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NO FINAL DO √öLTIMO SEGUNDO DO TEMPO GEOL√ďGICO: O QUATERN√ĀRIO

O Quatern√°rio √© dividido em duas √©pocas: o Pleistoceno, que vai de 2 Ma at√© 10.000 anos antes do presente e o Holoceno, que chega at√© hoje. A tend√™ncia, que levou ao resfriamento geral do planeta iniciado no Mioceno, se intensificou durante o Pleistoceno. Assim, o clima foi caracterizado por intervalos glaciais com momentos mais amenos como o que atualmente vivemos. Segundo as evid√™ncias indicam (registros de mudan√ßas na distribui√ß√£o da vegeta√ß√£o, altera√ß√Ķes no registro sedimentar observadas em testemunhos retirado do oceano Pacifico e Atl√Ęntico, etc.) esses ciclos podem se ter repetido de 10 a 20 vezes com uma periodicidade de 100.000 anos nos √ļltimos 2 Ma. Durante os intervalos glaciais o clima a n√≠vel global foi frio e seco, com o desenvolvimento de extensas calotas de gelo que cobriram aproximadamente 30% da superf√≠cie do planeta, especialmente nos continentes do hemisf√©rio norte, enquanto que nos continentes do hemisf√©rio sul o clima foi muito mais frio, seco e com glaciares de montanha extensos nos Andes.

As mudan√ßas clim√°ticas est√£o associadas a v√°rios fatores influenciados por deriva continental, orog√™neses, altera√ß√Ķes nas concentra√ß√Ķes do CO2 da atmosfera, correntes oce√Ęnicas, etc. No caso da deriva continental uma das causas foi o isolamento do continente ant√°rtico, iniciado com o rompimento do Gondwana e que levou √† instala√ß√£o da corrente marinha fria subant√°rtica no hemisf√©rio sul, hoje conhecida como corrente de Humboldt, respons√°vel por serem t√£o geladas as √°guas da costa do Chile e do Peru. As mudan√ßas na deriva continental tamb√©m influenciaram na forma√ß√£o dos extensos len√ß√≥is de gelo continentais, no isolamento do oceano √°rtico e na forma√ß√£o de mares congelados no hemisf√©rio norte. As orogenias, como a dos Andes e particularmente da √Āsia central, com o soerguimento dos planaltos dos Himalaias e Tibete produziram um ac√ļmulo de √°reas elevadas a partir do Mioceno. Por outro lado, a consequ√™ncia da explosiva expans√£o das florestas dominadas por angiospermas acontecida durante o Paleogeno incrementou o sequestro de carbono nos continentes na forma de jazidas de carv√£o, o que levou a uma redu√ß√£o na concentra√ß√£o do principal g√°s do efeito estufa da atmosfera. Todas essas altera√ß√Ķes repercutiram de forma consider√°vel nos ecossistemas que passaram a ser muito din√Ęmicos, e a nossa esp√©cie surgiu nesse contexto de mudan√ßas clim√°ticas dr√°sticas e r√°pidas, claro considerando a enorme dimens√£o do tempo geol√≥gico.

Pois bem, no sudeste do Brasil, embora n√£o se tenha not√≠cias de calotas de gelo dessa √©poca, o clima tamb√©m oscilou, alternando per√≠odos muito secos e mais frios do que o atual, com momentos mais c√°lidos e √ļmidos como os de hoje. Os registros de vida no estado de S√£o Paulo s√£o mais abundantes para o final do Pleistoceno, onde s√£o encontrados, por exemplo, no Munic√≠pio de Iporanga, dentro das cavernas e abismos do Parque Estadual Tur√≠stico do Alto Ribeira (PETAR), ossadas relacionadas √† megafauna. Os registros s√£o bastante abundantes embora a maioria dos esqueletos se apresentem desarticulados e misturados. Nesses h√° ossos, entre outros, de tigres dente de sabre (Smilodon), pregui√ßas gigantes (Eremotherium, Lestodon, Ahytherium, Nothotherium; Figura 1), parentes dos elefantes conhecidos como Stegomastodon, tatus gigantes ou Glyptodon, e perissod√°ctilos como o Toxodon (Figura 2, end√™micos de Am√©rica do Sul, de tamanho semelhante a um rinoceronte). Uma vez que os conjuntos de ossos se encontram muito misturados, podem ter correspondido a v√°rias comunidades diferentes, mas representam uma composi√ß√£o da megafauna caracter√≠stica da regi√£o intertropical e, sem lugar a d√ļvida, muito diferente da fauna atual da regi√£o. O mesmo podemos comentar acerca da vegeta√ß√£o que, pelo tamanho da megafauna e pelos registros conhecidos, principalmente correspondentes a polens, era uma vegeta√ß√£o mais aberta que a atual.

