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Grávida: você já ouviu falar sobre fisioterapia para o períneo?

Olá! Faz tempo que não apareço por aqui. Quero voltar a escrever mais para o Xis-xis, sinto uma necessidade absurda de trocar ideias, mas ando muito dedicada ao trabalho e, nas horas vagas, à minha bebê (passa tãaao rápido)! Por isso, convido a acompanhar os textos e atividades publicados lá no site da ONG Iniciativa Verde, onde cuido da comunicação. Tem coisa muito bacana que se relaciona com ciência, meio ambiente e, acima de tudo, à busca em melhorar a qualidade de vida de todos. Eventualmente, também publico algum texto mais profissional no LinkeIn. Passe lá também, se possível.

Agora, voltando √† programa√ß√£o, o assunto de hoje √©‚Ķ beb√™! Quer dizer, sa√ļde feminina durante a gesta√ß√£o. Quando engravidei, minha vontade era de ter um parto vaginal, com menos interfer√™ncia m√©dica desnecess√°ria poss√≠vel. Tive a sorte e o privil√©gio de j√° me consultar com uma ginecologista e obstetra honesta que me ajudou a realizar esse sonho do parto normal. Desde o pr√©-natal, me indicava a√ß√Ķes e cuidados para que eu tivesse um parto mais tranquilo poss√≠vel. Uma das indica√ß√Ķes foi a fisioterapia perineal.

Eu estava por volta das 20 e poucas¬†semanas de gesta√ß√£o e, como de costume, j√° havia lido muito sobre a gravidez em si. Em umas dessas leituras e conversas em um grupo de ioga para gr√°vidas, tinha me deparado com a tal da fisioterapia perineal. A obstetra foi incisiva: ‚ÄúSe quer ter um parto normal, voc√™ tem que fazer essa fisioterapia‚ÄĚ. Curiosa como eu, n√£o precisava dessa praticamente ordem para me convencer. Eu j√° queria mesmo. Bastava saber a data mais indicada para come√ßar.

Foi, assim, que conheci a Dra. Carla Dellabarba Petricelli, fisioterapeuta especializada em Uroginecologia da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de S√£o Paulo (Unifesp/EPM) e mestre em Ci√™ncias da Sa√ļde pelo Departamento de Obstetr√≠cia (Unifesp/EPM). A obstetra a indicou. Delicada, calma e paciente, na primeira sess√£o de fisioterapia Petricelli fez uma entrevista, explicou como seriam os exerc√≠cios e uma an√°lise de como eu me encontrava.

Pode at√© parecer constrangedor no primeiro momento, visto que √© uma fisioterapia que engloba a regi√£o genital. Mas, confesso, depois da segunda sess√£o, eu me divertia contando para amigas e parentes sobre os exerc√≠cios para o per√≠neo. Devido a essa curiosidade que a fisioterapia perineal desperta e √† import√Ęncia dela, convidei a fisioterapeuta para esclarecer algumas d√ļvidas sobre o seu trabalho aqui no Xis-xis.

Carregando a bebê, mas fora da barriga. Uma foto de um bom momento para ilustrar.
Carregando a bebê, mas fora da barriga. Uma foto de um bom momento para ilustrar.

Para a minha gestação e parto, o trabalho da Dra. Carla foi fundamental. Graças a ela, eu já sabia o que esperar na hora do expulsivo, a maneira mais indicada de agir em cada etapa do trabalho de parto, conheci melhor o meu corpo grávido, minha musculatura perineal e abdominal voltou ao lugar rapidamente após o parto, tive poucas dores musculares na parte de baixo barriga durante a gravidez, psicologicamente estava mais segura para o parto e até para o pós-parto no que diz respeito ao meu corpo. Sou muito grata por ter tido essa oportunidade.

