Arquivo da tag: paleontologia

SHE SELLS SEA SHELLS ON THE SEA SHORE

√Č de manh√£ cedo. O mar est√° calmo, e a mar√© baixa. Na grande fal√©sia branca da praia de Lyme Regis, em Dorset, na Inglaterra, um grupo de pessoas est√° trabalhando nos rochedos. Usando martelos e picaretas, eles cortam o pared√£o em busca de f√≥sseis. Entre eles est√° uma mulher. Mary Anning, acompanhada de seu c√£ozinho vira-lata Tray, est√° protegida do frio e da maresia usando roupas largas. Na cabe√ßa, usa um chap√©u de palha amarrado no pesco√ßo para n√£o ser arrancado pelo vento do mar .

Praia de Lyme Regis, Dorset, onde Mary Anning viveu e “ca√ßou” diferentes tipos de f√≥sseis…
F√ďSSEIS PARA (SOBRE)VIVER

Mary Anning (1799-1847) é a chefe do grupo de coletores de fósseis. Dona de uma pequena mas bem sortida loja, ela é uma das maiores fornecedoras de fosseis para colecionadores e museus de toda a Europa. Mesmo dos Estados Unidos vem pesquisadores e colecionadores para ver Рe comprar! Рsuas preciosidades.

Mary Anning (1799 Р1847) e seu cãozinho Tray, A pintura é de 1842.

De origem humilde, a família de Mary Anning começou a coletar fosseis para complementar a parca sobrevivência. No entanto, seu pai Richard, sua mãe Molly e seu irmão Joseph também eram exímios coletores de fosseis. Entre os fosseis mais importantes que coletaram estão os famosos esqueletos dos plesiossauros, grandes lagartos marinhos.  Hoje, boa parte dos fosseis coletados por Mary Anning e sua família estão expostos no Museu de História Natural em Londres. Da mesma forma, na França, na Inglaterra e na Alemanha, quase todos os grandes Museus de História Natural têm fósseis  coletados por ela.

Mesmo sem uma educa√ß√£o formal, Mary Anning chegou a participar da constru√ß√£o da Paleontologia moderna. No entanto, ela chegou mesmo a participar de alguns debates,¬† corrigindo algumas distor√ß√Ķes e classifica√ß√Ķes incorretas. Dona de um saber pr√°tico, Mary Anning ajudou muito neste estagio embrion√°rio da paleontologia.

DORSET NO JUR√ĀSSICO

Embora tenha chegado a ter uma loja, vendendo fosseis para toda a Europa, Mary Annning sempre passou por varias necessidades financeiras. Para tanto, v√°rias pessoas ao longo de sua vida, penalizadas com as duras condi√ß√Ķes de Mary Anning e sua fam√≠lia, fizeram subscri√ß√Ķes para ajudar.

 

Duriea Antiquor (Dorset antigo) de Henri de la Beche (National Museum of natura History of Wales). A luta fict√≠cia entre o ictiossauro e o plesiossauro ficou t√£o famosa que Julio Verne a incluiu em seu “Viagem ao Centro da Terra”.

Entretanto, uma das mais criativas e interessantes subscri√ß√Ķes foi feita por um grande amigo de Mary Anning, o ge√≥logo Henri De La Beche. Bom desenhista e caricaturista, De La Beche desenhou uma gravura cujas vendas pudessem ajudar financeiramente Mary Anning, j√° ent√£o bem doente de um c√Ęncer de seio. Contudo, a gravura, intitulada¬†Duriea Antiquor (‚ÄúDorset antigo‚ÄĚ em latim), retrata com precis√£o e bom homor qual teria sido, h√° milh√Ķes de anos atr√°s, a vida dos f√≥sseis coletados por Mary Anning.

Bem desenhado e bem elaborado, Duriea Antiquor é um dos primeiros e mais importantes desenhos sobre o mundo anterior aos humanos. Contudo, a sua representação da vida no jurássico até hoje é uma das mais influentes da paleontologia. A gravura até hoje baliza a maneira como representamos até hoje a vida antiga na  Terra.

VENDER CONCHAS DO MAR NA BEIRA DO MAR…

A vida e os perrengues pelos quais passou Mary Annning dariam um poema. Ou um livro. Ou um filme. Ou tudo isso.

