O mundo vai se acabá, olê, olê, olá

São tantas as profecias sobre o fim do mundo que uma delas há de acabar se confirmando, ainda que somente por necessidade estatística. A mais recente (ou, ao menos, a que consta do último panfleto que me caiu em mãos) é da variedade cristã — em oposição às modalidades pagã, “new age”, ufológica, etc. — e marca o “arrebatamento” para 21 de maio de 2011.
(“Arrebatamento” é quando os escolhidos são levados de corpo e alma para o paraíso, deixando a ralé para se ferrar por aqui, em meio à chuva de enxofre. O tema gerou a sofrível série de livros Deixados para Trás, mas também aparece em The Stand, de Stephen King.)
Em um português periclitante — note que no capítulo 16 de Marcos (versículos 17 e 18 do chamado “final longo”, que aliás não fazia parte do texto original) Jesus diz que seus seguidores poderão falar “línguas novas”, mas em nenhum momento garante que o farão corretamente — , o texto prevê que em outubro, cinco meses após o arrebatamento, o mundo vai acabar de vez.
O panfleto chega a essa conclusão depois de realizar uma série confusa de cálculos, baseando-se em versículos escolhidos aparentemente a dedo, incluindo o famoso “um dia para o Senhor é como mil anos” da segunda carta de Pedro, epístola que, de acordo com as notas de rodapé da minha Oxford Bible, pode até ter sido escrita por um cara chamado Pedro, mas não por aquele Pedro.
Profecias assim são boas para nos lembrar de que livros sagrados em geral são exemplos fantásticos do chamado “Efeito Barnum” (que deve o nome ao dito, atribuído ao empresário circense PT Barnum, de que seus espetáculos tinham “alguma coisa para cada um”). Em outras palavras: você quer mensagens de amor universal? A Bíblia tem. Você quer justificativa para genocídio? A Bíblia tem, também.
Aliás, voltando à segunda carta atribuída a Pedro: o autor lá lança mão do argumento de que “um dia é como mil nos” exatamente pra responder aos “escarnecedores” que dizem: “Onde está a promessa da sua vinda? porque desde que os pais dormiram, todas as coisas permanecem como desde o princípio da criação.” (2 Pedro 3:3-4)
Pois é. Como já disse alguém, eles riram de Galileu. Eles riram Edison. Eles riram de Goddard. Eles riram de Einstein. Mas eles também riram de Carequinha e Piolim.

Discussão - 5 comentários

  1. Jonas Casca disse:

    Bem a propósito, outro alguém também disse:
    “Meu pai sempre disse que rir era o melhor remédio. Talvez isso tenha a ver com o fato de vários de nós terem morrido de tuberculose.”

  2. Igor Santos disse:

    Ah, como eu queria que isso fosse verdade.
    Melhor ainda que o apocalipse zumbi (minha vaca sagrada) seria o arrebatamento. Adoraria ver tal espetáculo.

  3. Lux disse:

    Igor, não brinque com o Apocalipse Zumbi véi…. isso é coisa série que pode mesmo acontecer.

  4. Jonas disse:

    Deve ser frustrante viver uma vidinha medíocre esperando que ela acabe grandiosamente e que sua imprestabilidade carnal seja recompensada com as ilusões e delírios dominicais.
    Eu sempre tento convencer que talvez nada aconteça, e o melhor a fazer é acelerar o processo de ascensão aos céus.
    ”Porque esperar anos se você pode juntar-se ao criador agora mesmo?”

  5. João disse:

    Também tem aquela do calendário inca, não?

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