Leia a entrevista abaixo! O que melhor ser fazer: perguntar.¬†Espero que seja √ļtil a voc√™ tamb√©m! E, para a Carla, s√≥ tenho que agradecer e desejar um futuro mais brilhante! <3

Isis Rosa N√≥bile Diniz ‚ÄstO que √© a fisioterapia perineal? Que m√ļsculos ela trabalha?
Dra. Carla Dellabarba Petricelli ‚Äď A fisioterapia √© uma ci√™ncia da sa√ļde que estuda, avalia, previne e trata disfun√ß√Ķes acerca do movimento humano. A fisioterapia tem diversas √°reas de atua√ß√£o, as mais conhecidas s√£o: fisioterapia ortop√©dica, cardio-respirat√≥ria, neurol√≥gica, esportiva. Na sa√ļde da mulher, a fisioterapia uroginecol√≥gica e/ou fisioterapia p√©lvica trabalha nas disfun√ß√Ķes dos m√ļsculos do assoalho p√©lvico ou tamb√©m conhecido como per√≠neo. Esses m√ļsculos tem fun√ß√Ķes muito importantes para a mulher, pois al√©m de sustentar os √≥rg√£os p√©lvicos (bexiga, √ļtero, intestino) no seus devidos lugares, auxilia na contin√™ncia urin√°ria e fecal, melhora a resposta org√°smica, e al√©m disso, tem a capacidade de se alongar para o nascimento do beb√™. Quando esses m√ļsculos est√£o fracos, a mulher pode ter problemas de incontin√™ncia urin√°ria ou fecal, podem sofrer de disfun√ß√Ķes sexuais ou ter a descida dos √≥rg√£os citados acima.

Isis¬†‚Äď Quem √© o fisioterapeuta perineal? Quais profissionais pode passar exerc√≠cios? Existem diferentes t√©cnicas como o uso do epi-no ou outros m√©todos? Qual a principal indica√ß√£o de cada?Dra. Carla¬†‚ÄstO profissional que deve atuar nesse √°rea √© o fisioterapeuta (pois √© ele quem estuda e entende todas as disfun√ß√Ķes acerca da musculatura perineal). Ent√£o, √© o fisioterapeuta especializado em assoalho p√©lvico (que estudou uroginecologia, sa√ļde da mulher ou fisioterapia p√©lvica) que pode prescrever exerc√≠cios perineais, pois a paciente passar√° por uma avalia√ß√£o espec√≠fica para saber o grau de for√ßa muscular dessa regi√£o e, a partir da√≠, o profissional ir√° montar um protocolo de exerc√≠cios individual para aquele paciente, focando no fortalecimento muscular.

Dependendo do grau de fraqueza muscular, n√£o trabalhamos apenas com exerc√≠cios, utilizamos recursos espec√≠ficos para auxiliar no ganho de for√ßa muscular como a eletroestimula√ß√£o perineal (recurso usado em outras fases da vida da mulher, quando o m√ļsculo n√£o consegue contrair voluntariamente, esse equipamento ajuda o m√ļsculo a ganhar for√ßa “passivamente”), cones vaginais (s√£o pesos que quando colocados na vagina incrementam o ganho de for√ßa) entre outros. Apesar de trabalharmos muito com o fortalecimento muscular para tratar disfun√ß√Ķes, tamb√©m podemos atuar no final da gesta√ß√£o, com o alongamento perineal. Nesse caso, usamos um equipamento conhecido com Epi-no, que foi desenvolvido por uma empresa alem√£, com o intuito de treinar essa regi√£o para as demandas do parto.

Isis¬†‚ÄstUma pergunta envergonhada: qual a diferen√ßa da fisioterapia para o pompoarismo?
Dra. Carla¬†‚ÄstO pompoarismo √© oriundo da cultura indiana em que as mulheres s√£o ensinadas a contrair os seus m√ļsculos perineais voluntariamente durante a rela√ß√£o sexual a fim de adquirir maior prazer sexual. N√£o existe diferen√ßa no movimento realizado, existe diferen√ßa no foco do tratamento. O fisioterapeuta ir√° trabalhar os m√ļsculos com intuito de reabilitar a fun√ß√£o muscular e at√© tratar disfun√ß√Ķes sexuais com o mesmo exerc√≠cio.

