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Mulher, Paleontóloga. Entrevista com a Profa. Frésia

Primeiro post do ano e uma homenagem dupla!!  Dia 7 de março é o dia do paleontólogo e dia 8 é o dia da mulher. Nada melhor que conhecer melhor a carreira da Paleontóloga Dra. Frésia Soledad Ricardi Torres Branco, professora Livre-docente do Instituto de Geociências Unicamp.

A professora Fresia atua na UNICAMP desde 1998 e j√° formou cerca de 22 estudantes entre mestrado e doutorado. √Č chilena e fez mestrado e doutorado com paleobot√Ęnica, na USP. Mora no Brasil desde ent√£o…

Atualmente a professora está pesquisando na Universidade de Cardiff, País de Gales; então fizemos nossa entrevista via chat. Abaixo você confere nossa conversa.

Fr√©sia: Qual a sua pergunta ‚Äún√ļmero um‚ÄĚ?

Carolina: Como foi que você decidiu ser paleontóloga?

Fr√©sia: Eu escrevi um post acerca disso. Ele se chama ‚ÄúMeu primeiro f√≥ssil, o pai de todos‚ÄĚ; mas, resumidamente, foi meu pai que me deu de presente um n√≥dulo do Cret√°ceo da Col√īmbia com um amonita dentro.

Carolina: ah sim, aquele sobre o amonita…

Fr√©sia: Isso com o amonita, √© um molde externo. A√≠ eu gostei e decidi ser paleont√≥loga. Isso foi quando eu tinha uns 16 anos. Tenho ele em casa at√© hoje. Trouxe da Venezuela para o Brasil. Ali√°s ele foi da Col√īmbia para Venezuela e depois para o Brasil.

Carolina: √Č um f√≥ssil viajado!

 Frésia: Isso mesmo, viajou pelos Cretáceos da América do Sul!

Carolina: depois que ganhou ele, já sabia como se tornar paleontóloga? seus pais sabiam?

Frésia: Não tinha a menor ideia. Aí meu pai me falou que devia ser estudando geologia. Mas não tinha geologia não universidade de Merida, onde morávamos. Minha mãe ficou brava pois teria que ir embora para outra cidade para estudar; como ela não queria isso, me aconselhou a estudar geografia. Aí eu prestei para geografia.

Carolina: então você morou com eles na graduação?

Frésia: Claro. Nunca que eu iria morar longe de casa com 17 anos na Venezuela, e menos ainda em Caracas. Caracas eles tenham um pouco de medo, pois não era como o Chile.

Carolina: Entendi. E no seu curso de geografia, tinha sedimentologia e paleonto?

Fr√©sia em sua inf√Ęncia

Fr√©sia: N√£o tinha. Mas ent√£o quando eu estava no quarto ano abriu a geologia como gradua√ß√£o. Eu cursei paleo, sedimento, estrati, tect√īnica, geo hist√≥rica, campo 1 , e geo geral na geologia. Mas a√≠ queria me formar … Pois j√° estava h√° 6 anos na gradua√ß√£o… E peguei umas greves grandes de professores tamb√©m

Carolina: Ah certo. Tinha muitas mulheres cursando geografia ou geologia com você?

Frésia: Geografia tinha, mas geologia tenha umas 5 só. Quase todos eram homens. Foi aí que conheci o professor de paleo que me convidou a trabalhar com ele. O Dr Oscar Odrenan.

Carolina: Você sentiu algum tipo de preconceito por ser mulher ali?

Fr√©sia: N√£o era legal. Fui muito paparicada. Enfim, n√£o senti na gradua√ß√£o, n√£o.¬†O Dr. Odrenan era especialista em mam√≠feros da Argentina.¬†Mas trabalha como ge√≥logo de campo na Venezuela e dava aula de Paleo.¬†A√≠ ele me deu a escolher o que eu preferia invertebrados, plantas etc…

Carolina: Ele que te incentivou para ficar na carreira acadêmica?

