Jornalista precia saber física?

Nestes dias está rolando a segunda fase da Fuvest, que agora retornou ao esquema de obrigar todo mundo a fazer prova de todas as matérias nesta etapa, em vez de apenas as disciplinas geralmente consideradas mais afeitas a cada curso específico.
Quando eu prestei vestibular pra USP, picossegundos após o Big Bang, o esquema era parecido: na segunda fase, todo mundo fazia prova de tudo, mas o peso das notas variava de acordo com a carreira escolhida — se bem me lembro, jornalismo tinha concentração em português, geografia e história.
Naquela época a gente fazia duas provas ao dia. Lembro-me bem da dobradinha geografia/matemática, se não por outro motivo, porque naquele dia eu estava péssimo — não de saúde, mas psicologicamente — e essas duas provas foram as piores do meu vestibular. Saí da sala do exame sabendo que tinha feito merda e, talvez, perdido ali a minha vaga.
O que em salvou, garantindo-me o inenarrável prazer de frequentar a Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo por quatro anos e meio? A prova de física, na qual acertei tudo. Sério.
Claro, tive notas muito boas em história, português e redação, mas até aí todo mundo também tinha tido, certo? Afinal, a disputa era por jornalismo. Minha nota de geografia era um peso me puxando para baixo, sem dúvida, mas a de matemática era quase irrelevante — porque, assim como todo mundo, na média, tinha ido muito bem na redação, todo mundo, na média, também tinha metido os pés pelas mãos em matemática. Mas até aí, todo mundo, na média, também tinha metido os pés pelas mãos em física. Mas eu não. Bom, resumindo: entrei. Em penúltimo, mas entrei.
É provável que, com o novo esquema da segunda fase, esse tipo de situação volte a ocorrer: a nota de uma disciplina considerada “de fora” da área do curso servir como uma espécie de critério de desempate: se todos os, digamos, 40 primeiros candidatos são uniformemente bons escritores, os 30 melhores físicos (ou químicos, ou biólogos, ou matemáticos) entre eles levam a vaga.
Uma questão: esse tipo de desempate é justo? Afinal, jornalista precisa saber balística? Historiador precisa saber o que é o ciclo de Krebs? E para que diabos um publicitário precisaria saber somar e multiplicar matrizes?
Diga-me, quantas vezes depois do vestibular você precisou aplicar a fórmula de Báscara?
As questões acima trazem embutidas duas premissas: a primeira é uma visão instrumentalizada do conhecimento: se eu não vou pregar pregos, não preciso de um martelo; se eu não vou construir motores, não preciso estudar termodinâmica.
A segunda, é uma visão conteudista da ciência: estudar biologia é decorar uma lista de organelas; estudar matemática é aprender a mecânica de certos tipo de operação; e assim por diante.
Atuando em conjunto, as duas premissas levam ao resultado conhecido: se matemática é decorar como somar senos e cossenos, e se minha profissão não requer o uso intensivo de trigonometria, então eu não preciso estudar matemática.
Mas matemática é muito mais do que isso (assim como física, biologia, química, etc, são muito mais que as aplicações “tecnológicas” cobradas no vestibular).
Voltando à pergunta que dá título à postagem: jornalista precisa, sim, saber física, do mesmo jeito de engenheiro precisa saber história, por exemplo. Mas provavelmente não precisa de todo o conteúdo que se lhe é transmitido no ensino médio, cobrado no vestibular e esquecido logo depois.
Do jeito que as coisas estão hoje, temos adolescentes que estudam química a ponto de aprender a distribuir corretamente elétrons em níveis quânticos dentro do átomo, mas que não são capazes de desconfiar que pode haver algo errado no uso da homeopatia.

Discussão - 13 comentários

  1. Wesley disse:

    Concordo com você, principalmente no final. A pessoa estuda tanto que ela vira mais um centro de armazenamento de informação do que um centro que processa as informações para ter uma formação própria. E, como você disse, não é difícil ver pessoas inteligentes, que tem um grande conhecimento em assuntos (como química mesmo) e acreditar na homeopatia…

  2. Joey Salgado disse:

    “As questões acima trazem embutidas duas premissas: a primeira é uma visão instrumentalizada do conhecimento: se eu não vou pregar pregos, não preciso de um martelo; se eu não vou construir motores, não preciso estudar termodinâmica.
    A segunda, é uma visão conteudista da ciência: estudar biologia é decorar uma lista de organelas; estudar matemática é aprender a mecânica de certos tipo de operação; e assim por diante.”
    Não saberia como expor isso de maneira mais clara. Excelente!
    Inté!

