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Sobre Carolina Zabini

Bióloga formada pela UEPG. Professora Doutora em Ciências, área de concentração em Paleontologia pela UFRGS. Atua com paleontologia de invertebrados (BRACHIOPODA: LINGULIDA) Devonianos da Bacia do Paraná, com ênfase em tafonomia.

Coincidências (milagres??) paleontológicos: as preservações excepcionais

Qual a probabilidade de você conversar com alguém sobre algo que você não sabe muito bem e, no dia seguinte, abrir um livro e encontrar exatamente aquele assunto? Ou então, de você ir a um sebo e encontrar à venda um livro que um parente distante seu havia adquirido há anos atrás? Talvez estes pequenos exemplos não sejam reconhecidos como milagres. Na verdade, eu prefiro pensar em coincidência mesmo. Mas de uma probabilidade infinitesimalmente pequena.

Eu já falei em posts anteriores que o processo de preservação e também o da descoberta de um fóssil é um evento raro. Mas tem alguns casos que são surpreendentes, e é sobre um deles que vou escrever hoje; envolve a descoberta de um nodossauro de 110 M.a. na região de Alberta, Canadá.

Localização da cidade onde uma descoberta incrível ocorreu.

A história, que foi divulgada em vários sites, conta que um operador de máquinas de uma mina em Fort McMurray, trabalhava na retirada das rochas arenosas impregnadas com óleo (trabalho este que exercia há 12 anos pelo menos), quando se deparou com algo distinto, muito mais duro que as rochas do entorno. Em seu cotidiano de trabalho era comum encontrar troncos petrificados, mas nunca havia se deparado com um… resto de dinossauro. Resto de dinossauro! E a história não termina por aí. Não era apenas um conjunto de ossos de dinossauro, como a maioria dos registros de vertebrados que ouvimos falar…

O animal completo (isto é, todas as suas partes) deveria estar contido naquela rocha, e isso, por si só já é raro no registro. Mas o mais incrível desta história é que não são somente os ossos que ficaram preservados. As impressões da pele, escamas, osteodermas, ossos, e, possivelmente, até sua última refeição, estão ali! E ainda: sua forma original está mantida, ele não está intensamente deformado e achatado.

Apesar de ter sido encontrado em 2011, até hoje os estudos com o espécime continuam. Durante a retirada do fóssil do local em que foi encontrado, somente se conseguiu resgatar a sua porção mais frontal, do focinho até o quadril, e um outro bloco, com a cauda. Foram necessárias cerca de 7.000 horas de trabalho em laboratório para preparar o crânio e a cauda para estudo. Esta preparação consiste basicamente na retirada de rocha do entorno do fóssil. O torso do animal ainda está em preparação. O bloco que o contém pesa cerca de 15 toneladas. Hoje ele está depositado na coleção do Museu Real de Ontário (ROM). Seu nome científico é Zuul crurivastator.

Este é o fóssil mais bem preservado de nodossauro  já descoberto. Este é Zuul crurivastator. Foto da National Geographic

Todo o contexto geológico em que ele foi encontrado é também muito interessante. O animal que, em vida, era terrestre e herbívoro, foi encontrado em sedimentos que registram o fundo de um antigo mar. Acredita-se que seu corpo tenha sido carregado, inflado, boiando e em decomposição parcial, por um rio, e quando a carcaça liberou seus gases internos (produtos da decomposição), ela já estava em mar aberto, onde mergulhou para as profundezas, foi soterrada, e ali permaneceu para ser encontrada em 2011.

Zuul, um monstro do filme Caça-fantasmas

De acordo com o Museu Real de Ontário os nodosauros são dinos pertencentes à infraordem Ankylosauria e eram vertebrados terrestres com 4 patas, corpos achatados, longos e recobertos por uma armadura óssea. Sua cauda apresentava espinhos, e, por vezes, uma clava em sua extremidade. Quando em vida devia chegar aos 6 metros de comprimento e pesar cerca de 2,5 toneladas. Foi o fato de apresentar narinas largas e 4 chifres no crânio (atrás e embaixo dos olhos), que levou à classificação em um novo gênero, o Zuul. Este nome, aliás, remete a um monstro do filme dos Caça-fantasmas! Há! Não posso deixar de fazer referência a um post anterior do blog (este aqui). Já falamos que é possível que restos de fósseis de grandes tamanhos tenham dado origem às lendas dos dragões, não é mesmo? Vejam, no caso de Zuul, o monstro do filme, isto é, a criação humana para uma história de ficção científica, é anterior à própria descoberta do fóssil. Como pessoas influenciadas pelo seu contexto histórico e social, os cientistas envolvidos na taxonomia do fóssil de Alberta homenagearam a ficção! Não é legal?

Vocês acham eles parecidos? à esquerda a reconstrução artística do fóssil Zuul, à direita, Zuul, do filme Caça-fantasmas. Fonte: The guardian.

 

Veja a publicação científica desta descoberta aqui.

Você pode ver as imagens e a matéria que inspirou este post abaixo:

http://www.nationalgeographic.com/magazine/2017/06/dinosaur-nodosaur-fossil-discovery/

https://www.scientificamerican.com/article/new-dinosaur-resembles-ghostbusters-monster-zuul/

 

Fonte das imagens:

https://www.theguardian.com/science/2017/may/10/meet-zuul-destroyer-of-shins-the-75m-year-old-ghostbuster-dinosaur

http://www.nationalgeographic.com/magazine/2017/06/dinosaur-nodosaur-fossil-discovery/

Cobras, sombra e água fresca. Enfim, campo!

