Médico, quando?

Entrando um pouco na praia do Ecce Medicus: muito se comenta sobre a “medicalização” da vida — como, assim diz a anedota, toda criança malcriada é “hiperativa”, todo adolescente com dor de cotovelo é “deprimido”, qualquer mau jeito ou dor muscular no tórax ou abdome já ativa alarmes de ataque cardíaco, crise renal, apendicite. Exageros abundam.
Mas eu gostaria de oferecer um exemplo do outro lado: recentemente, um parente passou a sentir uma progressiva perda de força na perna esquerda. Consultou um ortopedista que pediu exames e o encaminhou a um neurologista, que pediu mais exames — e nada. A causa do sintoma era um mistério.
Eis que um dia esse parente sobre uma queda, bate a cabeça na mesa e correm ao pronto-socorro. Faz uma tomografia do crânio e, pimba!, descobre-se o problema: hidrocefalia. Operado o crânio, a perna volta, depois de algum tempo, ao normal.
O fato é que o neurologsita poderia ter diagnosticado a hidrocefalia antes da queda fortuita, se tivesse sido informado de outros sintomas que vinham afetando seu paciente: lapsos de memória, pequenos episódios de confusão mental, estranhas distrações.
Ninguém pensou em comunicar isso ao médico porque os sintomas pareciam, digamos, “normais”. Não serem sintomas, enfim: bolas, o cara estava quase perdendo o movimento da perna, era óbvio que ia ficar chateado, e que a chateação iria deixá-lo meio avoado… certo?
A questão que fica: o que é um sintoma? Onde está a linha entre hipocondria e autonegligência? Não vale dizer “na dúvida, procure um médico”, não numa realidade onde consultas levam semanas para acontecer e os pronto-socorros mal têm sabão para lavar feridas.
Essa situação acaba levando muita gente e buscar um pré-diagnóstico pela internet — a resposta à pergunta, “o que pode ser isso, e será que procurar um médico vai salvar a minha vida ou será apenas perda de tempo?”
Os Institutos Nacionais de Saúde dos EUA mantêm várias páginas com essa função, com recomendações do tipo, “se a tosse não passar em uma semana, procure seu health care provider…” (o politicamente correto parece ter abolido a palavra “doctor”).
O governo brasileiro, no entanto, parece não ter iniciativa semelhante. Será que não deveria ter? Ou o pré-diagnóstico online é um perigo? E se for, seria mais perigoso que a fila do pronto-socorro?
Cartas para a redação…

Discussão - 5 comentários

  1. Sibele disse:

    Cretinas, esperemos que o Kaiser, digo, Karl, não fique melindrado com essa “entrada” na praia dele, rs…
    Vc introduziu uma questão polêmica, que tem muita lenha para queimar. Eu acho que a informação em saúde online muitas vezes não é confiável, como aliás muitas outras informações disponíveis na grande net. E aí entra a questão do discernimento necessário para procurar, achar e selecionar informações relevantes e de fontes confiáveis, o que acho muito difícil para um leigo, e para a população brasileira em geral, carente de uma educação que propicie o mínimo de autonomia na busca de informação útil para si.
    E não nos esqueçamos da prática (perigosa) arraigada na maioria da população: a automedicação. Tá com dor de cabeça? Dor disso? Incômodo daquilo? Resolve tudo na farmácia da esquina…

  2. Juninho disse:

    Pré-diagnóstico online? Gostei dessa. Passa o link aí!

  3. Karl disse:

    Sensacional post. Diria que seu parente tem hidrocefalia de pressão normal. Diria que a consulta deve ter durado parcos 15 minutos. Diria que o esquema está errado. Diria mais, mas esse post me fez escrever um. Obrigado.
    http://scienceblogs.com.br/eccemedicus/2009/06/a_linha_entre_hipocondria_e_au.php

  4. cretinas disse:

    De nada, Karl!
    E valeu pela solução proposta no seu post: ter um médico de confiança à mão. Espero que, como sociedade, possamos caminhar em direção a isso…

  5. Sibele disse:

    Vi este artigo hoje – dicas para buscar informações em saúde na web. Vem bem a calhar…
    http://br.noticias.yahoo.com/s/18062009/11/saude-medico-monstro-web.html

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