Miscel√Ęnea

Garden District, New Orleans

Amigos,

muito tempo estive afastado do blog. Compromissos profissionais, prazos a cumprir, viagens, fam√≠lia. Houve um tempo para¬†leituras e releituras tamb√©m. Impressionei-me com William Kennedy e o seu¬†“Ironweed” (Cosac Naify, 272 p√°ginas).¬†O escritor retrata a vida do protagonista Francis Phelan e seus tr√°gicos infort√ļnios. As primeiras p√°ginas do romance s√£o inusitadas e, por si s√≥, valem a leitura. Vencedor do Pulitzer de 1984, Kennedy me era completamente desconhecido. √ďtima descoberta.

Li Tony Judt. O seu √ļltimo livro traduzido para o portugu√™s, “O chal√© da mem√≥ria”¬†(Objetiva, 224 p√°ginas), √© um relato autobiogr√°fico¬†de um tipo de intelectual que n√£o existe mais, comprometido com as suas ideias e n√£o cooptado pelos ditames da vida acad√™mica. Sempre acho artificial¬†a reprodu√ß√£o, na capa¬†dos livros, dos coment√°rios¬†dos ve√≠culos de imprensa, mas no caso particular¬†de Judt os dizeres do Financial Times¬†s√£o a perfeita s√≠ntese da obra: “Audaz, humano e de uma honestidade¬†absoluta”. Em tempos de discuss√£o de cotas raciais, um trecho iluminador: “Universidades s√£o elitistas: selecionam os mais capazes de uma gera√ß√£o¬†e os instruem conforme suas habilidades – abrindo os horizaontes da elite para renov√°-la. A igualdade de oportunidade e igualdade de resultado n√£o s√£o a mesma coisa. Uma sociedade dividida por riqueza e heran√ßa n√£o pode redimir a injusti√ßa camuflando-a nas institui√ß√Ķes de ensino – negando distin√ß√Ķes de capacidades, ou restringindo oportunidades por meio da sele√ß√£o – enquanto promove um distanciamento cada vez maior, em nome do mercado. Isso n√£o passa de conversa fiada e hipocrisia”.

Estive em New Orleans. A cidade¬†√© qualquer coisa menos EUA. Os estragos deixados pelo furac√£o Katrina¬†n√£o atingiram a parte central e tur√≠stica da cidade. Sofreram – adivinhem? –¬†negros,¬† pobres e negros pobres, principalmente. H√° um encanto, uma atmosfera diferente¬†na cidade, fruto da musicalidade e¬†da¬† heran√ßa¬†cultural multi√©tnica¬†N√£o foi por acaso que Tennessee Williams disse que “nos EUA¬†existem tr√™s cidades: Nova York, New Orleans e S√£o Francisco. Todo o resto √© Cleveland”.

Ontem, Alberto Giacometti na Pinacoteca do Estado, em São Paulo. Assunto para o próximo post.           

Contra a nação

Los desastres de la guerra, Goya.

 