Uma das maiores vantagens ou alegrias da carreira de paleontólogo é, em minha opinião, poder realizar trabalhos de campo. Como bióloga, eu poderia ter escolhido uma área de trabalho que se restringisse ao laboratório, ou somente à sala de aula. Mas escolhi atuar em algo que tem tudo isso e um plus: o campo. Mas, o que vem a ser uma saída a campo, TC (trabalho de campo), CC (campanha de campo), ou simplesmente “campo”?

É sim possível que na sua mente, neste momento, a imagem de Indiana Jones se forme e que você, mesmo que por um instante, acredite que todos os campos em paleontologia sejam sempre realizados em locais remotos, com cobras e muitas armadilhas. Bem, as cobras sempre estão lá. Junto com escorpiões, vespas e aranhas, elas adoram os paredões em que a gente trabalha. Mas não é necessário ir a locais remotos para encontrar fósseis. Eu mesma realizei as coletas da minha pós-graduação num afloramento de rocha à beira de uma estrada, muito próxima a uma cidade. Era só parar no acostamento e trabalhar.

Como já passamos da época de estabelecimento das diversas áreas científicas, processo que ocorreu por volta da transição entre os séc. XVIII e XIX, em que pouco se sabia e as áreas científicas (inclusive a geologia e paleontologia) estavam sendo delimitadas, atualmente os trabalhos de campo não são mais (em geral) tão desbravadores assim. Já temos todo um mapeamento geológico do território brasileiro, e com isso temos uma boa ideia da distribuição das rochas e de suas idades. Assim, antes de irmos a campo, olhamos o mapa e vemos onde estão as rochas que queremos procurar e que devem conter os fósseis da idade que estudamos.

Afloramento aberto pela construção de uma estrada, MT

O segundo passo nesta história é encontrar locais onde estas rochas afloram, ou seja, lugares em que elas estão disponíveis em superfície. Caso elas estiverem somente em subsuperfície, não teremos como acessá-las tão facilmente. Uma forma de acessar estas rochas ainda “escondidas” é com a obtenção de testemunhos de sondagens, muito úteis para os paleontólogos que trabalham com microfósseis. Como os testemunhos tem um volume de rocha pequeno, a maior quantidade de fósseis que eles podem carregar tem que ser de tamanhos muito pequenos, certo? No entanto, como eu trabalho com organismos macroscópicos (de tamanhos que variam de mm a cm), eu trabalho com rochas que aflorem na superfície terrestre.

E como fazemos para encontrar tais afloramentos rochosos? Com o mapa em mãos, sabendo onde as rochas escolhidas podem ocorrer, procuramos por locais onde naturalmente elas podem estar expostas, como paredões de cachoeiras, margens de rios, cânions, encostas. Existem outros processos que podem expor estas rochas, e são antrópicos: margens de estradas e ferrovias, minas, ou grandes obras que necessitem escavações, como as lavras, por exemplo.

Afloramento de rochas do Ordoviciano, em Goiás

Encontradas as rochas, o nosso trabalho árduo começa. Todo o afloramento é medido e descrito detalhadamente, estrato a estrato. Devemos delimitar o espaço e tempo de trabalho, para fins comparativos. E, enfim, podemos começar a quebrar as rochas com nossos martelos, a fim de procurar os fósseis. Cada fóssil encontrado tem sua posição registrada e recebe um número ainda em campo. Depois da coleta, o material é levado ao laboratório e uma nova etapa de análise se inicia.

Lembro-me da primeira vez que encontrei um fóssil, ainda na graduação. A sensação de encontrar um resto de um organismo que morreu há cerca de 400 milhões de anos, quase que completamente ao acaso (no sentido de que se eu não tivesse escolhido aquele ponto, mas outro, eu não teria tido sucesso; ou ainda: que se tivesse batido com o martelo de outro jeito, poderia ter estragado ou sequer percebido que aquele fóssil estava ali) foi perturbadora. Pense bem: não há como escolher o melhor lugar para se encontrar algo escondido entre as rochas. É um lance de sorte. Uma daquelas coisas que nos faz sentir pequenos frente à vastidão da história geológica e biológica da Terra, mas que também nos faz sentir como parte de algo imenso e maravilhoso. Poder conhecer um pouco do que foi a vida num passado tão distante é sim uma grande aventura, e um privilégio.

Reflexões de um dia-a-dia sob a óptica paleontológica

Cada área do conhecimento possui seus jargões e influencia no modo em que as pessoas enxergam o mundo. Eu tenho contato com profissionais cientistas de várias áreas do conhecimento; desde aqueles engenheiros que se divertem indo em um congresso “só” sobre túneis, até aqueles que, apesar de trabalharem o tempo todo, acham que atividades como ministrar aulas “não é trabalho”. Longe de mim questionar qualquer um desses pontos de vista (que tenho como excêntricos) a verdade é que me divirto muito observando e convivendo com pessoas de pontos de vista tão diferentes do meu.

Pensando sobre isso imaginei que algumas (ou todas?) das observações que faço ao longo de um dia podem/devem ter muita influência da minha formação paleobiológica. Vamos aos exemplos!

