Holismo

Volta e meia aparece, principalmente em textos esotéricos, uma condenação da visão “reducionista”, “limitada” da realidade, em favor de uma visão “integral”, “holística” – e que cedo ou tarde leva aos florais de Bach e, em casos mais graves, ao mapa astral.

A principal idéia por trás da tal visão “integral” é que tudo está relacionado com tudo. O que é até verdade: o Efeito EPR, um fenômeno científico bem documentado, mostra que duas partículas subatômicas que tenham se encontrado uma vez podem continuar influenciando uma à outra, mesmo a distâncias enormes.

Fica a pergunta: e daí? Quer dizer que antes de comprar um carro é preciso levar em conta o ciclo de vida das bactérias marcianas? Gato preto dá azar? Fazer figa espanta mau olhado?

A constatação irrestrita de que tudo influencia tudo é a mãe das superstições. A percepção de que há de separar o relevante do desprezível em cada caso – reduzindo e limitando – dá origem à ciência.

Mas, e o Efeito EPR? Bom, ele se aplica a partículas muito, muito pequenas. Achar que é possível generalizá-lo automaticamente para estruturas feitas de bilhões e bilhões dessas partículas é mais ou menos como dizer que é impossível morar dentro de uma casa feita de tijolos, porque os tijolos são rígidos e sem espaço interno — logo, a casa também será.

E isso sim é que é um reducionismo estúpido.

(Diferentes tipos de reducionismo merecerão uma postagem à parte algum dia…)

Discussão - 7 comentários

  1. Patola disse:

    MUITO BOM!Meu amigo, cheguei até aqui por uma indicação de link na lista “sbcr” (Sociedade Brasileira de Céticos e Racionalistas). Devo dizer que seu blog é originalíssimo e conciso — tendo até muito a ver com uma idéia que venho cozinhando há algum tempo — e me tornei já um assinante do seu feed.Parabéns pelas considerações, pela argúcia e pela coragem em tratar desses assuntos. Você já leu algo de Steven Pinker ou Matt Ridley?

  2. Daniel disse:

    Sobre o “efeito EPR” (Einstein, Podolski, Rosen):se duas partículas estão num “estado emaranhado” (entangled state) então medições realizadas em uma das partículas podem gerar (instantaneamente) uma mudança de estado na outra partícula, não importando o quão grande seja a distância entre as duas partículas. Esse é o chamado “efeito de ação à distância”. Isso realmente existe!Em princípio, o efeito de ação à distância pode ocorrer com objetos macroscópicos, mas isso não implica coisas estranhas tais como o movimento do planeta Júpiter influenciar minha personalidade.O ponto fundamental é que o efeito de ação à distância não permite a transmissão de mensagens à distância!Vejam:http://users.skynet.be/radoux/textes/quantique.pdfpgs. 15, 16 (infelizmente a referência está em francês).

  3. Patola disse:

    daniel, pode explicar melhor? Por que o efeito de ação à distância não possibilitaria enviar mensagens à distância instantaneamente? Eu procurei ler o paper – sei algum francês – e também traduzir com o google, mas não deu pra captar bem o sentido.

