparecem j√° no paleoceno, indicando uma mudan√ßa na din√Ęmica da regi√£o.

Contudo, o desenvolvimento de grandes falhas geol√≥gicas, como a Zona de falha de Golden (Golden Fault) e a Falha da Margem da Bacia (Margin Basin fault), marcam a transi√ß√£o da regi√£o das Grandes Plan√≠cies com as Montanhas¬† Rochosas. Assim, por a√ß√£o destas falhas, o terreno mais a oeste, predominantemente gran√≠tico, literalmente “cavalga” sobre as rochas Mesozoicas/Terci√°rias e termina por dobra-las. Desta forma, pequenos morrotes, formados por rochas mesozoicas e terciarias dobradas marcam a transi√ß√£o geogr√°fica da montanha para a plan√≠cie. √Č o chamado Colorado Front Range.

DINOSSAUROS SUBINDO PELAS PAREDES

Como dissemos antes, o Triceratops trail esta situado no contexto do  Colorado Front Range. Aqui, as camadas da formação Laramie, do Mesozoico, estão todas verticalizadas, por ação da Clay Pits fault, a falha local do sistema. Com isso, a sensação que temos é a de que os dinossauros estão subindo pelas paredes. No entanto, não foi isso que aconteceu. centenas de milhares de anos após terem vivido por ali é que as camadas nas quais deixaram seus rastos foram basculadas e verticalizadas.

marca de pegada de Tiranossauro
Pegada de Tiranossauro

Desta forma, a exposição das pegadas e das diversas marcas ficou muito facilitada. Ali, podemos ver pegadas gigantes do gigante tiranossauro. Também podemos ver as marcas das pegadas do Triceratops.

Da mesma forma, podemos ver tamb√©m pegadas de pequenas aves e mam√≠feros. De modo similar, nas Clay Pits podemos ver os restos de folhas de palmeiras. Alem das palmeiras, podem ser encontradas sic√īmoros, nogueiras, um tipo de gengibre e um parente distante do abacate.

Esta vegetação, juntamente com a ocorrência comum de marcas de animais pequenos e grandes mostra uma região que, no Mesozoico era quente e talvez por isso, muito rica em vida.

UM OUTRO MUNDO √Č POSS√ćVEL
marcas de palmeiras fósseis
Marcas de folhas de antigas palmeiras; As especies de pnatas indicam um clima muito mais quente que o de hoje na regi√£o.

No final do Mesozoico, durante o per√≠odo Cret√°ceo, a Am√©rica do Norte era coberta por um mar raso, com algumas por√ß√Ķes mais elevadas. Provavelmente, estas por√ß√Ķes elevadas eram pequenas ilhas, das quais a regi√£o de Golden era uma delas. Ao redor, uma serie de . Com o passar do tempo, o soerguimento das Montanhas Rochosas acabou por acabar com este mar raso. Neste per√≠odo, estava provavelmente localizada em latitudes menores. Este era o ambiente perfeito para o desenvolvimento, nas partes mais √ļmidas, de uma fauna abundante e diversificada.

A medida em que que as placas tect√īnicas continuavam se movimentando, a regi√£o das montanhas rochosas come√ßa a ser “empurrada” para o leste. De fato, esta movimenta√ß√£o deu origem as falhas que conformariam a estrutura da regi√£o de Golden, onde eu me encontro agora, olhando pegadas de dinossauros na parede. Afinal, ver pegadas de animais extintos na parede de uma cava de argila nos d√° no√ß√£o de que vivemos num planeta din√Ęmico e em perpetua transforma√ß√£o. Desta forma, ao contrario do que alguns pensam, n√≥s humanos n√£o somo s o suprassumo da cria√ß√£o. Isto √©, supondo que tenha havido uma cria√ß√£o.

SAINDO DA CAVA

Desta forma, assim que sa√≠ da cava, comecei a pensar em quantas informa√ß√Ķes diferentes havia ali naquela pequena √°rea. Contudo, ser√° que as pessoas que passavam aqui e ali teriam no√ß√£o disso? Ser√° que os caras do golfe ali do lado, mesmo que somente perseguindo suas in√ļteis bolinhas, saberiam disso?