Nas férias, ao caminhar na praia, percebo que a zona intermarés carrega e deposita sedimentos e corpos de organismos que viviam por ali, e também daqueles que viviam

Diferentes organismos (ou restos de organismos) num mesmo ambiente deposicional. Viviam ali ou foram trazidos?

mais longe (no mar mais profundo), mas que foram trazidos pelas correntes, neste caso, após a sua morte, e ali depositados. Esse conjunto de restos de organismos de diferentes ambientes misturados num mesmo local é bastante comum no registro fossilífero. É o que chamamos de “grau de autoctonia” do registro (o quanto ele representa organismos que viviam naquele ambiente, ou, ao contrário, o quão longe eles foram transportados de seu ambiente de vida original). No registro temos que observar os restos dos organismos para saber se são ou não autóctones. O que observamos? Se o organismo está inteiro ou fragmentado (o que pode indicar transporte), arredondado, se ele tem adaptações morfológicas para viver em determinado ambiente (forma da concha, por exemplo), entre outras feições. A mistura de organismos de diferentes ambientes numa praia atual pode parecer óbvia (como na foto, em que há mistura de conchas, galhos e medusas, cada uma de um ambiente específico), mas no registro isso não é tão fácil de se perceber. Pelo menos não tão imediato. Isso porque não temos mais o ambiente original, só evidências de qual era esse ambiente. Também não temos os organismos, mas sim fósseis deles. Não é de se estranhar, portanto, que uma das ferramentas mais usadas na paleontologia é o atualismo: observar o que ocorre hoje para compreender o passado, que é representado pelo registro fossilífero.

E no meio urbano? É possível ter um olhar paleontológico?

A icnologia (o estudo dos traços fósseis, ou seja, o estudo das marcas deixadas pela atividade de algum organismo) é relativamente constante nas minhas observações. Ao passear com cachorros numa praça que tenha areia, deixamos nossas pegadas, que são rapidamente apagadas ou deformadas pelo caminhar de outros (possibilitando a formação de um registro palimpsesto, caso aquilo ali fosse rapidamente recoberto); ou, ao observar patinhas de diversos animais que foram pintadas em frente a um restaurante vegano, adentrando o local, percebo que elas deveriam também estar saindo ali, se a ideia é de que os animais são bem-vindos e podem circular livremente…pra mim, vestígios de animais somente entrando um lugar podem significar que eles não saíram, pelo menos não pelo mesmo local de entrada.

Ou ainda, como explicado no último post da profa. Frésia, as queimadas geram fragmentos de plantas carbonizados que podem virar registro também… quem nunca olhou para aquela “sujeirinha” preta e pensou sobre sua importância para os paleontólogos do futuro? 🙂

E, claro, o exemplo clássico. Seja aonde for, praia, cidade, interior, ao olhar para o céu noturno estrelado não podemos deixar de pensar que observar as estrelas é olhar para o passado. E como Carl Sagan costumava dizer:  “Nós somos, cada um de nós, um pequeno universo”. Mas aí já entramos em outra área do conhecimento, não?

A perspectiva paleontológica está por toda a parte!

Conheça mais sobre o trabalho de Sagan lendo este post.

 

 

Sobre dragões e fósseis

Como amante da paleontologia e, mais recentemente, praticante e apreciadora de wushu, a inspiração deste post surgiu como um desafio de tentar relacionar os dois temas de alguma forma. Me parece que alguns mitos são criados a partir de “verdades”…distorcidas, ou, com um toque de imaginação, digamos assim.

Dragão do quadrinho Zen pencils

Na arte marcial que conhecemos por “kung fu”, aqui no ocidente, existem diversos estilos de luta. Norte e Sul da China são conhecidos por estilos diferentes. O estilo do dragão é um estilo imitativo do Sul; neste, os movimentos devem ser compreendidos, internalizados (em contraposição, o adversário do dragão é o tigre e seu estilo é fundamentado em movimentos de força e memorização). Como o dragão, para os chineses, simboliza a água e a terra, no kung fu suas ações combinam força e leveza em movimentos que unem opostos, como: circular/reto, ou para cima/para baixo, por exemplo.

O dragão é uma figura comum na mitologia chinesa, desempenhando vários papéis como regular as chuvas, proteger os deuses (e o imperador), e ser a fonte da verdadeira sabedoria e da boa sorte. É, portanto, considerado um animal auspicioso, não malévolo. Por isso são extremamente comuns na arquitetura e ornamentação da antiga China. Não é à toa também que, por mais de uma vez na história, imperadores chineses regularam o uso das imagens de dragão em suas sedas e outros ornamentos, para que somente eles pudessem usá-las e, assim, demonstrar sua potência.

História “Never give up!” do quadrinho Zen Pencils

Apesar de ser um estilo imitativo no kung fu, nós todos sabemos que dragões (i.e., répteis serpentiformes voadores que cospem fogo) nunca existiram. Neste caso, a “imitação” vem das histórias e lendas passadas de geração em geração, sobre os supostos movimentos destes animais. Se, por um lado, a forma como se mexiam vem da imaginação das pessoas, de outro, a figura do animal em si tem uma origem interessante. Fósseis de dinossauros, ou de outros grandes répteis serpentiformes, ou até mesmo fósseis de baleias são, provavelmente, a fonte de inspiração para os mitos dos dragões (assim como de outros animais, lendas e deuses que existem mundo afora). Imagine os antigos chineses encontrando ossos de grandes proporções, com a forma de um lagarto, espalhados pelo chão… e mais, ossos duros como pedras! Na breve pesquisa que fiz para escrever este post eu li (aqui) que o fato de os ossos serem feitos de pedra (resultado do processo de fossilização) provavelmente levou as pessoas a pensar que era um animal que cuspia fogo, pois seus ossos resistiam a ele! Interessante, não?

