Fen√īmenos intelectuais

Ningu√©m melhor que Bernardo “Pessoa” Soares conseguiu colocar em palavras o prazer da leitura e da vida intelectual. Falo do fragmento abaixo, extra√≠do do “Livro do Desassossego”.

“Para sentir a del√≠cia e o terror da velocidade n√£o preciso de autom√≥veis velozes nem de comboios expressos. Basta-me um carro el√©trico e a espantosa faculdade de abstra√ß√£o que tenho e cultivo.

Num carro el√©trico em marcha eu sei, por uma atitude constante e instant√Ęnea de an√°lise, separar a id√©ia de carro da id√©ia de velocidade, separ√°-las de todo, at√© serem coisas-reais diversas. Depois, posso sentir-me seguindo n√£o dentro do carro mas dentro da Mera-Velocidade dele. E, cansado, se acaso quero o del√≠rio da velocidade enorme, posso transportar a id√©ia para o Puro Imitar da Velocidade e a meu bom prazer aument√°-la ou diminu√≠-la, alarg√°-la para al√©m de todas as velocidades poss√≠veis de ve√≠culos comboios.

Correr riscos reais, al√©m de me apavorar, n√£o √© por medo que eu sinta excessivamente ‚Äď perturba-me a perfeita aten√ß√£o √†s minhas sensa√ß√Ķes, o que me incomoda e me despersonaliza.
Nunca vou para onde há risco. Tenho medo a tédio dos perigos.

Um poente √© um fen√īmeno intelectual. “

A dialética de Bloom

N√£o desprezo Hegel e a sua dial√©tica, pois seria um auto-atestado de estupidez. Mas sempre achei – e continuo achando – que o fil√≥sofo alem√£o √© valorizado al√©m do que deveria. Entre ler Hegel e Wittgenstein, fico com este. Harold Bloom acho que compartilharia da mesma escolha. “Lemos, penso eu, para sanar a solid√£o, embora, na pr√°tica, quanto melhor lemos, mais solit√°rios ficamos. N√£o posso encarar a leitura como v√≠cio, mas tampouco √© virtude. Pensar, para Hegel, √© uma coisa; para Goethe, √© outra, bem diferente. Hegel n√£o √© um escritor da sapi√™ncia; Goethe, sim. O motivo mais profundo da leitura tem de ser a busca da sabedoria. O saber mundano raramente √© s√°bio, ou mesmo prudencial. Shakespeare, o maior dos artistas do entretenimento, √© tamb√©m o mais s√°bio dos mestres, se bem que o fardo do seu ensinamento talvez seja o niilisimo, li√ß√£o inserida em Rei Lear.” (Onde encontrar a sabedoria? Ed. Objetiva, p√°gina 121). N√£o por acaso, adivinhem o que diz a dedicat√≥ria desse livro de Bloom? “Para Richard Rorty”…

“A exaust√£o de um homem e a exaust√£o de uma na√ß√£o”

Divulgadas as galerias de vencedores da World Press Photo 2008.

“Toda mem√≥ria √© individual, irreproduz√≠vel – morre com a pessoa. O que se chama mem√≥ria coletiva n√£o √© uma rememora√ß√£o, mas algo estipulado: isto √© importante, e esta √© a hist√≥ria de como aconteceu, com as fotos que aprisionam a hist√≥ria em nossa mente.”

“Lembrar, cada vez mais, n√£o √© recordar uma hist√≥ria, e sim ser capaz de evocar uma imagem.”
(Susan Sontag, Diante da dor dos outros, Cia. das Letras, 2003)

Amor e paciência

Richard Rorty, de quem j√° falei neste blog, acreditava que a verdadeira mudan√ßa de sentimentos e atitudes se produz nas pessoas pela literatura, e n√£o pela filosofia. Rorty desenvolveu essa id√©ia em “Conting√™ncia, Ironia e Solidariedade“. Sempre acreditei nessa tese. Aproveitando o alvoro√ßo em torno do filme Desejo e Repara√ß√£o, baseado no livro “Repara√ß√£o”, de Ian McEwan, transcrevo uma passagem de seu √ļltimo romance, “Na praia”: “(…) Tudo aquilo que ela precisava era da certeza do amor dele, e da sua garantia de que n√£o havia pressa, pois tinham a vida pela frente. Amor e paci√™ncia – se pelo menos ele tivesse conhecido ambos ao mesmo tempo – certamente os teriam ajudado a vencer as dificuldades”. Nenhum Nietszche √© capaz de maior verdade: amor e paci√™ncia. A combina√ß√£o imprescind√≠vel. Amor e paci√™ncia. Nada mais.

Mozart e o poder de síntese

Glenn Gould, Alfred Brendel e Arthur Rubinstein s√£o os meus pianistas preferidos. Depois de v√°rios anos escutando-os, passei a associ√°-los a compositores espec√≠ficos. Para mim, Gould √© sin√īnimo de Bach executado √† perfei√ß√£o; Brendel, de Beethoven – n√£o qualquer um, mas o compositor j√° maduro, digno de musicar uma ode de Schiller. Rubinstein me faz, imediatamente, evocar Mozart. Essa identifica√ß√£o n√£o deve ser ao acaso. Em 1962, Rubinstein deu uma entrevista e teceu os seguintes coment√°rios: “Para mim, Mozart consegue se expressar em poucas notas, ao passo que Beethoven necessita do movimento inteiro de uma sonata para conseguir a mesma capacidade expressiva.(…) Eu adoro Mozart; ele √© o meu maior, maior, maior e profundo amor”. Em √©pocas do insuport√°vel ziriguidum carnavalesco, prefiro me recostar na poltrona e ouvir o mais belo concerto para piano de Mozart (n√ļmero 23, K.488, la majeur). Olha o Rubinstein a√≠, geeeeente!

P.S.: Acredito que a caracteriza√ß√£o de Mozart na entrevista acima deva servir de inspira√ß√£o para todos n√≥s, sempre com t√£o pouca capacidade de s√≠ntese…

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