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O sólido dentro do sólido: Nicolau Steno, o cientista que virou santo

Nicolau Steno
Retrato de Nicolau Steno, pintado em Florença

Nicolau Steno foi um dos homenageados no Congresso Internacional de Geologia de 2004, realizado em Firenze. L√°, os cientistas inauguraram uma placa, onde faziam men√ß√£o √†s suas imorredouras contribui√ß√Ķes para a Mineralogia, a Paleontologia e a Estratigrafia. Boa parte delas havia sido realizada no tempo que que Nicolau Steno morou ali, na Toscana.

No entanto, alguns anos antes, em 1988, o Papa Jo√£o Paulo II o proclamou como ‚Äúbem-aventurado Nicolau Steno‚ÄĚ. Sabemos que, quando morreu, Nicolau Steno era um bispo cat√≥lico, que trabalhava no norte da Alemanha. Seus √ļltimos anos lhe deram aura de Santo. E quase santo ele √©. Hoje ele √© um Beato e a festa lit√ļrgica em seu nome ocorre no dia de sua morte, em 5 de dezembro.

Quem era, afinal, Nicolau Steno? O cientista ou o beato?

NIELS STENSEN, O SOBREVIVENTE

Nicolau Steno é uma latinização de seu nome dinamarquês, Niels Stensen. O pequeno Niels nasceu e foi batizado em Copenhagen em 1638. Era o filho do ourives que prestava serviços para o rei Cristiano IV da Dinamarca. O pequeno Niels, que era muito doente a ponto de não poder brincar com as outras crianças, cresceu numa família fervorosamente luterana. Na falta dos brinquedos, brincava com os objetos de ourives de seu pai.

O pequeno Niels, no entanto, era mais forte do que se supunha. Na escola que frequentou, mais de duzentas crianças morreram entre 1654-1655 por causa de uma peste. Contudo, Niels Stensen sobreviveu. E tomou interesse por estudar os corpos humanos. Seu interesse era a Anatomia.

A Anatomia era uma febre (!) na época. Aulas de Anatomia eram disputadas ferozmente pelos acadêmicos. Tudo fervilhava de curiosidade de conhecer melhor o corpo humano.  Aos 19 anos, Niels Stensen entrou para a universidade de Copenhagen, para estudar medicina. Em seus estudos acadêmicos, revelou-se um promissor anatomista. E Copenhagen começou a ficar pequena para seu talento.

NICOLAU STENO, ANATOMISTA

A partir daí, Niels Stensen passou a viajar. E nunca mais parou. Inicialmente, esteve em várias cidades da Europa, estudando anatomia. Em Amsterdam estudou com Gerard Blasius, que estava estudando o sistema linfático. Da mesma forma, em Amsterdam, Stensen também conheceu o filosofo e polidor de lentes Baruch de Spinoza. O que será que eles devem ter conversado?

O jovem estudante Niels Stensen era apaixonado pela filosofia de Ren√© Descartes. No entanto, mais tarde, ele renegou a teoria cartesiana. Muito cedo, Steno percebeu algumas contradi√ß√Ķes na obra do mestre. Descartes, por exemplo, afirmou que a gl√Ęndula pineal era a sede da alma humana. Steno, com base em suas observa√ß√Ķes, mostrou que Descartes estava errado.

Steno descobriu, entre outras coisas, que existe um duto que leva saliva at√© a boca, os dutos parot√≠deos ou¬†dutos de steno. Por outro lado, Steno descobriu tamb√©m que o cora√ß√£o era um m√ļsculo. E que os c√°lculos eram pedras que se formam por ac√ļmulo nos √≥rg√£os. Descobertas not√°veis, por certo.

O CARTESIANO ANTI-DESCARTES

Um a um, Steno acabou por desmentir diversos postulados anat√īmicos de Descartes. Com o tempo, tornou-se violentamente anti-cartesiano, negando qualquer rela√ß√£o de suas descobertas com o pensamento do filosofo franc√™s. N√£o obstante, com o perd√£o do trocadilho, pode-se dizer que Steno n√£o descartou Descartes.

Efetivamente, ao apreciar a obra de Steno, percebe-se o quão cartesiano ele era.  Quando se vê o mundo de idéias construído por Steno, o que se vê é um universo mecanicista, tipicamente cartesiano. Por outro lado, neste universo stenoniano,  a matéria sólida e particulada se movimentava segundo leis físicas determinadas, como um grande mecanismo.  Logo, tudo se movia no universo de Steno de acordo com a filosofia de Descartes.