No in√≠cio do s√©culo XX o escritor ingl√™s H.¬†A. Forde ¬†publicou ‚ÄúThe Heroine of Lyme Regis: The Story of Mary Anning the Celebrated Geologist‚ÄĚ. Baseado no relato de Forde, muitas hist√≥rias inspiracionais sobre Mary Anning foram escritas. Entretanto, talvez ela seja tamb√©m a inspira√ß√£o para o poema – e terr√≠vel trava-l√≠nguas ‚Äst que todos os estudantes de ingl√™s l√≠ngua estrangeira se confrontam:

She sells seashells on the seashore
The shells she sells are seashells, I’m sure
So if she sells seashells on the seashore
Then I’m sure she sells seashore shells.

MERYL STREEP?

Em 1969 outro escritor ingl√™s, John Fowles, escreveu um romance hist√≥rico chamado ‚ÄúThe French Lieutenant¬īs Woman‚ÄĚ (a mulher do tenente franc√™s). Contudo, na hist√≥ria de Fowles, est√° patente a den√ļncia do preconceito de classe e de g√™nero que¬† Mary Anning sofreu. Mesmo tendo ajudado tantos cientistas, ela nunca ficou, em vida, com a fama da descoberta. O √ļnico que homenageou Mary Anning durante sua vida, entretanto, foi o zo√≥logo franco-su√≠√ßo Louis Agassiz, que a conheceu pessoalmente em 1834 e nomeou duas esp√©cies de peixe com seu nome.

O livro de Fowles foi um grande sucesso de p√ļblico e cr√≠tica. Em 1982 foi adaptado para o cinema pelo teatr√≥logo e roteirista Harold Pinter, e dirigido por Karol Reisz. Como protagonistas, ningu√©m menos que Meryl Streep e Jeremy Irons. Da mesma forma, o livro tamb√©m virou pe√ßa de teatro de grande sucesso.

Poster do filme “A mulher do tenente franc√™s”, de 1982, com Meryl Streep e Jeremy Irons. A historia √© livremente baseada na vida de Mary Anning
UM GRANDE VULTO DA CIENCIA

Entretanto, em 1999, bicentenário de seu nascimento, houve um grande evento em seu nome na praia de Lyme Regis. Da mesma forma, em 2005, o Museu De História Natural de Londres incluiu seu nome ao lado de outros grandes vultos da ciência. Nesta exposição, ela está ao lado de personalidades como Carl Linné  e William Smith.

Mary Anning morreu em 1847, v√≠tima do c√Ęncer. Ela viveu toda a vida entre os penhascos de Lyme Regis, escavando a lama do mar jur√°ssico em busca de fosseis para sobreviver. Mas, inadvertidamente, foi uma das maiores paleont√≥logas de todos os tempos.

Contudo, Mary Anning nos desvendou os abismos do tempo e os fant√°sticos animais que o habitaram. Desta forma, para ajud√°-la foram feitas as primeiras representa√ß√Ķes sobre o mundo antigo que conhecemos. Foi v√≠tima do preconceito de classe e de g√™nero. No entanto, Com sua vida, inspirou muitas outras.

Mary Anning é tanta inspiração que ultrapassou a Ciência. Mary Anning é pop. Foi livro, peça, filme. Virou até trava-línguas!

N√£o √© pra qualquer um…

Padre Kircher e as Brincadeiras da Natureza

Padre Athanasius Kircher (1602-1680)

Fazia um pouco de frio em Roma no dia em que padre Kircher morreu, aos 78 anos de idade, em 27 de novembro de 1680. O sol praticamente não apareceu, e um vento frio fazia a sensação térmica piorar. No entanto, a vida seguia normal. A missa foi cantada em todas as igrejas da Cidade Eterna no horário habitual. O comércio abriu normalmente. Enquanto isso, as pessoas circularam pela rua para seus negócios, compras e amores.

Fazia j√° alguns anos que padre Athanasius Kircher andava doente. Surdo, sem enxergar direito e com lapsos grandes de mem√≥ria, ele raramente saia de sua cela. No entanto, ainda produzia: em carta daquele mesmo m√™s de novembro, provavelmente ditada por ele, padre Kircher se desculpava com seu interlocutor por causa de suas ‚Äúm√£os tr√™mulas‚ÄĚ.