O tempo da vida humana √© muito curto. Decerto, algum grego ou romano j√° falou sobre isso. o detalhe √© que, por certo, n√£o temos condi√ß√Ķes de enxergar estas grandes mudan√ßas no decorrer de nossas vidas. Primeiramente, para enxergar isso, o senso comum n√£o ajuda. os vest√≠gios da natureza, por outro lado, s√£o muito sutis e complexos. Ali, saindo da cava do Triceratops trail, me dei conta do quanto as Ci√™ncias da Terra nos ajudam a enxergar o mundo.

AJUDA FRED FLINTSTONE!!

Num mundo em que a Ci√™ncia encontra-se t√£o amea√ßada, certamente o conjunto de evidencias como o que havia ali no Triceratops trail √© muito relevante. Estavam expostas ali, a c√©u aberto, muitas discuss√Ķes interessantes sobre o passado, o presente e o futuro de nosso Planeta. Por certo, a maior parte das pessoas n√£o est√° nem ai pra essas coisas. Da mesma forma, o fato de Fred Flintstone conviver com dinossauros parece plaus√≠vel para muita gente. Entretanto, como se sabe, o ser humano s√≥ conviveu com os dinossauros nos √ļltimos duzentos anos. Somente quando come√ßamos a entender que aqueles esqueletos estranhos n√£o eram obra do acaso ou restos de gigantes √© que eles come√ßaram a habitar entre nos, em nossas ideias, em nossos¬† pensamentos.

Por tudo isso √© que repito: a Ci√™ncia deve entrar mais na vida das pessoas. Independente de sua posi√ß√£o no mundo, o letramento cientifico √© cada vez mais necess√°rio para um numero cada vez maior de pessoas. Temos que fazer de cada esquina um museu da historia da terra. Podemos n√£o ter em todos os lugares historias t√£o interessantes como a do Triceratops trail e seu mergulho de cabe√ßa nos p√Ęntanos do Mesozoico.

CIÊNCIA, LAZER E BICICLETAS
Projeto Geobike
Logo do Projeto Geobike, do Prof Wagner Amaral: trilhas geológicas em Campinas

Da mesma forma, aqui em Campinas, temos o  Projeto  Geobike, mais uma boa ideia do professor Wagner Amaral, do Instituto de Geociências da Unicamp. Assim, apaixonado por Geologia e por sua querida Campinas, o professor Wagner leva os amantes da bicicleta a locais nos quais eles até já poderiam andar, mas cuja historia (natural) ignoravam. Que enriquecedor! Juntar esporte, lazer e Ciência foi uma boa sacada. Que tal na sequencia juntar Ciência e Arte, juntar Ciência com tudo?

Entretanto, no caso das Ciências da Terra e do ambiente, nós precisamos de mais e mais trilhas como estas, que nos levem ao passado da Terra. Trilhas que nos ajudem a pensar melhor nosso presente e projetar melhor nosso futuro.

Bora l√°?

As duas mortes de Luzia

Oi! Quer saber meu nome? A minha tribo me chamava de Loo-dj-ahn. Mas isso foi há muito tempo atrás, antes mesmo de minha primeira morte. Hoje, pelo que sei, me chamam de Luzia. Acho que é como entendem meu nome. Como soa aos ouvidos das pessoas de hoje. Ou é uma coincidência. Sei lá.

O ENIGMA DA CAVERNA
Este √© meu Cranio de verdade; atras, est√° como voc√™s imaginaram que eu fosse…

Desculpe se sou confusa, se meu raciocínio é meio falho. De fato, tenho problemas em entender o que é a verdade e o que não é. Sei, pelos relatos que escuto, que hoje vocês também estão com dificuldades de entender o que é verdade e o que é mentira. Escutei estes dias um termo que deixou confusa: Fake News, ou noticia falsa. Vocês acreditam em noticia falsa?