Este post poderia ser uma continua√ß√£o do anterior.¬†A leitura de “A inven√ß√£o do povo judeu”, de Shlomo Sand (editora Benvir√°, 573 p√°ginas), s√≥ fez reiterar em mim a convic√ß√£o¬†de¬†um absurdo chamado “na√ß√£o”. O autor retoma tema antigo, j√° tratado com maestria por intelectuais do porte de Eric Hobsbawn e Ernest Gellner, para¬†citar apenas dois.¬†Sand, judeu, professor de hist√≥ria contempor√Ęnea na Universidade de Tel-Aviv, demonstra como a forma√ß√£o das unidades nacionais foi e ainda √© feita de maneira quase m√≠tica,¬†apoiando-se¬†em narrativas que carecem de qualquer verossimilhan√ßa hist√≥rica. Por exemplo, √© a b√≠blia que legitima, a partir da descri√ß√£o da primeira di√°spora, a reivindica√ß√£o do povo hebreu pelas terras da Palestina. √Č claro que n√£o √© esse o √ļnico “documento”, mas a passagem¬†ilustra com rigor outras absurdas alega√ß√Ķes¬†que respaldam o direito √†quela terra.¬†O fen√īmeno n√£o √© exclusivo do “povo judeu”, embora o autor tenha escolhido o tema exatamente por¬†sua isen√ß√£o e credibilidade: um judeu austr√≠aco, que passou parte da vida em um campo de refugiados na Alemanha e, depois, emigrou com os pais para Israel. Na √©poca de maior beliger√Ęncia entre franceses e alem√£es, cita Sand, a Fran√ßa assumiu a ancestralidade¬†gaulesa, quando,¬†na verdade, desse ponto de vista, Sarkozy e companhia s√£o muito mais pr√≥ximos dos teut√Ķes.¬†Os exemplos s√£o infinitos e, infelizmente, a irracionalidade¬†da busca pela “identidade nacional” j√° resultou na¬†morte de centenas de milhares de pessoas. As delimita√ß√Ķes das fronteiras tamb√©m se baseiam em caracter√≠sticas “√©tnicas”, compartilhamento dos “mesmos valores culturais”, de “cren√ßas religiosas comuns”, dentre outras¬†fr√°geis e equ√≠vocas¬†argumenta√ß√Ķes. √Č nesse contexto que tamb√©m est√£o inseridos os “herois nacionais”, figuras criadas pelo imagin√°rio de uma na√ß√£o em gesta√ß√£o,¬†que alimenta¬†mitos¬†fundadores e injeta¬†a semente¬†do nacionalismo potencialmente radical. Como escreveu Karl W. Deutsch, citado por Sand, “uma na√ß√£o √© um grupo de pessoas unidas por um erro comum em rela√ß√£o a seus ancestrais e uma avers√£o comum em rela√ß√£o a seus vizinhos.” As diferen√ßas entre mim e voc√™, caro leitor, s√£o ainda mais sutis do que imaginamos.

Contra a cultura

A crise econ√īmica j√° √©¬†fato consolidado. A an√°lise retrospectiva da hist√≥ria demonstra que √© esse o terreno prop√≠cio para¬†despertar¬†o gigante (quase) adormecido da xenofobia.¬†Os governos dos pa√≠ses em crise,¬†como regra, aumentam¬†o protecionismo¬†contra a concorr√™ncia estrangeira e intensificam a vigil√Ęncia das fronteiras para minimizar a entrada de¬†imigrantes ilegais. O crescente desemprego e a queda da qualidade dos servi√ßos b√°sicos fornecidos pelo estado fomentam o √≥dio¬†ao estrangeiro. Eis a√≠ o bode expiat√≥rio ideal. Muito me assusta a crescente¬†presen√ßa de textos na imprensa internacional invocando a a preserva√ß√£o da “cultura europeia”, a necessidade de manter os “b√°rbaros africanos” longe do territ√≥rio italiano, “ber√ßo inviol√°vel do Renascimento”, a defesa das “ra√≠zes culturais do Velho Mundo” contra a degrada√ß√£o pelos imigrantes, quase sempre pintados como “mu√ßulmanos fundamentalistas que¬†n√£o hesitam em dar cabo √† pr√≥pria vida em nome de um deus ou de um livro religioso”. Ora, est√° claro para mim que n√£o existe nada mais falacioso do que invocar¬†a defesa da “cultura europeia”. Simplesmente porque ela n√£o existe. Explico.¬†H√° uma evidente confus√£o entre identidade cultural e cultura. Povos podem apresentar alguns h√°bitos e costumes que emprestam um denominador comum a eles. Temos o ch√° das cinco dos ingleses, a siesta dos espanh√≥is,¬†o amor pela bicicleta dos franceses, o culto √† cerveja dos alem√£es,¬†para citar alguns, apenas. Tudo isso nada mais √© que identidade cultural.¬†A “cultura”, por outro lado, n√£o apresenta nenhum¬† tipo de caracter√≠stica que seja exclusividade deste ou daquele grupo de pessoas. Assim, falar numa “cultura europeia” √© algo n√£o s√≥ mentiroso como perigoso. A cultura, por defini√ß√£o, √© universal, atemporal e n√£o respeita¬†fronteiras. Roubando as palavras de Fernando Savater, “ningu√©m chama de ‘culto’ quem conhece a sua l√≠ngua, mas sim √†quele que √© capaz de falar e ler em v√°rias; nem √†quele que sabe tudo sobre o seu bairro, mas sim ao que se interessa por relacion√°-lo com o inabarc√°vel universo”.¬†N√£o h√° nada que se assemelhe mais entre as √°rvores do que as suas pr√≥prias ra√≠zes.¬†Dispam-se. E j√° somos todos iguais.

