Montaigne e Tasso

http://nibiryukov.narod.ru/nb_pinacoteca/nb_pinacoteca_painting/nb_pinacoteca_richard_fleury-francois_montaigne_and_tasso.jpg

Caros Amigos,

eis a primeira postagem na casa nova, o ScienceBlogs Brasil. Depois de muito trabalho e ajuda dos ScienceBlogueiros Atila, Hotta e Karl, estou escrevendo. Escolhi, como poder√£o notar √† esquerda do banner “Amigo de Montaigne”, uma tinta a √≥leo de Fleury-Richard (1777-1852) para ilustrar o novo site. Intitulado “Montaigne e Tasso”, no √≥leo em quest√£o √© poss√≠vel enxergar, em destaque, o fil√≥sofo franc√™s – em p√©, √† esquerda – e o poeta italiano – sentado, √† direita. A luz, trabalho digno dos grandes mestres, revela a face inquieta de Torquato Tasso. Com a pena na m√£o direita, ele parece ansioso por n√£o perder o momento inspirador, como alerta-nos a sinistra. Por outro lado, Montaigne, com menos luz mas n√£o menos iluminado, empresta √† cena sua figura am√°vel, pronta a amainar uma impensada e impulsiva quase atitude de Tasso. Sempre me intrigou a presen√ßa de uma terceira figura, que espreita, de soslaio, a tens√£o impl√≠cita dos protagonistas. Assim espero que seja o Amigo de Montaigne: que tenha a inquietude produtiva dos grandes poetas, a serenidade dos maiores pensadores e o olhar atento de seus frequentadores.         

O imponderável é o deus da certeza

Gela, Sicília.

Rio de Janeiro, 16 de novembro de 2009. Era para ser mais um dia de tantos iguais. Mulher, pouco mais de 40 anos. Arranjara um bico, copeira em festa de bacana em Botafogo. Com o dinheirinho, planos para um Natal mais gordo, com peru, farofa e brinquedo para o filho. N√£o que tivesse um s√≥, mas aquele, tal qual fizera Deus com Abel, fora o escolhido da vez. Talvez sobrasse algum para ajudar o marido com o material de constru√ß√£o, ainda refletiu. Trabalho terminado. In√≠cio da madrugada. Subiu no √īnibus. Poucos pensamentos e minutos depois, o estrondo. Uma pedra, pesando 20 quilos, certeira em sua cabe√ßa, acabou com ela e com o sabor antecipado de peru recheado com farofa.

Gela, prov√≠ncia de Caltanissetta, Sic√≠lia, 455 a.C.. O dia estava soberbo. A brisa do Mediterr√Ęneo acariciava a face barbada e a calva do grande dramaturgo grego. Partira de Atenas incont√°veis dias antes. A caminhada, antecipando o peripat√©tico conterr√Ęneo Arist√≥teles, sempre fora, desde Os persas, o artif√≠cio inspirador de suas Trag√©dias. Aquele dia n√£o seria diferente. Caminhar, esbo√ßar, mentalmente, os di√°logos de Prometeu Acorrentado e arranjar algo para comer. Ledo engano. Muitos pensamentos e minutos depois, o estrondo. Desgarrada de uma √°guia, a carapa√ßa de uma tartaruga fez da cabe√ßa de √Čsquilo o seu alvo acidental. Inerte, jazia o corpo no solo quando sicilianos o encontraram. Metatrag√©dia?

O imponder√°vel √© o deus da certeza. Assim sintetizo a leitura do bel√≠ssimo livro “Como deixei de ser Deus”, do amigo Pedro Maciel ( Topbooks, 150 p√°gs., R$ 29), e que inspirou o post acima.

De mudança

Caros Leitores,

este blog está de mudança. Apesar de não se tratar exatamente de um blog de ciências, o Amigo de Montaigne é um dos três mais novos integrantes do ScienceBlogs Brasil. Fundindo ciências biológicas e humanidades, o ScienceBlogs deixa clara a sua vocação para cadinho do conhecimento.

Devo especial agradecimento ao Karl, do Ecce Medicus, que insistiu na inscrição do Amigo de Montaigne na votação que selecionaria novos integrantes do ScienceBlogs Brasil. Obrigado!

Enquanto aguardo a migração do blog para o novo endereço, as postagens continuarão por aqui.

Espero encontr√°-los, em breve, no http://scienceblogs.com.br/amigodemontaigne/.