Eu vivi boa parte de minha primeira morte numa caverna. Onze mil anos, se minhas contas estiverem certas. N√£o sei se voc√™s sabem, mas quando se vive em cavernas a realidade √© meio confusa. N√£o sabemos ao certo se as sombras que vemos s√£o fantasia ou s√£o realidade. Por muito tempo, achei que as sombras que v√≠amos eram a verdade. Contudo, hoje, sei que eram somente proje√ß√Ķes na parede da caverna. Soa meio confuso, mas √© assim. √Č um enigma da caverna. Uma alegoria, como dizem alguns de voc√™s.

A MORTE DE LOO-DJ-AHN

De qualquer forma, meu nome √© Loo-dj-ahn, e eu perten√ßo aos Humanos. Minha tribo representa os melhores ca√ßadores de nosso lugar. Em nosso falar, humano √© “Croovijz“. Por isso talvez voc√™s outros nos chamem de povos de Clovis. Mas, pensando bem,¬† pode ser tamb√©m coincid√™ncia.

Não me lembro ao certo como morri. Fui ficando doente, tinha dores de barriga, dor de cabeça, não conseguia mais acompanhar as mulheres. Entretanto, minha tribo tentou me curar com ervas e rezas. Meus olhos foram turvando, turvando, e depois não ouvi mais nada. Quando dei por mim eu já estava dentro da caverna, onde me sepultaram. Meu corpo foi coberto por tintas mágicas para avisar os espíritos ancestrais dos Humanos. No meu funeral, devem ter me virado para o norte, que era de onde haviam vindo nossos ancestrais.

Como j√° disse, minha primeira morte durou onze mil anos. H√° uns poucos anos atr√°s, o que restou de mim foi encontrado por um povo estranho que tirava seu sustento de desencavar gente de seu tumulo ancestral. Mas, antes disso eu soube que¬†um senhor chamado Peter Lund havia come√ßado a explorar as grutas na nossa √°rea. Ele retirou milhares de metros c√ļbicos de terra e achou milhares de ossos, de animais e de humanos, que ele remeteu para seu pa√≠s natal, a Dinamarca.

NUM LUGAR CHAMADO MUSEU

Muitos outros foram resgatados por estes povos escavadores. Entretanto, dos humanos, os Croovijz, só eu. Dos outros povos que habitavam nossa região, como os Larga-ossos, os Bárbaros do sul e os Pega-peixe (esses eram os nomes que nós dávamos a eles), vários foram resgatados.

Fomos levados para um lugar escuro, muito longe da caverna onde me acharam. Lá, fomos iluminados, apalpados, medidos. Contudo, quando começaram a me chamar de Luzia, a principio achei que sabiam minha língua. Mas sabem nada. Falam muita bobagem sobre nós, tentam adivinhar o que éramos e o que fazíamos somente olhando nossos ossos e vendo os utensílios que fazíamos.

Depois, tentaram adivinhar como era meu rosto…erraram feio. Tentaram de novo…erraram de novo. Por que eles querem saber tanto do mim?

A MORTE DE LUZIA

No entanto, eu estava tranquila nesta minha nova vida. Pensavam que, como Luzia, estaria tranquila. Foi quando, numa noite dessas eu vi o fogo. Estava muito quente e podia-se escutar as madeiras do teto estalando. Muita fumaça na sala onde estávamos. Foi quando ouvimos um grande estrondo e o teto desabou. Essa foi minha segunda morte.

Esse lugar que voc√™s chamam Museu, pegando fogo…essa foi minha segunda morte!

Contudo, minha segunda morte foi mais curta. Cerca de um mês depois, eu comecei a ouvir barulhos, movimento acima de mim. Estavam escavando atrás de meus restos de novo? Que obsessão é esta?

Depois de um tempo, me acharam ali, soterrada sob as cinzas do incêndio. Nunca vi tanto alvoroço. Os caras que estavam escavando gritavam. Alguns choravam de alegria. Eu estava de volta.

O MUSEU E A TRIBO

Soube que o lugar onde estava tinha um nome de Museu. Era um prédio grande e bonito. Mas sempre ouvia falar de problemas. O povo que cuidava de mim sempre reclamava que o prédio estava em perigo. Perigo de quê? eu pensava: de um ataque de bárbaros inimigos? De grandes animais selvagens?