Diferentes vistas do esqueleto de uma preguiça gigante, exemplar exposto no Museu de Ciências Naturais - PUC Minas, Belo Horizonte, MG.
Figura 1 РDiferentes vistas do esqueleto de uma preguiça gigante, exemplar exposto no Museu de Ciências Naturais РPUC Minas, Belo Horizonte, MG.

Da vegeta√ß√£o tamb√©m temos registros a partir aproximadamente do final do Pleistoceno. Um dos mais extensos, inclusive para a Am√©rica do Sul, foi encontrado ao perfurar a cratera deixada pelo impacto de um meteoro, fato acontecido possivelmente durante o Neogeno na regi√£o de Parelheiros, pr√≥xima √† cidade de S√£o Paulo. A cratera, conhecida como de Col√īnia, tem um di√Ęmetro de 3,6 km e se calcula que esteja preenchida por cerca de 300 metros de sedimentos. Os testemunhos rasos estudados possuem uma extens√£o m√©dia de 8,5 m devido √† dificuldade de se realizar a perfura√ß√£o mais profunda e recuperar os sedimentos preservando o empilhamento original das camadas de forma manual. Para se obter um testemunho completo de todo o registro sedimentar presente na cratera seria necess√°rio contar com uma estrutura de perfura√ß√£o semelhante √†quelas utilizadas para prospec√ß√£o de petr√≥leo, o que envolve um custo muito elevado. O estudo desses registros, principalmente utilizando estudos de conjuntos de microf√≥sseis, como polens e esporos, mostraram a evolu√ß√£o da vegeta√ß√£o no local nos √ļltimos 50.000 anos, que alternou de uma floresta com arauc√°rias nos intervalos mais frios para a Mata Atl√Ęntica nos momentos de clima mais ameno como o de hoje, embora com diferentes esp√©cies em cada um dos interglaciares identificados, sendo o √ļltimo acontecido no Holoceno. Dessa forma, chegamos aos dias de hoje onde est√£o sendo inclu√≠dos dentro do registro sedimentar os restos de vida que vir√£o nos pr√≥ximos milh√Ķes de anos dever√£o tornar-se f√≥sseis.

 

Vamos deixar o mamute extinto

H√° poucos anos se v√™m noticiando mundo a fora tentativas mirabolantes de trazer animais j√° extintos de volta √† vida, como o grandioso mamute. Este grande animal pleistoc√™nico √© o maior alvo desta ideia por raz√Ķes diferenciadas, dentre elas, a facilidade de encontrar seus corpos mumificados extremamente bem preservados devido ao aparecimento de diversos esp√©cimes por conta do derretimento do gelo em regi√Ķes como a Sib√©ria. N√£o √© de se estranhar que, vendo-os assim t√£o bem preservados, a ideia de ‚Äúreviv√™-los‚ÄĚ fica extremamente atraente, seja pelo fasc√≠nio que estes grandes animais despertam, seja pela ambi√ß√£o de ser dono de um grande feito como este.

Bebê mamute mumificado. Créditos: Martin Meissner
Bebê mamute mumificado. Créditos: Martin Meissner

Mas será que a interferência nos caminhos que foram traçados naturalmente pela história do nosso planeta seria realmente uma boa ideia? O que seria do pobre mamute, que fora adaptado para os períodos glaciais da Terra, a habitar grandes espaços, correr atrás de suas presas e se defender de seus predadores, bem ao modo da Era do Gelo? Os tempos eram outros, as características físicas e ambientais de nosso planeta eram outras.

O surgimento de novas tecnologias na √°rea da biologia molecular tende a agu√ßar a mente dos pesquisadores mais ambiciosos, o que √© excelente para novas descobertas, chances de desenvolvimento de cura e tratamento de doen√ßas, e principalmente, um maior dom√≠nio e possibilidade de manipula√ß√£o do genoma de in√ļmeras esp√©cies, incluindo o ser humano. E por que n√£o os mamutes?

