“E o que eu quero é sossego”

No último post, citei o casal suicida Paul Lafargue e Laura Marx. O genro do barbudo Karl escreveu uma obra bastante interessante, em muitos aspectos predecessora das idéias de valorização do ócio tão divulgadas pelo italiano Domenico De Masi na última década. Em seu livro, “O Direito à Preguiça” (Le Droit à la paresse, 1880), Lafargue demonstra que o homem não nasceu para o trabalho. Em termos etimológicos, discutidos no prefácio da edição brasileira por Marilena Chaui, há alguns argumentos interessantes. Em grego, ócio se diz scholé, de onde se origina nossa palavra “escola”. Para os antigos, o conhecimento só seria obtido caso o indivíduo não estivesse escravizado pela obrigação de trabalhar. Outra origem bastante significativa é a da própria palavra “trabalho”, que é derivada do latim, de “tripalium“, famoso instrumento de tortura do Santo Ofício utilizado para empalar os hereges (palus=estaca). Temos ainda labor, cujo significado pode ser de carga, dor, sofrimento e fadiga. Em resumo, La Fontaine nos vendeu uma noção falsa: a de que o mundo se divide entre cigarras e formigas, entre desfrutadores hedonistas e trabalhadores infatigáveis. Crasso erro! Somos todos cigarras, tentando, em vão, esconder nossa verdadeira vocação. Lembranças ao Inverno…

Do suicídio

Foto, Sérgio Fonseca, 2005

Disse Camus que a única questão filosófica realmente relevante é o suicídio. A lista de célebres personagens que se suicidaram é quase infinita: Ernest Hemingway, Aristóteles, Roland Barthes, Walter Benjamin, Cleópatra, Florbela Espanca, Pagu, Gogol, Virgínia Woolf e Stefan Sweig são alguns deles. Acredito que Schopenhauer foi o filósofo que mais tempo dedicou ao tema, concluindo que o suicídio é algo estúpido, no mínimo. Disse: “Suicidar-se é um ato inútil e insensato; destrói arbitrariamente o fenômeno individual, enquanto a coisa em si permanece intacta”. Qualquer pessoa intelectualmente privilegiada já pensou no sentido de seguir em frente, já cogitou, ainda que de forma bastante distante do derrardeiro e concreto momento, em dar cabo de si mesmo. Não tenho a pretensão de esgotar o tema, mas tendo a concordar com o filósofo alemão. De qualquer maneira, acredito que há motivações diferentes que, em última análise, poderiam justificar, dar uma roupagem mais palatável, a determinados suicídios. Walter Benjamin acabou com a própria vida por medo de ser entregue à Gestapo. Cleópatra, pela incapacidade de conviver com a culpa por ter ludibriado Marco Antônio, após o envio de uma falsa mensagem que resultou no suicídio de seu amante. Mas o que dizer do suicído de Hemingway? Atavismo genético, uma vez que seu pai cometera o mesmo ato? Depressão? E Sweig, teria cometido o suícidio por não corresponder às expectativas de Freud? Certo está que “a idéia do suicídio é uma grande consolação: ajuda a suportar muitas noites más” (Nietszche). Fiquemos com a idéia, somente.

A sabedoria de Bloom

A Apoteose de Homero РJean Auguste Dominique Ingres, 1827 Mus̩e du Louvre (Paris)

Mais um e-mail. Mais uma pergunta curiosa. Fui questionado sobre a incompatibilidade deste blog tratar de filosofia e literatura. Para o missivista, os meus recentes “posts” recheados de poesia, principalmente, fazem com que os temas filosóficos não sejam tratados de maneira séria. Cita A.M.S. a posição de Sócrates contra os poetas, conforme registro de Platão (A República, Livro terceiro, “Contra os poetas que nos inculcam o medo da morte”), em virtude das mentiras perpetradas por Homero em suas Íliada e Odisséia. Bem, este blog não tem a pretensão de ser sério ou acadêmico ao tratar de temas filosóficos. De qualquer maneira, acredito que poderia argumentar usando as palavras de Harold Bloom, em “Onde Encontrar a Sabedoria?”: “Não temos de optar entre Platão e Homero, embora Platão assim o quisesse. Se, em última instância, tivermos de escolher, leiamos Homero.” Sim, leiamos Shakespeare, Keats, Wordsworth, Baudelaire, Pound, Pessoa e, até mesmo, Drummond.