No entanto, parece que eles n√£o tinham recebido muito recurso para manter o Museu. Faltavam recursos para o pr√©dio ser seguro, para evitar inc√™ndios. Depois, os chefes da tribo de voc√™s n√£o estavam interessados nessa hist√≥ria de Museu. Ouvi que um dos chefes havia reclamado: ‚ÄúJ√° pegou fogo, quer que eu fa√ßa o qu√™?‚ÄĚ.

Preciso dizer que achei esta fala típica de bárbaro, desses bem primitivos. Eles nunca assumem a responsabilidade do que fazem, como crianças grandes. Falam alguma coisa, depois voltam atrás. Querem deixar tudo confuso. Ou não sabem direito o que estão fazendo. Minha segunda morte tem a ver com essa confusão dentro da tribo que me resgatou da caverna.

A VIDA √Č CURTA…

Agora, estou esperando ser reconduzida à minha sala tranquila. Lá, dezenas de pessoas passavam admirando meu esqueleto e vendo o modelo de meu rosto. Contudo, eu sei que ele não é meu verdadeiro rosto. Eu também bem sei, no entanto, que nunca vão adivinhar como era o meu verdadeiro rosto. Mas eu sinto um certo orgulho deste rosto eu virei.

√† direita, o paradigma antigo; √† esquerda, o paradigma atual…voc√™s continuam errando…

Os barbaros que me desencavaram  dizem que sou um dos humanos mais antigos do país deles. Me admiram. Os bárbaros que cuidam de mim me tratam muito bem. Entretanto, os chefes da tribo deles, não ligam para ossos de gente. Ouvi dizer que eles gostam de uma coisa chamada dinheiro. Por esse tal de dinheiro brigam o tempo todo. Algumas vezes, se matam.

Contudo, n√£o sei o que aconteceu com minha tribo. Sinto saudades deles. Mas ao mesmo tempo admiro esta tribo barbara que tanto empenho tem de cuidar de mim. Apesar dos chefes que eles escolhem para eles mesmos. Podem me chamar de Luzia. Loo-dj-ahn j√° morreu uma vez. Luzia, outra. Espero ainda durar mais um pouco, ver mais algumas coisas, aprender.

Mas o que se pode esperar mais de uma curta vida de onze mil e poucos anos?

 

PS Рagradeço à Gustavo Teramatsu por me alertar sobre o novo paradigma do rosto de Luzia

O MUSEU, VOCÊ E EU

UMA TRAGEDIA ANUNCIADA

Todos est√£o chocados e boquiabertos com a trag√©dia do Museu Nacional. O inc√™ndio, que durou somente algumas horas, destruiu um patrim√īnio que levou mais de 200 anos para ser juntado. Em termos do valor que se perdeu, como muitos disseram, n√£o h√° como calcular. √Č como se perd√™ssemos a maior parte de nossa mem√≥ria de uma vez, de maneira irrecuper√°vel. Podemos usar os fragmentos, podemos come√ßar tudo de novo a juntar mais mem√≥ria. Mas a que se perdeu, se perdeu.

As chamas consumindo o valiosíssimo acervo do Museu Nacional no Rio

Outros ficam chocados com as condi√ß√Ķes do Museu. Soubemos, pela imprensa, que o Museu Nacional estava sem recursos. Estava sem condi√ß√Ķes de sobreviver, o que fazia de maneira prec√°ria. S√≥ faltava, mesmo, um acidente para acontecer a trag√©dia. E e trag√©dia veio, em sua forma mais cruel, na forma de um inc√™ndio. O inc√™ndio do Museu Nacional √©, sem sombra de d√ļvida, somente mais uma das trag√©dias anunciadas de nossa cultura.

OUTROS INCÊNDIOS

Outros ainda lembram de inc√™ndios recentes que destru√≠ram parte significativa de nosso patrim√īnio cultural: Museu da L√≠ngua Portuguesa (2015), Instituto Butantan (2010), Memorial da Am√©rica Latina (2013) e Cinemateca (2016). Sem contar o inc√™ndio do MAM em 1978, que destruiu boa parte de um acervo riqu√≠ssimo.