A “REP√öBLICA DAS LETRAS”

Em suas viagens Steno acabou por conhecer o seu conterr√Ęneo Ole Borch, importante anatomista da √©poca e um s√°bio relacionado com as Academias de Ci√™ncia que ent√£o surgiam. Esse movimento de acad√™micos de v√°rios pa√≠ses em constante comunica√ß√£o formaram o que se chamou de “Rep√ļblica das Letras“.¬† Era o embri√£o do moderno sistema de academias e peri√≥dicos cient√≠ficos que se formava. N√£o por acaso, muitos peri√≥dicos modernos ainda ostentam em seu nome a palavra “Letter“. Pois n√£o eram mais que isso: cartas enviadas para as diferentes associa√ß√Ķes cientificas, que eram lidas nas sess√Ķes ordin√°rias destas academias e discutidas por seus membros.

Todavia, uma vez que Ole Borch, como membro destacado da Republica das Letras,¬† tinha muitas liga√ß√Ķes com a Royal Society de Londres. Foi atrav√©s de Borch que Steno teve contato com a teoria atom√≠stica de Robert Boyle. Esta foi outra das grandes inspira√ß√Ķes de Steno. Por meio da leitura de Boyle e sua obra, Steno come√ßa a se interessar por uma Ci√™ncia que ainda n√£o existia, a Geologia. Foi neste ponto de sua carreira que ele foi convidado por Ferdinando II, Gr√£o-Duque da Toscana, a ser o anatomista da corte. Em Firenze, sua vida iria mudar. De novo.

L√°, Nicolau Steno vai desfrutar do ambiente da Corte e, principalmente, dos s√°bios reunidos na “Academia Del Cimento“. Essa academia, fundada pelos M√©dici, reunia alguns dos mais importantes pensadores italianos da √©poca. Steno torna-se amigo de Marcello Malpigui, Vicenzo Viviani, Francesco Redi, entre outros.

¬†PEDRAS EM FORMA DE L√ćNGUA

Em 1666, um tubar√£o foi pescado na costa de Livorno. A cabe√ßa deste tubar√£o foi enviada √† Firenze para que Steno pudesse disseca-lo. Steno notou que os dentes do tubar√£o eram muito parecidos com as glossopetras. Estas glossopetras, as “L√≠nguas de pedra”, eram f√≥sseis muito comuns no mediterr√Ęneo. Eram conhecidas desde os tempos romanos. Havia muito tempo que Outros s√°bios haviam reivindicado que as glossopetras eram dentes de tubar√£o. Entre eles, destaca-se F√°bio Colonna. no entanto, a pericia anat√īmica de steno foi muito importante para que estes objetos fossem reconhecidos como restos de animais, ou no sentido moderno, f√≥sseis.

tubar√£o glossopetras
Cabeça de tubarão estudada por Steno e as glossopetras

Em seguida, Nicolau Steno, de anatomista, passou a naturalista. Fez diversas viagens pela Toscana, onde juntou material para escrever sua grande obra. Aparentemente,¬† essa obra seria muito grande. T√£o grande que Steno come√ßou a escrever o principio, ou o “pr√≥dromo”. E assim surgiu uma das grandes obras da Ci√™ncia moderna.

PR√ďDROMO DE UM SOLIDO CONTIDO EM OUTRO SOLIDO

No Pródromo, Steno procura explicar que haviam varias formas distintas de sólidos contidos nas rochas. Alguns destes sólidos eram fragmentos que eram depositados junto com as rochas, como os fósseis. Um sólido dentro de um solido. Assim ele justificava a existência de diversos materiais parecidos com organismos vivos encontrados nas rochas. como , por exemplo, as glossópetras.

Por outro lado , haviam substancias que cresciam no interior das rochas, os cristais. Steno prop√īs que os cristais de uma mesma especie teriam o mesmo √Ęngulo entre as faces. E que os cristais poderiam crescer dentro das rochas. Um s√≥lido, um outro s√≥lido, dentro de outro solido. Com esta proposi√ß√£o, a moderna mineralogia come√ßa a existir.