  4. Daniel disse:

    A impossibilidade de transmissão de mensagens através do efeito de ação à distância previsto pela Mecânica Quântica é a tese de um teorema normalmente atribuído ao físico Philippe Eberhard (eu não estudei a demonstração do teorema, mas pelo que ouvi dizer ela não é complicada).Vou apresentar uma breve explicação de como funciona esse efeito de ação à distância. A situação de mais fácil compreensão na qual esse efeito aparece envolve uma grandeza chamada spin. Não é particularmente importante para essa discussão compreender a fundo o que seja o spin de uma partícula. É importante apenas saber o seguinte: o spin de uma partícula elementar é um número inteiro ou semi-inteiro (semi-inteiro significa “metade de um inteiro”); por exemplo, o spin de um elétron é 1/2, de um fóton é zero. Se uma partícula possui spin s e medimos seu spin ao longo de um determinado eixo, podemos obter resultado s ou -s (essas possibilidades são chamadas normalmente spin up e spin down). Assim, por exemplo, se medimos o spin de um elétron ao longo de um certo eixo podemos obter resultado 1/2 (spin up) ou -1/2 (spin down).[observação: um eixo é uma reta orientada, isto é, uma reta onde foi escolhido um sentido de percurso (lembram dos eixos x, y das aulas de geometria analítica?). O spin de uma partícula é uma espécie de momento angular intrínseco da mesma; se uma imagem mental for útil para acompanhar a discussão, pensem numa bolinha girando em torno de um eixo e as opções up, down como sendo horário e anti-horário.]Antes de chegarmos à ação à distância propriamente dita, precisamos de duas partículas cujos spins estão em estados emaranhados (entangled states; a compreensão exata do que isso significa depende de uma certa compreensão do formalismo matemático da Mecânica Quântica). Por exemplo, se um elétron e um pósitron (ambos possuem spin 1/2) são produzidos pela desintegração de uma partícula de spin zero, então os spins desse elétron e desse pósitron ficam emaranhados. Isso significa o seguinte (no que segue, assumo que um certo eixo para medição de spin foi escolhido de uma vez por todas): se medimos o spin do elétron e obtemos up então com certeza obteremos down ao medir o spin do pósitron; analogamente, se medimos o spin do elétron e obtemos down então com certeza obteremos up ao medir o spin do pósitron. No entanto, antes da medição não é possível saber o spin do elétron (ou do pósitron): se repetimos esse experimento (de geração do par de partículas) um número muito grande de vezes, aproximadamente metade dos elétrons será spin up e a outra metade spin down.Agora, imagine que o elétron fica aqui na Terra e que o pósitron é levado para Júpiter (tomando cuidado para não estragar o emaranhamento de spins; isso poderia ser praticamente impossível numa viagem tão longa, mas teoricamente seria possível). Suponha que fazemos esse experimento com, digamos, cinco pares elétron/pósitron. Se um indivíduo na Terra mede os spins dos cinco elétrons e obtém, por exemplo:up, up, down, up, down;então, com certeza, o físico fazendo medições do spin do pósitron lá em Júpiter obterá:down, down, up, down, up,isto é, justamente os spins opostos daqueles obtidos pelo físico fazendo medições na Terra.Se aceitamos a validade da interpretação da Mecânica Quântica na qual o elétron e o pósitron que aparecem nesses experimentos não possuem spin definido até que o mesmo seja medido (e que não há nenhuma “variável escondida” no elétron e no pósitron que determine seus spins antes da medição) então somos obrigados a concluir que houve uma ação à distância: antes que a medição fosse realizada, nem o elétron nem o pósitron tinham spin definido e quando o físico na Terra mediu o spin do elétron e obteve up causou uma mudança instantânea no estado do pósitron fazendo com que o mesmo tivesse spin down.Mas e se as tais variáveis escondidas existirem? Se houvesse alguma espécie de marcador no elétron dizendo “seu spin será up após a medição”? Nesse caso, a perfeita correlação negativa entre as medições de spin na Terra e em Júpiter poderia ser explicada sem nenhum tipo de ação à distância. O fenômeno seria completamente banal: no momento da criação do par, o elétron ganha um marcador “seu spin será up”, o pósitron ganha um marcador “seu spin será down”, o pósitron viaja para Júpiter carregando esse marcador e o resultado up/down é simplesmente extraído do marcador no momento da medição, sem que nenhuma interação entre elétron e pósitron fosse necessária.No entanto, um teorema devido ao físico John Bell mostra que não podemos nos livrar da ação à distância tão facilmente. Note que até agora falamos apenas sobre medições de spin relativamente a um certo eixo fixado. E se os físicos na Terra e em Júpiter usassem eixos diferentes para medir spin? Bell mostrou que, assumindo a ausência de ação à distância, as correlações entre medições de spin com respeito a vários eixos diferentes deveriam satisfazer certas desigualdades (conhecidas como desigualdades de Bell); ocorre que a Mecânica Quântica prevê (e a experiência confirma) que as verdadeiras correlações entre medições de spin em eixos diferentes não satisfazem as desigualdades de Bell. Parece então que não podemos escapar da ação à distância.[observação: na verdade, há controvérsias entre os físicos sobre se realmente não podemos escapar da ação à distância. Minha impressão é de que para escaparmos da ação à distância precisaríamos acreditar em algumas possibilidades muito mais estranhas do que a própria ação à distância.]Voltemos (para facilitar a discussão) à situação em que os dois físicos medem spins usando o mesmo eixo. Como seria possível usar o emaranhamento de spins para enviar mensagens da Terra para Júpiter? Não seria. Sempre que o físico na Terra mede up, o físico em Júpiter mede down, mas o físico na Terra não pode forçar o resultado da sua medição a ser up (o que o permitiria enviar a mensagen “down” para o físico em Júpiter). O físico na Terra não escolhe o resultado da medição de spin. Na verdade, nenhum dos dois físicos será capaz de detectar que alguma ação à distância esteja ocorrendo, a menos que se encontrem (ou se comuniquem por um método convencional) para comparar o resultado de suas medições (aí eles notariam a perfeita correlação negativa entre seus resultados e entenderiam o que aconteceu).