Os inc√™ndios s√£o fen√īmenos aleat√≥rios. O que define nossa resili√™ncia a eles √© nossa capacidade de enfrenta-los. O mesmo fogo, num museu com estrutura, n√£o passaria de uma queimadura leve, dessas vermelhid√Ķes de sol na pele. No entanto, nosso descaso e falta de preparo fazem com que qualquer fagulha cause uma trag√©dia de grandes propor√ß√Ķes,

POR QUE OS MUSEUS PEGAM FOGO?

Segundo os especialistas, acidentes nestas institui√ß√Ķes tem como causa defici√™ncia or√ßament√°ria, infraestrutura prec√°ria e equipes de trabalho especializada com numero abaixo do numero ideal. Nossas institui√ß√Ķes de uma forma ou de outra, sempre tem um ou mais desses problemas. Na Unicamp, s√≥ para dar um exemplo, tivemos, uma grande discuss√£o recente sobre estes temas. Embora algumas solu√ß√Ķes provis√≥rias tenham sido alcan√ßadas, a maior parte delas continua sem solu√ß√£o.

Mas o que me deixa mais triste não é a aparente falta de visão dos governantes, O que me deixa mais triste é saber que a falta de visão dos governantes reflete um quadro ainda mais sombrio: vivemos numa sociedade inculta e que não vê um valor na cultura. Por isso, nossos museus são poucos, precários e vazios.

O INCÊNDIO E A REVOLTA

A nossa população não cobra dos governantes cuidado com a memória. Os motivos são os mais diversos, e é claro que a falta de cultura não é um projeto dos explorados, mas dos exploradores. Mas é importante salientar que somos sim, por ação ou omissão, um povo que, por falta de cultura, não se importa em fazer dela um valor. Este círculo vicioso faz com que nossa rica cultura se perca, se esvazie, se deteriore. Ou se queime.

A pesquisadora Aparecida Vilaça escreveu que, ao ver o esqueleto do museu destruído pelas chamas, ela viu a imagem de alguém se imolando, ou seja, alguém que coloca fogo no próprio corpo em protesto. Uma revolta por tantos anos de maus tratos e descaso. As imagens que circularam eram cruéis, mostrando as cenas de desolação causadas pelo fogo.

Quem sabe se a imola√ß√£o do Museu Nacional fa√ßa com que nossa vis√£o sobre os museus, os institutos de pesquisa e arte sejam mais valorizados. Que as pessoas tenham por h√°bito visitar Museus, Exposi√ß√Ķes e Centros de Cultura. E que esse h√°bito possa fazer com que a popula√ß√£o cobre de nossos governantes o respeito que nossa Cultura merece.

OS POL√ćTICOS N√ÉO TEM VIS√ÉO?

Vi tamb√©m que poucos candidatos √† presid√™ncia tem um programa de cultura. Existem candidatos que afirmaram que a trag√©dia ‚Äúagride a identidade nacional‚ÄĚ e disse tamb√©m que ‚Äú√© dever resgatar o compromisso de zelar permanentemente‚ÄĚ pela preserva√ß√£o do patrim√īnio. Mas, quando foi governo, este mesmo candidato deixou estas institui√ß√Ķes √† m√≠ngua.

Outro candidato ainda, quer relegar a Cultura ao status de Secretaria em seu governo. N√£o se pode acusar este candidato, ali√°s bem posicionado nas pesquisas, de incoerente. Em seu programa, realmente, ele n√£o faz qualquer refer√™ncia √† Cultura. Na certa, se algu√©m falar a ele sobre Cultura, ele puxa o rev√≥lver…

A TRAGEDIA DA NOSSA CULTURA

Estes pol√≠ticos dizem essas leviandades porque n√≥s os autorizamos. N√≥s n√£o nos importamos, sejamos francos. N√≥s n√£o valorizamos a nossa pr√≥pria cultura. Por isso, pense sobre o que voc√™ e eu estamos fazendo com a Cultura em nosso pa√≠s. Pense no quanto voc√™ defende isso como uma pol√≠tica, como uma a√ß√£o efetiva. E pense o quanto n√≥s cobramos de nossos governantes a√ß√Ķes efetivas a este respeito. E fa√ßa. Fa√ßamos.