Daniel Piza

O ano de 2011 poderia ter acabado melhor.¬†A morte de Daniel Piza, em 30 de dezembro, me deixou muito mal.¬†Preferi o distanciamento de alguns dias antes de escrever qualquer coisa. √Äs vezes, arroubos emotivos nos traem.¬†Piza n√£o foi s√≥ um jornalista cultural. Tal qual¬†Paulo Francis, de quem se dizia herdeiro intelectual, Piza foi um jornalista autoral.¬†H√° uma grande diferen√ßa a√≠.¬†O jornalismo cultural pressup√Ķe um of√≠cio t√©cnico que necessita de um profissional bem informado¬†com bom tr√Ęnsito nos meios e eventos culturais. O jornalismo autoral, por sua vez,¬†depende essencialmente das opini√Ķes emitidas pelo jornalista¬† que observa e estuda fatos e fen√īmenos culturais. Esse √© o principal motivo que faz muito dif√≠cil a substitui√ß√£o de Piza por algum outro colega jornalista.

¬†Piza iniciou¬†a sua carreira muito precocemente, desde sempre demonstrando¬†um olhar agudo, multifacetado,¬†original.¬†Fez leituras que moldaram o seu jeito de escrever e pensar.¬†Citam Euclides da Cunha, Machado de Assis e Guimar√£es Rosa, mas negligenciam Caio Prado J√ļnior, Raymundo¬†Faoro, Celso Furtado, Antonio Candido, Gilberto Freyre, para citar alguns que me lembro aqui.¬†N√£o citarei todos os cl√°ssicos, mas¬†leu (e releu) Montaigne, Shakespeare e Bacon. Em anos recentes, fez leitura cr√≠tica original¬†de “O outono da Idade M√©dia”, de Johan Huizinga, edi√ß√£o¬†lan√ßada pela Cosac Naify em 2010.¬†Era vers√°til e inteligente.¬†Enxergou¬†como poucos a beleza pl√°stica das obras de Anish Kapoor, e, felizmente,¬† deixou-a registrada em ensaio monumental.

Escreveu 17 livros em sua curta trajet√≥ria.¬†Foi v√≠tima de sua pr√≥pria¬†reputa√ß√£o, pois a revis√£o da biografia de Machado de Assis (Machado de Assis – um g√™nio brasileiro, Imprensa Oficial, 415 p√°ginas) foi sabidamente negligenciada, pois afinal de contas¬†o autor era “o” Piza. Engra√ßado ler na imprensa detratores seus apontando os erros¬†da biografia e reduzindo¬†o Piza a esse livro. Ser√° que essas pessoas que se julgam t√£o inteligentes, t√£o sabidas e t√£o cultas n√£o sabem que existem reedi√ß√Ķes revisadas? No caso de Piza, n√£o as teremos, infelizmente, mas j√° havia um projeto¬†para reedi√ß√£o da obra, que n√£o por acaso se encontra esgotada.

Outro lugar comum¬†que pude encontrar em alguns necrol√≥gios foi a lembran√ßa de Piza como um jornalista de direita. Nada mais ris√≠vel.¬†A esquerda bo√ßal brasileira, que, infelizmente, √© a maioria, pensa corporativamente. N√£o h√° pensamento individual, autoral. Carecemos de um Antonio Gramsci, de um Hobsbawn. Da√≠ o espanto diante de um jornalista capaz de ter opini√£o contr√°ria aos governantes “de esquerda” (chamar o PT,¬†Luiz In√°cio Lula da Silva e Cia.de “esquerda”¬†√©¬†fazer corar de raiva os verdadeiros esquerdistas). A mesma esquerda bo√ßal que criticou e atacou um Piza¬†indefeso foi incapaz de registrar que esse mesmo Piza criticou o governo de Alckmin, a inoper√Ęncia de Serra, a pueril falta de posicionamento da oposi√ß√£o; que esse mesmo Piza elogiou as medidas econ√īmicas e pol√≠ticas anunciadas pela Sra. Dilma no in√≠cio de seu mandato; que esse mesmo Piza criticou os desmandos de Jos√© Sarney. Piza sempre se posicionou a favor da democracia e defendeu uma sociedade mais justa, com menos desigualdades e maiores oportunidades. Deixava claro em suas colunas o mal estar que lhe provocava a iniquidade brasileira. Mas isso s√≥ sabe quem tinha o prazer de ler e de usufruir de seus textos.O domingo est√° mais pobre.

