Baarìa

Fui ao cinema. O novo filme de Giuseppe Tornatore, Baar√¨a, vale pelas lindas paisagens da Sic√≠lia e pela m√ļsica de Morricone. Falta-lhe, no entanto, a estrutura coesa, ainda que linear, de Cinema Paradiso. H√° uma m√°fia pueril, inveross√≠mel. H√° os camicie neri,apenas algo mais severos que um bedel de escola prim√°ria. Falta-lhe o carisma de um protagonista do calibre de Alfredo, o saudoso Philippe Noiret. Falta-lhe, ainda, a empatia de um personagem como o menino Tot√≥ (Salvatore Cascio). Sobra-lhe o alaranjado de Palermo. Sobra-lhe a beleza embriagante de Monica Bellucci. Sobra-nos o gosto nost√°lgico de uma inf√Ęncia tomada sem permiss√£o.               
       

Andres Calamaro – Tinta Roja (Tango)

¬ŅD√≥nde estar√° mi arrabal?
¬ŅQui√©n se rob√≥ mi ni√Īez?
¬ŅEn qu√© rinc√≥n, luna m√≠a,
volc√°s como entonces
tu clara alegría?

Regras de visitação

A virgem eo menino
Leonardo da Vinci
A Virgem e o Menino com Santa Ana
√ďleo sobre madeira

Beckett, em Molloy, diz que “resgatar o sil√™ncio √© o papel dos objetos”. A discuss√£o que caberia √© o que define um objeto no dizer beckettiano. De qualquer modo, ao entrar em um museu, quase sempre, lembro-me dessa frase do mestre irland√™s. O poder que a contempla√ß√£o de uma tela, escultura ou um vaso grego produzem em mim √©, possivelmente, compar√°vel ao poder atribu√≠do √† ora√ß√£o – para os que assim a fazem. E, se ao entrar Beckett me acompanha, sempre saio com Keats: N√£o tenho certeza de nada, a n√£o ser da santidade dos afetos do cora√ß√£o e da verdade da imagina√ß√£o – o que a imagina√ß√£o capta como beleza deve ser verdade – tenha ou n√£o existido antes. Se um viajante num dia qualquer um museu visitar, lembre-se do  sil√™ncio e da certeza de que todo o imaginado √© real.                         

Eu vos refuto, Giannetti!

O avan√ßo dos m√©todos de estudo do c√©rebro, notadamente os modelos neurofisiol√≥gicos de acesso aos mecanismos formadores da mem√≥ria e a imagem por resson√Ęncia magn√©tica funcional,  revolucionou, na √ļltima d√©cada, a maneira como entendemos o ato de pensar. Se por um lado ampliamos a capacidade de enxergar a extens√£o de um certo fen√īmeno neural, por outro reduzimos a psicologia, a sociologia e, arriscar√≠amos a dizer, a psiquiatria, a um evento pura e simplesmente neurobiol√≥gico. Em seu livro “O erro de Descartes”, o neurocientista Ant√≥nio Dam√°sio desbanca a ideia dualista do fil√≥sofo franc√™s de raz√£o e emo√ß√£o. Para Dam√°sio, por mais racional que determinada decis√£o possa nos parecer, ela sempre ser√° forjada por rea√ß√Ķes eletroqu√≠micas cerebrais que acontecem √† revelia de nossa consci√™ncia.

O erro de Dam√°sio √© reduzir e explicar todo fen√īmeno cognitivo a partir desse modelo. Ele lan√ßa m√£o da hip√≥tese do marcador-som√°tico, segundo a qual as emo√ß√Ķes s√£o imagens som√°ticas (corporais, assim digamos) que nos dizem o que √© bom e o que √© mau. Nas palavras de Dam√°sio “a intera√ß√£o entre um sistema interno de prefer√™ncias e conjuntos de circunst√Ęncias externas aumenta o repert√≥rio de est√≠mulos que ser√£o marcados automaticamente. (…) No n√≠vel neural, os marcadores-som√°ticos dependem da aprendizagem dentro de um sistema que possa associar determinados tipos de entidades ou fen√īmenos √† produ√ß√£o de um estado do corpo, agrad√°vel ou desagrad√°vel”. O erro consiste em sempre associar cognitivamente uma rea√ß√£o emocional √† causa da emo√ß√£o ou √† causa das mudan√ßas corporais (rubor, por exemplo) que podem acompanhar uma perturba√ß√£o emocional, pois muitas vezes ignoramos as causas dos nossos sentimentos emocionais. A genialidade de Freud consistiu em, para al√©m de qualquer modelo bioreducionista, enxergar que, justamente porque ignoramos muitas das causas de tais sentimentos emocionais, somos seres plurais.

Na √ļltima semana, acabei a leitura do mais recente livro do Eduardo Giannetti, A ilus√£o da alma. Biografia de uma ideia fixa (Cia. das Letras). Ris√≠vel esbo√ßo, embora mais palat√°vel, de O erro de Descartes, o escritor incide nos mesmos erros do neurocientista portugu√™s. Giannetti chega ao absurdo de citar o caso de Joseph F., um professor prim√°rio de meia-idade do estado da Virg√≠nia que passa a cometer  atos de pedofilia. Durante a investiga√ß√£o criminal, um tumor na regi√£o frontal do c√©rebro √© fortuitamente descoberto e ressecado. Ap√≥s a cirurgia, Joseph F. cura-se de suas pervers√Ķes sexuais por um ano e meio, quando volta a pratic√°-las e descobre-se, ent√£o, que o tumor recidivou. A absurda e pueril conclus√£o de Giannetti √©: “atribuir culpa moral e responsabilizar criminalmente as v√≠timas desse tipo de dist√ļrbio √© t√£o absurdo como censurar uma pessoa al√©rgica por estar espirrando”. Giannetti estaria certo caso n√£o houvesse o exemplo contr√°rio: a maioria dos ped√≥filos n√£o possui nenhum tumor cerebral. Acerta no particular (caso Joseph F.), erra no geral (todos os demais ped√≥filos).Fal√°cia de generaliza√ß√£o.

Giannetti, poderia terminar com uma cita√ß√£o de Novalis, Santo Agostinho, Nietzsche ou Shakespeare, mas  Caetano Veloso cai como uma luva ao dizer que “cada um sabe a dor e a del√≠cia de ser o que √©”.

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