Feiúra, beleza e gratidão

Há um tempo li (ou melhor, me deleitei com) Ensaio sobre a Feiúra, do italiano Umberto Eco. É curioso pensar que o bizarro e o feio podem ser fascinantes. E acaba sendo inevitável concluir que a beleza e o prazer que ela evoca podem ser encontrados nos lugares mais improváveis. Talvez soe estranho ao leitor leigo, mas há muita beleza na vida de um cientista – mesmo em equações matemáticas intrincadas, seres vivos repulsivos e reações químicas fedorentas. Às vezes, colegas de laboratório comentam comigo sobre alguns de seus resultados e as conclusões obtidas a partir deles. Quando todos os dados se encaixam harmoniosamente numa teoria, não consigo evitar que escape um “– puxa, que bonito…“. A fascinação causada por uma descoberta científica, por menor que seja, deve ser muito semelhante ao prazer de descobrir o mundo, típico de uma criança nos seus primeiros anos de vida. Sem dúvida, isso é um privilégio.
Se eu tivesse nascido algumas gerações atrás, participar do mundo acadêmico seria um sonho praticamente impossível de ser realizado. Por isso, nesse Dia Internacional da Mulher, eu gostaria de agradecer àquelas mulheres que, direta ou indiretamente, contribuíram para que eu e tantas outras pudéssemos trilhar esse caminho, sejam elas famosas e reconhecidas como Marie Curie, injustiçadas (ainda!) como Rosalind Franklin, brasileiras de coração como Johanna Döbereiner ou aquelas tantas anônimas ao redor do mundo que fazem a diferença onde estão. Entre elas, Denise Sain Poletto, minha mãe, que me ensinou que mulheres são tão capazes quanto homens (nunca acredite quando disserem o contrário para você). Porque, como já citei antes aqui neste blog, “mulher é desdobrável”. Nós somos.
“A objeção que eu fazia a mim mesma era não ser o ensino profissão de mulher, que ela deve permanecer calada, escutar e aprender, sem demonstrar o que sabe, que publicar uma obra está por cima de sua condição; que habitualmente isso não contribui à sua
boa reputação, pois os homens desprezam e desaprovam sempre o produto da mente feminina… Estava persuadida, por outro lado, de não ser a primeira a pôr alguma coisa no prelo, que a mente não tem sexo, que se a das mulheres fosse cultivada como a dos homens e se se empregassem tanto tempo e meios em instruí-las poderiam igualá-los.”

Marie Meurdrac (química francesa do século XVII, ao contar sobre as dúvidas e angústias que precederam a decisão de publicar seus achados científicos – os primeiros escritos por uma química mulher na história)
(O texto em itálico é uma tradução feita por Lucia Tosi. O conteúdo completo pode ser encontrado aqui)

Discussão - 15 comentários

  1. maria disse:

    que legal teu texto.
    feliz dia pra você!

  2. Fernanda Poletto disse:

    Obrigada, Maria. Parabéns pra gente!

  3. Olá Fernanda,
    parabéns por esse dia tão especial!
    Tava fuçando esse site e lembrei de você.
    A ideia deles é que qualquer pessoa pode sugerir um objeto que eles tiram imagens microscópicas. De repente, pode lhe interessar…
    http://aspexcorp.com/updates/sem-image-gallery-by-aspex-send-us-your-sample/
    Um grande abraço

  4. Sibele disse:

    Uma bela homenagem, Fernanda! Muito obrigada!
    Parabéns para todas nós! E um parabéns especial à sua mãe Denise, por passar a você essa grande lição de vida! O resultado nós vemos por aqui, com muita honra! 🙂
    Obrigada também pelo excelente artigo da Lucia Tosi!

    Podemos seguramente afirmar que o conhecimento que os homens podem adquirir das mulheres, mesmo no que se refere ao que elas foram e são, sem referências ao que elas podem ser, é desgraçadamente superficial e será sempre assim até que as próprias mulheres tenham dito tudo o que têm para dizer. (John Stuart Mill)

