Nem toda montanha dos Andes √© de “pedra”

Quem observa a Cordilheira dos Andes da janela do avi√£o (clique nas imagens para ampliar), al√©m de sentir euforia misturada com frio na barriga por voar entre os picos, tem a sensa√ß√£o de que todas suas montanhas s√£o parecidas. Geralmente, olhando de l√° de cima, o topo das montanhas est√° coberto de neve e suas rochas refletem uma homog√™nea cor escura. J√° no Chile, da cidade de Santiago, √© poss√≠vel observar os magn√≠ficos pared√Ķes quando a poeira e polui√ß√£o baixam. Por√©m, ainda parece que suas montanhas s√£o todas iguais. Ledo engano.

Em Caj√≥n del Maipo, uma regi√£o localizada no cora√ß√£o dos Andes a uma hora da capital chilena, o guia me alertou: “Repare que os ‘cerros’ [colina, em espanhol] t√™m cores diferentes”. Era cedo, cerca de 8h da manh√£. Os raios solares n√£o alcan√ßavam nem um ter√ßo das altas montanhas – algumas passavam de 5 mil metros de altura. Conforme a gente caminhava horas naquele lugar considerado o centro energ√©tico mundial por Dalai Lama (li a informa√ß√£o num mapa tur√≠stico local), o sol subia no horizonte iluminando as √≠ngremes encostas. A√≠, meus olhos brilharam.

 

Entendi o que o simpático chileno quis mostrar. Cada montanha Рpróxima, grudada ou nascendo na outra Рtem uma cor diferente. Sério, as tonalidades são muito e perceptivelmente diversas. Algumas montanhas são verdes, outras avermelhadas, outras amarelas (acredite!), outras pretas, outras marrons claras, marrons escuras ou esbranquiçadas. Isso significa que, apesar dos Andes emergirem do fundo do mar, a proveniência das suas rochas é variada.

 

O guia, pertencente a uma fam√≠lia de mineradores – a principal atividade econ√īmica da regi√£o -, sabe “do que a montanha √© feita” s√≥ de olhar para um pedrisco. Tropecei numa rocha com discretas listras verdes. “Nessa pedra tem cobre”, disse o guia. Entramos em termas com √°gua esbranqui√ßada. “Nessa montanha deve haver gesso”, conta. Percebi que, principalmente, o vulc√£o San Jos√© e o Cerro El Mirador del Morado com glaciar (um gelo que permanece muitos mil anos sem descongelar, imagem √† esquerda) t√™m cor preta. Ou seja, sua composi√ß√£o tem basalto – uma rocha vulc√Ęnica de cor escura.

 

O chileno n√£o sabia dizer qual a composi√ß√£o do Cerro Amarillo (montanha de cor amarela, claro, foto acima), localizado em frente ao Parque Nacional El Morado – ainda vou falar sobre esse lugar divino neste blog. Mas contou que ele era bem maior. A cada ver√£o a montanha se desfaz, sendo levada abaixo pelas √°guas do degelo. Assim, sua observa√ß√£o somada ao seu antigo trabalho como minerador e sabedoria popular indica qual a melhor montanha para praticar alpinismo, caminhar, encontrar tra√ßos de civiliza√ß√Ķes j√° extintas e por a√≠ mundo afora. N√£o √© incr√≠vel? Proteger a natureza √© viver. Boa semana colorida!

Google Street View debaixo do mar

As imagens são tão incríveis que preciso compartilhar. O Google e a Universidade de Queensland, na Austrália, com o patrocínio do grupo multinacional de seguros Catlin, estão mapeando fotograficamente a Grande Barreira de Corais australiana, a maior do mundo com 2,3 mil km de comprimento. O objetivo do projeto, chamado Catlin Seaview Survey, é verificar os impactos do aquecimento global nesse ambiente marinho.