Al√©m disso, Steno tamb√©m prop√īs uma evolu√ß√£o geol√≥gica para as rochas da regi√£o da Toscana. Segundo se pode ler no pr√≥dromo, as rochas sofriam eros√Ķes internas, com intensos abatimentos de blocos. estes blocos abatidos eram ocupados por outras rochas, mais novas e assim por diante. Com isso, ele explicou diversas sucess√Ķes estratigr√°ficas, alem de enunciar o principio de superposi√ß√£o de camadas que hoje leva o seu nome.

Steno
Assim Steno explicou os ciclos sedimentares que ele observou nos arredores de Firenze
PADRE STENO ? BISPO STENO?

No entanto, uma outra mudança se operava com Nicolau Steno. Influenciado por seus amigos da academia Del Cimento, Steno acabou por se converter ao catolicismo em 1671. Mais do que isso: praticamente abandonou seus estudos de Anatomia e Geologia e passou a dedicar-se aos estudos teológicos. Assim, em 1675 ordenou-se padre católico e em 1677, bispo.

Nicolau Steno, vestido como Bispo Católico

Movido pela religiosidade, no entanto, Steno devotou cada vez mais tempo para sua f√©. Sua energia e seu entusiasmo o levaram a ser evangelizador cat√≥lico no norte da Alemanha, uma terra ferrenhamente protestante. E foi isso que Steno foi em seus √ļltimos anos de vida. Desta forma, andando de cidade em cidade, tentando converter as pessoas ao catolicismo romano, Steno empregou todas as suas for√ßas. Adquiriu fama de santo.

UM M√ĀRTIR CAT√ďLICO

Steno trabalhou inicialmente em Hanover, onde conheceu Leibniz, de quem se tornou amigo. Depois, foi para a cidade de Schwerin. L√°, em meio hostil, Steno trabalhou incansavelmente. Contudo, sua sa√ļde come√ßou a fraquejar. Muito doente, acamado, Steno morreu em 5 de dezembro de 1686 cercado por seus paroquianos.

Sua fama de evangelizador foi intensa. Desta forma, o caráter de sua conversão do luteranismo para o catolicismo de um sábio destes porte o transformou num herói católico. por conta de um processo de beatificação que durou mais de 50 anos recolhendo provas, Steno foi beatificado pelo para João Paulo II em 1988.

BEATO  OU CIENTISTA?

A vida de Nicolau Steno, entretanto, nos deu mostras do intenso ambiente intelectual do

seculo XVII. Como filosofo natural (a palavra cientista ainda n√£o existia), Steno fez algumas afirma√ß√Ķes interessantes e duradouras. Contudo, haviam ainda um grande caminho pela frente. Nada do que disse ou escreveu mudou instantaneamente a historia da Ci√™ncia ou da humanidade. Por um lado, muitos fil√≥sofos naturais continuaram a obra de Steno, e foram elaborando as bases da nova Ci√™ncia que s√≥ foi surgir, afinal, no seculo XIX, a Geologia.

Por outro lado, Steno e sua convers√£o, sua vida de Beato, foram exemplos para muitas pessoas que tinham preocupa√ß√Ķes religiosas. N√£o foi √† toa que seu processo de beatifica√ß√£o foi levado a efeito no s√©culo XX, um s√©culo t√£o esmagadoramente dominado pela Ci√™ncia. Como que para provar para n√≥s todos que mesmo um grande cientista pode ter preocupa√ß√Ķes de natureza religiosa.

Sem d√ļvida, o m√©todo cartesiano do experimento e da d√ļvida foi o grande marco na vida de Steno. A d√ļvida fez com que ele fosse cada vez mais rigoroso em suas observa√ß√Ķes e seus experimentos, do lado cientifico. Entretanto, do lado religioso, a d√ļvida fez com ele ele perdesse sua f√© e se iniciasse numa outra, numa f√© nova. E isso n√£o √© trivial.

Santo ou cientista, contraditório e paradoxal, Nicolau Steno foi um baita ser humano.

para saber mais:

Yamada, T., 2009. Hooke‚ÄďSteno relations reconsidered: Reassessing the roles of¬† Ole Borch and Robert Boyle.¬†The revolution in geology from the renaissance to the enlightenment,¬†203, p.107.

Vai, G.B., 2009. The ScientiÔ¨Āc Revolution and Nicholas Steno‚Äôs twofold conversion.¬†The Revolution in Geology from the Renaissance to the Enlightenment,¬†203, p.187.

Biomineralização: e eu com isso???