Isis¬†‚Äď Por que ela √© importante para o parto? Ela evita a “bexiga ca√≠da”? Evita a lacera√ß√£o ou que se fa√ßa a episiotomia?
Dra. Carla¬†‚ÄstVamos l√°, os exerc√≠cios perineais com o intuito de fortalecimento muscular s√£o importantes na gesta√ß√£o para prevenir o enfraquecimento desses m√ļsculos e impedir as incontin√™ncias urin√°ria e fecal, que muitas vezes come√ßam a surgir na gesta√ß√£o e n√£o apenas no p√≥s-parto. Ent√£o, √© de extrema import√Ęncia esse treino muscular, para evitar sim a “descida” dos √≥rg√£os p√©lvicos, at√© aproximadamente 32 semanas de gesta√ß√£o.

Depois desse per√≠odo, deve-se manter o treinamento de for√ßa muscular, mas come√ßamos a mudar o foco e fazemos o alongamento perineal com o Epi-no. Esse equipamento √© um exercitador que foi criado para treinar o per√≠odo expulsivo com a paciente. Nele, a mulher sente os m√ļsculos do per√≠neo sendo alongados at√© a sua capacidade m√°xima e depois ela treina a forma como deve expulsar o bal√£o inflado. √Č claro que esse alongamento deve ser feito com o aux√≠lio de um fisioterapeuta e, dessa forma, a mulher melhora esse alongamento at√© o momento do nascimento do beb√™.

Existem v√°rios artigos cient√≠ficos que falam de uma grande chance do per√≠neo permanecer √≠ntegro, ou seja, sem que a paciente tenha lacera√ß√£o (quando o m√ļsculo se rasga durante a passagem do beb√™) ou precisar de episiotomia (corte na vagina para facilitar a passagem do beb√™). Os estudos s√£o muito recentes e ainda tem muito a ser estudado, mas para que se tenha sucesso nesse treinamento, o paciente deve procurar um fisioterapeuta para entender como realizar o treinamento, porque existem particularidades no posicionamento do aparelho e como proceder durante toda a sess√£o.

Isis¬†‚ÄstE para o p√≥s-parto, qual a sua relev√Ęncia?
Dra. Carla¬†‚ÄstNo p√≥s-parto, o mais importante √© fortalecer os m√ļsculos para que a paciente n√£o tenha nenhuma disfun√ß√£o desse grupo muscular. Esse treino j√° pode ser feito ap√≥s oito horas de parto vaginal ou ces√°rea.

Isis¬†‚Äď Ali√°s, outra curiosidade: homem tamb√©m pode fazer? Em quais situa√ß√Ķes √© indicada?
Dra. Carla¬†‚ÄstGeralmente, os homens apresentam queixa nessa regi√£o ap√≥s cirurgia de retirada de pr√≥stata, em que ficam incontinentes. Precisa de um fisioterapeuta para avaliar a for√ßa muscular e reabilitar essa musculatura para melhorar o quadro de incontin√™ncia urin√°ria.

Isis¬†‚Äď Acredita que com o aumento de parto humanizado e valoriza√ß√£o do parto normal, existe uma procura maior por esse tipo de fisioterapia? As pessoas t√™m vergonha de dizer que fazem? Como escolher um profissional adequado?
Dra. Carla¬†‚ÄstSim, na verdade atualmente as mulheres est√£o tendo mais informa√ß√Ķes sobre o parto normal e enfrentando os seus medos acerca da dor que sentir√£o ou do tempo de trabalho de parto e outros fantasmas. E as informa√ß√Ķes obtidas t√™m facilitado a procura da fisioterapia. E isso tem sido libertador, porque muitas pacientes tem ajudado a divulgar o trabalho que a fisioterapia realiza, n√£o sinto que as mesmas tenham vergonha ao falar desse servi√ßo. Para escolher um profissional adequado √© preciso saber a sua forma√ß√£o e a sua experi√™ncia profissional. Colegas de outras profiss√Ķes acabam indicando como obstetras e/ou enfermeiros.