N√≥s, peixes fora d’√°gua, podemos fazer um tour virtual pelo maravilhoso mundo do coral sem molhar um dedinho! As institui√ß√Ķes disponibilizam as imagens no esquema Google Street View – Seaview (mar + vista) , pegou? – para qualquer ser humano que navegue na internet. Basta voc√™ clicar aqui e cair no mar australiano. Por enquanto, apenas sete pontos do coral est√£o dispon√≠veis, mas 20 j√° foram fotografados. O grupo diz que ir√° publicar as imagens j√° tiradas – e quem sabe outras novas.

 

Se voc√™ tem medo de mergulhar ou curiosidade sobre como √© a vida marinha, eis a chance. N√£o √© a mesma sensa√ß√£o que pular no mar carregando um cilindro nas costas, mas d√° para saciar a vontade. Al√©m da p√°gina do projeto, os organizadores criaram um canal no Youtube – que tem, por enquanto, apenas um v√≠deo. Para saber mais informa√ß√Ķes sobre o projeto clique nos links: Catlin Seaview Survey, Universidade de Queensland, press release da Catlin Group, mat√©ria na NewScientist e post no Guizmodo.

Como é mergulhar
Lembro do meu primeiro mergulho com cilindro como se fosse ontem: ponto Cagarras, Fernando de Noronha, 2009. Estava ansiosa no Porto Santo Ant√īnio. Enquanto esperava o barco que nos levaria ao ponto de mergulho, com os cotovelos apoiados no encosto do banco de madeira, observava os siris indo e vindo com a mar√© no fundo do mar e jogava conversa fora com um forasteiro que se autodenominava “pirata”.

 

Ele morava em São Paulo e, a cada seis meses, seguia para a ilha da fantasia admirar seu animal preferido: a ave fragata. Durante o voo, a pirata aérea rouba o alimento de outros pássaros batendo na cabeça deles até regurgitarem o peixe pescado.

 

O céu da manhã continuava azul límpido pontilhado de próximas aves quando a embarcação aportou. Respirei fundo: a hora se aproximava. Sempre quis mergulhar. Era um sonho, mas ao mesmo tempo, um pesadelo. Sentia falta de ar só por pensar em permanecer debaixo da água presa a um cilindro que tem a metade do meu peso Рmal eu sabia seria amarrado, na minha cintura, mais pesos. Mas a curiosidade, para variar, era maior que o meu receio.

 

Ap√≥s navegarmos por menos de meia hora em dire√ß√£o a outras ilhas do arquip√©lago mais ao norte, o capit√£o desliga o motor. Chegamos. Paramos em frente a uma ilha rochosa. O mar estava calmo. O c√©u tamb√©m. As aves. Vamos ao que chamam de “bastimo” guiado por instrutores. Tivemos uma breve aula em alto mar sobre mergulho e como proceder com os equipamentos. Beleza! Sou sorteada para ser guiada por um dos instrutores mais experientes – e bem humorados.

 

Vesti o macac√£o de borracha, os p√©s de pato, a m√°scara. O instrutor me ajudou a colocar um colete infl√°vel, pesos na cintura e, por fim, o cilindro. A maioria dos marinheiros de primeira viagem saltaram em dire√ß√£o a √°gua. “Quem garante que o colete suporta na superf√≠cie do mar o meu peso e mais o de todos esses equipamentos comigo?”, pensei. N√£o quis pular. J√° na √°gua, o instrutor me deu a m√£o e eu saltei sentada. Agora, vamos l√°!

 

Estava tão tensa que nem reparei no azul profundo em minha volta. Segundos seguidos, fiquei eufórica. U-A-U. Aquele mundo, que só tinha visto em documentário ou da superfície com meu equipamento de snorkeling, se abria. Rapidinho, senti uma paz tomando conta do meu corpo e da minha mente.

 

O guia percebeu que eu n√£o apertava mais a sua m√£o. Viu minha risada estampada. E me guiou por um mundo de corais que se fecham ao se aproximarem dos dedos, polvo vermelho arredio √† nossa presen√ßa muito pr√≥xima dele, moreias verdes e coloridas amea√ßadoras a menos de 30 cm de dist√Ęncia, tartarugas com comportamento parecido ao do filme “Procurando Nemo”.