O piano de Mozart

Já escrevi neste blog a respeito do “mito do progresso”. Resumidamente, pode-se dizer que o progresso é desigual, faz os ricos ainda mais ricos e, os mais pobres, ainda mais pobres. Neste mês, no site edge, há um interessante artigo que fala sobre a tecnologia, algo que, de certa forma, tem relação com a falácia do progresso. Kevin Kelly, o autor do artigo, diz que a tecnologia resolve problemas ao mesmo tempo que, paradoxalmente, cria novos problemas oriundos dessa nova tecnologia. Por exemplo: a engenharia genética, com todas as suas possibilidades de modificações, pode trazer os riscos da eugenia por meio de seu mau uso. O mesmo vale para a energia nuclear, ainda que aperfeiçoado o seu manejo. Mas a opinião final de Kelly é positiva. Ele acredita que a grande vantagem da tecnologia seja aumentar o leque de possibilidades para o desenvolvimento do gênio individual. Vocês já imaginaram que lamentável teria sido o nascimento de Mozart antes do advento do piano? Ou a passagem de Hitchcock neste mundo sem a existência da película? Não formei minha opinião ainda, embora não veja a tecnologia com tanto otimismo assim. Ando satisfeito com as possibilidades tecnológicas ao meu redor, ainda que o iPhone não tenha chegado ao Brasil…

Nada panglossiano

Luto, mármore, 1572

“Se considerarmos a vida objetivamente, é duvidoso que ela seja preferível ao nada. Atrever-me-ia até a dizer que se a reflexão e a experiência pudessem fazer um acordo, elevariam a voz em favor do nada. Se batêssemos nas pedras dos sepulcros e perguntássemos aos mortos se querem ressucitar, moveriam negativamente a cabeça. É esta a opinião de Sócrates na apologia de Platão. O alegre e feliz Voltaire dizia:’Amamos a vida, porém o nada não deixa de ter o seu lado bom’. Em outra parte dizia: ‘Ignoro o que seja a vida eterna, mas esta é um pesado gracejo.'” (A. Schopenhauer). Sem comentários.

Nós, Sísifos

Sísifo, de Tiziano, 1549

Em relação ao último “post”, recebi algumas mensagens por e-mail. Dentre as mais interessantes, ressalto o comentário do escritor Pedro Maciel, que me autorizou a citá-lo nominalmente: “ninguém pode nos salvar dos nossos pensamentos.” Nós, seres humanos, não temos a “habilidade” de não pensar em nada, Pedro. Concordo com você. Disse Clarice Lispector: “Por que é que um cão é tão livre? Porque ele é o mistério vivo que não se indaga.” Como não somos cães, dá-lhe indagação… Em relação ao segundo questionamento, feito a partir do “Guardador de Rebanhos”, a resposta encontra-se na própria obra de Alberto Caeiro: ” Num dia excessivamente nítido,/Dia em que dava a vontade de ter trabalhado muito/Para nele não trabalhar nada,/Entrevi, como uma estrada por entre as árvores,/ O que talvez seja o Grande Segredo,/Aquele Grande Mistério de que os poetas falsos falam./Vi que não há Natureza,/Que Natureza não existe,/Que há montes, vales, planícies,/Que há árvores, flores, ervas,/Que há rios e pedras,/Mas que não há um todo a que isso pertença,/Que um conjunto real e verdadeiro/É uma doença das nossas idéias./A Natureza é partes sem um todo./Isto é talvez o tal mistério de que falam./Foi isto o que sem pensar nem parar,/Acertei que devia ser a verdade/Que todos andam a achar e que não acham,/E que só eu, porque a não fui achar, achei.” O mistério, o “sentido oculto das cousas” está em nós, é produto de nosso repertório mental, arquetípico, sempre em busca de explicações para tudo o que acontece e que nos cerca. Somos eternos Sísifos, embora não sejamos capazes de perceber que não há nehum sentido nessa tarefa monótona e repetitiva que é procurar sentido em tudo.