  5. Fernanda Poletto disse:

    Oi, Alessandro
    Obrigada 🙂 E sobre o link: ADOREI! ADOREI!
    Oi, Sibele
    Descobri a professora Lucia Tosi por acaso, na internet – e foi uma feliz descoberta. Ela escreveu vários artigos sobre a presença da mulher na ciência, cuja leitura vale a pena. Resumidamente, ela nos mostra que as mulheres sempre estiveram presentes, porém não eram reconhecidas. Ou eram queimadas como “bruxas” (recomendo a todas as mulheres ler o livro “O Martelo das Feiticeiras”, para entender como a época da Inquisição causou uma opressão profunda da mulher na sociedade, cujos resquícios são sentidos até hoje), ou na melhor das hipóteses ficavam à sombra de seus maridos.
    Minha orientadora contou-me, ontem, uma história curiosa sobre a mulher de Antoine Lavoisier: seu nome era Marie-Anne Pierrette Paulze, e ela era química e colaboradora do marido. Com a morte dele (guilhotinado), ela voltou a se casar, desta vez com Benjamin Thompson. É uma tremenda coincidência que ela tenha sido esposa de dois cientistas tão renomados, ambos tendo feito descobertas importantíssimas no ramo da química. Não estou tirando os méritos dos maridos, mas seria ela uma daquelas mulheres injustiçadas, tal como Rosalind Franklin? A história conta que ela era assistente – será que era só isso, mesmo????

  6. Sibele disse:

    Realmente, uma história bem singular, a de Marie-Anne Pierrette Paulze. Dá mesmo margem a especulações sobre a sua real influência nos trabalhos dos dois maridos ilustres, não?
    E também me lembra a história de Mileva Maric, esposa de Einstein. Talvez sem seus cálculos (no que sabidammente Einstein *não* era bom…) a Teoria da Relatividade tivesse outros rumos…
    Dá até para pensar na necessidade de uma historiografia honesta que resgate essas mulheres injustificadamente negligenciadas na História das Ciências, não, Fê?

  7. Fernanda Poletto disse:

    Verdade…. Seria mais que bom – seria necessário.

  8. Viviam Ribeiro disse:

    Guria!!!!!!!! Parabéns pelo nosso dia!!!!
    Enquanto lia seus posts, lembrava de nós a 16 ou 17 anos atrás. Meu, quanto tempo hein?
    Apesar de todos os livros e anos de estudo que pode-se notar atrás das suas palavras, ainda consegui identificar a minha grande amiga Fer do tempo de primeiro grau: sensível, amiga das artes e da cultura, detalhista e perfeccionista, inteligente ao extremo.
    Conhecendo histórias de mulheres como Marie Meurdrac, sinto muito mais orgulho de ser mulher (e não só no dia de ontem :)).
    Trabalhando em um mundo predominantemente masculino (TI), também só tenho a agradecer a essas heroínas, que nos deixaram essa maravilhosa herança de poder escolher o que faremos de nossas vidas.
    Um grande abraço!
    Viviam

  9. Fernanda Poletto disse:

    Nossa, Viviam!!!
    Obrigada por passar por aqui e deixar esse comentário lindo… fiquei até emocionada agora 🙂
    Dizem que, quando ficamos um tempão longe de um amigo e o reencontramos, é como se tivesse passado apenas alguns minutos. Foi exatamente assim que me senti agora.
    Beijão,
    Fer

  10. Gio disse:

    Oiii amiga!!!
    Nossa não tinha como ler isso e não deixar registrado um sentimento de gratidão e humanismo!!! Obrigada por me remeter a esse mundo feminino de sensibilidade, beleza, inteligência e força!!! Feliz dia, sempre!!!
    Beijos,
    Gio

  11. Fernanda Poletto disse:

    Oi, Gio!!!!
    Feliz dia nosso, o ano todo 🙂
    Bjs,
    Fer

  12. Nathalie Ommundsen disse:

    Vixe Fernanda, pense que eu aterrisei no seu blog e me encantei totalmente!!! Sou muito fã das ciências e amei ler o que li aqui nessa ‘bala mágica’. Sou bióloga e moro bemmmmm longe daí, no Ceará, também faço doutorado mas com biotecnologia da reproduçao de peixes. Sempre vou me deleitar por aqui!
    Abraço de Fortaleza!

  13. Fernanda Poletto disse:

    Ai ai, Fortaleza….. Veja a coincidência: estava conversando agorinha mesmo com um amigo daí, sobre as belezas da sua cidade (que estou louca pra conhecer). Obrigada pela visita, Nathalie!

  14. Nath disse:

    De nada, Fernanda, se você vier por Fortaleza, me mande um email! abraço!

  15. Maria Lionzo disse:

    Parabéns pelo texto, muito belo 🙂

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