Com sua morte, desapareceu de cena uma das personalidades da cultura mais interessantes do século XVII. Isso não é pouco, num século que começa com Giordano Bruno, Galileu Galilei, René Descartes, Baruch Spinoza e vai até Isaac Newton, entre tantos outros.

SABIA TUDO E NÃO ENTENDEU NADA?

Padre Kircher comandou, a partir da Biblioteca do Vaticano, que ele dirigiu por mais de cinquenta anos, um dos maiores projetos culturais de que se tem not√≠cia. Seus mais de quarenta livros e seus inventos abrangem praticamente todas as esferas do conhecimento, desde a Lingu√≠stica at√© a Geologia, a F√≠sica e a Qu√≠mica. Ele foi, segundo a historiadora Paula Findlein, sua bi√≥grafa, ‚Äúo √ļltimo homem que sabia de tudo‚ÄĚ (deixe Jeff Bezos mais rico aqui).

Padre Kircher recebendo visitantes na Biblioteca Vaticana

Claro que tal ambi√ß√£o tem seu pre√ßo. Conhecer tudo significa conhecer um pouco de tudo. Apesar de ser um erudito no mais amplo sentido da palavra, Kircher cometia gafes e frequentemente fazia falsas interpreta√ß√Ķes. Quando leu o livro que padre Kircher escreveu tentando decifrar os hier√≥glifos eg√≠pcios, o tamb√©m pol√≠mata Gotfried Leibniz (1646-1716) escreveu: ‚Äúele [Kircher] n√£o entendeu nada!‚ÄĚ.

Da mesma forma, o erudito ingl√™s Johann Burkhardt Mencke (1674-1732) escreveu ‚ÄúDe Charlataneria eruditorum‚ÄĚ [A charlatanice dos¬†eruditos], no qual faz uma imagem devastadora de Kircher. Sua caricatura de um charlat√£o escrevendo coisas est√ļpidas e sem sentido foi a imagem que ficou do Jesu√≠ta para a posteridade.

No entanto, passado tanto tempo, cabe perguntar: quem foi padre Kircher? Qual o seu alcance e seu significado? Quais seus pressupostos e qual sua visão de mundo? Em anos recentes, apareceram uma série de livros e artigos revisitando e colocando sua vida e sua obra em perspectiva histórica. Um novo Kircher surgiu.

CONHECIMENTO SEM LIMITES

Athanasius Kircher nasceu em Geisa, na Alemanha, em 1602. Era o ultimo de nove filhos de uma fam√≠lia burguesa escolarizada. Segundo sua autobiografia, o jovem Athanasius era um ‚Äúest√ļpido propenso a acidentes‚ÄĚ. Fez seus estudos no Col√©gio jesu√≠ta de Paderborn, de onde quase foi expulso por sua sa√ļde fraca. ¬†Quando finalmente se formou, em 1627, foi admitido na pretigiosa Companhia de Jesus. alem disso, foi ser professor de grego e sir√≠aco em Heilingenstadt, onde seu pai tamb√©m havia lecionado.

Fascinado pelo Oriente, Kircher pediu para ser enviado como missionário para a China, mas foi recusado pela sua Ordem. Logo a seguir, era ele teria que se mudar: a Alemanha estava sofrendo com a Guerra dos Trinta Anos, entre protestantes e católicos. O católico e jesuíta Kircher se refugiou em Avignon na França em 1632, fugindo das tropas protestantes do Rei Gustavo Adolfo da Suécia.

De lá, Kircher foi para Roma, onde ficou até o fim de sua vida. Na Cidade Eterna, construiu uma reputação de homem com muitos segredos e possuidor de textos secretos. Muitos não acreditavam nele, mas o padre Kircher parecia não se importar com isso. Passou a estudar, escrever e fabricar instrumentos os mais diversos.

Trabalhando na Biblioteca do Vaticano, padre Kircher foi logo conquistando seu espa√ßo. Seus livros come√ßaram a ficar famosos, e sua reputa√ß√£o ia aumentando. Padre Kircher escreveu sobre os hier√≥glifos eg√≠pcios, sobre o magnetismo, sobre √≥tica, sobre os subterr√Ęneos terrestres, sobre a hist√≥ria de Roma. Sobre quase tudo.