 

Al√©m da sensa√ß√£o de paz e seguran√ßa, o que mais me chamou a aten√ß√£o foi passar despercebida pelos peixes e tartarugas. Eles n√£o se assustavam com a nossa presen√ßa. Pareciam at√© chegar mais perto por curiosidade. √Čramos peixes. Um novo mundo calmo e colorido se abria. Encantador.

 

Atingimos cerca de 15 metros de profundidade. Eu olhava para cima, via o pared√£o de pedra sobre mim e na superf√≠cie o sol refletido. Enquanto viajava naquela nova imensid√£o, o guia cobrava a subida. A meia hora passou como se fosse um minuto. Eu fazia que n√£o com o dedo e a cabe√ßa. Queria mergulhar mais… De nada adiantou teimar. Colete inflado pelo guia, superf√≠cie √† vista. Bem que os instrutores alertaram: “Quando estiver l√° embaixo, n√£o vai querer subir”. E, assim, eu me apaixonei.

Aprenda com o passado da Ilha de P√°scoa

A dica de hoje √© o Museo de Arqueolog√≠a e Historia Francisco Fonck, na litor√Ęnea cidade com ar-condicionado natural Vi√Īa del Mar, no Chile. Ele primeiro atrai a aten√ß√£o por expor um grande moai (aquelas est√°tuas da Ilha de P√°scoa) com mais de dois metros em seu jardim – este, ali√°s, era o meu interesse inicial, pois queria novamente a euforia sentida ao ver um moai no British Museum. Pesquisando sobre o museu, vi que ele tinha, al√©m de uma √°rea destinada √† hist√≥ria natural, mais pe√ßas da polin√©sia chilena. J√° me deu coceira. Tenho loucura por essas ilhas do Oceano Pac√≠fico. Ali√°s, j√° que estou toda cultureba, se voc√™ tamb√©m gosta da cultura polin√©sia veja o filme ” Tabu, a Story of the South Seas” (1931), dos cineastas Robert Flaherty e Friedrich Wilhelm Murnau – a obra √© a vanguarda muda e em preto e branco dos document√°rios atuais.

Viajando de volta ao Chile, o museu exp√Ķe muitos textos sobre a Ilha da P√°scoa. Al√©m da j√° sabida (geralmente sem detalhes) hist√≥ria de que os pr√≥prios moradores da ilha, o povo Rapa Nui, a desmatou inteira, l√° descobri que sua cultura √© bem diferente das outras civiliza√ß√Ķes polin√©sias ou ind√≠genas contempor√Ęneas (antes do s√©culo XVII). Entre as informa√ß√Ķes que chamaram a aten√ß√£o: ningu√©m at√© hoje sabe sua origem exata, cada moai tem um nome (quem lembrar dos dados do que est√° exposto no Museu Fonck e no British Museum deixe nos coment√°rios deste post), eles eram mais guerreiros que o povo do Hawaii e do Tahiti (brigaram √† be√ßa entre os pr√≥prios povos e para que os europeus fossem embora da ilha) e praticavam a horticultura. Esta est√° diretamente relacionada ao desflorestamento do local.

Os rapanui pescavam, mas a horticultura era a base da sua subsist√™ncia – alguns ind√≠genas brasileiros s√£o coletores (vivem de colher frutos e afins da natureza, sem plantar). Eles cortavam e queimavam √°rvores para abrir lugar aos cultivos principalmente de: batatas, taro (“batata dos tr√≥picos”) e inhame. Para produzir o fogo, friccionavam um peda√ßo de madeira dura sobre o tronco de uma planta chamada hau hau. Nas festas, cozinhavam a comida em grandes fornos cobertos por folhas e h√ļmus. Os tocos de √°rvores tamb√©m eram usados em fornos de resid√™ncias, nas crema√ß√Ķes, nos cerimoniais. Por√©m, o uso indiscriminado da madeira ao longo do tempo causou a falta de mat√©ria-prima, dificultando a constru√ß√£o de embarca√ß√Ķes, o que impedia migra√ß√Ķes.