Da metafísica

Giorgio de Chirico, 1930

Estarei ausente deste blog até o próximo domingo, pelo menos (dependerei da aviação brasileira). Deixarei vocês com alguns versos de Fernando Pessoa e duas perguntas. Vamos aos versos: “Há metafísica bastante em não pensar em nada.” Outros: “Olá, guardador de rebanhos,/aí à beira da estrada,/que te diz o vento que passa?/Que é vento, e que passa,/e que já passou antes,/e que passará depois.” Perguntas: (i) É possível não pensar em nada, ainda que haja muita metafísica nisso? (ii) Há, obrigatoriamente, um sentido em tudo que está ao nosso redor ou tudo pode ser muito mais simples como o vento, que passa?

Não desista, amigo

Domingo. Encontrei um amigo mais jovem, bom papo, sempre disposto a discorrer sobre o último livro que leu ou espetáculo a que assistiu. E, pela segunda vez, reclamou da sua incapacidade de prosseguir além das páginas iniciais do “Ulisses”, de James Joyce. Disse a ele que não desanimasse, pois eu mesmo havia desistido três vezes e, após um esforço razoável e mais de quatro meses, consegui terminar a leitura. E só posso dizer que o esforço foi recompensado. Perguntei, então, se ele conhecia “Donna Lee”, um clássico do bebop, com Charlie Parker. Respondeu-me que sim e que, durante as primeiras audições, sabia que o bebop havia causado uma espécie de estranhamento nos ouvintes habituais do jazz, do “swing” então vigente de Glenn Miller e Benny Goodman. Nesse momento, citei uma crônica escrita pelo crítico Whitney Balliett (“Chicago, Chicago”) em que ele descreveu o bebop da seguinte maneira: “the Joyce of jazz”. Pois é, amigo. Não desista. As peripécias de Leopold Bloom aguardam por você. Novamente.

Do não dito

“The Key” [1946] by Jackson Pollock.

A pintura expressionista abstrata é, via de regra, bastante incômoda para muitos admiradores da arte figurativa. Já ouvi de diversas pessoas, várias vezes, a frase “isto até eu faria melhor”, diante de uma obra de Jackson Pollock. Mas a arte abstrata, o expressionismo abstrato, particularmente, pode muito bem ser “explicado” pelas palavras emprestadas de Henry James. Disse o americano: “Não há que especificar o mal em nenhuma obra literária; não se diz que um personagem é assassino, ou incestuoso, ou ímpio ou qualquer outra coisa que seja; isso debilita a presença do mal. O melhor seria que se sentisse o mal como uma atmosfera sombria.” Assim é a bom abstracionismo, aquele que nada explicita, mas que faz transparecer o não dito, o não pintado, como uma charada a ser decifrada pelo espectador bem aparelhado.

Da certeza

A única certeza que possuimos é está: morreremos. É justamente essa consciência da finitude que nos impulsiona, que nos faz acordar cedo, estipular prazos e metas, planejar filhos, vislumbrar a aposentadoria, dentre outras ações tão prosaicas. No decorrer da História, o tema da transitoriedade de todas as coisas foi tratado por filósofos, teólogos, matemáticos, físicos e poetas, para citar apenas alguns grupos de maior destaque. Na poesia, o carpe diem horaciano foi incorporado por autores tão distantes no tempo como Camões e Emily Dickinson. Vejam os trechos desses poetas, respectivamente: “(…)Porque, enfim, tudo passa,/não sabe o tempo ter firmeza em nada;/e nossa vida escassa/foge tão apressada/que, quando se começa, é acabada.”(da ode “Fogem as neves frias”). O seguinte poema de Dickinson chama-se “Cemitério” (tradução de Manuel Bandeira): “Este pó foram damas, cavalheiros,/Rapazes e meninas;/Foi riso, foi espírito e suspiro,/Vestidos, tranças finas./Este lugar foram jardins que abelhas/E flores alegraram./Findo o verão, findava o seu destino…/E como estes, passaram.” Em 1927, Bertrand Russel proferiu uma famosa palestra intitulada “Por que não Sou Cristão:Uma Análise da Idéia de Deus e do Cristianismo”. Disse o inglês que “aquilo que os homens querem, de fato, não é o conhecimento, mas a certeza.” Morte nihil certius est.

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