√Č claro que muitos perceberam seus limites. Nicolas-Claude Fabri de Peiresc (1580-1637), filosofo e bot√Ęnico franc√™s e um dos eruditos mais influentes da √©poca, logo entendeu que os talentos de Kircher eram limitados. No entanto, percebeu seu entusiasmo e energia e apoiou v√°rias das iniciativas do jovem Jesu√≠ta.

KIRCHER DESCE AO INTERIOR DA TERRA

Um dos livros mais famosos de Kircher foi o Mundus Subterraneus, de 1665. Nele, padre Kircher exp√Ķe sua vis√£o de mundo, fortemente marcada pelo Neoplatonismo e pelo Hermetismo. Para ele,¬† Terra era uma s√≥, um imenso organismo vivo, governada pelos elementos fogo e √°gua.

todos os vulc√Ķes do mundo interconectados na vis√£o de Padre Kircher no Mundus subterraneus (1665)

O fogo √© representando pelo sol, pelo enxofre e por Hermes Trismegisto (o tr√™s vezes grande). √Č o fogo que vemos nos vulc√Ķes que Kircher representou como sendo um todo interconectado. ¬†Para entender os vulc√Ķes, Kircher desceu √° cratera do Ves√ļvio logo ap√≥s uma erup√ß√£o em 1638. Tamb√©m realizou viagens de estudo para Creta, Malta e Sic√≠lia,

 

AS MONTANHAS DA LUA

A √°gua, por sua vez, √© representada pelos oceanos, rios e fontes, e tamb√©m pela Lua. Estudando a origem dos grandes rios do planeta, Kircher conclui que estes estavam interconectados com as grandes cadeias de montanhas. O Nilo, o Dan√ļbio, o Ganges e o Amazonas seriam formados por grandes lagos subterr√Ęneos, localizados justamente nas grandes cadeias de montanhas. O Nilo nasceria no cora√ß√£o da Africa nas “Montanhas da Lua“. As tais montanhas n√£o existiam, mas √© uma prova de que Kircher sabia se aproveitar de relatos de viajantes e construir o seu pr√≥prio.¬† no seculo XIX n√£o poucos viajantes europeus percorreram as nascentes do Nilo atras destas m√≠ticas montanhas. Para kircher, as fontes eram a conex√£o do interior com o exterior da Terra pela agua. Para ele, a uni√£o do sol masculino com a lua feminina realizada na terra d√° ao planeta seu car√°ter ‚Äúneutro‚ÄĚ.

As nascentes do Amazonas em uma caverna subterr√Ęnea sob os Andes

Esta vis√£o “hol√≠stica” do planeta √© uma das caracter√≠sticas da vis√£o neoplat√īnica de Kircher. O resultado √© esta aparente confus√£o barroca, que une o microcosmo e o macrocosmo, como se um fosse a extens√£o do outro. Para tanto, Kircher usa da met√°fora, da alegoria e do simbolismo para mostrar os sinais da gl√≥ria de Deus na natureza.

AS BRINCADEIRAS DA NATUREZA

A paleontologia de Kircher √© uma das mais interessantes facetas de sua obra. Em seus luvros, contudo, Kircher distingue claramente os f√≥sseis que ‚Äús√£o produtos de petrifica√ß√£o de animais e conchas‚ÄĚ de outros que s√£o s√≠mbolos e alegorias. No primeiro time, est√£o as coquinas representadas no Mundus Subterraneus (figura abaixo). No outro, as pedras que reproduzem a face de uma gar√ßa, uma coruja, ou Nossa Senhora com o menino Jesus. Para Kircher, tais representa√ß√£o n√£o tinham nenhuma causalidade. Eram somente ‚Äúlusus naturae‚ÄĚ, ou seja, brincadeiras da natureza.

As coquinas de Padre Kircher: prova de origem inorg√Ęnica dos fosseis

Entretanto, uma leitura apressada da obra de Kircher sugere para muitos somente um lun√°tico (e ainda por cima Jesu√≠ta!) que enxerga figuras absurdas impressas nas rochas. Da mesma forma outros pensavam no padre Jesu√≠ta como um fan√°tico reacion√°rio que √© contra a ‚Äúvis√£o correta‚ÄĚ dos f√≥sseis como restos de animais tal como conhecemos hoje. Entretanto, nenhuma destas vis√Ķes enxerga Kircher como ele deve ter sido.

