Sobre dragões e fósseis

Como amante da paleontologia e, mais recentemente, praticante e apreciadora de wushu, a inspiração deste post surgiu como um desafio de tentar relacionar os dois temas de alguma forma. Me parece que alguns mitos são criados a partir de “verdades”…distorcidas, ou, com um toque de imaginação, digamos assim.

Dragão do quadrinho Zen pencils

Na arte marcial que conhecemos por “kung fu”, aqui no ocidente, existem diversos estilos de luta. Norte e Sul da China são conhecidos por estilos diferentes. O estilo do dragão é um estilo imitativo do Sul; neste, os movimentos devem ser compreendidos, internalizados (em contraposição, o adversário do dragão é o tigre e seu estilo é fundamentado em movimentos de força e memorização). Como o dragão, para os chineses, simboliza a água e a terra, no kung fu suas ações combinam força e leveza em movimentos que unem opostos, como: circular/reto, ou para cima/para baixo, por exemplo.

O dragão é uma figura comum na mitologia chinesa, desempenhando vários papéis como regular as chuvas, proteger os deuses (e o imperador), e ser a fonte da verdadeira sabedoria e da boa sorte. É, portanto, considerado um animal auspicioso, não malévolo. Por isso são extremamente comuns na arquitetura e ornamentação da antiga China. Não é à toa também que, por mais de uma vez na história, imperadores chineses regularam o uso das imagens de dragão em suas sedas e outros ornamentos, para que somente eles pudessem usá-las e, assim, demonstrar sua potência.

História “Never give up!” do quadrinho Zen Pencils

Apesar de ser um estilo imitativo no kung fu, nós todos sabemos que dragões (i.e., répteis serpentiformes voadores que cospem fogo) nunca existiram. Neste caso, a “imitação” vem das histórias e lendas passadas de geração em geração, sobre os supostos movimentos destes animais. Se, por um lado, a forma como se mexiam vem da imaginação das pessoas, de outro, a figura do animal em si tem uma origem interessante. Fósseis de dinossauros, ou de outros grandes répteis serpentiformes, ou até mesmo fósseis de baleias são, provavelmente, a fonte de inspiração para os mitos dos dragões (assim como de outros animais, lendas e deuses que existem mundo afora). Imagine os antigos chineses encontrando ossos de grandes proporções, com a forma de um lagarto, espalhados pelo chão… e mais, ossos duros como pedras! Na breve pesquisa que fiz para escrever este post eu li (aqui) que o fato de os ossos serem feitos de pedra (resultado do processo de fossilização) provavelmente levou as pessoas a pensar que era um animal que cuspia fogo, pois seus ossos resistiam a ele! Interessante, não?

Os mais antigos adornos chineses contendo imagens de dragões datam de cerca de 4700-2900 a.C. (Cultura Hongshan). Então é bem provável que antes disso os fósseis de grandes animais já tivessem sido descobertos naquela região do mundo. Naquela época não se tinha o conhecimento científico que temos hoje sobre fósseis e fossilização, extinções e da vastidão do tempo geológico, e estes restos eram interpretados como restos recentes de animais fantásticos, ou seja, como os dragões; hoje chamamos a eles de dinossauros (e afins).

Se você sabe mais sobre os diferentes estilos de wushu, sobre paleontologia, sobre dragões, ou simplesmente gostou do post, deixe-nos um comentário!!

Veja aqui um documentário sobre a relação entre dragões e dinossauros.
Entre aqui para apreciar a arte do Zen Pencils.

 

 

 

 

Sobre Carolina Zabini

Bióloga formada pela UEPG. Professora Doutora em Ciências, área de concentração em Paleontologia pela UFRGS. Atua com paleontologia de invertebrados (BRACHIOPODA: LINGULIDA) Devonianos da Bacia do Paraná, com ênfase em tafonomia.

4 pensou em “Sobre dragões e fósseis

  1. Olá! Você já viu aquele filme “The last dragon” ou “Dragons: a fantasy made real”? É uma ficção em formato de documentário que tenta especular como seriam os dragões se eles existissem com algum fundamento evolutivo e biológico. Achei muito interessante.

  2. Concordo inteiramente com o que você escreveu, embora pense um pouco diferente sobre a origem destas lendas. Mas tenho um pensamento um pouco diferente. Com a ausência do conhecimento ciêntifico, muitos fósseis que afloravam na superfície eram tidos como pertencentes a criaturas fantásticas. Até ai, eu concordo. Mas, isto apenas tenta explicar a mitologia do dragão oriental. Como você explicaria a origem do dragão ocidental? E note que os dois tipos de animais possuem diferenças anatômicas sendo que, na maioria das vezes, o oriental é representado como sendo um serpentiforme enquanto que o ocidental muitas vezes relatado como sendo mais próximo de um possível tetrapoda voador. De onde veio esta imagem? Apenas a partir dos fósseis? E como explicar que os dragões cultuados pelo povo Meso americano também tinham formato de serpente, como o Quetzalcoatl (serpente emplumada)? Aliás, como explicar a presença do mito em várias regiões, porém de diferentes formas? Gostaria de saber sobre sua opinião. OBS: Não acredito no dragão cuspidor de fogo do Dungeons and Dragons. Apenas busco questionar. Grato e gostei do artigo.

    1. Olá Flavio! Obrigada pelo comentário e questionamentos. Acredito que a lenda de um “organismo serpentiforme” tenha surgido primeiro no oriente, e as demais, posteriormente; o fato dessas lendas tratarem sobre organismos parecidos não significa que tenham uma origem comum, ou que elas tenham relação uma com a outra. Na realidade, acredito que a denominação “dragão” para essas figuras semelhantes é mais uma questão linguística, de tradução, do que de similaridade entre os fósseis que possam tê-las originado. Como a anatomia de cada dragão depende da imaginação das pessoas que a criaram, existem as variações que você citou. É curioso pensar que vários povos criaram estas figuras fantásticas muito parecidas, mas esse tipo de coisa acontece até mesmo no meio científico, não é mesmo? Wallace e Darwin chegaram a conclusões semelhantes que deram origem à Teoria da seleção natural, trabalhando em locais diferentes, com organismos e visões de mundo distintas.

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