  3. Alessandro disse:

    Muito bom o post. Muitas profissionais que se dizem jornalistas não escreveriam algumas besteiras se soubessem conceitos básicos de outras áreas.

  4. luke disse:

    Em minha modesta opinião, conhecimento extra-curricular é SEMPRE útil. Se não de maneira direta (exemplo: os biólogos que eu conheço e são bons em matemática são melhores que os outros por entenderem as estatísticas com mais facilidade), pelo menos exercitando a inteligência. Sim, conseguir passear sem dificuldades por diversas áreas do conhecimento é um tipo de inteligência.
    Sobre vc aprender muitas coisas antes do vestibular e esquecer depois, não acho ruim ou estranho. Mesmo esquecendo muita coisa, quanto mais conteúdo é apresentado, mais conteúdo fica retido.
    Eu estava pensando ontem sobre o vestibular. Da maneira que está estabelecido, as universidades estão dizendo que preferem pessoas flexíveis a gênios indomáveis. Acho que não há certo ou errado quanto a isso, é uma questão de opinião, e a minha coincide com a das universidades. O vestibular é difícil? Estressante? Sim, e não poderia ser diferente, pois as universidades querem alunos que, além de possuírem a bagagem necessária, aguentem a pressão.

  5. Dånut disse:

    “Do jeito que as coisas estão hoje, temos adolescentes que estudam química a ponto de aprender a distribuir corretamente elétrons em níveis quânticos dentro do átomo, mas que não são capazes de desconfiar que pode haver algo errado no uso da homeopatia.”
    Acho que 90% da minha turma entra nessa descrição…
    Ótimo texto. Eu acho que conhecimento extra-curricular é extremamente importante. O problema é que decorar fórmulas de matemática, por exemplo, não é conhecimento. É decoreba. E só.
    E é isso que o vestibular cobra. E como o ensino médio é quase que exclusivamente voltado para o vestibular, acaba que formam-se alunos sem conhecimento nenhum, só com matéria decorada…

  6. Rick disse:

    Achei o texto perfeito, até mesmo a alfinetada na homeopatia. Porém vou fazer alguns comentários pontuais aos novos vestibulares. Nesses eu posso dizer que tenho experiência. Afinal não são muitos que já fizeram mais de 30 vezes…
    A prova do vestibular é um desafio, não importa se para quem está fazendo, que tem de responder a diversas questões, das mais diversas áreas do conhecimento, em um espaço de tempo nem sempre adequado. Quanto para o avaliador que tem de formular questões que possam avaliar as competências do aluno.
    Essas notas ponderadas de acordo com as diciplinas tidas como fundamentais para a carreira escolhida, na prática, pouco faz diferença, o aluno que presta prova para engenharia, será bom em quais matérias? Então, porque que esses notas terão pesos maiores que a prova de biologia? Os vestibulares, em São Paulo, cobram oito disciplinas (Português, História, Geografia, Inglês, Matemática, Física, Química, Biologia) e redação.
    Se a pergunta do início do Post é “Jornalista precisa saber física?”, levanto outro questionamento, Médico precisa saber redação?
    Sei que sou péssimo em dissertação, não consigo encadear idéias nem defender meu ponto de vista em poucas linhas, mas nunca em nenhum hospital houvi algum paciente discutir com o médico a forma como estava escrito um prontuário. Na universidade meus professores não querem saber como eu fiz as minhas anotações, só preciso saber interpretar os sinais, sintomas e resultados dos exames.
    Como pode a redação do vestibular ser considerada uma habilidade tão fenomenal que chega a corresponder até quase 40% da nota de algumas provas? Fiquei na fila dos vestibulares seis anos, estudei muito, para conseguir passar na última vaga que sobrou do curso. Pra mim não faz a menor diferença a minha colocação, mas tenho certeza de que eu já estava preparado para o curso desde o 2º ano de cursinho…