Kircher sabia que haviam fósseis formados por restos de animais. Durante suas viagens à Sicília, ele encontrou e representou no Mundus Subterraneus animais com aparência moderna achados nas rochas.

As outras indica√ß√Ķes de ‚Äúpedras figuradas‚ÄĚ representam, para Kircher, uma interconex√£o entre micro e macrocosmo. Desta forma, dentro de sua vis√£o de mundo, estas pedras eram as¬† provas da sabedoria de Deus. Para ele, a discuss√£o sobre a origem organica ou inorg√Ęnica dos fosseis e das rochas que as continham n√£o estava posta. A sua ‚Äúpira‚ÄĚ era outra.

as pedras “figuradas”, com significados simb√≥licos: gar√ßas, pombas, corujas e outras figuras
FUJA DA INQUISIÇÃO, PADRE KIRCHER!

Entretanto, a vis√£o de mundo de Padre Kircher era posta constantemente em cheque pelos censores da Companhia de Jesus. N√£o era pra menos. Por causa de suas ideias neoplat√īnicas (e por sua defesa do Sistema Copernicano) Giordano Bruno havia morrido na fogueira em 1600, dois anos antes de Kircher nascer. Quando o jovem Kircher chegou √† It√°lia, em 1632, o processo contra Galileu ainda corria, tendo grande publicidade.

Um padre que em seus livros citava Hermes Trismegisto, fazia experimentos alquímicos e construía instrumentos estranhos deve ter chamado atenção dos censores, como realmente chamou. Contudo,  Kircher soube contornar e aparar as arestas entre suas ideias do mundo natural com as demandas da inquisição. Não deve ter sido fácil.

A VIDA QUE SEGUE

Quando padre Kircher morreu, o dia estava frio e cinzento em Roma, mas não por causa dele. Enquanto isso, durante os mais de cinquenta anos que ele permaneceu ali na frente da Biblioteca do Vaticano, o mundo havia mudado muito. Agora, graças a uma notável rede de sábios e eruditos, a ciência moderna estava em franca expansão.

Neste período, o surgimento de novas sociedades cientificas, os primeiros journals, as correspondências de filósofos naturais por toda a Europa (e mesmo na América) haviam mudado o ponto da discussão.

Antes de tudo, o mundo quando Padre Kircher morreu era mais racionalista e mecanicista, baseado mais nas ideias de Descartes e Newton, entre tantos outros. Para isso, a nova ciência que surgia prescindiria de ideia de um Deus ou de qualquer explicação metafisica para fazer a natureza funcionar.  com isso, não havia mais espaço para o sobrenatural, para o maravilhoso e para o espanto. Sobretudo, não havia mais espaço para o padre Kircher.

Fazia frio e ventava no dia em que padre Kircher morreu, mas n√£o por causa de alguma vontade divina. Fazia frio e chovia por causa das correntes de ar atmosf√©rico sobre o Mediterr√Ęneo. Enquanto isso, os p√°ssaros no outono migravam para o sul. As placas¬† tect√īnicas seguiam se movimentando, podendo provocar terremotos ou erup√ß√Ķes vulc√Ęnicas. As fontes seguiriam jorrando √°gua.

No dia seguinte, uma missa foi rezada pela alma de um padre velhinho que morrera naquela noite fria.

SUGESTOES DE LEITURA

Findlen, P. (Ed.). (2004). Athanasius Kircher: the last man who knew everything. Routledge.

Gould, S. J. (2004). Father Athanasius on the isthmus of a middle state. Athanasius Kircher: The last man who knew everything, 201-237.

O Dinamarquês das Cavernas

Um fim de tarde no interior
A praça central de Lagoa Santa (MG) no inicio do seculo XX

Est√°vamos em 1878, 56¬ļ ano da independ√™ncia do Brasil. Fazia j√° 38 anos do Reinado de sua alteza Imperial, D Pedro II.