Em meados de 2015, o geneticista George Church, de Harvard, e seus colaboradores, anunciaram que utilizaram uma t√©cnica de ‚Äúedi√ß√£o de genes chamada CRISPR (do ingl√™s¬†Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats, ou seja, Repeti√ß√Ķes¬†Palindr√īmicas¬†Curtas Agrupadas e Regularmente Interespa√ßadas) para inserir genes de mamute em elefantes. Estes genes inseridos seriam os respons√°veis pela express√£o de alguns caracteres dos mamutes, como tamanho das orelhas mais reduzido, cor e comprimento dos pelos e a presen√ßa de gordura subcut√Ęnea. √Č claro que pesquisadores como estes t√™m em mente que, apesar da ideia soar simples, h√° muitas quest√Ķes em jogo, como a rea√ß√£o das c√©lulas √† express√£o desses genes, se de fato conseguiriam dar origem √† tecidos especializados, etc.

Pensando em um futuro n√£o muito distante, e se por acaso um experimento como este tivesse sucesso? E se nascesse um mamute de um elefante vivo? Outra quest√£o importante a se pensar √© com rela√ß√£o aos efeitos do meio externo ao fen√≥tipo (caracter√≠sticas f√≠sicas do organismo que t√™m origem da express√£o dos genes). Seria um h√≠brido com caracter√≠sticas t√£o semelhantes assim aos mamutes pleistoc√™nicos? S√£o in√ļmeras quest√Ķes a serem pensadas al√©m do experimento em laborat√≥rio. Pensando em um sucesso ainda maior (que √© com rela√ß√£o √† sobreviv√™ncia desses h√≠bridos), at√© quanto tempo viveriam? Ou seriam saud√°veis por quanto tempo? E penando na manuten√ß√£o desses animais, teriam eles, obviamente, que ficarem restritos √† ambientes polares, com alimenta√ß√£o fornecida e especializada, etc.

Quero deixar claro que n√£o estou querendo levantar somente os aspectos negativos deste tipo de pesquisa, at√© por que acho que a ousadia √© um est√≠mulo para mover a Ci√™ncia, e nela h√° espa√ßo para qualquer experimento, desde que esteja de acordo com as quest√Ķes √©ticas. Mas o objetivo deste post √© levantar as implica√ß√Ķes √† longo prazo e gerar uma reflex√£o do quanto valeria a pena realizar tal fa√ßanha. Apenas sou mais adepta da ideia de se utilizar t√©cnicas como esta, por enquanto, para tentar auxiliar na luta contra a extin√ß√£o de esp√©cies atuais devido √†s a√ß√Ķes antr√≥picas, por exemplo.

Como diz a famosa express√£o, a natureza sabe o que faz. ¬†Os eventos de extin√ß√£o que ocorreram ao longo da hist√≥ria da vida na Terra, sejam eles por causa da pr√≥pria evolu√ß√£o da geosfera (por exemplo, o movimento das placas tect√īnicas e vulcanismo, que expeliram enormes quantidades de gases na atmosfera), ou por intera√ß√Ķes ecol√≥gicas (competi√ß√£o entre esp√©cies, preda√ß√£o, etc), ou como obra do acaso (como os impactos de corpos celestes), apesar de terem sido catastr√≥ficos para os seres que viviam nestes per√≠odos, foram respons√°veis pela ‚Äúreciclagem‚ÄĚ da vida na Terra, ou seja, possibilitaram o surgimento de novos organismos, de novos nichos, at√© a vida se moldar ao que conhecemos hoje. Estamos aqui devido √†s extin√ß√Ķes ocorridas? Provavelmente elas t√™m grande parte nisso.

A evolu√ß√£o da vida tende a acompanhar as mudan√ßas que a Terra vai sofrendo com o passar do tempo geol√≥gico, mas o tempo sentido pelo homem √© curto demais, tem uma escala muito, mas muito menor. Ent√£o tendemos a n√£o enxergar os benef√≠cios causados por eventos catastr√≥ficos ou mudan√ßas naturais, quanto menos ainda perceber os efeitos que o ambiente causa, √† longo prazo, no sucesso ou ‚Äúfracasso‚ÄĚ da sobreviv√™ncia de uma esp√©cie. Pensando desta maneira, apesar de tamb√©m sermos agentes causadores de mudan√ßas, nossas a√ß√Ķes est√£o causando um preju√≠zo √† biodiversidade do planeta muito mais al√©m da conta para a recupera√ß√£o natural dessas extin√ß√Ķes provocadas. Mas isto seria uma discuss√£o para outro post.

Quanto aos mamutes? Por mim é melhor deixá-los extintos, para o bem deles, e para o bem do nosso planeta. Sim, a natureza sabe o que faz, e às vezes o acaso faz bem também!