Quando pensamos em minerais, cristais, etc. raramente relacionamos esse tipo de processo com a vida e com o nosso próprio corpo. Mas basta um rápido sorriso no espelho para ver nos nossos dentes as evidências do processo de biomineralização que realizamos. Aliás sem biomineralização não conseguiríamos viver no planeta que habitamos, e precisamente essa capacidade dos organismos de biomineralizar pode ser exclusiva do nosso planeta, fazendo com que ele seja diferente de todos os outros conhecidos no sistema solar e fora dele.

Mas a final, o que é a biomineralização? Pode ser definida como um processo mediante o qual os organismos formam minerais a partir da retirada seletiva de elementos do meio que os rodeia e incorporação na sua estrutura funcional. Esse processo, por exemplo, incorpora cristais de hidroxiapatita [(Ca10(PO4)6(OH)2)] para construir e reparar nossos ossos e dentes. A hidroxiapatita é um mineral do grupo dos fosfatos, pois utiliza o fosforo como cátion para formar os cristais que vão sendo alocados entre as fibras de colágeno e dando forma e resistência aos nossos ossos. Os cristais de hidroxiapatita possuem forma de placas e são muito pequenos. Quando esse processo para ou é realizado de forma incompleta terá como consequência a osteoporose.

Os organismos utilizam vários íons no processo de biomineralização, entre os quais o mais comum é o cálcio (Ca), podendo ser encontrado em aproximadamente 50% dos biominerais. Outros íons bastante comuns são o Silício (Si), o Fosforo (P), o Ferro (Fe) e o Enxofre (S) embora a lista seja bem mais extensa.

O processo de biomineraliza√ß√£o n√£o √© exclusividade dos eucariontes, pois entre os registros mais antigos de biominerais se encontram os associados a bact√©rias que biomineralizavam Fe, por exemplo, em magnetita formando cristais denominados de magnetosomos h√° 3.000 milh√Ķes de anos. Essas bact√©rias que geram magnetita recebem o nome de magnetot√°ticas. Os vegetais tamb√©m biomineralizam utilizando como √≠on principal o Si, pelo menos nos √ļltimos 400 milh√Ķes de anos, ou seja, desde que temos registros de plantas sobre os continentes. Quem j√° n√£o se cortou com a folha de capim? Essas folhas possuem diminutos corpos de s√≠lica hidratada, ou opala, denominados como fit√≥litos que cumprem fun√ß√Ķes de defesa e sustenta√ß√£o da planta. Por sinal, cada planta biomineraliza fit√≥litos com formas diferentes que podem ser estudados e utilizados em estudos de reconstru√ß√£o de antigas florestas.

Alguns exemplos fitolitos e de folhas capim (Poaceae) rico em fitolitos.

H√° uma enorme diversidade de organismos que biomineralizam cristais utilizando o Ca na forma de calcita ou aragonita nos mares e oceanos. Um grupo que utiliza c√°lcio e que produz bel√≠ssimas carapa√ßas formadas por cristais de calcita s√£o os cocolitofor√≠deos. Sob essa denomina√ß√£o sofisticada de cocolitofor√≠deos s√£o reunidos os organismos autotr√≥ficos marinhos mais abundantes do fitopl√Ęncton, ou seja, que vivem flutuando nas camadas mas superficiais dos mares at√© uns 20m de profundidade. Os cocolitofor√≠deos s√£o t√£o abundantes que, junto aos foramin√≠feros, s√£o respons√°veis por criar e manter o gradiente vertical da alcalinidade na √°gua do mar, e tudo por devido √† biomineraliza√ß√£o.

Cocolitoforídeo com suas pelas placas que representam um cristal de calcita. As placas ao morrer o organismo caem isoladas no fundo dos mares e formam espessos depósitos de carbonatos, os chalk. Depósitos formados dessa forma são os white cliff da costa da Inglaterra. (sopasdepedra,ebah.com.br, wonderfulseaworld)

Os biominerais s√£o caracterizados por apresentar uma f√≥rmula qu√≠mica definida, embora a sua morfologia externa possa ser incomum se comparada com os minerais produzidos inorganicamente, mas nessa caracter√≠stica reside parte da sua complexidade e diversidade. Muitos s√£o, na realidade, compostos ou aglomera√ß√Ķes de cristais separados por mat√©ria org√Ęnica como no caso dos nossos ossos. Os biominerais podem existir como pequenos corpos dentro de uma rede de col√°geno ou quitina (como no caso da carapa√ßa dos caranguejos).