Os mais antigos adornos chineses contendo imagens de dragões datam de cerca de 4700-2900 a.C. (Cultura Hongshan). Então é bem provável que antes disso os fósseis de grandes animais já tivessem sido descobertos naquela região do mundo. Naquela época não se tinha o conhecimento científico que temos hoje sobre fósseis e fossilização, extinções e da vastidão do tempo geológico, e estes restos eram interpretados como restos recentes de animais fantásticos, ou seja, como os dragões; hoje chamamos a eles de dinossauros (e afins).

Se você sabe mais sobre os diferentes estilos de wushu, sobre paleontologia, sobre dragões, ou simplesmente gostou do post, deixe-nos um comentário!!

Veja aqui um documentário sobre a relação entre dragões e dinossauros.
Entre aqui para apreciar a arte do Zen Pencils.

 

 

 

 

Micro/Macro: a união faz a força!

Imagem de micro e macro-organismos do quadrinho “Mikromakro” de Jens Harder

Com um telescópio nós conseguimos observar corpos celestes imensos que estão muito distantes, mas que mesmo assim nos causam assombro. Já com um microscópio é possível observar a -abundante- vida minúscula que nos cerca, mas que passa despercebida pela maioria de nós…

Escalas.

Para quem viaja: a escala é um ponto de parada.

Na música: é um grupo de notas musicais.

Na matemática: é uma razão entre grandezas que permitem uma comparação; e é exatamente esse conceito, matemático, que iremos usar neste post. Isso porque vamos falar de organismos que, se tivessem lemas, seriam: “tamanho não é documento” e “a união faz a força”, uma vez que seu tamanho é insignificante perto da dimensão do planeta Terra (comparando os tamanhos estamos usando o conceito matemático!), e que unidos eles são extremamente imporntantes para a manutenção de ciclos globais .

Imagem de bactérias do quadrinho “Mikromakro” de Jens Harder

Micro-organismos. Apesar de serem pequenos (menores que 1-2 mm), são muito abundantes. Abundância aqui significa que temos muitos indivíduos, do mesmo tipo de organismo (em biologia existe uma grande diferença entre abundância e diversidade. Mas esse é um tema para um próximo post.) E é a abundância que os torna extremamente significativo na manutenção de diversos ciclos do nosso planeta, como o ciclo do Carbono, por exemplo. Não faz muito tempo se dizia, inadvertidamente, que a Floresta Amazônica era o pulmão do planeta; já ouviu isso alguma vez? Pois é, e deve ter ouvido também que não é bem assim que a coisa funciona… que a razão O2/CO2 é mais controlada por micro-organismos fotossintetizantes extremamente abundantes que vivem nas águas do mar (lembrando que o mar recobre cerca de 70% da superfície do nosso planeta, o que sugere que estes organismos minúsculos tem um ambiente –bastante– espaçoso para viver) e que o CO2 produzido na Amazônia também é consumido por ali mesmo, não tendo tanto efeito mundial quanto se pensava.

Bom, por mais que eles sejam pequenos, eles estão sujeitos aos mesmos processos sofridos por qualquer outro organismo na superfície terrestre, o que significa que a maioria, ao completar seu ciclo de vida, é decomposta e seus constituintes retornam ao sistema, como aquela famosa frase de Lavoisier (1743-1794): “na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Mas, claro, alguns acabam escapando a esta norma, passam por processos físicos e químicos que os preservam nas rochas e formam o que chamamos de microfósseis. Os microfósseis podem ser organismos inteiros de tamanho diminuto (como foraminíferos, radiolários, dinoflagelados, algas), ou então, são partes pequenas de organismos maiores. Para exemplificar este último caso, pense que o pólen (micro) produzido por algumas plantas (macro) são partes pequenas (células reprodutivas) delas. Pólens fósseis são extremamente comuns no registro (de determinado período em diante, neste caso do Devoniano até os dias atuais) e seu estudo se chama paleopalinologia.

Você pode pensar que achar microfósseis deve ser extremamente difícil pois eles são muito pequenos. Mas, na realidade, como são -em geral- abundantes, os paleontólogos que trabalham com microfósseis são muito sortudos e não precisam levar grandes quantidades de rochas para o laboratório. Um pouco só (algumas gramas) já é o suficiente para se observar algumas centenas de indivíduos, utilizando um microscópio, claro.

Bem, já falamos que os micro-organismos são importantes pois são abundantes e que podem gerar fósseis. Pense sobre essas duas propriedades (abundância + fósseis) e misture-as com o tempo geológico: milhares de micro-organismos ao longo de centenas de ambientes diferentes que se sucederam ao longo das centenas de milhares de anos do tempo geológico. Pronto. É bastante material para que os micropaleontólogos trabalhem, né? As variações ambientais ocorridas ao longo do tempo podem ser detectadas pelo estudo de microfósseis, cada grupo estudado fornecendo um dado importante sobre o paleoambiente em que viveu.

Vamos aproveitar que este é o primeiro post de 2017 e aplicar o lema dos microfósseis em nossos dias daqui pra frente... a união faz a força! 
Que consigamos nos unir para melhorar nosso país; cada um fazendo a sua parte, para o bem de todos. E que a ciência no Brasil não esmoreça. Feliz 2017!