 

P.S.: Piza, você acredita que além das barbaridades que escreveram a seu respeito também riram por um pretenso desconhecimento seu, que teria dito que Jesus Cristo morreu enforcado? Bom, Piza, caso não saiba, Cristo morreu crucificado Рinformação muito pouco conhecida e de domínio por somente alguns raros indivíduos ilustrados. Ridendo castigat mores.

2011: meu balanço

 

O pr√≥ximo ano est√° a√≠. O ano que agora finda nos legou algumas li√ß√Ķes. De longe, a mais importante delas foi a derrocada do livre mercado fundamentalista e do capitalismo assim baseado. Quem havia enterrado Keynes n√£o poderia estar mais equivocado. Estados se agigantam para que a crise seja detida. Preju√≠zos privados s√£o convertidos em d√≠vida p√ļblica. A globaliza√ß√£o mostra que nada mais √© que um fen√īmeno econ√īmico que n√£o pode romper as barreiras pol√≠ticas. A China se globaliza comercialmente mas mant√©m o r√≠gido isolamento e cerceamento pol√≠tico. A Primavera √Ārabe desenha um novo mundo em que a sucess√£o do poder n√£o pode mais ser garantida em nome de uma question√°vel tradi√ß√£o. Movimentos como Ocupar Wall Street se rebelam contra a perversa l√≥gica de perpetua√ß√£o da iniquidade social. E o Brasil, apoiado num discurso panglossiano, n√£o enxerga que os problemas de infra-estrutura e a p√©ssima educa√ß√£o ser√£o entraves intranspon√≠veis em poucos anos.

Na m√ļsica, 2011 foi um ano de mais do mesmo. Sem coment√°rios.

Na literatura, mais uma decep√ß√£o com a escolha pol√≠tica do Nobel. Tomas Transtr√∂mer se junta a Herta M√ľller e a Le Cl√©zio na galeria das escolhas, no m√≠nimo, question√°veis. O lado bom foram as reedi√ß√Ķes de grandes cl√°ssicos em portugu√™s, em especial “Guerra e Paz” e “Os miser√°veis”, ambas pela Cosac Naify. O obra de Tolst√≥i foi, pela primeira vez, traduzida diretamente do russo por Rubens Figueiredo. Pedro Maciel nos legou mais um romance-ensaio arrebatador. “Previs√Ķes de um cego” (ed. LeYa) √© carregado de lirismo e refor√ßa a voca√ß√£o do escritor que repara naquilo que outros apenas enxergam. Edmund de Waal e os 264 netsuqu√™s foram outra grata surpresa que acabo de ler. “A lebre com olhos de √Ęmbar” (ed. Intr√≠nseca) √© daqueles livros que nos causam tristeza quando terminamos, pois a hist√≥ria poderia se prolongar sem fim, nos legando, homeopaticamente, uma ou duas p√°ginas por dia. Mas dizem que o infinito habita em n√≥s.

Enfim, 2011 n√£o deixar√° muita saudade. Esperemos 2012. E como escreveu Luis Fernando Verissimo no Estad√£o de hoje, “e f√© em 2012, pois anos pares s√£o sempre melhores do que anos √≠mpares, uma estat√≠stica hist√≥rica que eu acabei de inventar para nos animar”.

 

P.S.: Seria injusto com algumas pessoas se não registra-se aqui, no rodapé, que, no plano pessoal, 2011 foi o melhor ano da minha vida. Inesquecível.