Como acontece a biomineraliza√ß√£o? Para que ocorra a nuclea√ß√£o (forma√ß√£o dos primeiros n√ļcleos cristalinos) e o posterior crescimento, a biomineraliza√ß√£o precisa de uma zona de deposi√ß√£o saturada, geralmente isolada do ambiente em volta e delimitada por uma geometria f√≠sica, como ves√≠culas intracelulares, onde o meio ao redor √© precisamente controlado. H√° dois processos b√°sicos respons√°veis: um biologicamente induzido e outro biologicamente controlado. No primeiro caso, os organismos n√£o t√™m controle do tipo e da forma dos minerais depositados, embora controlem o pH, pCO2 e a composi√ß√£o das secre√ß√Ķes, como acontece nos microbialitos comentados no post ‚ÄúMicrobialitos ‚Äď f√≥sseis mais persistentes‚ÄĚ da Flavia.

No processo biologicamente controlado, os organismos utilizam as atividades celulares para controlar diretamente a nucleação, o crescimento, a morfologia e a localização final do mineral que está sendo depositado. Assim, a maior parte do processo ocorre num ambiente isolado. O resultado é muito sofisticado e com uma função biológica especializada dada pelo organismo, como no caso dos nossos ossos e dentes. Pense nisso na próxima vez que escovar os dentes.

Como um tronco ou um osso vira pedra?

Quem j√° n√£o se deparou com uma pedra (rocha) que um dia formou parte de um dinossauro ou era a rama mais alta de uma √°rvore? Visitando um museu ou mesmo no campo?

Pois bem o processo que converte os restos org√Ęnicos (vegetais, animais, bacterianos, etc.) em f√≥sseis como estes √© denominado de permineraliza√ß√£o e ocorre de forma mais ou menos r√°pida, claro sempre pensando no tempo geol√≥gico. O processo se inicia imediatamente ap√≥s a queda do resto num ambiente de deposi√ß√£o de sedimentos (c√≥rrego, rio, lago, mar…) ou durante o soterramento num desses locais. O que acontece em geral, √© que uma solu√ß√£o rica em s√≠lica ou c√°lcio consegue preencher os espa√ßos vazios entre as c√©lulas, poros e no interior das c√©lulas. Com o passar do tempo, a perda de √°gua promovida pelo soterramento induz a forma√ß√£o de cristais de quartzo, no caso de uma solu√ß√£o rica em s√≠lica ou calcita, no caso do c√°lcio. Esses cristais possuem tamanhos diminutos, da ordem de poucos micrometros (1/1000 de um mil√≠metro), que preservam a anatomia original inclusive das c√©lulas, e por ser muito est√°veis no caso da s√≠lica, permitem a manuten√ß√£o dos f√≥sseis por muitos milh√Ķes de anos. Esse processo de fossiliza√ß√£o pode levar 50.000 anos ou menos o que, convenhamos, √© quase nada no tempo geol√≥gico.

Tronco de con√≠fera da Forma√ß√£o Teresina (260 milh√Ķes de anos) permineralizado por s√≠lica. A. Corte longitudinal mostrando traqueides; B. Detalhe de um traqueide, notar os cristais de quartzo que formam a estrutura.

Al√©m da pemineraliza√ß√£o por s√≠lica ou carbonato de c√°lcio, outros minerais como a pirita (sulfeto de ferro) podem permineralizar estruturas org√Ęnicas. At√© mesmo a forma√ß√£o de gelo pelo congelamento da √°gua dentro dos tecidos org√Ęnicos, pode ser considerada uma permineraliza√ß√£o, logicamente que bem menos est√°vel, pois o f√≥ssil apodrecer√° ap√≥s o descongelamento, como √© o caso dos mamutes que frequentemente s√£o encontrados na Sib√©ria.

No Brasil, temos abundantes s√≠tios com f√≥sseis permineralizados, inclusive alguns com o registro de extensas florestas que existiram h√° mais de 250 milh√Ķes de anos, como a do Monumento Natural das √Ārvores Fossilizadas do Tocantins (MNAFTO), em Biel√Ęndia, distrito de Filad√©lfia, que possui uma extens√£o de mais de 32.000 hectares ou as florestas f√≥sseis de Mata e de S√£o Padro do Sul no Rio Grande do Sul, um pouco mais jovenzinhas, ou mesmo os registros do interior de S√£o Paulo, que representam as florestas que habitavam as plan√≠cies de rios ou pr√≥ximas √† costa em climas quentes e secos. No geral eram compostas por √°rvores aparentadas com as arauc√°rias, podocarpos, pinheiros e tamb√©m por samambaias de grande porte e cavalinhas, com certeza sem plantas com flores. Nelas est√£o preservados troncos com tamanhos que alcan√ßam os 30 metros de comprimento e 1 metro de di√Ęmetro e, menos frequente, folhas. Ali√°s, a diversidade √© f√≥ssil √© grande, o que faltam s√£o pesquisadores para estudar tanto material.