  5. Patola disse:

    daniel.UAU! Uma das melhores explicações que já li até hoje sobre isso, parabéns. Didática e compreensível. Eu sou formado em engenharia de computação, e muito do que você diz aí eu já sabia (a gente tem essa matéria na engenharia, assim como física relativista). Inclusive há duas semanas atrás eu havia acabado justamente de ler o livro “Imposturas Científicas em Dez Lições”, que esmiúça essa parte da desigualdade de Bell e a prova de que não há variáveis escondidas. No entanto, tudo parece depender apenas de uma coisa: a possibilidade de, uma vez auferido o spin do elétron emaranhado de um par, conseguir mudá-lo. Isso é mesmo impossível? Há alguma prova da impossibilidade física de realizar isso ou é apenas algo logístico, com a tecnologia atual?Essa parte me interessa muito pois ela parece que levaria a situações interessantes – que bateriam inclusive com a Teoria da Informação e a Relatividade Geral.

  6. Daniel disse:

    Antes de mais nada, uma errata: eu disse que fótons têm spin zero, mas na verdade eles têm spin 1 (mas isso é totalmente irrelevante para o resto do post).Eu sou Matemático (profissional) e minha compreensão de Física está longe de ser espetacular (mas já me interessei um pouco pelos Fundamentos da Mecânica Quântica e li alguns livros e artigos a respeito).Agora que sei que você (patola) possui formação em engenharia, vou usar jargão matemático com um pouco mais de liberdade.A demonstração das desigualdades de Bell é mais ou menos assim: imaginamos uma “variável escondida” lambda (que varia em algum espaço de probabilidade, pois depende “aleatoriamente” do elétron escolhido) tal que o spin do elétron é dado por uma função s(n,lambda), onde n é um vetor unitário (que representa o eixo em relação ao qual o spin vai ser medido); para simplificar a discussão, no que segue, vou “normalizar” o spin, pensando que seu valor é 1 ou -1 (em vez de 1/2 ou -1/2; obviamente é só o sinal que importa aqui). Seja:s'(n,lambda) = -s(n,lambda)o spin do pósitron. Agora, adicionamos uma hipótese de localidade, isto é, a hipótese de que o processo de medição do spin do elétron não interfere (ao menos não instantaneamente) com o spin do pósitron. A partir daí, deduções elementares (usando essencialmente só Matemática do colegial) nos levam à desigualdade (de Bell):|P(m,n) – P(m,u)| onde P(v,w) denota a covariância entre s(v,lambda) e s'(w,lambda). Agora, a Mecânica Quântica prevê (e a experiência confirma) que P(v,w)=-v.w (v.w é o produto escalar de v por w). É fácil ver que esse resultado é incompatível com a desigualdade de Bell e logo…… logo o que?Algumas pessoas pensam “logo não há variáveis escondidas”. Mas essa conclusão não está correta. A dedução das desigualdades de Bell envolve duas hipóteses: a variável escondida lambda e a localicade. A conclusão correta seria então: ou não há variável escondida, ou não temos localidade.O problema é que se não há variável escondida então a localidade fica comprometida de qualquer forma: se o spin do elétron e do pósitron já não estavam determinados (por um marcador escondido) no momento em que o par foi criado e se o spin só passa a existir no momento da medição então só podemos concluir que o spin do pósitron foi alterado à distância pelo processo de medição do spin do elétron (senão, como explicar a perfeita correlação negativa entre as medições de spin do elétron e do pósitron quando os eixos para medição de spin são os mesmos?).Parece que a conclusão da qual não podemos escapar é: não há localidade.