Paleontologia: como compreendê-la em 5 passos

Quase todos os anúncios de reportagens e chamadas que recebemos incessantemente em nossos celulares, todos os dias, trazem números. Talvez seja a nossa avidez por conhecimento “rapidamente absorvível” que tenha promovido esta proliferação de textos com títulos que trazem o número exato (ou inexato, alguns enganam a gente) de conteúdo. Se dá certo (se a gente absorve mais rápido, ou se é simplesmente uma questão de marketing/publicidade…), eu não sei; fato é que resolvi aderir à moda e tentarei explicar o que é a paleontologia em 5 itens; ou pelo menos, irei tentar apontar as principais problemáticas envolvidas quando se trata de paleontologia para e com aqueles que não sabem bem o que esta ciência significa. Vamos lá?

1 – O termo “Paleontologia” significa “o estudo dos seres antigos”. Já falamos em posts anteriores que antigo em Geologia – e em Paleontologia – tem conotação diferente daquele utilizada no nosso dia-a-dia. Restos de organismos são considerados recentes, ou pouco antigos (e denominados de sub-fósseis, por exemplo) se tiverem por volta de 10.000 anos por exemplo. Além da questão do tempo, temos o termo “seres” aqui… não são somente dinossauros (!!!). Nem somente plantas. Lembrem-se, temos todos os filos de possibilidades; todos os tamanhos e toda a variedade de vida que já existiu ao longo dos últimos 4,5 G.a. É coisa pra caramba :mrgreen: .

2 – Paleontologia e Arqueologia são ciências que usam métodos de estudo parecidos, mas cujo objeto de estudo é diferente. O enfoque da paleo que eu falei no item 1 (acima), é a vida, em geral, ao longo do tempo geológico; o enfoque da arqueologia são as civilizações humanas e sua cultura (que, aliás, é algo beeeem recente….). É muito comum a confusão entre as duas ciências, talvez por exigirem um perfil de pesquisador de campo, aventureiro, que vive à procura de segredos escondidos em rochas ou locais remotos…. mas as similaridades ficam por aí. Agora você sabe que o Indiana Jones é um arqueólogo, não um paleontólogo, ok 😆 ?

3 – Sendo a vida antiga o objeto de estudo da paleo, ela se baseia, portanto, no estudo dos fósseis. Fósseis são restos ou vestígios de vida com mais de 11.000 anos. Quanto mais antigo é um fóssil, maior a probabilidade de que ele tenha se transformado em rocha; mas ainda assim é um vestígio de algo que já foi vivo. Por este motivo é que a Paleontologia é a união entre a Biologia e a Geologia. Em geral (não é uma regra) são biólogos ou geólogos que estudam os fósseis. Isso porque os conhecimentos exigidos para as análises tem que vir tanto da bio quando da geo. Como eu disse antes: restos de vida- conhecimentos biológicos-, que se tornaram ou irão se tornar rochas – conhecimentos da geo. Mas a realidade é que conhecimentos de química, física, matemática, computação, (etc…) além da biologia e da geologia, são usados nos estudos paleontológicos. Uma visão integrada dos fenômenos da natureza e de diferentes técnicas de análise dos materiais fósseis faz um bom paleontólogo/cientista…

4 – Não é só de petróleo (nem só de dinossauros 😈 ) que se faz a Paleontologia. Talvez este item acabe repetindo o que já foi dito no item 1, mas tenha paciência. Isso é importante. Toda a vida, que se desenvolveu ao longo da história geológica da Terra, pode ser estudada por um paleontólogo (tudo aquilo que vive hoje e que você conhece, e também aquelas formas de vida bizarras, que… pode ser que você nunca tenho ouvido falar).

O petróleo é famoso por sua importância na economia mundial, e os fósseis (microfósseis, neste caso; fósseis de seres que precisamos de microscópio para enxergar) ajudam, de modo geral, a mostrar onde o petróleo tem mais chance de ocorrer. É uma das formas de aplicação da paleontologia.

Já os dinossauros são famosos por fazerem parte do imaginário popular: eram grandes (nem todos né?), assustadores (com exceções…) e… verdes! (ou coloridos? ou ainda…cobertos por penas?). Veja… as generalizações acabam fornecendo uma visão distorcida não é mesmo? Deve ser por isso que quanto mais se estuda (e se especializa numa área) mais a gente se dá conta de que sabe quase nada de tudo, e muito pouco sobre alguma coisa 😯 .

5 – A Paleontologia é uma ciência pura. Calma, não significa que ela seja inocente 🙄 , não é isso… é uma ciência que tem como objetivo principal o conhecimento. Sim, ela pode ser aplicada. Algumas vezes é utilizada como uma ferramenta para compreender outros fenômenos, tendo assim, aplicação (no item 4 eu falei do petróleo, não é?). Mas, sob o meu ponto de vista, o seu objetivo mais imediato é o conhecer por conhecer; e, claro, o conhecimento gerado vai influenciar em outras áreas da ciência, gerar discussões, promover debates e levar ao progresso do conhecimento científico. Muito do que se sabe hoje foi inventado ou observado por algum cientista que teve a vontade de observar, descrever, conhecer, explicar algo. Independentemente de ser pura ou aplicada a ciência leva ao progresso a humanidade!

Para uma leitura interessante e aprofundada sobre o tema ciência e seus impactos, clique aqui.