  7. Tene Cheba disse:

    O Brasil constrói, com este sistema de ensino, enorme déficit em graduados de engenharia. Temos uma massa exuberante de advogados, administradores de empresas, historiadores, entre outros cursos.
    Fugimos da matemática, e sempre nos perguntamos para quê servem as derivadas.
    Creio que o pavor está na qualidade do ensino, eu mesmo fui diversas vezes apavorado com a lei dos senos e cossenos. Mas não temi, porque simplesmente, não tinha o que temer.
    Fórmula de Báscara, logaritmos, teorema de Tales, inequações, números complexos, limites, qual a insuficiência em aprender, em buscar a amplitude?
    Bom, a minha ignorância não me permite perceber, que a alfabetização deve ser sempre particularizada, circustanciada no limite vocacional. Para que serve ao engenheiro a Queda de Bastilha? Para que serve ao historiador a massa que lhe é vendida como peso?
    Sei lá, os homens do tempo, as mulheres do tempo, não precisam saber, de fato, que dezessete graus vezes +1 ou -1, são simetrias do muito frio ou do muito fresco.
    Sei lá, novamente.

  8. Excelente !!! Excelente !!!

  9. Igor Santos disse:

    Outro lado da moeda: acabo de ser aprovado no vestibular (o resultado saiu hoje) e a última vez que abri um livro de colégio foi no século vinte.
    Passei utilizando apenas meu conhecimento adquirido nos últimos cinco anos, época da vida em que mais me aprofundei na busca de conhecimento.
    As questões eram as de sempre (este foi o meu quinto vestibular), mas mesmo não sabendo mais o que significa “camada de valência” ou “revolta dos farrapos” consegui notas boas o suficiente para ser aceito.
    Informação é sempre útil (por isso que eu continuo fazendo o que faço). O problema é como nosso sistema de ensino a apresenta para um público pouco preparado.

  10. cretinas disse:

    Oi, Igor!
    Concordo, informação é sempre útil. Mas existe uma diferença entre a informação e o conhecimento que se busca voluntariamente, para satisfazer uma curiosidade pessoal ou um senso de crescimento intelectual, e a informação transmitida pelos meios oficiais de educação — que não se pode escolher, que precisa ser selecionada do modo mais uniforme possível (para atender às necessidades mínimas de informação do maior número de pessoas), etc.
    Ah, sim: parabéns!

  11. Tati Nahas disse:

    Excelente reflexão!!!
    Lembrei de um artigo sobre ensino de biologia que li uma vez e que mostrava que boa parte dos alunos egressos do ensino médio sabiam perfeitamente todos os componentes das células, mas não eram capazes de perceber que outros seres vivos, ademais dos humanos, são compostos por células, ainda que por uma só. Acho que esse exemplo ilustra a diferença entre informação e conhecimento que você colocou acima pro Igor.

  12. Igor Santos disse:

    Richard Feynman já havia notado isso na década de 50. Os alunos sabiam recitar o livro de capa a capa, mas não sabiam que “taxa de refração” servia também para o vidro de uma janela.
    Nós aprendemos forçadamente no colégio uma maneira mecânica de fazer as coisas. Eu só tive um professor que quis ensinar os alunos a pensar. Só um!

  13. Caros,
    Há uma “discussão” ocorrendo na Sociedade Brasileira de Física sobre a qualidade dos pesquisadores formados na pós-graduação em física do Brasil. Eis um trecho do comentário mais recente encontrado no site da SBF:
    “Ao mesmo tempo são cada vez mais freqüentes discussões e comentários sobre o “despreparo dos candidatos em concursos”. A verdade inconteste é que um número expressivo desses candidatos “pesam” bem menos que seus currículos. O que tem ocorrido com freqüência é no mínimo intrigante: notas altas nos exames de memorial e baixas nos exames escrito, de didática, e de projeto. Não há como negar que algo está errado.”
    O que acontece é que as pessoas têm a tendência a quererem só o que lhes garante o seu ganha-pão ou sua diversão diretamente e acham o resto supérfluo. Só que o conhecimento não é estanque, não dá para separar tudo bonitinho em pedaços e jogar para fora do prato o que parece pouco apetitoso (“Mãe, eu preciso comer verduras? Meus amigos só comem batata frita!”). Fazendo isso eu posso até ser um médico capaz de acertar diagnósticos, mas vou escrever “houvi” num relatório quando precisar fazer um, ou vou ser incapaz de escrever aos jornais para desmascarar charlatões que vendem curas mágicas…
    Parabéns pela postagem e um abraço!

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