Enquanto isso, a popula√ß√£o crescia na ilha. Consequentemente, cada vez mais, o espa√ßo livre diminu√≠a e os conflitos entre grupos rivais aumentavam. Havia aristocracia, sacerdotes, guerreiros, gente “comum”. Segundo o museu, a batalha do Poike entre dois grupos foi o momento culminante da crise na ilha no fim do s√©culo XVII. Depois dessa guerra, os habitantes tiveram que se virar com os recursos naturais e pessoais que sobraram. As planta√ß√Ķes foram protegidas com jardins de pedras para conservar a umidade. Os cad√°veres deixaram de ser cremados: seus ossos eram guardados limpos dentro de c√Ęmaras debaixo de altares. As cerim√īnias asseguradas eram para proteger a fertilidade e para saber administrar com destreza os recursos para a subsist√™ncia.

Al√©m de v√°rias hist√≥rias, como essas informa√ß√Ķes, o museu tamb√©m conta com algumas pe√ßas do per√≠odo precolombiano (inclusive uma m√ļmia). Como o principal museu de arte precolombiana do mundo estava fechado para reformas de expans√£o, o Museo Chileno de Arte Precolombino, me contentei com o pouco que se mostrou muito. E fui feliz aprendendo com uma cultura que ainda vou conhecer mais de perto ao visitar sua terra natal. Sonhar √© preciso. Boa viagem!

O Pablo e o mar

Aqui est√£o duas, hoje e amanh√£, breves dicas para quem aproveita o carnaval para programar viagem ainda sem destino ou ao hermano Chile. A primeira delas √© o museu Isla Negra, localizado na cidade litor√Ęnea El Quisco – apesar do nome, ele n√£o est√° instalado em uma ilha. Fiquei emocionada ao visit√°-lo por ser uma das casas do poeta Pablo Neruda e por sentir pertinho a proximidade do escritor com o mar. Rela√ß√£o que j√° conhecia por meio de seus livros, mas pessoalmente se revelando uma surpresa marejada.

Pablo Neruda amava o mar e sentia por ele um grande respeito. Brandava ser um marinheiro em terra firme. No quintal de sua casa encravada em uma praia pedregosa, com o constante estrondoso barulho das ondas se chocando contra elas, colocou um velho barco comprado em certa ocasião. Nunca levou-o de volta às águas, dizia que não precisava. Gostava de beber com os amigos sentado em seus bancos e, ao levantar, já saía mareado da embarcação.

Dentro de todos os c√īmodos da “casa-barco” repleta de personalidade, reutilizava diversos objetos principalmente remetentes, claro, ao mar como as esculturas inseridas na frente das embarca√ß√Ķes – n√£o lembro o nome dado a elas em portugu√™s, em espanhol se chamam “mascar√≥n de proa”. Vou me segurar nos detalhes sobre a decora√ß√£o para evitar estragar as surpresas. Apenas ressaltar que, para Neruda, as resid√™ncias deveriam ser l√ļdicas. E destacar sua consci√™ncia ambiental j√° naquela √©poca, antes da d√©cada de 1970.

Certa vez, ao observar um dia agitado do mar, o poeta viu um objeto boiando pr√≥ximo √†s pedras. Pediu a Matilde, sua √ļltima esposa, ajuda para retirar o que se relevou um peda√ßo maci√ßo de madeira. “O mar me deu de presente o tampo de uma mesa”, disse. Depois de muito esfor√ßo, o casal levou para dentro de casa a pe√ßa a ser instalada em seu escrit√≥rio caseiro.

Essas s√£o poucas – e descritas neste post de maneira muito simples para um poeta t√£o grandioso – de muitas impress√Ķes e hist√≥rias guardadas em minha mem√≥ria ap√≥s visitar o abrigo de Neruda e ler as suas obras. Sua vida √© um exemplo de respeito ao meio ambiente, amor √†s artes e compaix√£o ao pr√≥ximo. Se tiver oportunidade de visitar sua resid√™ncia que hoje √© o museu Isla Negra, agarre-a firmemente.