Era um fim de tarde quente na pequena vila de Lagoa Santa, no interior de Minas Gerais. As nuvens se acumulavam atr√°s da Serra da Piedade. Era um prenuncio de chuva para amenizar o calor abafado. Uma banda de m√ļsica se fazia ouvir, l√° para os lados da pra√ßa central.

O som da m√ļsica ia aumentando, a medida em que nos aproximamos. A cidade era uma rua, com as casas dispostas em amplos quintais cheios de arvores de todos os tipos: pequizeiros, umbuzeiros, mangueiras. Os buritizeiros eram muito comuns, assim como outros tipos de coqueiro. O contraste das outras arvores e os coqueiros davam um recorte especial √†s casas da pequena cidade.

As casas eram simples, com cercas de madeira na frente. a grande maioria era de telhado simples, mas as maiores tinham até quatro águas. Eram caiadas de branco, com portas e janelas de madeira. Algumas janelas, nas casas maiores, eram de vidro, com duas guilhotinas. A madeira das janelas era pintada de azul ou vermelho. Muitas possuíam amplas varandas, onde se viam redes, cadeiras de descanso e vasos de plantas.

Quando cessa a m√ļsica, os m√ļsicos come√ßam a se dispersar. Um velhinho, que parecia ser o maestro da banda, come√ßa a descer a rua acompanhado de um menino. Quando entram na grande casa da esquina, pode se ver as luzes sendo acesas.

O velhinho que cuidava da banda de Lagoa Santa era ningu√©m menos que Peter Wilhelm Lund. O famoso paleont√≥logo dinamarqu√™s, que havia chegado ali na pequena vila havia uns trinta e cinco anos. Agora, j√° com quase oitenta anos, era uma figura p√ļblica do lugar. Da varando de sua casa dava conselhos, emprestava dinheiro e cuidava da pequena banda da cidade.

A Banda Santa Cecilia
O Paleontologo Dinamarques Peter Wilhelm Lund (1801-1880), em foto de 1868

A banda Santa Cec√≠lia era um dos xod√≥s de Peter Lund. Ele havia dado o dinheiro para comprar os instrumentos e tamb√©m participava dos ensaios. Lund era conhecido na cidade como um bom m√ļsico e havia sido, na juventude, um bom p√©-de-valsa.

Naqueles dias, entretanto, sentindo-se cansado, Lund deixava-se ficar em casa. Reclamava muito de reumatismo, e deixava-se ficar na rede, descansando. Só raramente ia aos ensaios, acompanhado de seu afilhado Nereo. O garoto era filho de Luís Cecílio, seu colaborador no trabalho de escavação das grutas calcárias da região.

A exploração das cavernas de Lagoa Santa

Durante cerca de dez anos, entre 1835 e 1845, desde que ali chegara, Lund havia escavado quase todas as cavernas da região na procura de fósseis. Era um trabalho duro. Lund contratou dezenas de pessoas, comprou muitas mulas e construiu equipamentos para retirada do material das cavernas e para a obtenção dos fósseis e esqueletos.

Quase todas as grutas da região foram escavadas. Durante o período de intensa exploração, dezenas de toneladas de material eram escavados, numa operação que muito similar a uma exploração mineira convencional. O trabalho era tão gigantesco que Lund gastou nele praticamente um quinto de sua fortuna.

Lund era um homem rico, herdeiro de um prospero comerciante dinamarquês.  Ao morrer, o velho Henrik Lund deixou para cada um de seus filhos o suficiente para que não se preocupassem com dinheiro ou trabalho. Seus irmãos dedicaram-se as finanças. Lund estudou e virou um renomado naturalista. Mas a família era cheia de talentos. Um primo famoso de Peter Lund foi o filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard.

O “priminho Soren”

O famoso fil√≥sofo precursor do existencialismo moderno era treze anos mais mo√ßo que Lund. Nas cartas e correspond√™ncias com a fam√≠lia via-se que Peter Lund o tratava como ‚Äúo priminho Soren‚ÄĚ. Aludia a ele como um adolescente imaturo e autocentrado. Para Kierkegaard, por outro lado, ele era o primo Peter, naturalista. Certa vez, numa pol√™mica com Hans Christian Andersen, citou os formigueiros brasileiros, na certa derivados de observa√ß√Ķes de Lund.