Caule de samambaia permineralizado por sílica coletado na MNAPTO

Por √ļltimo, o processo de permineraliza√ß√£o foi o que permitiu a preserva√ß√£o das evid√™ncias de vida mais antigas que se conhecem na Terra, com cerca de 3465 milh√Ķes de anos, que chegaram at√© os nosso dias e tem sido interpretados como filamentos de col√īnias de bact√©rias fotossintetizantes conhecidas como cianobact√©rias… Ent√£o a permineralizac√£o √© um processo que permite tanto a conserva√ß√£o dos maiores registros f√≥sseis em tamanho como dos menores… √© s√≥ ter as condi√ß√Ķes necess√°rias e o tempo…

Quanto tempo demora?

‚ÄúQuanto tempo demora um m√™s pra passar? A vida inteira de um inseto, um embri√£o pra virar feto, a folha do calend√°rio, o trabalho pra ganhar um sal√°rio… mas daqui a um m√™s, quando voc√™ voltar, a lua vai estar cheia, e no mesmo lugar…‚ÄĚ

Biquini cavad√£o ‚ÄúQuanto tempo demora‚ÄĚ

Independentemente de seu gosto pela banda, estilo musical ou por esta canção em específico a questão aqui é o tempo.

A quantidade de tempo percebida pelas pessoas √© bem diferente daquela que ge√≥logos e paleont√≥logos trabalham. Nesse meio √© comum ouvir a express√£o: ‚Äúpoucos milhares de anos…‚Ä̬†Como assim, ‚Äúpoucos milhares?‚ÄĚ voc√™ deve estar se perguntando; 100 anos j√° √© muito, n√£o?…

Vamos voltar um pouco: pense em sua inf√Ęncia. Um ano para cada anivers√°rio, Natal, P√°scoa entre outras festividades, n√£o parecia muito tempo? Um m√™s sem aulas e voc√™ j√° n√£o queria mais voltar… n√£o √© mesmo?

Bem, o que quero dizer √© que mesmo ao longo de nossas vidas, a percep√ß√£o de tempo muda. J√° li em algum lugar que, pelo fato de aprendermos muitas coisas diferentes ao longo de um √ļnico dia, quando somos crian√ßas, nossa no√ß√£o de ‚Äúdia‚ÄĚ √© expandida. Talvez por isso o ano levasse ‚Äúmais tempo‚ÄĚ para passar, apesar de contar os mesmos 365 dias. E, claro, para cada pessoa, que vive uma experi√™ncia di√°ria diferente e percebe o mundo de forma diferente, a no√ß√£o de tempo tamb√©m muda.

Se para cada pessoa temos percep√ß√Ķes diferentes de tempo, imagine agora o que acontece entre diferentes esp√©cies. Um camundongo vive em torno de 2 anos. Acha pouco? Existe um inseto (efem√©rides) que, em sua fase adulta, vive somente um dia. Em 24 horas ele eclode de sua fase larval, tem sua adolesc√™ncia pela manh√£, torna-se um adulto a tarde, se reproduz e morre √† noite.

Baseando‚Äďse no fato de que n√≥s, mam√≠feros primatas, estamos acostumados com intervalos de tempo menores do que s√©culos, as amplitudes de tempo envolvidas, na concep√ß√£o das outras esp√©cies biol√≥gicas, s√£o curtas ‚Äď quando envolvem segundos, minutos e dias¬†‚Äď, ‚Äúnormais‚ÄĚ ‚Äď quando de dura√ß√£o semelhante a nossa expectativa de vida ‚Äď e longas¬†¬†‚Äď algumas esp√©cies vivem centenas de anos. Por√©m, para a escala c√≥smica… as coisas mudam. Como diz a m√ļsica, a lua permanece em sua mesma posi√ß√£o, com a passagem de um m√™s. Assim como a Terra e os demais planetas do sistema solar, seguindo sua √≥rbita e girando em torno de seu pr√≥prio eixo. Mas ser√° que foi sempre assim? Nos √ļltimos 100 anos, sim. Mas, e nos √ļltimos 3 bilh√Ķes de anos? Em rela√ß√£o √† lua sabemos que ela est√° se afastando do nosso planeta… h√° 4,5 bilh√Ķes de anos atr√°s ela e o sistema solar simplesmente ainda n√£o haviam se formado.