 

Quando a tragédia vira registro

Who has dressed you in strange clothes of sand?
Who has taken you far from my land?
Who has said that my sayings were wrong?
And who will say that I stayed much too long?
Clothes of sand have covered your face
Given you meaning, taken my place
Some make your way on down to sea
Something has taken you so far from me
Does it now seem worth all the color of skies?
To see the earth through painted eyes
To look through panes of shaded glass
See the stains of winter’s grass
Can you now return to from where you came?
Try to burn your changing name
Or with silver spoons and colored light
Will you worship moons in winter’s night?
Clothes of sand have covered your face
Given you meaning but taken my place
So make your way on down to the sea
Something has taken you so far from me

Clothes of sand, Nick Drake

 

De modo geral, o destino final das partículas sedimentares é o fundo de uma bacia sedimentar, que pode ser o fundo do mar, por exemplo… E neste processo lento e incessante cada ciclo de soerguimento transforma essas partículas e as coloca novamente para o “reinício” do ciclo. O ciclo mencionado aqui é o das rochas, que forma não só as sedimentares mas também ígneas (magmáticas, do magma dos vulcões) e metamórficas (transformadas por grandes pressões e temperaturas). A música de Nick Drake acima fala um pouco sobre este ciclo, você percebeu? 😆 (É uma das poucas músicas com conteúdo de geologia que conheço… )É este ciclo um dos grandes responsáveis pelas mudanças geográficas/geomorfológicas que vemos na Terra e que não ocorrem em Marte nem na Lua, por exemplo; a Lua de Dante Alighieri (1265-1321) é a igualzinha a que você vê hoje.

Voltando ao ciclo… são também partes dele (junto com a tectônica de placas e outros processos geológicos) que levam a grandes tragédias humanas. Terremotos têm seus mais antigos registros em documentos chineses (1177 a.C.)*, avisos sobre o perigo de tsunamis no Japão tem pelo menos 600 anos **, e atividades vulcânicas intensas já deixaram suas marcas por diversas vezes na história humana (veja no link as maiores tragédias associadas a esses eventos) ***.

Os fósseis, isto é, restos ou vestígios de vida ou de sua atividade, com mais de 11.000 anos, têm sua origem ligada ao ciclo das rochas. Em especial, as rochas sedimentares são as que normalmente contêm os fósseis. Isso porque o resto de um organismo também é transportado e depositado como uma partícula sedimentar. É um pedaço de vida que se une aos processos de formação da rocha sedimentar que, ao longo do tempo geológico se transforma em rocha. Em outros posts já comentamos que o tempo geológico é bastante distinto do tempo que percebemos como humanos. A pergunta que estamos tratando hoje é se todo resto ou vestígio de vida fica preservado… será??  Os fósseis que encontramos são na verdade a exceção à regra. A maioria dos organismos se decompõe; além disso, a formação do registro fossilífero é episódica. Grandes eventos como enchentes, tsunamis, vulcanismos, desmoronamentos é que preservam. Se pensarmos na história recente de desastres naturais no Brasil podemos dizer que há grandes chances da tragédia do Rio Doce (2015) e dos deslizamentos no interior do Rio de Janeiro (2011) formarem um registro fossilífero daqui a pelo menos 11.000 anos. Na nossa escala de tempo esses eventos são incomuns, mas na escala do tempo geológico eles ocorrem (não com periodicidade, mas com frequência); e por envolverem grandes áreas, enormes quantidades de sedimentos e pouco tempo, têm maiores chances de preservar. Enfim, são registros de eventos catastróficos que perfazem a maior parte do material de estudo dos paleontólogos e também dos geólogos que trabalham com rochas sedimentares.

Preciso salientar aqui que a ocupação desordenada da margem de rios e encostas, e no caso do Rio Doce, a represa de sedimentos, são ações antrópicas, e o homem é a primeira espécie a alterar o ambiente em larga escala. O que quero dizer é que os registros que temos são resultado de eventos naturais, e o registro fóssil do futuro será bem diferente. Vamos torcer para que existam paleontólogos até lá…!

 

Visite os links abaixo para maiores dados nas atividades geológicas citadas.

*http://pubs.usgs.gov/gip/earthq1/history.html

**http://historyofgeology.fieldofscience.com/2011/03/historic-tsunamis-in-japan.html

*** http://volcano.oregonstate.edu/deadliest-eruption

Escute aqui a música de Nick Drake na versão de Renato Russo

 

Quanto tempo demora?

Quanto tempo demora um mês pra passar? A vida inteira de um inseto, um embrião pra virar feto, a folha do calendário, o trabalho pra ganhar um salário… mas daqui a um mês, quando você voltar, a lua vai estar cheia, e no mesmo lugar…

Biquini cavadão “Quanto tempo demora”

Independentemente de seu gosto pela banda, estilo musical ou por esta canção em específico a questão aqui é o tempo.

A quantidade de tempo percebida pelas pessoas é bem diferente daquela que geólogos e paleontólogos trabalham. Nesse meio é comum ouvir a expressão: “poucos milhares de anos…” Como assim, “poucos milhares?” você deve estar se perguntando; 100 anos já é muito, não?…

Vamos voltar um pouco: pense em sua infância. Um ano para cada aniversário, Natal, Páscoa entre outras festividades, não parecia muito tempo? Um mês sem aulas e você já não queria mais voltar… não é mesmo?

Bem, o que quero dizer é que mesmo ao longo de nossas vidas, a percepção de tempo muda. Já li em algum lugar que, pelo fato de aprendermos muitas coisas diferentes ao longo de um único dia, quando somos crianças, nossa noção de “dia” é expandida. Talvez por isso o ano levasse “mais tempo” para passar, apesar de contar os mesmos 365 dias. E, claro, para cada pessoa, que vive uma experiência diária diferente e percebe o mundo de forma diferente, a noção de tempo também muda.