Da mesma forma, v√° a museus, visite exposi√ß√Ķes. Participe de atividades de crowfunding cultural. Valorize quem trabalha com a Cultura. Valorize-se.

Ou queime, inapelavelmente, como todos nós brasileiros nos queimamos, nas chamas da Quinta da Boa Vista.

Não há segunda chance para um povo sem memória.

Museu de História Natural de Berlim, uma experiência inesquecível!

Toda pessoa que tem um m√≠nimo de curiosidade sobre algum tema relacionado √† Hist√≥ria, Natureza e Ci√™ncias em geral tem um lugar certo onde pode se divertir: museu. Museu n√£o √© coisa para ‚Äúnerd‚ÄĚ n√£o, muito menos exclusivo para pessoas envolvidas no meio acad√™mico. Museu √© lugar para gente curiosa! E os museus mundo a fora (aqueles que recebem um m√≠nimo de incentivo financeiro, claro) hoje em dia est√£o cada vez mais interativos e mais diversos, com exposi√ß√Ķes din√Ęmicas e itinerantes, sempre se renovando para o p√ļblico n√£o visitar somente uma vez, mas sim querer voltar a cada temporada para ver coisas novas.

Em 2015 tive a oportunidade que eu achei que n√£o teria t√£o cedo: visitar o Museu de Hist√≥ria Natural de Berlim (Museum f√ľr Naturkunde Berlin). Jamais vou esquecer a emo√ß√£o ao entrar (sozinha) pelo sal√£o principal e ver as gigantescas ossadas de braquiossauros, aqueles pesco√ßudos, sabe? O guarda da entrada riu de mim, pois eu fiquei t√£o abestada ao ver tudo aquilo que chorei.

Museu de História Natural de Berlim
Braquiossauros no sagu√£o principal

O Museu de Hist√≥ria Natural de Berlim surgiu em meados de 1810, resultante da fus√£o de 3 museus: de Anatomia,¬† Zoologia e Mineral√≥gico. A cole√ß√£o, que hoje conta com mais de 30 milh√Ķes de itens, foi adquirida atrav√©s de doa√ß√Ķes, compra e coleta em expedi√ß√Ķes. Inclusive conta com muitos f√≥sseis brasileiros, como peixes e invertebrados do Araripe (cuja proced√™ncia n√£o ser√° aqui discutida para n√£o quebrar o encanto da mat√©ria).

Em 1889, o imperador Wilhelm II inaugurou oficialmente o museu no local onde se encontra at√© hoje. Durante o per√≠odo da Segunda Guerra Mundial, uma parte do museu foi destru√≠da, perdendo-se 25% da cole√ß√£o, permanecendo fechado ao p√ļblico at√© 1945, quando ent√£o foi reinaugurado. Depois da queda do Muro de Berlim e reunifica√ß√£o em 1989-1990, o museu foi reestruturado, foram criados novos laborat√≥rios e foi dividido em tr√™s institutos: Paleontologia, Mineralogia e Zoologia Sistem√°tica.

Em 2006, novamente foi reestruturado, criando-se departamentos de pesquisa, de cole√ß√Ķes, exposi√ß√£o e de Educa√ß√£o. Foi considerado uma funda√ß√£o de direito p√ļblico em 2009, devido a sua grande import√Ęncia na regi√£o. Em 2010 completou 200 anos e desde 2012 seu pessoal t√™m colocado em pr√°tica a miss√£o de auxiliar na compreens√£o p√ļblica da Ci√™ncia, tornando seu conte√ļdo cient√≠fico e pesquisas mais acess√≠veis para o p√ļblico em geral, bem como v√™m tendo uma crescente participa√ß√£o em eventos de Educa√ß√£o.

Felicidade é tirar selfie com o Archaeopterix!

Com sua integra√ß√£o √† Institui√ß√£o Leibniz para a Evolu√ß√£o e Ci√™ncia da Biodiversidade, o Museu de Hist√≥ria Natural de Berlim se tornou uma das institui√ß√Ķes de pesquisa na √°rea de evolu√ß√£o biol√≥gica, geol√≥gica e de biodiversidade mais importantes do mundo, alcan√ßando um p√ļblico de mais de 500.000 visitantes por ano.

