Gripe suína e a inércia da notícia

Tenho visto pela internet muitos comentários a respeito da atuação dos meios de comunicação frente à pandemia da gripe suína, que vão desde a acusação de que a mídia está “bombando o assunto para desestabilizar o governo Lula” até a noção de que os jornalistas estão seguindo a linha oficial e ocultando a incompetência das autoridades. Um Velho Ditado da Selva dizia que uma ação que desagrada a ambas as facções em uma disputa é provavelmente justa, mas não vamos aceitar o argumento de autoridade aqui (nem mesmo da autoridade do Espírito-Que-Anda).
Vou tentar, então, esboçar algumas respostas sobre o assunto com a perspectiva de um soldado nas trincheiras da informação:
1. Por que a gripe continua a ser chamada de gripe suína? o nome não mudou?
Basicamente, porque ela começou a ser conhecida como gripe suína, foi como gripe suína que ela gerou preocupação mundial ao irromper no México, e passar a chamá-la de outra coisa a esta altura só iria confundir a comunicação.
2. Por que a imprensa não é mais crítica da atuação do ministério da saúde?
Bom, a mim me parece que a imprensa vem sendo crítica o suficiente. Por exemplo, já foram publicadas declarações de epidemiologistas alertando para o fato de que os médicos e enfermeiros dos postos de saúde e hospitais públicos não parecem bem preparados para implementar o protocolo de combate à doença do ministério.
Além disso, o noticiário deixa claro que há estratégias alternativas de enfrentamento da doença (por exemplo, as que preveem ampla administração de antivirais) adotadas em outros países.
3. Por que a imprensa faz tanto alarde com essa gripe? É para pegar no pé do governo?
Não, não é. O que ocorre é que a gripe parece não ser pior que a gripe comum, mas é preciso acompanhar os acontecimentos para saber exatamente até onde a semelhança vai. Isso inclui manter (principalmente nos veículos online) um “body count” atualizado e prestar atenção nos aparentes desvios da norma. A memória da trágica gripe de 1918 e a saudável desconfiança atávica quanto à informação oficial mantêm os jornalistas atentos.
4. A mídia não deveria colaborar mais com o governo, para instruir as pessoas e evitar pânico?
A mídia não deve, em princípio, colaborar com governo algum. Jornalismo é oposição, o resto é balcão de secos e olhados, já dizia Millôr Fernandes. Tendo dito isto, os grandes jornais (e sites, e redes de TV e rádio) vêm cobrindo de modo responsável as coletivas do ministro Temporão e as orientações oficiais (e sempre que possível, com o devido contraponto crítico).
5. Então, a cobertura está sendo perfeita?
Não, não está. Se por um lado o risco potencial representado por essa gripe justifica a cobertura continuada, eu creio que os sites de notícias, principalmente, entraram numa espécie de “inércia da gripe” — noticiando qualquer novo desdobramento, antes mesmo de verificar sua relevância.
Mesmo reconhecendo que a velocidade da internet e a pressão da concorrência muitas vezes não permitem o tempo necessário para medir o significado exato das coisas (se o lance se mostrar importante no futuro, o editor pode dizer que deu em primeira mão; se se mostrar irrelevante, ninguém vai lembrar daquela notinha, mesmo), está chegando a hora de descobrir um jeito de perguntar primeiro e publicar depois, até para não saturar o pobre leitor.
Outra questão que, a meu ver, mereceria esclarecimento: essa pandemia não está mostrando que as autoridades sanitárias são negligentes em relação à gripe comum? Afinal, se as duas doenças são igualmente letais, por que o combate à gripe sazonal não é melhor estruturado? Se os funcionários dos postos de saúde e hospitais públicos estão falhando em distinguir uma ocorrência grave de um simples caso de “canja de galinha e cama” quando se trata do H1N1, o que fazem com os casos da gripe comum?

Discussão - 5 comentários

  1. Kouba disse:

    Interesting and informative. But will you write about this one more?

  2. cretinas disse:

    Don’t know. Perhaps.

  3. Vale lembrar que o H1N1 pandemico está substituindo o virus sazonal, e se tornará o novo virus sazonal de agora em diante. Assim, todo o aue sobre a epidemia pode contribuir para um melhor tratamento da gripe sazonal, como você bem afirmou no último paragrafo.
    O governo afirma que 70 mil pessoas morrem de gripe sazonal. Acho esse numero um pouco inflado, mas dado que nos EUA o melhor numero é 40.000, talvez seja realista para nossas condições de saude. Se é assim, a gripe seria uma das principais causas de mortalidade no Brasil, superando as mortes violentas (trânsito, homicidios etc) e mortes por diabetes.

  4. Alan Dantas disse:

    Muito boas as respostas, acabo de perceber que estes devidos cuidados com a gripe comum realmente não são tomados, tanto que em alguns hospitais particulares de São Paulo o que os médicos costumam dizer é: “é só uma gripe normal, logo passa”. Mas ambas não são igualmente letais.
    Obrigado pela colaboração mais crítica com relação à essa gripe, pois alguns meios de comunicação estão deixando a desejar e beirando a banalização do assunto.

  5. Ematitan disse:

    Olha só, eu esotu aqui na Argentina, e gostaria de dizer o seguinte: tudo bem, o governo tomou medidas de prevenção, deu férias forçadas por 3 semanas (onde ninguém ficou em casa por aqui), está fazendo campanha e desinfetando os ônibus e metrôs.
    Dito isto, depois do começo, que foi m ahisteria, ninguém mais ia ao médico, porque pegaria uma fila enorme, por uma gripe.
    cerca de 0,0005% da população da Argentina morreu por causa dessa gripe. Sinceramente? Eu acho que estão todos exagerando.
    Moro em Buenos Aires, na Capital, e não conheço NINGUÉM que conheça ALGUÉM que tenha sequer tido a gripe, quem dirá morrido por ela. E eu sou professor.
    Segundo os dados de saúde daqui, a dengue, ou a “outra” gripe, matam mais, bem mais.
    Abraço
    Daniel

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