Se para cada pessoa temos percepções diferentes de tempo, imagine agora o que acontece entre diferentes espécies. Um camundongo vive em torno de 2 anos. Acha pouco? Existe um inseto (efemérides) que, em sua fase adulta, vive somente um dia. Em 24 horas ele eclode de sua fase larval, tem sua adolescência pela manhã, torna-se um adulto a tarde, se reproduz e morre à noite.

Baseando–se no fato de que nós, mamíferos primatas, estamos acostumados com intervalos de tempo menores do que séculos, as amplitudes de tempo envolvidas, na concepção das outras espécies biológicas, são curtasquando envolvem segundos, minutos e dias –, “normais” – quando de duração semelhante a nossa expectativa de vida – e longas  algumas espécies vivem centenas de anos. Porém, para a escala cósmica… as coisas mudam. Como diz a música, a lua permanece em sua mesma posição, com a passagem de um mês. Assim como a Terra e os demais planetas do sistema solar, seguindo sua órbita e girando em torno de seu próprio eixo. Mas será que foi sempre assim? Nos últimos 100 anos, sim. Mas, e nos últimos 3 bilhões de anos? Em relação à lua sabemos que ela está se afastando do nosso planeta… há 4,5 bilhões de anos atrás ela e o sistema solar simplesmente ainda não haviam se formado.

Três espécies e três percepções de tempo diferentes
Três espécies e três percepções de tempo diferentes

O registro contido nas rochas representa eventos de duração diferenciada. Pode ter ocorrido em poucos segundos ou mesmo ter levado séculos para se formar. Cabe aos Geólogos e Paleontólogos analisar os diferentes vestígios e tentar descobrir de que forma foram produzidos, e também tentar investigar qual o tempo envolvido em sua criação. Olhar para as rochas, estrelas e planetas é olhar para o passado. Os processos envolvidos em suas formações são muito complexos e escapam de nossas noções cotidianas. E é isso que mais me fascina! E você? o que te fascina?

Morte, casualidade e explosões: ou como “fazer” um fóssil

Quando dois restos (fósseis) são encontrados lado-a-lado numa rocha, é possível afirmar com 100% de certeza que ambos viveram juntos e morreram juntos?

Ou ainda…

Quando se encontra um resto de um (ou mais) organismo(s) em determinado local, é possível afirmar de antemão que este(s) organismo(s) viveu(ram) ali?

Texto de Carl Sagan, cientista americano famoso por ser um grande divulgador de ciência.
Texto de Carl Sagan, cientista americano famoso por ser um grande divulgador de ciência.

Estas são algumas das perguntas que nós paleontólogos fazemos quando estudamos os fósseis de um determinado local. Já adianto que a resposta para ambas perguntas é negativa. Existem diversas situações envolvidas na preservação de um resto. É errôneo pensar que simplesmente por terem sido preservados lado-a-lado os organismos também conviviam (compartilhavam o mesmo ambiente), ou ainda, que morreram pelo mesmo motivo. Existem casos em que os organismos sequer viveram no mesmo momento, tendo milhares de anos de diferença entre si, mas são, por acaso, preservados na mesma camada, lado-a-lado.

Então se tivermos o seguinte registro: um dente de dinossauro (que viveu no Mesozoico) preservado ao lado da garra de uma preguiça gigante (do Cenozoico) nós temos em mãos um registro com mistura temporal. Estes dois organismos não compartilhavam o mesmo ambiente porque não viveram sequer na mesma era geológica (um é o Mesozoico e outro do Cenozoico). Mas como é que estes dois restos foram parar ali, juntos? Muitos são os eventos que podem levar à mistura temporal. Neste caso em específico podemos pensar que o dente de dinossauro já havia sido preservado e foi retrabalhado (carregado e depositado) com sedimentos mais novos que por um acaso continham restos do referido mamífero gigante… A mistura temporal é, portanto, uma das eventualidades que podem alterar/modificar o registro fossilífero, tornando-o um pouco mais difícil de ser compreendido.

Mas ainda antes de chegarmos à possibilidade da mistura temporal existe uma outra grande contingência: da preservação (ou não) do resto. É preciso que fique claro para você que nem todos os organismos produzem fósseis. Existe uma série de fatores que ocorrem deste o momento em que ele morre até o momento em que alguma pessoa o encontra.

Quais são, então, as chances de se produzir um fóssil? Em 99,9% das vezes em que um organismo morre, ele é destruído. Então (sendo otimista), em 0,1% dos casos a possibilidade existe, persiste. Pense, também, que quanto mais antigo este resto (ou vestígio) é, maiores são as chances de ele ser destruído, pois mais tempo a natureza tem para que ele seja “reciclado”. E ainda… mesmo que este fóssil persista até os dias atuais, quais são as chances de ele ser encontrado por alguém? Num planeta que atualmente possui 149,67 milhões de km2 de áreas emersas… as chances são pequenas (claro que do total dessa área, nem todas as rochas disponíveis são as sedimentares, mas mesmo assim, as possibilidades são baixas). Por isso escolhi a palavra: contingência, no sentido de acaso, eventualidade e/ou possibilidade (ou não) de algo acontecer.

Vou tentar ilustrar isso com o que vi e aprendi numa visita às cavernas de Sterkfontein, na área de Joanesburgo, África do Sul, e que, inclusive, está muito bem explicado neste vídeo. Vou contar a história da descoberta e das eventualidades envolvidas, voltando no tempo até o momento de “produção” deste registro do passado… me acompanhe!