Fr√©sia: Ele sim. E os meus pais, que eram professores universit√°rios. Bom, a√≠ eu escolhi as plantas porque podia ter ajuda dos meus amigos da Bot√Ęnica. O Dr. Odrenan me passou um tema com uma flora do Mioceno.

Carolina: Seus pais eram bot√Ęnicos, √© isso mesmo?

Fr√©sia: Isso eles eram bot√Ęnicos e eu tinha muitos amigos l√° da minha idade, entre os alunos dele. Ent√£o eu foi estudar bot√Ęnica por uns 2 anos fiz v√°rios cursos por l√°.

Carolina: E depois, foi logo que decidiu vir pro Brasil?

Fr√©sia: N√£o. Eu conheci um palin√≥logo holand√™s. Ele me convidou a ir para Amsterdam e fazer doutorado com ele com a minhas folhas f√≥sseis do Mioceno. Mas n√£o dava para eu ir fazer porque n√£o tinha mestrado nem publica√ß√Ķes. Ele me falou para eu fazer um mestrado e depois ir para Amsterdam com ele e sa√≠ procurando um mestrado para mim. Mas n√£o deu certo, em curto prazo. Em seguida eu fui para um congresso de bot√Ęnica Sul Americano em Havana. L√° eu vi uma palestra do Dr. Oscar Rosler, da USP. Gostei dele e da palestra e perguntei se ele poderia me orientar no mestrado. Ele topou. Ai o Dr. Odrenan me passou uns f√≥sseis de plantas do Permiano. Ent√£o fui para o Brasil com 100 kg de f√≥sseis do Permiano da Venezuela para fazer mestrado na USP.

Campo no Cear√°, 2017.

Carolina: Nossa, como você trouxe isso para cá? de avião?

Fr√©sia: Ah sim, eram 2 malas, e 6 caixas de amostras. Mas quase n√£o paguei excesso de bagagem porque era para fazer um estudo. Tudo foi registrado na alfandega, levou umas 2 horas…

Carolina: ah, ent√£o foi mais tranquilo do que eu pensei.

Frésia: Bom, aí tinha pensado ir para Holanda quando acabasse o meu mestrado. Mas no segundo ano do mestrado conheci o Fábio (atual esposo) e acabei ficando no Brasil. Enfim a gente casou, e o Fábio não quis ir a morar na Venezuela. Entçao fiquei pra fazer o doutorado na USP. Estudei a mina de Carvão de Figueira-PR.

Carolina: Foi um desafio vir pra c√°? estudar no Brasil?

Frésia: Foi, quando eu vim para SP nunca antes tinha visto nenhuma fotografia da USP, e nem falava português. Foi uma aventura total.

Carolina: Mas chegou a pensar em voltar pra casa em algum momento? Desisitir?

Frésia: Meus pais tinham me enviado uma passagem de ida e volta de um mês, para o caso de eu não gostar. Eu não tinha que dar conta do recado. Mas se voltasse, iria voltar para casa e ficar na mesma, vendo a vida passar pela janela. Enfim, não foi muito fácil. Mas sobrevivi.

Carolina: Mas a paleo sempre foi sua paix√£o?

Frésia: Ah sim. Cada vez que olho um fóssil na lupa, sinto que estou fazendo o que mais gosto, e que não trocaria por nada.

Carolina: O que mais te fascina na sua carreira?

Fr√©sia: Poder descobrir como era essa evid√™ncia, onde morava, como morava… deixar voa a imagina√ß√£o com base nas evid√™ncias que voc√™ tem. Ir no campo e coletar as amostras. As possibilidades de conhecer coisas novas e pessoas diferentes.

Carolina: Tudo isso supera as dificuldades né?

Frésia: Claro. Já imaginou trabalhar a vida toda no mesmo lugar?

Carolina: Você diria que foram o amonita, seus pais e seu primeiro orientador que te inspiraram?