Isis¬†‚Äď Antigamente, as mulheres faziam mais trabalhos f√≠sicos, caminhavam mais, eram mais fisicamente ativas. Acredita que, por isso, elas pariam com maior facilidade?
Dra. Carla¬†‚ÄstJ√° existem alguns estudos que falam que mulheres ativas apresentam partos mais r√°pidos e sua recupera√ß√£o √© melhor comparadas √†s sedent√°rias. Por isso que estimulamos a atividade f√≠sica na gesta√ß√£o, mesmo quando a paciente √© sedent√°ria orientamos que inicie alguma atividade. A fisioterapia p√©lvica pode complementar a atividade j√° realizada com exerc√≠cios globais mais direcionados que auxiliar√£o no trabalho de parto e no per√≠odo expulsivo.

 

Parto normal ou ces√°rea?

gravida
Emily Cahal/ SXC.hu

Vou fazer uma pausa nas discuss√Ķes sobre as manifesta√ß√Ķes aqui no blog para falar de outro assunto atual ao menos na minha timeline do Facebook: partos. Muitas amigas minhas est√£o gr√°vidas ou tiveram filhos recentemente. Al√©m das fotos dos beb√™s lindos e dos barrig√Ķes redond√Ķes, vez ou outra as conversas faceboquianas acabam em parto. Ou√ßo muitas d√ļvidas e at√© ideias equivocadas sobre o assunto. Por isso, gostaria de ajudar as mulheres a debaterem a import√Ęncia de um parto normal e saberem quando a ces√°rea √© necess√°ria.

De modo geral, a ces√°rea √© uma cirurgia indicada quando a m√£e ou o beb√™ correm risco em um parto normal. Alguns exemplos de indica√ß√£o: quando o beb√™ ‚Äún√£o vira‚ÄĚ, est√° com a bundinha para baixo (isso porque, geralmente, o maior di√Ęmetro do corpo do beb√™ √© a cabe√ßa, assim, pode ser que ele fique entalado com metade do corpo preso); quando a m√£e n√£o tem dilata√ß√£o suficiente para o beb√™ sair; ou, quando h√° o sofrimento fetal (o ritmo card√≠aco do beb√™ √© inst√°vel, ele faz coc√ī dentro da barriga da m√£e, etc).

Na maioria dos pa√≠ses desenvolvidos, o parto normal √© feito quando n√£o h√° esses riscos – leia o texto a epidemia da ces√°rea. E, por que o sistema de sa√ļde deles prefere o parto normal? Al√©m de ser mais barato por l√°, ele traz muitos benef√≠cios para a m√£e e para o beb√™. Abaixo, listo algumas dessas vantagens baseadas em pesquisas cient√≠ficas para ajudar a desmitificar esse tipo de parto. Quando h√° a op√ß√£o de escolha, por que n√£o ser favor√°vel ao parto normal – ou parto natural, se preferir (aquele em que se faz a menor interven√ß√£o poss√≠vel como n√£o anestesiar a m√£e)?

Seguem algumas observa√ß√Ķes sobre o parto normal (se quiser saber mais, clique nos respectivos links):

Vale ressaltar que as condi√ß√Ķes da m√£e e do beb√™ devem ser avaliadas pelo m√©dico durante o acompanhamento da gravidez e, claro, durante o parto. Essa acesso a m√©dicos e a recursos de qualidade garantem um parto mais seguro, seja normal ou com acesso necess√°rio √† ces√°rea. Tendo esse apoio, cuide da sua sa√ļde para ter um parto e um beb√™ saud√°vel e… Parab√©ns!

Obs.: Não sou médica. O que escrevo é de acordo com relatos de médicos, com o que li e com o que apurei para fazer matérias sobre o tema. Portanto, doutores, me corrijam se eu estiver errada.