Ontologia Van Halen

Correndo o risco de denunciar minha idade provecta, confesso que sinto uma certa nostalgia pelo Van Halen, tanto nas na formações com David Lee Roth e Sammy Hagar.  Qual não foi, portanto, minha alegria — e surpresa — ao me dar conta de que as letras do grupo levantam importantes questões filosóficas.
Já parou de rir? Obrigado. Estou falando sério: importantes questões filosóficas.
Por exemplo, o profundo refrão de Why Can’t This be Love, que diz: It’s got what it takes/So tell me why can’t this be love?  (“Isto tem tudo o que é necessário/Então, diga-me, por que não poderia ser amor?”).
Trata-se de uma questão fundamental da ontologia, ou o estudo do ser, da essêcia das coisas: como é possível que uma coisa que preenche todos os requisitos da definição de “X” deixe de ser “X”?
A resposta óbvia é que, bom, oras, não é possível. Se “ser X” é equivalente a “ter todas as propriedades de X”, então if it got wha it takesit’s love. Esta é, aliás, a definição de “identidade” dada pela Lei de  Leibnitz: A e B são iguais se A tiver as mesmas propriedades que B, e vice-versa.
Mas isso gera alguns problemas. Imagine que eu estou segurando dois quadrados de papel, exatamente do mesmo tamanho, peso, feitos com o mesmo tipo de papel, exatamente da mesma cor. Eles são iguais? Segundo a definição de Leibnitz, não,  porque um deles está na minha mão direita, e o outro, na esquerda: Essa propriedade, localização, é diferente. É por essas e outras que a geometria nunca fala em figuras “iguais”, e sim em figuras “congruentes”.
O caldo fica ainda mais espesso quando levamos a metafísica em consideração. Pense em duas hóstias, produzidas por ma mesma máquina, com a mesma farinha, mas uma delas consagrada e a outra, não: ambas têm todas as propriedades físicas, químicas e de aparência em comum. Mas, para um católico, uma delas é um biscoitinho e a outra, um naco da carne de Jesus.
Mais difícil que saber se uma coisa tem “o que é necessário” é descobrir, afinal, o que é necessário.

Discussão - 2 comentários

  1. Patola disse:

    Isso tem a ver não só com identidade mas com categoria (assunto que o Steven Pinker trata muito bem em “Words and Rules”). O que é necessário pra algo ser da categoria “cadeira”? Ter pernas, encosto e o assento. Mas um banquinho é uma “cadeira” e não tem assento. O banco de automóvel não tem pernas e é uma cadeira. Existem dois “tipos” de categoria que usamos na nossa mente… E uma identidade é apenas uma categoria super-específica.
    A sacada do Pinker foi notar como isso é utilizado na linguagem! 🙂

  2. cretinas disse:

    Save que essa distinção me ocorreu depois que eu tinha publicado a póstagem? Uma espécie de “espectro de identidades”, que vai dos indistinguíveis de Leibnitz ao pertencimento a um conjunto (ou, ser uma “instância”, ou “exemplo” de um conjunto).

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