Tr√™s esp√©cies e tr√™s percep√ß√Ķes de tempo diferentes
Tr√™s esp√©cies e tr√™s percep√ß√Ķes de tempo diferentes

O registro contido nas rochas representa eventos de dura√ß√£o diferenciada. Pode ter ocorrido em poucos segundos ou mesmo ter levado s√©culos para se formar. Cabe aos Ge√≥logos e Paleont√≥logos analisar os diferentes vest√≠gios e tentar descobrir de que forma foram produzidos, e tamb√©m tentar investigar qual o tempo envolvido em sua cria√ß√£o. Olhar para as rochas, estrelas e planetas √© olhar para o passado. Os processos envolvidos em suas forma√ß√Ķes s√£o muito complexos e escapam de nossas no√ß√Ķes cotidianas. E √© isso que mais me fascina! E voc√™? o que te fascina?

A dist√Ęncia que agora nos separa foi outrora irrelevante‚Ķ

20160902_200334Vou aproveitar o fato de estar participando de um congresso em outro continente (sim, escrevo este post diretamente da √Āfrica!) para falar um pouco dos motivos que me levaram a participar deste evento, e que, em minha opini√£o, s√£o bastante importantes na compreens√£o das rela√ß√Ķes que paleont√≥logos e ge√≥logos est√£o acostumados a trabalhar no dia-a-dia.

Reconstrução do globo para o período Ordoviciano. A estrela marca o sul geográfico.
Reconstrução do globo para o período Ordoviciano. A estrela marca o sul geográfico.

A Table Mountain, atualmente, ponto tur√≠stico de alto relev√Ęncia para quem visita a cidade do Cabo, na √Āfrica do Sul, tem esse nome basicamente pelo seu formato (de mesa); e apesar de, hoje, ser um lugar em que √© preciso subir cerca de 1.100 metros acima do n√≠vel do mar para atingir o seu topo (e caminhar sobre ele), h√° cerca de 460 M.a. (milh√Ķes de anos atr√°s) era uma bacia sendo preenchida por sedimentos sucessivamente marinhos e deltaicos/fluviais. Esta bacia era imensa e abrangia o Brasil tamb√©m. N√£o havia, neste tempo, o oceano Atl√Ęntico entre a √Āfrica e a Am√©rica do Sul (!). E ambos os continentes (junto com a √ćndia, Ant√°rtica e Austr√°lia) formavam um √ļnico continente austral, o Gondwana.

Table Mountain, Cidade do Cabo, √Āfrica do Sul
Table Mountain, Cidade do Cabo, √Āfrica do Sul

Isso tudo tamb√©m significa que n√£o √© a primeira vez que eu vejo essas rochas na minha vida… apesar de ser a primeira vez que visito a √Āfrica. Voc√™ est√° conseguindo seguir meu racioc√≠nio? As mesmas rochas que temos em Table Mountain tamb√©m est√£o atualmente expostas no Brasil! N√£o √© o m√°ximo?

 

Vim pra c√° para, al√©m de participar de um evento, conhecer as rochas e f√≥sseis que ocorrem por aqui. Apesar de serem as mesmas com as quais trabalho no Brasil, as varia√ß√Ķes ocorrem e tentar compreender estas varia√ß√Ķes e suas causas, fazem parte de meu trabalho como pesquisadora.

Quais s√£o, ent√£o, as rela√ß√Ķes que mencionei no primeiro par√°grafo?

  • tempo profundo,
  • mudan√ßas (paleo)ambientais,
  • tect√īnica de placas/deriva continental

Voltar ao passado e imaginar os ambientes de deposi√ß√£o dos sedimentos que formam estas (atuais) rochas… estas s√£o algumas das formas de estudo de um geocientista.

 

No meu pr√≥ximo texto¬†vou falar sobre a conting√™ncia do registro fossil√≠fero… mas nas pr√≥ximas semanas teremos mais posts da Profa. Fr√©sia e da doutoranda Fl√°via, n√£o deixem de acompanhar; toda ter√ßa, um novo paleopost.