 

 

A arte de começar

N√£o √© nenhum segredo que um bom pref√°cio, uma boa ep√≠grafe, uns bons primeiros par√°grafos podem ganhar o leitor mais facilmente. Comprei alguns livros baseado apenas na ep√≠grafe. Hilda Hilst me ganhou assim: ‚ÄúE ainda que as janelas se fechem, meu pai/ √Č certo que amanhece‚ÄĚ. E l√° fui eu e a ‚Äúobscena senhora D.‚ÄĚ. Corre-se o risco do engodo, mas um bom come√ßo quase sempre me garantiu uma leitura √† altura do in√≠cio. De modo mais recente, lembro-me de ter folheado uma dezena de lan√ßamentos nas estantes da livraria. Fui fisgado pela ep√≠grafe de ‚ÄúA aus√™ncia que seremos‚ÄĚ (Cia. das Letras), do escritor colombiano H√©ctor Abade: ‚ÄúE por amor √† mem√≥ria trago no rosto o rosto de meu pai‚ÄĚ, verso emprestado do poeta Yehuda Amichai. O livro n√£o me decepcionou e foi das melhores leituras do ano que finda. Agora, se eu tivesse que eleger o pref√°cio que mais me tocou e que at√© hoje n√£o consigo ler sem uma grande emo√ß√£o citaria este: ‚Äú Enquanto, por efeito de leis e costumes, houver proscri√ß√£o social, for√ßando a exist√™ncia, em plena civiliza√ß√£o, de verdadeiros infernos, e desvirtuando, por humana fatalidade,um destino por natureza divino; enquanto os tr√™s problemas do s√©culo – a degrada√ß√£o do homem pelo proletariado, a prostitui√ß√£o da mulher pela fome, e a atrofia da crian√ßa pela ignor√Ęncia – n√£o forem resolvidos; enquanto houver lugares onde seja poss√≠vel a asfixia social; em outras palavras, e de um ponto de vista mais amplo ainda, enquanto sobre a terra houver ignor√Ęncia e mis√©ria, livros como este n√£o ser√£o in√ļteis” (Victor Hugo, Os miser√°veis). ¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†¬†

                

Religi√£o, pobreza e ignor√Ęncia

Círio de Nazaré, Belém, Pará, 2011 

J√° nos sab√≠amos o maior pa√≠s cat√≥lico do mundo.¬†E parece que n√£o s√£o somente n√ļmeros. H√° pr√°ticas, rituais. O c√≠rio de Nazar√©, em Bel√©m,¬†√© o maior acontecimento¬†do catolicismo¬†e¬†do¬†mundo religioso. Os preparativos para¬†o dia de¬†Nossa Senhora Aparecida, que acontece amanh√£, mobilizam os notici√°rios nos principais ve√≠culos de comunica√ß√£o. H√° devotos que seguem a p√©, de joelhos, de bicicleta, no lombo de burro,¬†rumo a Aparecida do Norte. Pessoas em transe relatam “milagres” e a obriga√ß√£o do¬†pagamento de promessas “pela¬†gra√ßa alcan√ßada”.¬†Os dogmas venceram. Os indiv√≠duos dogm√°ticos venceram.H√° algo de podre no reino¬†de jos√© sarney.¬†As pesquisas realizadas pelo IBGE demonstram que a religiosidade √© maior nos estados do nordeste e entre indiv√≠udos sem ensino superior. Tamb√©m √© muito maior¬†nas fam√≠lias com renda inferior a dois sal√°rios m√≠nimos. Pobreza e baixa instru√ß√£o parecem os ingredientes essencias para¬†forjar um crente.¬†√Č claro – e ningu√©m precisa me apontar o contr√°rio – que existem indiv√≠duos ricos e universit√°rios religiosos e praticantes. A perversidade, e eis a minha indigna√ß√£o, √© que n√£o existe op√ß√£o para a maioria. Num pa√≠s desigual como o nosso, pobreza √© destino; ignor√Ęncia, decorr√™ncia natural. Infelizmente, a estreiteza intelectual que caracteriza o dogm√°tico √© perene e inamov√≠vel. E como escreveu Ortega y Gasset, tornamo-nos v√≠timas¬†da “peculiar√≠sima brutalidad y agresiva estupidez con que se comporta un hombre cuando sabe mucho de una cosa y ignora de ra√≠z todas las dem√°s”.