Soren Kierkegaard (1813 – 1855), o “priminho Soren” de Lund e uma dos maiores fil√≥sofos da Modernidade

Numa carta que nunca enviou a Lund, Kieerkegaard mostra-se entusiasmado com as ci√™ncias naturais. No entanto, imagina que a ‚Äúmonstruosa dedica√ß√£o‚ÄĚ do naturalista a pequenos detalhes impede a compreens√£o de coisas maiores. Enquanto isso, no outro lado do mundo, Lund embrenhava-se

com dedicação monstruosa para resolver os problemas paleontológicos das cavernas de Lagoa Santa.

Lund, o Catastrofista

As pesquisas de Peter Lund em Lagoa Santa foram um marco para a paleontologia. N√≥s j√° falamos sobre os in√≠cios do conhecimento sobre a fauna pleistoc√™nica de Minas, com o trabalho de Sim√£o Sardinha, no seculo XVIII. No s√©culo XIX Lund preencheu importantes lacunas do conhecimento sobre a fauna do Pleistoceno. Pregui√ßas Gigantes, Megat√©rios, Gliptodontes e outros mam√≠feros extintos foram encontrados em suas escava√ß√Ķes. Com base nestes f√≥sseis, Lund escreveu diversos trabalhos, publicados nos mais importantes peri√≥dicos cient√≠ficos da √©poca.

Lund e o Tigre de dentes de sabre, num documentário dinamarquês sobre o cientista e seu trabalho nas cavernas de Minas Gerais (https://www.dr.dk/nyheder/viden/naturvidenskab/fem-ting-du-boer-vide-om-danskeren-der-fandt-sabeltigeren

Neles, Lund explicava sobre as faunas extintas devido as ‚Äúgrandes Revolu√ß√Ķes do Globo‚ÄĚ, como havia aprendido com seu professor em Paris, Georges Cuvier. Cuvier, de quem n√≥s j√° falamos aqui, era um dos maiores expoentes da teoria chamada ‚Äúcatastrofismo‚ÄĚ. O catastrofismo propunha que as diferencia√ß√Ķes entre as faunas eram devidas a diversos tipos de cataclismos. O grande problema do catastrofismo era que ele n√£o propunha uma boa alternativa para a mudan√ßa das diferentes esp√©cies animais e vegetais que eram encontradas.

Diferentemente, ao correr do s√©culo, as teorias sobre a mudan√ßa dos seres vivos eram explicadas pela mudan√ßa gradual das esp√©cies pelos diferentes mecanismos de evolu√ß√£o. Lund, em seu ref√ļgio de Lagoa Santa, n√£o participou destes embates. No entanto, dada a qualidade de seu trabalho, sua pesquisa chegou a ser citada elogiosamente por Charles Darwin n¬īA Origem das Esp√©cies, de 1859.

Um naturalista “aposentado”
A casa de Lund em Lagoa Santa;

Quando isso aconteceu, Peter Lund j√° se encontrava ‚Äúaposentado‚ÄĚ. Depois de publicar seus artigos mais importantes, ele tratou de despachar sua cole√ß√£o para a Dinamarca. Hoje, sua cole√ß√£o est√° no museu de hist√≥ria natural de Copenhague. Muitos hoje veem como uma atitude imperialista. No entanto, parte das atividades de Lund fora parcialmente financiada pela Coroa dinamarquesa. O desenhista de Lund, Peter Andreas Brandt, era pago com uma bolsa fornecida pela academia dinamarquesa de ci√™ncias.

Desenho de P.A. Brandt mostrando o trahalho nas cavernas. os homens almoçando dentro da caverna e os jumentos usados para carregar a terra retirada fazem contraste com a bela cortina calcária ao fundo.

Brandt, assim como Lund, nunca voltou para a Dinamarca. Seus desenhos das escava√ß√Ķes e as ilustra√ß√Ķes dos esqueletos encontrados foram muito importantes para o trabalho de Lund. O tra√ßo de Brandt ligou-se ao texto de Lund. Mesmo passando com sua fam√≠lia passando por diversos percal√ßos na Escandin√°via, Brandt ficou em lagoa Santa at√© morrer em 1862.