Frésia: Penso que sim, mas você tem que ter sua própria curiosidade, a sua inquietude interna por ir além. Se não todos os nossos alunos da paleo seriam paleontólogos. Seu olho tem que brilhar quando vê um fóssil novo.

Carolina: Certo! Quais s√£o, em sua opini√£o, as maiores dificuldades de se trabalhar com paleontologia?

Frésia: Na verdade para mim a parte mais difícil começou depois que me tornei professora. Eu dava umas palestras como aula e depois em 2000 abriu o concurso que passei, para trabalhar por 12 h. Aí passou para 20 h. Mas eu era a que mais dava aula no IG.

Carolina: Era difícil porque eram muitas aulas?

Frésia: Não a parte mais complicada é que quando você é doutoranda você tem muitos amigos e os professores são amigos. Mas depois que você é doutor e tem emprego, já não é mais aluno; então se torna colega ou concorrente. Aí a coisa fica muito tensa. Pois as pessoas não sabem ter colegas. E aí começam a ficar estranhos. E mesmo pessoas que você gostava antes, passam a brigar com você. E você vai ficando sozinho se quiser ser livre e pensar como quiser e pesquisar como quiser e quando quiser. E não tem nada a ver com ser homem ou mulher. Mas a gente sobrevive e vai para frente. Depois tem seus colegas. Que fazem a coisa certa, no tema certo, no mundo certo. E você não. Porque não é tudo mundo que é igual, nem tem a mesma história, nem a mesma cabeça. Então a parte mais difícil é quando você se torna um profissional.

Carolina: e tem que mostrar que tamb√©m √© uma cabe√ßa pensante, n√©? se impor, de alguma forma…

Fr√©sia: Mas com o tempo e depois que chora por um pouco… cansa de tudo isso e vai em frente. E continua a fazer o que voc√™ mais gosta, olhar os f√≥sseis n√©?

Carolina: e você já formou muitos alunos, não é mesmo?     isso não é gratificante?

Fr√©sia: √Č muito legal mas demora um pouquinho. Depois flui mais f√°cil…e voc√™ vai aprendendo com eles tamb√©m a respeitar os seus futuros colegas, pois um dia eles terminam e s√£o doutores. Voc√™ n√£o vai querer fazer igual que as pessoas que voc√™ acha que est√£o erradas. Penso que tem que somar e multiplicar. Nem sempre voc√™ vai ser a dona da verdade ou n√£o vai ter d√ļvidas.

Carolina: Sim, acho que isso faz parte do nosso desenvolvimento como professoras também né?

Fr√©sia: Como dizia meu pai, tem que dar um jeito e encontrar seu nicho ecol√≥gico. Ah claro, e o tempo passa e um dia fazem 15 anos que voc√™ √© professor, 20 anos que defendeu o doutorado, e quase 30 que saiu da gradua√ß√£o ….tic tac para tudo…

Carolina: E pra finalizar… qual sua opini√£o sobre o presente e o futuro das pesquisas cientificas no Brasil?

Frésia: Bom é só que todos temos que fazer o nosso melhor para sair adiante. Tentar fazer o melhor com o que você tem e construir para um futuro. Mas sempre há uma saída ..temos que aprender com o registro fossilífero.

Carolina: aprender com os fósseis?

Fr√©sia: Sim, veja o registro desde o Arqueano que tem extin√ß√£o, varia√ß√Ķes clim√°ticas, meteoros, etc etc e a vida sempre acha um caminho para seguir. √Äs vezes um grupinho de bichos …se salva e vai para frente. Claro se voc√™ tem o potencial para descobrir um. Ele n√£o vem de gra√ßa no seu colo. Ali√°s nada vem.

Carolina: Entendi. “sempre h√° um caminho” mesmo.

Frésia: Não precisa ser super valente, é só dar um passinho.

Carolina: Agradeço muito você ter compartilhado conosco uma parte de sua história! Parabéns por todo o sucesso e feliz dia da paleontóloga!