O fetiche da certeza

De quantas coisas você tem certeza? Digo, certeza mesmo, certeza matemática, certeza do mesmo tipo da que garante que existem infinitos números primos, ou de que, dada uma fileira de copos com um nível de água diferente em cada um, é sempre possível organizá-la do mais cheio para o mais vazio, ou vice-versa?
Não é preciso pensar muito para concluir que há pouquíssimas certezas desse tipo disponíveis, no dia a dia, para a mente humana — a menos que você seja um matemático profissional. Por exemplo, qual o grau de certeza que você pode ter de que está lendo este blog? Você pode estar sonhando com ele, por exemplo. Aliás, quanta certeza você pode ter de que você mesmo existe?
O fato de que existem muito poucos dados que são rigorosamente, logicamente demonstráveis na experiência humana provocou três reações exacerbadas distintas ao longo da história da filosofia: primeiro foi o chamado ceticismo clássico: é impossível haver conhecimento, logo duvide de tudo indiscriminadamente. A segunda, de Descartes, postula a existência de Deus como uma espécie de fiador da realidade tal como apreendida pelos sentidos, o que reduz toda pretensão de conhecimento a um ato de fé. A terceira é o que eu chamaria de postura New Age: se eu não tenho certeza e você não tem certeza, então estamos todos certos, a “minha verdade” não é melhor que a “sua verdade” e então vamos relaxar e levar a vida numa boa.
O problema com as reações exacerbadas é que elas são, ao fim e ao cabo, inoperantes (ou inoperáveis). Você não vai durar muito, por exemplo, se sempre que for atravessar a rua você duvidar da materialidade do caminhão que vem descendo a ladeira. A jogada cartesiana, por sua vez, é arbitrária demais, e a postura New Age não só destrói qualquer possibilidade de avanço do conhecimento (que depende do descarte de hipóteses erradas — algo que não existe nessa visão de mundo) e de discurso coerente.
Mas essas são as soluções exacerbadas. Existe uma solução moderada?
Sim: proporcionar a convicção à evidência. Isso não costuma pegar bem — muitas pessoas tendem a confundir a capacidade de uma pessoa de defender uma crença com firmeza com força de caráter ou, como diz o ditado, eu sou perseverante, você é teimoso, ele é um cabeça-dura — mas acaba sendo a única saída para a armadilha da “certeza absoluta” que, se exigida continuamente só pode gerar uma de duas respostas honestas: o vale-tudo ou o não-vale-nada.
Alguém poderia ficar em dúvida sobre como esse tipo de proporcionamento da convicção poderia ser usado numa base cotidiana. Afinal, como uma convicão parcial pode levar à ação?
Um guia interessante é a noção de graus de prova usada pelo judiciário nos EUA (não sei como é no Brasil… maldita cultura colonizada). Basicamente, a coisa vai de “há evidência de que”, “a evidência sugere que”, “a evidência preponderantemente indica que” e até “a evidência prova acima da dúvida razoável”.
Você não vai condenar um sujeito à morte por algo aquém de prova acima da dúvida razoável, mas “há evidência de que” pode muito bem justificar uma multa de trânsito.
Esse tipo de proporcionalidade pode parecer paralisante para o processo de tomada de decisões, mas não é. Paralisante é esperar a certeza inatingível e então agir com convicção mal embasada (porque apoiada numa certeza falsa) ou agir por palpite, porque é impossível saber o que seria melhor.

Discussão - 2 comentários

  1. Lux disse:

    Disso tudo!
    Tô rindo até agora da postura new age, onde todas as verdades estão corretas então vamos levar a vida numa boa
    🙂

  2. Kitagawa disse:

    O “penso logo existo” é irretocável. O fato de eu existir é a unica certeza. Quanto aos outros, poderiam ser apenas automatos que agem e falam como se existissem como eu existo, mas dentro deles pode não haver nada, ninguém. Claro, as evidencias são mais que claras, as outras pessoas são como eu sou, não estou sozinho. Certeza não há, mas com certeza há evidências muito fortes. Penso no dia em que uma máquina começar a agir e “pensar” como se ela existisse como nós existimos. Na prática, se houver evidências o bastante, teremos que considerar que ela existe, como nós existimos, como eu existo.

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