As probabilidades da santidade

Outubro é um mês especialmente rico em festas religiosas, como o Sírio Círio de Nazaré e a festa de Aparecida.  Além disso, o noticiário dá conta de que Bento XVI proclamou quatro novos santos no domingo.
Geralmente a mídia faz muita arrelia em torno do fato de que são necessários dois milagres para uma canonização, mas é difícil encontrar uma análise crítica do que isso significa.
Em linhas gerais, um “milagre”, nesse sentido, é um evento médico “inexplicável” — como uma cura ou uma gravidez — ocorrido em benefício de alguém que tenha rezado fervorosamente para o candidato a santo (ou, o que dá quase no mesmo, que tenha sido alvo de orações de devotos fervorosos do candidato a santo).
À parte o que há de subjetivo na definição de “inexplicável”, essa questão das orações transforma a beatificação/canonização de alguém numa mera questão de popularidade e probabilidade: se o candidato é popular o suficiente, multidões dirigirão suas orações a ele; quanto maior a multidão, maior a chance de, por puro acaso, alguém receber uma “graça milagrosa”, seja a remissão espontânea de um câncer ou uma gravidez após seguidos diagnósticos contrários.
Seria interessante, até, fazer um experimento controlado nesse sentido: inventar um santo historicamente impossível (Santo Onitrec, o missionário inca que caiu numa dobra espaço-temporal e pregou o Evangelho aos Neandertais da Península Ibérica) e começar a pedir às pessoas que rezem para ele em momentos de aflição.
Quantos voluntários serão necessários para surgir a primeira graça? Eu chutaria algo em torno de 100, mas é só um palpite.

Discussão - 14 comentários

  1. Paula disse:

    Até onde eu sabia, os milagres não precisam apenas estar relacionados à medicina, mas a outros perrengues tb. Por exemplo, minha madrinha mandou para o Vaticano um extenso relatório sobre um milagre acontecido sobre a recuperação de uma batina do papa João XXIII. E o milagre seria obra do próprio João XXIII, que precisa de mais um milagre só para ser santificado.

  2. Igor Santos disse:

    Pois é.
    Tem o milagre de São José, que sempre faz chover no seu dia. Ou no dia imediatamente anterior ou posterior. Com uma folga de uma semana para mais ou para menos. Ou não, se não tiverem rezado o suficiente.

  3. André disse:

    nao querendo criticar…mas é Círio com C nao com S

  4. cretinas disse:

    Ops! Verdade… Cochilei feio nessa. Correção a caminho.

  5. Carlos Magno disse:

    Cretinas:
    Pois é. Há santos que tem bons históricos milagreiros, outros históricos politiqueiros; hoje há países de fervor católico precisando ter seus próprios símbolos canonizados. Questões de idiossincrasias, digamos.
    Isso são as manobras dos poderes religiosos. Mas as ciências têm também seus papas, santos e seu Deus!
    Nessa linha, realcemos os serviços científicos-eclesiástícos do Hubble, a serviço do grande Deus-Máquina, o reverenciadíssimo, adoradíssimo e babadíssimo GRANDE COLISOR DE HÁDRONS!
    O Hubble desempenhou muito bem o papel de anunciador do grande Senhor, mostrando seus próprios milagrinhos ao desnudar uma série de premissas falsas colecionadas pelas ciências. Foi o precurssor do Rei!
    Vê-se que em tudo e por tudo, passados milhões de anos, o homem continua o mesmo. Há de bastar-se sempre ao imponderável, ao mistério, ao enigma! Unicamente muda o foco de sua atenção, mas se mantém fiel ao instinto!
    Ô Racinha!

  6. cretinas disse:

    Ei, isso facilita o experimento…

  7. João Carlos disse:

    (Não que faça diferença para o conteúdo, mas é “Círio” – vela grande – e não “Sírio” – natural da Síria… 😛 )
    Senão vejamos: o religioso aqui define “milagre” como um evento (de preferência uma seqüência de eventos) de baixíssima probabilidade, ou cujo “mecanismo” ainda não foi compreendido (aí inclusas todas as variantes do “efeito placebo”).
    Quanto à “mediação” deste ou daquele “Santo” ou seja qual for a “divindade” ou “semi-divindade”, é uma questão em aberto… Não precisa criar um “Santo Onitrec”… Já “existe” o popularíssimo São Jorge, cuja existência histórica é quase que comprovadamente falsa. Isso sem contar uma pletora de “Santos” tradicionais que só são “santos” porque um Papa qualquer disse que eles eram…
    Eu adoro citar H. L. Mencken: “A fé é a crença ilógica na ocorrência do improvável”. Note bem que ele foi extremamente cuidadoso em usar a palavra “improvável”, não “impossível”.
    Com toda a minha credulidade, se você me contar que viu água indo de morro acima, o máximo que eu vou aceitar é que estava ventando uma barbaridade… 😉 Me mostre um “milagre” que seja uma flagrante contradição das Leis da Natureza e eu lhe direi: “é uma fraude!…”
    Não dá para acreditar em um “Criador(a)” que tenha feito um universo desse tamanho, com regras tão “universais”, e fique quebrando essas regras só para extasiar os caipiras de um planetinha insignificante que orbita uma estrela de quinta, na periferia de uma galáxia medíocre…
    Mas muitos “sábios”, do alto de sua “sapiência científica”, já disseram asneiras sesquipedais sobre o que é “possível” e “impossível”… 😛

  8. cretinas disse:

    Pô, um leitor notar o erro crasso que a gente deixa passar logo na primeira linha é compreensível, agora, dois, é uma conspiração! 🙂
    E você está certo: a definição do Mencken é perfeita.

  9. Igor Santos disse:

    Não se pode falar de religião sem dar uma cutucada na ciência e suas similaridades!!!
    (punho cerrado agitando-se ao ar)
    Pode indicar uma premissa falsa ou está muito ocupado espumando de raiva?

  10. Patola disse:

    [quote]Vê-se que em tudo e por tudo, passados milhões de anos, o homem continua o mesmo[/quote]
    Nah. Nossa espécie não existe há milhões de anos. Muito menos continua “o mesmo”… Houve bastante evolução (não necessariamente progresso).

  11. Carlos Magno disse:

    Patola:
    Você continua com o brilhantismo de sempre.
    Quantos anos você acha que a humanidade carrega sobre os ombros?

  12. Carlos Magno disse:

    Pois é Igor:
    Concordo com você, mas ao inverso.
    Quão tedioso seriam os comentários sobre ciências se de permeio não provocassem as religiões…
    Poderia me dizer por que as religiões e o esoterismo incomodam tanto os comentaristas de blogs sobre ciências?
    Ou ao contrário, não incomodam tanto, mas falar mal dá IBOPE?
    Cá pra nós, somente falar de teorias científicas, inventos, teoremas e a mesmisse do darwinismo é chatérrimo mesmo!

  13. Igor Santos disse:

    É chato mais é dinâmico.
    Melhor que ser só chato.

  14. Igor Santos disse:

    …chato MAS é dinâmico…
    Foi mal, geralmente eu escrevo com mais atenção…

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