Arquivo di√°rios:15 de fevereiro de 2017

Como um tronco ou um osso vira pedra?

Quem j√° n√£o se deparou com uma pedra (rocha) que um dia formou parte de um dinossauro ou era a rama mais alta de uma √°rvore? Visitando um museu ou mesmo no campo?

Pois bem o processo que converte os restos org√Ęnicos (vegetais, animais, bacterianos, etc.) em f√≥sseis como estes √© denominado de permineraliza√ß√£o e ocorre de forma mais ou menos r√°pida, claro sempre pensando no tempo geol√≥gico. O processo se inicia imediatamente ap√≥s a queda do resto num ambiente de deposi√ß√£o de sedimentos (c√≥rrego, rio, lago, mar…) ou durante o soterramento num desses locais. O que acontece em geral, √© que uma solu√ß√£o rica em s√≠lica ou c√°lcio consegue preencher os espa√ßos vazios entre as c√©lulas, poros e no interior das c√©lulas. Com o passar do tempo, a perda de √°gua promovida pelo soterramento induz a forma√ß√£o de cristais de quartzo, no caso de uma solu√ß√£o rica em s√≠lica ou calcita, no caso do c√°lcio. Esses cristais possuem tamanhos diminutos, da ordem de poucos micrometros (1/1000 de um mil√≠metro), que preservam a anatomia original inclusive das c√©lulas, e por ser muito est√°veis no caso da s√≠lica, permitem a manuten√ß√£o dos f√≥sseis por muitos milh√Ķes de anos. Esse processo de fossiliza√ß√£o pode levar 50.000 anos ou menos o que, convenhamos, √© quase nada no tempo geol√≥gico.

Tronco de con√≠fera da Forma√ß√£o Teresina (260 milh√Ķes de anos) permineralizado por s√≠lica. A. Corte longitudinal mostrando traqueides; B. Detalhe de um traqueide, notar os cristais de quartzo que formam a estrutura.

Al√©m da pemineraliza√ß√£o por s√≠lica ou carbonato de c√°lcio, outros minerais como a pirita (sulfeto de ferro) podem permineralizar estruturas org√Ęnicas. At√© mesmo a forma√ß√£o de gelo pelo congelamento da √°gua dentro dos tecidos org√Ęnicos, pode ser considerada uma permineraliza√ß√£o, logicamente que bem menos est√°vel, pois o f√≥ssil apodrecer√° ap√≥s o descongelamento, como √© o caso dos mamutes que frequentemente s√£o encontrados na Sib√©ria.

No Brasil, temos abundantes s√≠tios com f√≥sseis permineralizados, inclusive alguns com o registro de extensas florestas que existiram h√° mais de 250 milh√Ķes de anos, como a do Monumento Natural das √Ārvores Fossilizadas do Tocantins (MNAFTO), em Biel√Ęndia, distrito de Filad√©lfia, que possui uma extens√£o de mais de 32.000 hectares ou as florestas f√≥sseis de Mata e de S√£o Padro do Sul no Rio Grande do Sul, um pouco mais jovenzinhas, ou mesmo os registros do interior de S√£o Paulo, que representam as florestas que habitavam as plan√≠cies de rios ou pr√≥ximas √† costa em climas quentes e secos. No geral eram compostas por √°rvores aparentadas com as arauc√°rias, podocarpos, pinheiros e tamb√©m por samambaias de grande porte e cavalinhas, com certeza sem plantas com flores. Nelas est√£o preservados troncos com tamanhos que alcan√ßam os 30 metros de comprimento e 1 metro de di√Ęmetro e, menos frequente, folhas. Ali√°s, a diversidade √© f√≥ssil √© grande, o que faltam s√£o pesquisadores para estudar tanto material.

Caule de samambaia permineralizado por sílica coletado na MNAPTO

Por √ļltimo, o processo de permineraliza√ß√£o foi o que permitiu a preserva√ß√£o das evid√™ncias de vida mais antigas que se conhecem na Terra, com cerca de 3465 milh√Ķes de anos, que chegaram at√© os nosso dias e tem sido interpretados como filamentos de col√īnias de bact√©rias fotossintetizantes conhecidas como cianobact√©rias… Ent√£o a permineralizac√£o √© um processo que permite tanto a conserva√ß√£o dos maiores registros f√≥sseis em tamanho como dos menores… √© s√≥ ter as condi√ß√Ķes necess√°rias e o tempo…