Enfim, os esforços de toda sua equipe valeram muito a pena! A visita ao Museu de História Natural de Berlim é uma atividade muito mais que recomendada, não só para professores e estudantes, mas para todas as pessoas que tiverem a chance de passear por Berlim. Só não chore aos pés do pescoçudo e vire piada como eu!

Para saber mais:

https://www.naturkundemuseum.berlin/

 

 

ONDE VER F√ďSSEIS PAULISTAS?

Nos textos anteriores comentei acerca dos registros fósseis no estado de São Paulo começando pelos mais antigos que datam de volta de 1.700 a 850 Ma. até os mais recentes que habitaram a uns 10.000 anos atrás. Nos paleontólogos que estudamos esses registros e todos os dias vemos fosseis na nossa frente sabemos onde encontrar eles. Mas quem nunca viu um e somente os conhece pelos filmes ou por fotografias, onde pode ter acesso a esse mundo fascinante. Então vamos lá, para ver fósseis é possível, visitar vários museus no Estado de São Paulo, aqui incluo uma lista com muitos deles.

 

Na cidade de S√£o Paulo

MUSEU GEOL√ďGICO VALDEMAR LEF√ąVRE, MUGEO

Endere√ßo: Av. Francisco Matarazzo, 455, Parque da √Āgua Branca ‚Äď Perdizes, CEP 05001-300 ‚Äď S√£o Paulo ‚Äď SP

Horário de Funcionamento: terça a domingo, das 9h00 às 17h00.

Site: mugeo.sp.gov.br

 

MUSEU DE GEOCIÊNCIAS DO INSTITUTO DE GEOCIÊNCIAS DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

Endere√ßo: Rua do Lago, 562 ‚Äď Cidade Universit√°ria, CEP. 05508 ‚Äď 080, S√£o Paulo, SP Hor√°rio de Funcionamento: segundas a sextas das 08h √†s 12h e 13h30 √†s 17h. S√°bados.

Site: http://www.igc.usp.br/museu/home.php

 

MUSEU DE ZOOLOGIA – MZUSP

Endereço: Avenida Nazaré, 481 РIpiranga, CEP: 04263-000, São Paulo РSP

Horário de Funcionamento: quartas a domingos das 10h ás 17h (entrada até as 16h30)

Site: www.mz.usp.br

 

No interior do estado

– Rio Claro

Museu de Paleontologia e Estratigrafia Prof. Dr. Paulo Milton Barbosa Landim

Endereço: CP 199, Av. 24 A, 1515 РBela Vista, CEP. 13506-900, Rio Claro РSP

Hor√°rio de Funcionamento: segundas a sextas das 8:00 as 17:00

Site: www.rc.unesp.br/museupaleonto/

 

РMarília

MUSEU DE PALEONTOLOGIA DE MAR√ćLIA

Endereço: Avenida Sampaio Vidal Centro Cultural de Marília 245, Centro, CEP. 17500-020, Marília, SP

Horário de Funcionamento: segunda a sexta-feira, das 8h às 13h.

Site: http://www.marilia.sp.gov.br/prefeitura/museu-de-paleontologia

 

– S√£o Carlos

MUSEU DA CI√äNCIA PROF. M√ĀRIO TOLENTINO

Endereço: Pça Coronel Salles São Carlos, SP

Horário de Funcionamento: terças às sextas das 8h00 às 17h30.

Site: museudaciencia.blogspot.com.br/

 

– Monte Alto

MUSEU DE PALEONTOLOGIA PROF. ANTONIO CELSO ARRUDA CAMPOS

Endere√ßo: R. Quinze de Maio, s/n – Centro, CEP. 15910-000, Monte Alto ‚Äď SP

Hor√°rio de Funcionamento: Em reforma

Site: Em reforma

 

РTaubaté

MUSEU DE HIST√ďRIA NATURAL DE TAUBAT√Č – MHNT

Endereço: R. Juvenal Dias de Carvalho, 111 РJardim do Sol, CEP. 12070-640, Taubaté РSP

Horário de Funcionamento: terças a domingos, das 09:30 às 17 horas, feriados de quinta a domingo

Site: www.museuhistorianatural.com