Uma das cavernas abertas para visitação em Sterkfontein, no Berço da Humanidade, Johanesburgo, África do Sul
Uma das cavernas abertas para visitação em Sterkfontein, no Berço da Humanidade, Joanesburgo, África do Sul

Ali, numa área que é denominada “o berço da humanidade” os estudos paleoantropológicos ocorrem desde os anos 1935, na busca por fósseis de hominídeos. No entanto, a região foi imensamente explorada para a produção de calcário, antes de ser tombada como patrimônio da humanidade. Neste tipo de exploração, as cavernas são abertas por dinamites… sim, dinamites, explosões, destruição(!).

Mesmo tendo sido imensamente explorada, é bem plausível de se dizer que foram estas explosões que levaram às descobertas já feitas na região, uma vez que possibilitaram o acesso ao local e aos fósseis depositados dentro destas cavernas. Sim, é provável que muitos devem ter sido perdidos, explodidos, mas penso que, de outra forma, os cientistas não teriam conseguido chegar até ali;

…é ou não e muito acaso envolvido? Mas as eventualidades ainda não terminaram. As descobertas mais recentes, principalmente em cavernas que foram pouco exploradas pelos mineradores (ou seja, que sofreram menos implosões), são de hominídeos bastante completos, isto é, com muitos ossos de seus corpos preservados juntos, o que é extremamente raro na paleoantropologia. Segundo Lee Berger, um eminente paleontropólogo envolvido nas últimas descobertas dali, existem mais pesquisadores na área do que fósseis para se estudar. Então a descoberta de esqueletos de hominídeos com muitos ossos é excepcional.

Matthew Berger, o menino que encontrou um dos fósseis de hominídeos mais completo até o momento, o de Australopithecus sediba.
Matthew Berger, o menino que encontrou um dos fósseis de hominídeos mais completo até o momento, o de Australopithecus sediba.

Se voltarmos ainda mais no tempo e tentarmos imaginar os motivos que levaram a um hominídeo morrer ali, vamos perceber mais um “lance de dados” envolvido: as explicações científicas para estas descobertas apontam que as cavernas que possuem estes fósseis de hominídeos quase completos não eram seus locais de vida. Muito provavelmente, há cerca de 1,8 M.a., estes homens e mulheres do passado estavam caminhando na savana e inadvertidamente caíram para dentro das cavernas, onde pereceram, seus ossos fossilizaram, e foram descobertos após explosões dos mineradores da região os colocarem mais acessíveis aos cientistas que ali começaram a explorar o potencial fossilífero da região (anos 2000)…ufa…!

Quando alguém me pergunta se, durante minha vida profissional, já encontrei algum fóssil importante, a primeira coisa que vem em minha cabeça é… seria isso realmente essencial? Será que devo ir ao campo esperando encontrar um fóssil “importante”? e, afinal de contas, o que é um fóssil importante? Espero que o texto tenha conseguido mostrar que qualquer registro de vida do passado é importante e extremamente raro; e muitas são as casualidades envolvidas em sua preservação. Nada mais raro e especial que poder olhar para (um piscar de olhos) (d)o passado e compreendê-lo!

Até o próximo post!

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A distância que agora nos separa foi outrora irrelevante…

20160902_200334Vou aproveitar o fato de estar participando de um congresso em outro continente (sim, escrevo este post diretamente da África!) para falar um pouco dos motivos que me levaram a participar deste evento, e que, em minha opinião, são bastante importantes na compreensão das relações que paleontólogos e geólogos estão acostumados a trabalhar no dia-a-dia.

Reconstrução do globo para o período Ordoviciano. A estrela marca o sul geográfico.
Reconstrução do globo para o período Ordoviciano. A estrela marca o sul geográfico.

A Table Mountain, atualmente, ponto turístico de alto relevância para quem visita a cidade do Cabo, na África do Sul, tem esse nome basicamente pelo seu formato (de mesa); e apesar de, hoje, ser um lugar em que é preciso subir cerca de 1.100 metros acima do nível do mar para atingir o seu topo (e caminhar sobre ele), há cerca de 460 M.a. (milhões de anos atrás) era uma bacia sendo preenchida por sedimentos sucessivamente marinhos e deltaicos/fluviais. Esta bacia era imensa e abrangia o Brasil também. Não havia, neste tempo, o oceano Atlântico entre a África e a América do Sul (!). E ambos os continentes (junto com a Índia, Antártica e Austrália) formavam um único continente austral, o Gondwana.

Table Mountain, Cidade do Cabo, África do Sul
Table Mountain, Cidade do Cabo, África do Sul

Isso tudo também significa que não é a primeira vez que eu vejo essas rochas na minha vida… apesar de ser a primeira vez que visito a África. Você está conseguindo seguir meu raciocínio? As mesmas rochas que temos em Table Mountain também estão atualmente expostas no Brasil! Não é o máximo?

 

Vim pra cá para, além de participar de um evento, conhecer as rochas e fósseis que ocorrem por aqui. Apesar de serem as mesmas com as quais trabalho no Brasil, as variações ocorrem e tentar compreender estas variações e suas causas, fazem parte de meu trabalho como pesquisadora.

Quais são, então, as relações que mencionei no primeiro parágrafo?

  • tempo profundo,
  • mudanças (paleo)ambientais,
  • tectônica de placas/deriva continental

Voltar ao passado e imaginar os ambientes de deposição dos sedimentos que formam estas (atuais) rochas… estas são algumas das formas de estudo de um geocientista.

 

No meu próximo texto vou falar sobre a contingência do registro fossilífero… mas nas próximas semanas teremos mais posts da Profa. Frésia e da doutoranda Flávia, não deixem de acompanhar; toda terça, um novo paleopost.