Meu gato está morrendo

Enquanto escrevo, a gata vira-lata (com um certo jeito de siamesa) que mora comigo há 17 anos agoniza no tapete da sala, embrulhada em uma manta xadrez. Estou esperando o veterinário para avaliar a situação e discutir opções, mas não tenho muitas dúvidas quanto a qual será a decisão final.
Não sei se gata, a esta altura, sente dor: ela parece inconsciente, mas apresenta pequenos espasmos nas patas dianteiras e no pescoço. Seria dificuldade para respirar?
Ao mesmo tempo em que me vejo pensando na questão da mente dos animais irracionais — até que ponto eles sentem (dor, amor, saudade, ódio)? até que ponto o modo deles de sentir é comensurável com o nosso? — penso também nas decisões que tomei pela gata: trazê-la ao apartamento, tirando-a do jardim da casa onde morei até 2000; não teria sido melhor para ela ficar por lá, com árvores e passarinhos? Mas ela teria vivido tanto na rua, com o risco constante de atropelamento, do cachorro do vizinho?
Eu tinha o direito de decidir por ela? E se não tivesse, como consultá-la? Faz sentido falar nisso? Ela não é, ao fim e ao cabo, apenas um autômato orgânico, programado pelos instintos para reagir às condições ambientais? Mas, até aí, não somos todos?
Penso também, claro, na decisão que vou tomar daqui a pouco. Esta, pelo menos, será fácil: só o que me incomoda é a demora do veterinário em chegar. Como já disse alguém, guardamos para nossos animais de estimação uma misericórdia que negamos a nós mesmos.

Discussão - 7 comentários

  1. João Carlos disse:

    Mais solidariedade do que consolo: já me morreram nos braços seis cães… E quanto ao “decidir por ela”, você desempenhou o papel que as condições climáticas, sísmicas, etc, desempenham para os animais selvagens: algo que “faz parte do ambiente”. Animais não questionam o ambiente.

  2. maria disse:

    a gente também decide sobre o destino de filhos pequenos, que também não têm como decidir por conta própria.
    não há como saber muito sobre a consciência deles, mas não tenho a menor dúvida de que o universo afetivo é central na vida de um bicho doméstico. o acesso à rua deixa de ser importante se tem que vir junto com abandono.

  3. Juliana disse:

    Estava pensando sobre isso nesses dias…sobre porque apreciamos tanto a companhia de outras espécies. E então começam a surgir uma série de perguntas (tenho um casal de gatos): será que eles gostam de viver aqui? Será que são felizes? Será que gostam de mim ou ao menos percebem que gosto deles?
    A total falta de capacidade de compreensão entre nossas linguagens (humana e felina) faz com que essa relação se torne ainda mais interessantes. Gosto deles. E pronto. Sem maiores reflexões e porquês tão entediantes que perturbam os humanos.
    Sei que tenho que me preparar em relação a longevidade dos meus gatos. Boa sorte para você e sua gata.

  4. Chloe disse:

    olá…
    interessante como essas coisas aproximam as pessoas…
    tenho certeza de que todos que algum dia tiveram um animal de estimação e passarem por este post, farão idéia de como vc está se sentindo e, ainda que não escrevam nada, por alguns instantes serão solidários.
    esses momentos nunca são fáceis, mas são compensados pela alegria que os animais nos trazem.
    ( )’s.
    C.

  5. glenn disse:

    a principal diferença do homem com outros animais não é de jeito nenhum a inteligência, mas a moral…

  6. Pierre disse:

    Em quanto tempo conseguiria aprender a se comunicar com gatos e perguntar a ela o que ela quer?
    Sim, eles exalam feromônios, emitem sons, vocalizações e tem expressões faciais e corporais complexas usadas para se comunicarem entre si. Basta aprendermos seu idioma.
    Cuidado pra não cometer assassinato em vez de eutanásia.
    Faça uma boa escolha.

  7. Ana Paula Barros disse:

    Passei por isso também e sem poder fazer nada por falta de profissionais em minha cidade. Me diga qual foi o dignóstico que sua gata recebeu?

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