Viver e morrer em Lagoa Santa

Lund estivera pela primeira vez no Brasil entre 1825 e 1829. Nesta primeira viagem, ele ficou principalmente no interior da província do Rio. Tratou de voltar em 1834, quando fez uma viagem que atravessou o Rio, São Paulo e Goiás, terminando em Minas. Em São Paulo, visitou a fábrica de ferro de São João de Ipanema, grande centro industrial da época. Esteve também na Vila de São Carlos, a atual Campinas, antes de partir para o cerrado dos Goiás.

Quando chegou a Minas, entretanto, Lund deixou-se ficar. Escolheu a pequena Lagoa Santa como seu ponto de apoio. Quando terminou suas escava√ß√Ķes, deixou-se ficar na pequena vila. Dizia a fam√≠lia que estava doente, e que temia retornar ao frio do inverno dinamarqu√™s. Arrumou mil desculpas. Foi ficando, ficando e ficou. Incorporou-se e foi incorporado √† pequena Lagoa Santa. Era, como vimos, um pacato e benquisto cidad√£o. No tempo em que ali viveu, Lund colocou a pequena vila no mapa da ci√™ncia.

Lund faleceu em 1880, aos 79 anos. Toda a população da pequena cidade seguiu o enterro. Em seu funeral a banda Santa Cecília tocou desde sua casa até o cemitério. O velho Lund havia deixado ordens em seu testamento que em seu enterro ninguém deveria chorar.

Peter Lund, o cientista

Peter Lund foi muito importante para a Paleontologia. Seus achados de animais consolidaram a questão das faunas de mamíferos pleistocênicos. Suas descobertas foram importantes para os debates sobre a teoria da evolução das espécies, embora Lund tenha permanecido sem criticar o catastrofismo de seu mestre Cuvier.

Os esqueletos humanos encontrados em lagoa Santa s√£o os mais antigos at√© hoje descobertos no continente americano. Lund, ao comparar os esqueletos humanos e a fauna pleistoc√™nico concluiu afirmativamente pela sua grande antiguidade. Era o famoso ‚Äúhomem de Lagoa Santa‚ÄĚ. No entanto, hoje mais famosa √© uma mulher. Foi nestas cavernas que foi encontrado, no inicio deste s√©culo, o esqueleto de Luzia. Trata-se do mais antigo esqueleto humano das Am√©ricas, descrito pela equipe do arque√≥logo Walter Neves.

A reconstrução do cranio chamado de Luzia: a mais antiga americana até hoje conhecida.

Lund tamb√©m se correspondeu com os cientistas brasileiros do Instituto Hist√≥rico e Geogr√°fico brasileiro. Embora nunca tivesse sa√≠do de Lagoa Santa, ele acabava por atrair diversos pesquisadores para a pequena vila. Seu mais ass√≠duo visitante foi JT Reinhardt, bot√Ęnico dinamarqu√™s, que fez importantes observa√ß√Ķes e descri√ß√Ķes das plantas do cerrado. Outro visitante ilustre foi outro bot√Ęnico, Eugene Warming.

O “Pai” da Paleontologia Brasileira?

Quando se pensou numa hist√≥ria das ci√™ncias geol√≥gicas no Brasil, o nome de Lund n√£o p√īde deixar de ser citado. Entretanto, os historiadores mais envolvidos com teorias positivistas resolveram simplificar:¬† Lund foi proclamado o ‚Äúpai‚ÄĚ da paleontologia brasileira.

A ci√™ncia n√£o tem pais. Nem m√£es. A ci√™ncia √© uma atividade da cultura humana com outra qualquer. Apesar de sua imensa contribui√ß√£o, Peter Lund n√£o √© nosso ‚Äúpai‚ÄĚ, na medida em que n√£o nos deixou ‚Äúfilhos‚ÄĚ. N√£o h√° uma tradi√ß√£o, uma maneira de pensar, uma sequ√™ncia de paleont√≥logos criados a partir de Peter Lund.

O homem de Lagoa Santa era tudo isso. Complexo e contraditorio. Um grande cientista que queria viver só e pacatamente no interior da Brasil. Em Minas Gerais, quem não quer?

Para saber mais:

Holten, Birgitte, and Michael Sterll. Peter Lund e as grutas com ossos em Lagoa Santa. Editora UFMG, 2011.