Leitores em potencial

As feiras liter√°rias nunca estiveram t√£o em alta como agora. De Passo Fundo a Bel√©m, a derrocada do livro impresso – ou, para usar uma express√£o de Vila-Matas, o funeral da era de Gutenberg – parece um devaneio on√≠rico pueril. A pergunta que me fa√ßo √© se, na mesma propor√ß√£o das feiras, os leitores tamb√©m est√£o crescendo. A consolida√ß√£o da democracia e a constru√ß√£o de uma sociedade mais justa passa por cidad√£os letrados. N√£o √© por acaso que a raiz da palavra “livre” √© a mesma de “livro”. Se estamos formando mais leitores e engendrando um novo pa√≠s, n√£o sei dizer. Mas gostaria de falar de um grave problema: os leitores em potencial. Compartilho da opini√£o de Ana Maria Machado e Jo√£o Ubaldo Ribeiro: quem n√£o l√™ e pode faz√™-lo √© burro. A semente que quando semeada gera o leitor √© o exemplo. Pais alfabetizados que n√£o l√™em n√£o podem exigir filhos leitores. Como desejar que o filho goste de legumes e vegetais se o pai n√£o gosta e n√£o come? Outro problema adicional √© que n√£o ler literatura estreita os horizontes e reduz o prazer. Explico melhor. Ouvi uma conversa de alguns prov√°veis leitores em potencial ap√≥s a sa√≠da do cinema. O filme? Meia-noite em Paris, de Woody Allen. Os casais diziam que o filme havia sido muito chato, at√© que uma mulher do grupo, em torno de 40 anos, disse: “acho que o filme foi chato porque n√£o conhec√≠amos as pessoas que l√° apareciam”. Bingo! S√≥ quem conhecia Ernest Hemingway, F.S. Fitzgerald e sua mulher Zelda, Gertrude Stein e Luis Bu√Īuel podia aproveitar plenamente o filme de Woody Allen e perceber o sentido de invejar a vida na Paris dos anos 20. Pai, m√£e: peguem um livro. Pai, m√£e: d√™em o exemplo. Pai, m√£e: um livro pode ser melhor que um pr√©dio com espa√ßo gourmet. Pai, m√£e: ler √© mais prazeroso que um apartamento com churrasqueira na varanda.

O prurido de Enrique


                          Herisau, 1956

Sua coceira atr√°s das orelhas, parox√≠stica, intermitente, o incomodava desde crian√ßa, mas a nova namorada insistira tanto que l√° estava ele. O consult√≥rio ficava no primeiro subsolo. A recepcionista n√£o era velha. Sorrindo, perguntou o seu nome e disse que esperasse. O doutor estava um pouco atrasado. Ao acaso, folheou a primeira revista que encontrou. Turismo em Funchal. Pre√ßos imbat√≠veis partindo de Barcelona. Tinha amigos na Madeira e j√° andava saudoso das tert√ļlias l√° desfrutadas. Pr√≥xima p√°gina. Paris, √≥timos pre√ßos, pacote completo para escritores frustrados e que nunca foram outra coisa sen√£o vontade de desaparecer. “Tr√™s noites, caf√© da manh√£ e capa estilo detetive entregue no momento do check-in”, dizia o an√ļncio do Hotel Montano, 45 Rue Vaneau. Na sala ass√©ptica, solit√°rio e sem no√ß√£o do tempo que aguardava, mirou um calend√°rio na parede e reconheceu a cidade que ilustrava aquele dia 16 de junho: Herisau, Sui√ßa. Pediu uma caneta emprestada. Reclamaria. Anotaria o nome da editora respons√°vel por tamanho descuido. Ponderou que uma folhinha de consult√≥rio n√£o √© um livro, um remanescente da quase morta era de Gutenberg. N√£o, n√£o passaria em branco. Herisau em 16 de junho? Dublin era a √ļnica resposta poss√≠vel. A secret√°ria anunciou a sua vez. Levantou-se e seguiu por um largo corredor. J√° na porta da sala, arrependido do favor cedido √† namorada, teve vontade de recuar. O doutor esticou o bra√ßo e cordialmente se apresentou: “Pasavento”.                                  

