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A quebra de paradigmas e a idade da Terra

Voc√™ sabia que o estabelecimento da Geologia como ci√™ncia surgiu com a constata√ß√£o de que a idade da Terra √© avan√ßada, e de que muitos de seus processos naturais levam centenas de milhares de anos para ocorrer? Vou contar um pouco dessa fascinante hist√≥ria…

      ‚ÄúSem vest√≠gio de um come√ßo, sem perspectiva de um fim‚ÄĚ 
James Hutton

Esta frase √© ic√īnica do trabalho de James Hutton (1726-1797), um dos primeiros cientistas a pensar sobre a idade da Terra e o tempo envolvido nos processos geol√≥gicos, tais quais os reconhecemos hoje.

Hutton em campo, observando rochas com os perfis dos rostos de seus inimigos na ciência.

A concepção sobre uma Terra antiga, na Geologia, surgiu aos poucos. Até meados do século XVIII, a bíblia servia de guia para datas e eventos; por isso, acreditava-se que a Terra não teria que 6.000 anos de idade. A influência religiosa era grande no meio científico. Podemos lembrar que o próprio Darwin (1809-1882) demorou anos recolhendo evidências sobre a sua teoria evolutiva, também por conta de seu receio em revelar suas ideias; isso porque iam contra os valores religiosos na época.

Porqu√™, voc√™ se pergunta, a igreja tinha tal influ√™ncia na ci√™ncia? Era um livro de relatos, muito antigo. Como explicar o mundo e a origem de tudo? Muitos cientistas passaram a usar ci√™ncia aliada aos relatos b√≠blicos, na tentativa de calcular a idade do planeta. Al√©m disso, acredito que fosse imoral pensar que Deus tivesse criado um mundo que pudesse ter esp√©cies de organismos imperfeitas. Esp√©cies que se extinguissem. Qual seria a raz√£o para um ser superior criasse algo que n√£o sobrevivesse ‚Äúpela eternidade‚ÄĚ? Historicamente podemos entrar no debate de que a igreja controlava o poder na √©poca e que o homem era, neste contexto, a principal esp√©cie vivente, sendo que o planeta havia sido criado para ele, por um ser superior.

A quebra do dogma religioso e o reconhecimento de um tempo profundo para a idade da Terra se deu no s√©c. XIX. Nessa √©poca, as ideias de Darwin e Lyell (que viveu entre 1797-1875 e era seguidor de Hutton) se alinharam para explicar os fen√īmenos observ√°veis na natureza org√Ęnica e inorg√Ęnica (tanto na vida e sua evolu√ß√£o, quanto nos eventos geol√≥gicos).

√Č neste momento que se retira do homem o papel de esp√©cie ‚Äúmais desenvolvida‚ÄĚ. Os princ√≠pios da evolu√ß√£o biol√≥gica, associados com a necessidade de uma Terra muito antiga, colocam o homem como mais uma esp√©cie dentre centenas de milhares, quebrando assim, pelo menos em parte, a forte influ√™ncia religiosa na ci√™ncia. Mark Twain relata essa quebra com uma analogia que considero fant√°stica, e traduzo de forma livre, a seguir:

‚ÄúO homem est√° aqui h√° 32.000 anos. Que tenha levado 100.000 anos para preparar o mundo para sua chegada √© uma prova irrefut√°vel de que o mundo em si foi criado para isso. Suponho isso, n√£o sei. Se a torre Eiffel representasse agora a idade da Terra, a camada de tinta de seu pin√°culo representaria a presen√ßa do homem na Terra; e todos iriam perceber que aquela casquinha de tinta representa a raz√£o pela qual toda a torre foi constru√≠da. Eu concluo isso, n√£o sei‚ÄĚ.

Outra metáfora sobre a vastidão do tempo e a presença do homem na Terra é a de John McPhee, também traduzida livremente a seguir:

‚ÄúConsidere a hist√≥ria da Terra como a antiga medida de jarda inglesa, a dist√Ęncia do nariz do rei at√© a ponta de seu dedo, com o bra√ßo estendido. Uma lixada na unha de seu dedo m√©dio e toda a hist√≥ria humana √© apagada‚ÄĚ.

Podemos dizer que Hutton e Lyell, observando os fen√īmenos do dia-a-dia da natureza e tamb√©m eventos catastr√≥ficos preservados em rochas, foram capazes de predizer o que seria confirmado alguns anos mais adiante. Afinal de contas o processo de data√ß√£o radioativa, que √© o que fornece a idade real das amostras de rochas, s√≥ veio a ser desenvolvido no in√≠cio do s√©c. XX. Assim como Darwin, Hutton e Lyell coletaram uma s√©rie de informa√ß√Ķes para corroborar as suas ideias de que a Terra era muito mais antiga da que retratava a b√≠blia. Mas os n√ļmeros, aqueles ‚Äú4,5 bilh√Ķes de anos‚ÄĚ que ouvimos falar sobre a idade do nosso planeta (e que chamamos de idade absoluta), s√≥ veio √† tona alguns anos depois.

De acordo com alguns fil√≥sofos da ci√™ncia, como Thomas Kuhn (1922-1996), a ci√™ncia caminha exatamente assim. S√£o anos de trabalho na ‚Äúci√™ncia comum‚ÄĚ, acumulando conhecimento, para que, de ‚Äúuma hora para outra‚ÄĚ, os paradigmas cient√≠ficos sejam quebrados, e novas ideias passem a vigorar.

Retirar a esp√©cie humana de seu pedestal n√£o foi tarefa f√°cil. A ci√™ncia progride a passos lentos, delimitados por momentos de grande revolu√ß√£o; al√©m disso, est√° sempre enroscada no emaranhado contexto social, econ√īmico, religioso e emocional em que cada um dos cientistas (pessoas), se inserem.

 

 

Onde encontrar mais informa√ß√Ķes sobre Hutton e a concep√ß√£o do tempo profundo:

Clique aqui para ser direcionado a uma matéria na página do Smithsonian Institute.

Relembre o nosso primeiro post sobre o tempo profundo
Livros utilizados para este post:
Decifrando a Terra
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