Enquanto isso, do meu “apartamento-barco”, esta simples mortal que agora, mais ainda, se sente parte de uma vers√£o feminina do poeta – algu√©m que me entende -, resiste a mostrar para outros os poemas que escreveu relacionados ao tema e deixa um registro do legado de Neruda para voc√™ se marear com ou sem o balan√ßo das ondas:

El mar

 

Necesito del mar porque me ense√Īa:
no s√© si aprendo m√ļsica o conciencia:
no sé si es ola sola o ser profundo
o sólo ronca voz o deslumbrante
suposición de peces y navios.
El hecho es que hasta cuando estoy dormido
de alg√ļn modo magn√©tico circulo
en la universidad del oleaje.
No son sólo las conchas trituradas
como si alg√ļn planeta tembloroso
participara paulatina muerte,
no, del fragmento reconstruyo el día,
de una racha de sal la estalactita
y de una cucharada el dios inmenso.

 

Lo que antes me ense√Ī√≥ lo guardo! Es aire,
incesante viento, agua y arena.

 

Parece poco para el hombre joven
que aquí llegó a vivir con sus incendios,
y sin embargo el pulso que subía
y bajaba a su abismo,
el frío del azul que crepitaba,
el desmoronamiento de la estrella,
el tierno desplegarse de la ola
despilfarrando nieve con la espuma,
el poder quieto, allí, determinado
como un trono de piedra en lo profundo,
substituyó el recinto en que crecían
tristeza terca, amontonando olvido,
y cambió bruscamente mi existencia:
di mi adhesión al puro movimiento.

Onde nascem as √°guas

 

Em tempos de √°guas de mar√ßo, saiba que o l√≠quido que sai transparente da torneira da sua resid√™ncia desceu muita serra. Haja corredeira! A dica √© de uma exposi√ß√£o permanente do Parque Estadual de Campos do Jord√£o, vulgo Horto Florestal, localizado na linda Serra da Mantiqueira. Segundo o parque, “mantiqueira” significa “lugar onde nascem as √°guas” em tupi – as mina pira na semi√≥tica. A √°gua que passarinho bebe em algumas cidades dos estados de S√£o Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais √© proveniente da Serra da Mantiqueira, da Cantareira e do Mar.

No caso da Serra da Mantiqueira, seus riachos, ribeir√Ķes e rios t√™m leitos pedregosos quase sempre com corredeiras. Geralmente, essas √°guas s√£o frias, l√≠mpidas, oxigenadas e rasas. E s√£o diversas, mais belas que o rio que corre pela minha aldeia. Em apenas quatro horas dentro do Horto Florestal, encontrei muita √°gua al√©m daquela que veio do c√©u: visitei a cachoeira do Galharada e fiz uma breve caminhada ao lado do rio Sapuca√≠-Gua√ßu, que corta o parque. Recomendo a visita.

J√° o nome Serra da Cantareira n√£o tem origem ind√≠gena, mas tamb√©m remete ao precioso l√≠quido. De acordo com o Parque Estadual Serra da Cantareira – outra dica de passeio incr√≠vel e, o melhor, n√£o √© preciso nem sair da cidade de S√£o Paulo para conhec√™-lo – “o nome ‘Cantareira’ foi adotado por conta da grande presen√ßa de tropeiros entre os s√©culos XVI e XVII que guardavam seus c√Ęntaros [vasos] de √°gua em m√≥veis chamados ‘cantareiras‘”. Essa √°gua, como √© de se imaginar, era retirada da respectiva serra.

Sempre gosto de saber a proveni√™ncia dos produtos e alimentos consumidos por mim. √Č uma maneira de entrar em contato com a terra – e com a Terra. De voltar √†s origens. De estabelecer uma liga√ß√£o com aquilo aparentemente t√£o distante. Ai, ai. Neste momento, sorrio observando a linda Serra da Cantareira da janela da minha sala. Ainda bem que est√° a√≠ emoldurando a paisagem.