Neurocriminologia



Adrian Raine: criminologista da Universidade da Pensilv√Ęnia

Est√° na moda. Foi capa de prestigiosas revistas. A nova ci√™ncia se chama neurocriminologia. H√°, inclusive, departamentos rec√©m-criados em universidades do hemisf√©rio norte. O advento da tomografia por emiss√£o de p√≥sitrons (PET), m√©todo que permite o estudo do metabolismo dos tecidos em geral, revolucionou a oncologia e a maneira como enxergamos o c√©rebro em atividade. De maneira simplificada, o PET avalia √°reas de maior atividade metab√≥lica. Imagine, por exemplo, um c√Ęncer. As c√©lulas cancerosas est√£o em intenso processo de multiplica√ß√£o, o que exige energia, leia-se oxig√™nio e glicose. Assim, o aparelho de PET acusar√° e fotografar√° as √°reas de maior atividade metab√≥lica, identificando as c√©lulas malignas. No caso do c√©rebro, pode-se comparar o metabolismo das diferentes √°reas cerebrais entre grupos de indiv√≠duos. Em 1997, pesquisadores norte-americanos estudaram por PET o c√©rebro de 41 assassinos confessos e 41 indiv√≠duos normais. O resultado do estudo demonstrou que √°reas fundamentais para a boa intera√ß√£o e bom funcionamento social – c√≥rtex pr√©-frontal e am√≠gdala cerebral – apresentavam menor metabolismo no grupo dos asssassinos. Curiosos, esses mesmos pequisadores dividiram o grupo dos asassinos em outros dois grupos, agora de acordo com o tipo de proced√™ncia remota, bons lares e maus lares (pobreza, neglig√™ncia, abuso). O grupo proveniente dos lares piores mostrou um metabolismo ainda menor do c√≥rtex pr√©-frontal e am√≠gdala. Na √ļltima semana, quando fui convidado a participar de um congresso no sul do pa√≠s, o pesquisador respons√°vel  pelo estudo citado, Adrian Raine, defendeu que, baseado em seus achados, criminosos com menor atividade metab√≥lica do c√≥rtex pr√©-frontal e da am√≠gdala devem ser isolados definitivamente do conv√≠vio social. O problema maior, levantado por alguns dos presentes, √© a utiliza√ß√£o pr√©-m√≥rbida desses recursos. Para uma infelicidade, suponha que o seu filho de 12 anos √© uma crian√ßa cruel, que gosta de fazer mal aos animais, que bate nos colegas de classe e agride furiosamente os seus professores, que se regozija com pequenas maldades. Eis que, por exig√™ncia da escola ou de alguma autoridade competente, voc√™ deva submet√™-lo ao exame de PET  e, bingo: o padr√£o de funcionamento metab√≥lico √© similar ao dos psicopatas, dos assassinos confessos de Raine. Destino tra√ßado e inamov√≠vel? E o papel do ambiente – estaria completamente descartado, secund√°rio? O que veio antes, o c√©rebro “ruim” que determina um comportamento psicop√°tico? Ou um ambiente psicop√°tico – pobreza extrema, viol√™ncia dom√©stica, abuso sexual – que “molda” o c√©rebro tal qual o vemos em serial killers? A velha m√°xima mendeliana “fen√≥tipo √© o resultado do gen√≥tipo mais o ambiente” est√° morta? Estar√≠amos caminhando, mais uma vez na hist√≥ria, para uma vers√£o moderna e pseudocient√≠fica de eugenia? Penso que n√£o estamos preparados  para responder essas quest√Ķes, seja ainda do ponto de vista cient√≠fico ou, de modo mais importante, da perspectiva √©tica. O assunto deve ser debatido pela sociedade cada vez mais e mais. Plagiando Miguel Nicolelis, n√£o podemos ser  ignorantes em ci√™ncia, pois corremos o risco de, por desconhec√™-la, tornarmo-nos v√≠timas de suas limita√ß√Ķes e imprecis√Ķes metodol√≥gicas.                     

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