[na verdade há um jeito de escapar da não localidade, mas ele é muito estranho: no nosso raciocínio, assumimos que os físicos na Terra e em Júpiter são livres para posicionar os eixos dos seus medidores de spin da forma que quiserem. Mas e se de alguma forma a vontade desses físicos estiver ligada ao estado das partículas? Essa é uma idéia muito estranha que o físico Jean Bricmont chamou de hiper-determinismo naquele artigo em francês.]

  7. Daniel disse:

    No entanto, tudo parece depender apenas de uma coisa: a possibilidade de, uma vez auferido o spin do elétron emaranhado de um par, conseguir mudá-lo. Isso é mesmo impossível?“Não sei se entendo exatamente o que você está perguntando, mas nessa frase você parece estar se referindo à hipótese de localidade que aparece na dedução das desigualdades de Bell.Note que a ausência de localidade é algo muito estranho, pois segundo a Teoria da Relatividade Especial, se dois pontos do espaço A, B estão a uma distância de, digamos, x anos luz então qualquer coisa que fazemos em A só pode ter uma influência em B após x anos. Não deveria ser possível alterar instantaneamente qualquer coisa que seja no estado de algo localizado em B a partir de uma ação realizada em A.Para ser mais preciso: seja E um evento que ocorreu na posição A (num certo instante) e F um evento que ocorreu na posição B (em algum outro instante). Se um observador (inercial) mede a distância entre A e B como sendo x anos luz e o intervalo de tempo entre E e F como sendo menor do que x anos então, usando a transformação de Lorentz, podemos mostrar que existe um outro observador (inercial) que vê os eventos E e F na ordem oposta do que o primeiro observador os vê. Assim, se o evento E fosse a causa do evento F, teríamos um observador que vê o efeito (em F) antes da causa (em E)!Mas e a não localidade da qual aparentemente não podemos escapar naquele experimento de medições de spins emaranhados? Pois é, a situação é complicada. Felizmente, a impossibilidade de usar essa não localidade para construir um “telefone instantâneo” entre Terra e Júpiter ameniza os problemas (se esse “telefone instantâneo” existisse, haveria algum observador inercial que vê um físico dizendo “tudo bem” antes que o outro físico perguntasse “como vai?”).Veja que o formalismo matemático da Mecânica Quântica não é mesmo compatível com o formalismo matemático da Relatividade Especial. Eu gostaria de estudar o problema da não localidade no formalismo da Teoria Quântica de Campos (que, até onde sei, é compatível — ou ao menos mais compatível — com a Relatividade Especial). Mas eu nunca estudei Teoria Quântica dos Campos (isso está na minha lista de coisas para fazer em breve).

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