Conhecimento, ética e dever

O caso da menina australiana morta porque o pai insistiu em tratá-la com homeopatia gerou um rico debate aqui o SbB entre o Kentaro, do 100Nexos, e o Karl, o Ecce Medicus.
Eu dei um ou dois pitacos tímidos, mas fiquei, basicamente, como espectador. Ao fim e ao cabo, a discussão toda me provocou a seguinte indagação: até que ponto o que se sabe afeta o que se deve? Ou: conhecimento gera obrigação moral?
Parece pacífico que o conhecimento pessoal certamente que sim: se eu sei que armas de fogo disparam projéteis potencialmente letais, eu tenho a obrigação de não apontá-las para outras pessoas.
Já o conhecimento socialmente disponível é uma questão mais complexa. Ninguém, por exemplo, culparia um marciano que de repente apareça na Terra e que nunca viu uma arma de fogo que puxasse o gatilho de um revólver por engano.
No entanto, não há muitos marcianos à solta por aí; é concebível que a sociedade tenha uma expectativa mínima de conhecimento em relação a seus membros (ao menos, os maiores de idade, emancipados, responsáveis por seus atos perante a lei): que todos os cidadãos de uma civilização onde motores a combustão interna são comuns saibam, por exemplo, que trancar uma pessoa na garagem com o carro ligado é potencialmente letal.
Nenhum motorista pode se isentar de um acidente alegando desconhecer as normas de segurança no trânsito — mesmo que, de fato, as desconheça.
A coisa fica ainda mais complicada quando existe um choque entre crença pessoal e conhecimento socialmente disponível. Digamos que eu acredite piamente, com toda a sinceridade, que criancinhas são anjos capazes de voar; e que essa crença me impeça de salvar uma menina de quatro anos pendurada no parapeito do décimo-segundo andar.
A lei a gravidade e o fato de que crianças não voam são, claro, conhecimentos socialmente disponíveis.
Serei culpado, se a menina cair e morrer? Existe uma obrigação ética de submeter minha crença ao conhecimento socialmente disponível? Uma crença que contrarie esse tipo de conhecimento é imoral em si?
Cartas para a redação (ou comentários ao blog…)

Discussão - 10 comentários

  1. Amara Pedrosa disse:

    Esta é uma situação deveras complicada.
    E se o pai tivesse levado a filha para um hospital? Caso o tratamento não surtisse efeito e a criança viesse a óbito o hospital e seus funcionários seriam responsabilizados, também seriam rotulados de assassinos?
    Por outro lado, grande parte, se não todos os medicamentos, são originários das práticas homeopáticas.
    Claro que eu levaria minha filha ao médico, mas tenho o direito de julgar quem não segue meus critérios?
    A discussão, com certeza, não terá um ponto final.

  2. elvis disse:

    o que me parece é que, se existe, é uma linha muito tênue entre essa situação e o que costumamos apontar e julgar como loucura, delírio, a não ser que essa pessoa seja uma espécie de extraterrestre que vive alienado sem nenhum contato com família, amigos – pessoas que certamente a fariam reavaliar crenças desse tipo, ou que julgariam seus atos posteriormente e que, no mínimo por temor das consequências, a fariam repensar seus atos.
    Talvez seja difícil dizer que é imoral em si, mas alguém com crenças conflitantes com o conhecimento socialmente disponível a tal ponto que afete os julgamentos mais simples (como o de deixar uma criança morrer) deveria ser encaminhado para uma avaliação psicológica apropriada e interditado se for considerado perigoso.
    Dá pra levar a discussão infinitamente perguntando o que seria imoral em si, até que ponto isso é socialmente definido, etc. etc.

  3. Caro “Ideias”,
    Não gosto de meter a colher na refeição dos outros, mas quando eu li (num comentário) “Por outro lado, grande parte, se não todos os medicamentos, são originários das práticas homeopáticas” eu quase tive um troço: isso é verdade aonde? Em Nárnia ou Oz? Aguardo uma manifestação sua, “Ideias”…
    Um abraço!

  4. André Souza disse:

    Até q momento as crenças são amorais? Tipo…Uma comunidade indígena q mata um recém-nascido deficiente estaria sendo cruel e imoral?
    Mas, q chances uma criança com sérias deficiências seria capaz de sobreviver na selva?
    Se uma sociedade diz q é perfeitamente aceitável( e dirá obrigatório!) matar negros e judeus, seria algo totalmente imoral esconder uma família de negros e judeus no porão, a míngua (ou até melhor q isto), para evitar q fossem mortos?
    Onde está a moral?

  5. Joâo Carlos disse:

    Eu estou começando a achar que o foco da discussão está se perdendo. O caso é bem mais complexo do que aparenta inicialmente.
    No caso específico, o pai (homeopata) foi aconselhado por outros médicos (igualmente homeopatas) a levar sua filha a um hospital e ele chegou a levar. A menina passou por tratamento “alopático” e melhorou (mas não chegou a ficar curada).
    Visto “do lado de fora”, parece que o pai ficou diante de dois fatos:
    1 – Com o tratamento homeopático, nenhum progresso – coisa que até outros homeopatas reconheceram;
    2 – Com o tratamento alopático, havia melhora (e, como o tratamento era interrompido, não havia cura).
    Não precisa ser médico: uma coisa funciona; outra, não. Independentemente do “princípio”, quando um paciente não reage a um tratamento, bons médicos costumam trocar o tratamento.
    O chato é que a paciente nunca teve a oportunidade de trocar de médico…

  6. cretinas disse:

    Na verdade, eu estou tentando achar qual a forma genérica — se houver — de triangular ética, convicção pessoal e conhecimento dos fatos. A questão australiana é mais um ponto de partida que o centro do debate (ou, espero que seja)

  7. Sibele disse:

    João Carlos, não achei que o foco da discussão está se perdendo, e concordo com o Moc quando ele indica que a questão australiana é mais um ponto de partida para essa discussão profícua que está rolando aqui no SB-Br, aliás creio que o Moc só merece crédito pelo grande mérito do pontapé inicial nesse debate todo com seu post sobre essa questão.
    E continuando o debate… triangulação ética, convicção pessoal e conhecimento dos fatos… que abacaxi!!! 😛
    Basta lembrar do que Hannah Arendt escreveu sobre o fato da maioria da população alemã duarante a Segunda Guerra apoiar e até mesmo ver com naturalidade o extermínio dos judeus, ciganos e outros… era uma crença social disseminada…

  8. cretinas disse:

    Oi, Dedalus!
    Realmente também não entendi a referência… Há o caso do quinino, que foi descoberto como remédio para malária porque causava sintomas semelhantes, e dá para dizer que as vacinas em geral seguem um princípio vagamente homeopático (usam uma forma enfraquecida do agente causador da doença para evitá-la).
    Mas é preciso ser muito caridoso para levar até mesmo esses dois casos em consideração. A publicação do comentário se deu por simples espírito democrático (e para que os demais leitores pudessem questioná-lo, é óbvio).

  9. Sibele disse:

    “A publicação do comentário se deu por simples espírito democrático (e para que os demais leitores pudessem questioná-lo, é óbvio)”.
    É disso que eu gosto aqui! 😀

  10. Ivan disse:

    Queria entender a lógica em dar a oportunidade de corrigir seu comportamento a pessoas que se penduram em janelas por escolha.
    Programa-las com comandos de “progredirás a humanidade ou ela te recluirá”?

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