Paradoxo de sexta (28)

Primeiro, o da semana passada: o que distingue um gêmeo do outro, ao final do experimento, é o fato de que o que viajou no foguete experimentou acelerações, tanto na partida quanto ao fazer a volta para retornar à Terra e, por fim, ao frear para pousar a nave.
Um dado que omiti propositalmente do enunciado foi o de que o princípio da relatividade — de que dizer que “eu me movo em relação a você” equivale precisamente a dizer que “você se move em relação a mim” — só vale se o movimento em questão for retilíneo e uniforme (na verdade, a Relatividade Geral complica um pouco isso, mas a questão não vem ao caso nesta situação específica).
A partir do instante em que um dos membros do par em movimento sofre uma aceleração e o outro não, a simetria é quebrada, e é perfeitamente possível para um observador qualquer — seja um dos componentes do par, seja um observador externo — dizer exatamente quem acelerou, por quanto tempo e com que intensidade.
Meu exemplo favorito para isso é o do balde. Imagine uma caixa fechada, contendo um balde com água e uma webcam. Você, em sua casa, recebe a imagem gerada pela câmera: o que vê é a superfície plácida da água dentro do balde (a câmera é uma daquelas de visão noturna).
Você supõe que a caixa com o balde dentro está parada, mas não há como afirmar isso com certeza. Não há nada que a câmera lhe mostre que permita distinguir a caixa parada de uma caixa montada sobre rodas, puxada por uma corda sobe uma superfície plana, a uma velocidade constante.
Mas se a caixa sofrer uma aceleração — for erguida, derrubada, receber um empurrão ou um puxão mais forte, girar — a água vai denunciar o efeito imediatamente.
Agora, o desta semana: é o Paradoxo do Prefácio (o link é para o paper original que descreve o problema). Ele é assim: muitos autores de livros de não-ficção costumam escrever no prefácio de seus livros coisas do tipo “todos os erros contidos nesta obra são de minha inteira responsabilidade”, ou “esta obra certamente conterá diversos erros e imprecisões…”.
Agora, como pode o autor realmente acreditar que o livro contém erros? Ele obviamente não pôs nenhum erro deliberado ali. Ele certamente pesquisou o assunto a fundo. SE você abrir o livro ao acaso, apontar para um parágrafo e perguntar ao autor “isto aqui está certo”, ele vai responder, “sim”. Você pode repetir a operação tantas vezes quantas forem necessárias até esgotar todo o conteúdo do livro, e verá que o autor, na verdade, acredita que tudo o que escreveu está certo.
No entanto, a experiência indica que a afirmação do prefácio é verdadeira. Livros de não-ficção recebem resenhas e críticas que, geralmente, acabam produzindo novas edições corrigidas. Assim, da mesma forma que o autor tem motivos para acreditar que tudo que está no livro é verdade — afinal, ele pesquisou o assunto e, ao publicar a obra, está apostando sua reputação nisso — ele também tem motivos para acreditar que o livro precisará ser corrigido no futuro. São crenças contraditórias, mas ambas racionais e bem embasadas!

Discussão - 1 comentário

  1. elvis disse:

    Dizer que uma obra “certamente conterá erros” é forçar um pouco a barra. O autor está fazendo um jogo de palavras pra dizer que existe a possibilidade de alguma evidência ou previsão estar equivocada, ou que apesar de todo esforço de pesquisa sempre ficam alguns pontos fracos.
    Acho mais plausível pensar que ele não acredita realmente no que escreveu no prefácio, mas não é inconsequente ao ponto de excluir a possibilidade e toma a precaução de deixar essa porta aberta. Mas não tem nenhuma crença contraditória. Mesmo que todo o livro se confirme tempos depois ele não fará uma correção ao prefácio (até porque sempre vai poder surgir algum exemplo contraditório ou nova evidência que mude a interpretação dos fatos no futuro).
    Ou ainda, se quisermos tomar ao pé da letra a expressão de que “certamente haverá erros e imprecisões”, podemos pensar que o que o autor está fazendo é não uma reflexão sobre o próprio trabalho, mas sobre a história da ciência, e afirmando com isso que todo estudo, em algum momento, será corrigido por um novo dado/evidência. Mas aí já acho exagero, prefiro a confusão linguística.

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