Obs.: A foto tirei do Pico do Itapeva com cerca de 2 mil metros de altitude. De lá de cima, é possível ver várias cidades no planalto como Tremembé, Aparecida, Taubaté, Pindamonhangaba e São José dos Campos e, mais ao fundo, a Serra do Mar. <3

Passeie pela ‚Äúmata das nuvens‚ÄĚ

‚ÄúMata das nuvens‚ÄĚ… Po√©tica essa composi√ß√£o de palavras, n√£o? Confesso que emprestei daquela exposi√ß√£o permanente sobre a Serra da Mantiqueira no Horto Florestal de Campos do Jord√£o, interior de S√£o Paulo. Quem j√° andou no meio do mato em ambientes serranos do Sul e Sudeste deve ter reparado que alguns locais t√™m uma n√©voa quase permanente entre e sobre a vegeta√ß√£o. Para mim, essa paisagem remete aos sonhos ou, se existissem, aos lugares onde viveriam as ninfas. Outros j√° a relacionam aos filmes de terror.

Essa n√©voa ‚Äúm√°gica‚ÄĚ √© resultado da umidade levada para as serras do Mar e da Mantiqueira por meio dos ventos que sopram do mar em dire√ß√£o ao continente. O nome ‚Äúverdadeiro‚ÄĚ desse misto de nevoeiro e chuva √© mata nebular. Segundo a exposi√ß√£o no Horto Florestal, a mata nebular ‚Äú√© densa, formada por √°rvores de tronco retorcido, quase sempre cobertos de musgos, brom√©lias e orqu√≠deas‚ÄĚ. Mais detalhes: ‚ÄúNela s√£o encontradas √°rvores como o cambu√≠, o guamirim e o pinho-bravo‚ÄĚ.

Os ambientes de mata nebular est√£o, geralmente, acima de mil metros de altitude. A foto deste post tirei em um local com ‚Äúmata das nuvens‚ÄĚ, dentro do Parque Estadual de Campos do Jord√£o ‚Äď o vulgo Horto Florestal. Enquanto eu pasmava sentada sobre uma pedra ao som distante da maior queda da Cachoeira da Galharada, aproveitava para capturar o frescor da mata. Respirava fundo. Ai, ar puro e √ļmido.

Parece pasto, mas não é

Veja como um passeio de bicicleta ao parque é cultura. Enquanto caía a tradicional chuva das duas horas da tarde do verão* de Campos do Jordão, cidade serrana de São Paulo, aproveitei para visitar um pequeno museu localizado dentro do Horto Florestal Рleia aqui o post sobre esse parque. Lá dentro, fiz uma feliz descoberta: muitas terras localizadas principalmente no Sudeste e no Sul do Brasil parecem pasto, mas na realidade são exemplos do ecossistema chamado Campos de Altitude (partes das montanhas sem árvores na foto).

 

Lembro nitidamente as paisagens das minhas viagens de inf√Ęncia e adolesc√™ncia ao Paran√°. Em uma ocasi√£o, a rodovia seguia por um lado de uma serra. L√° embaixo, no vale, corria um magro rio com pedras nas margens que refletia o tom azul escuro. Acompanhando o leito, um buc√≥lico trem transportava a carga por uma ponte de ferro. Conforme o carro avan√ßava, o trem ficava para tr√°s e ao lado dele “subia” uma montanha tomando nossa vis√£o. O alto morro pelado parecia ser coberto por uma vasta pastagem. Apenas uma solit√°ria arauc√°ria fazia sombra.

 

No momento, a composi√ß√£o me encantou. Parecia uma pintura feita no in√≠cio da tarde. Por√©m, logo em seguida, pensei: “A Floresta de Arauc√°ria foi desmatada para dar lugar aos bois? Pena”. Detalhe √© que n√£o vi um gado sequer pastando naquelas terras. Hoje, creio que esse lugar perdido nos rinc√Ķes paranaenses era, na verdade, um exemplar do Campo de Altitude. Segundo pesquisei, esse ecossistema √© comum nas √°reas mais elevadas – acima de 1.500 metros de altitude – da Serra do Mar, da Mantiqueira e na Cadeia do Espinha√ßo (em Minas Gerais). Geralmente, s√£o encontrados em locais com solo rochoso.

 

A exposi√ß√£o no Horto Florestal informava que os Campos de Altitude s√£o fundamentais na din√Ęmica ecol√≥gica dessas serras. No inverno, se tornam bem secos prop√≠cios a inc√™ndios. Quando chega a primavera, s√£o tomados pelas cores das flores. Ali√°s, o ecossistema √© rico em esp√©cies – muitas delas vivem apenas neles. O engra√ßado √© que sua paisagem lembra as que encontrei na Cordilheira dos Andes – aguarde fotos em novos posts. Claro que guardadas as devidas propor√ß√Ķes, principalmente, do tamanho das cadeias de montanhas! Deve ser por isso que me senti t√£o √† vontade no meio daqueles gigantes.

 

 

 

 

*Obs.: Todo dia, na hora do almo√ßo entre 12h30 e 14h, chovia em Campos do Jord√£o. Mas chovia, chovia muito. Est√° vendo essas ‚Äúpedrinhas‚ÄĚ brancas no ch√£o da foto ao lado (clique nela para ampliar)? √Č o resultado de 15 minutos de queda de granizo. Lindo. Ah, e a ciclista da foto acima soy yo.

Tuitando no Roda Viva

Hey, uma nota r√°pida. Segunda-feira (6), fui ao programa Roda Viva da TV Cultura como tuitera. S√©rgio Gabrielli, que est√° deixando o cargo de presidente da Petrobras, era o entrevistado. Ele falou sobre v√°rios temas pol√™micos como o alto custo da gasolina no pa√≠s e as comuns propagandas institucionais da empresa. Com rela√ß√£o ao meio ambiente, disse que a ind√ļstria automobil√≠stica n√£o tem, no Brasil, tecnologia suficiente para evitar a polui√ß√£o causada pelos ve√≠culos ao consumirem o combust√≠vel proveniente do petr√≥leo. Sobre os vazamentos do ouro negro durante a explora√ß√£o, afirmou que a empresa investe em tecnologia para evitar trag√©dias ambientais. Concorde ou discorde, o papo foi quente com direito a todos (entrevistados, apresentadores e perguntadores) falarem ao mesmo tempo e continuarem as discuss√Ķes at√© nos intervalos (bastidores). Interessou? Veja o programa na √≠ntegra aqui. Voc√™ tamb√©m pode checar as melhores partes da conversa no meu perfil do Twitter.

 

Obs.: Na foto acima, seguro a charge que Caruso (esquerda) fez de n√≥s – tuiteiros de plant√£o –¬†durante o programa. Sou a de verde e a Amanda Wanderley, do podcast Decodificando, ao meu lado.

Estacionamento para bikes parece “as europas”

Noites e manh√£s frias em pleno dezembro de ver√£o, casas com arquitetura alem√£, pinheiros plantados em passeios p√ļblicos, florestas circundado a cidade e estacionamento para bicicletas no centro comercial. A descri√ß√£o n√£o parece de uma cidade brasileira, n√£o √© mesmo? Deixando o gosto duvidoso da arquitetura e da introdu√ß√£o de esp√©cies ex√≥ticas de lado, ter um lugar para parar as magrelas no principal centro comercial tur√≠stico de Campos do Jord√£o, no interior de S√£o Paulo, √© um m√≠nimo apoio aos ciclistas (foto). Acho civilizado. E o povo usa. Quem vai trabalhar. Quem vai comer ou comprar. Quem √© turista. √Č para todos. As quatro bicicletas da foto tiraram quatro carros das entupidas ruas do badalado “centrinho”. Melhor se exercitar do que ficar dentro do possante meia hora dirigindo a 5 km/h at√© encontrar uma vaga na rua ou no estacionamento – e dirigir por no m√°ximo 6 quil√īmetros para chegar ao tal centro, dist√Ęncia da maioria dos hot√©is. Todas as cidades brasileiras deveriam ter um lugar destinado √†s bicicletas nos centros comerciais. Isso, sim, √© ser “phyno”.

Obs.: Conhece mais cidades tupiniquins com estacionamento para bikes? Conte aí!