“Paira, monstruosa, a sombra do ci√ļme”

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=wv8lNrTXB4Q]

O fil√≥sofo Stanley Cavell sublinhou – n√£o que seja novidade – a genialidade de Shakespeare em Otelo. A come√ßar pelo nome dos protagonistas, Otelo e Desd√™mona. Lidos no original, temos OtHELLo e DesDEMONa. A trag√©dia shakesperiana, desde a p√°gina inicial, por meio da simples listagem das personagens, j√° se anunciava. Mais que um simples an√ļncio, o leitor mais obsessivo poderia antecipar uma rela√ß√£o de complementaridade fatal entre o casal. Outros poderiam enxergar nos nomes uma alegoria ao ci√ļme como um dos dem√īnios que habitam o inferno. O ci√ļme, plantado na cabe√ßa do bom mouro pelo p√©rfido alferes Iago, nubla o julgamento de Otelo. Ferido em sua autoestima, envenenado em suas ideias, seu julgamento coloca em pr√°tica o mortal desfecho. Duas perguntas atormentam, desde Coleridge, os estudiosos da trag√©dia. Por que Iago fez o que fez? E, ainda de modo mais importante, a segunda pergunta: por que Otelo fez o que fez? As respostas poderiam ser, respectivamente, maldade e prosa√≠smo. A primeira n√£o necessita de maiores explica√ß√Ķes. A segunda, pelo ousadia petulante deste blogueiro, sim. Ningu√©m est√° imunizado contra o ci√ļme. Todos n√≥s, seres prosaicos, estamos vulner√°veis a ele. √Č o ci√ļme o mais potente fraturador de nosso narcisismo. Somos postos, sem aviso pr√©vio, em segundo plano, preteridos por quem mais prez√°vamos – e, mais grave, que pens√°vamos que tamb√©m mais nos prezava. E o estrago √© ainda maior quando o ci√ļme √© absolutamente nada mais que um falso constructo de nossa percep√ß√£o – tal qual em Otelo. A impassibilidade n√£o poderia ser uma resposta na tal trag√©dia shakesperiana? Conforme nos ensinou Montaigne, n√£o. “E vemos que em suas paix√Ķes a alma prefere iludir a si mesma, construindo para si um motivo falso e fantasioso, at√© mesmo contra sua pr√≥pria convic√ß√£o, em vez de n√£o agir contra coisa alguma.”

Domingo nublado

Claude Lévi-Strauss

Depois de alguns dias de intenso sol e calor, hoje amanheceu nublado. Menos pior. Fui convidado a participar de uma mesa redonda para discutir os limites de aferi√ß√£o da consci√™ncia. Independentemente da causa, ap√≥s tr√™s semanas em coma, os indiv√≠duos, quase sempre, abrem os olhos. Est√° restabelecido o ciclo sono-vig√≠lia. Durante o dia, olhos abertos; √† noite, fechados. O dilema est√°, para quem avalia esses sujeitos, em determinar se h√° qualquer percep√ß√£o de si pr√≥prio ou do ambiente. Caso n√£o haja, trata-se de estado vegetativo, termo cient√≠fico cunhado em 1972 por um grupo de neurocientistas. Caso contr√°rio, quando √© poss√≠vel, objetivamente, detectar-se algum esbo√ßo de atividade mental – por exemplo: chorar quando o sujeito ouve a voz da filha, sorrir quando v√™ o neto, seguir o c√£ozinho com os olhos – estamos diante do diagn√≥stico de estado minimamente consciente. Ser√° que existe alguma diferen√ßa pr√°tica entre esses dois estados, vegetativo e minimamente consciente? Sim, tanto do ponto de vista biol√≥gico – o metabolismo cerebral dos indiv√≠duos em estado minimamente consciente √© mais pr√≥ximo dos indiv√≠duos normais do que aqueles em estado vegetativo; n√£o h√° percep√ß√£o consciente de dor no estado vegetativo e h√° na outra situa√ß√£o – quanto do ponto de vista progn√≥stico – h√° relatos de recupera√ß√£o total ou quase total da consci√™ncia ap√≥s muitos anos em estado minimamente consciente, por√©m nenhuma possibilidade de recupera√ß√£o quando em estado vegetativo persistente. Em 2006, pesquisadores ingleses relataram o caso de uma mulher de 23 anos de idade que, ap√≥s um acidente automobil√≠stico, encontrava-se h√° cinco meses em estado vegetativo. Submetida a avalia√ß√£o por resson√Ęncia magn√©tica funcional (fRM), ferramenta que permite observar as √°reas cerebrais mais funcionantes sob a execu√ß√£o de determinada tarefa, foi notado que a mulher apresentava padr√£o de fRM id√™ntico √†quele de indiv√≠duos normais submetidos ao mesmo teste. Pedia-se que o indiv√≠duo se imagina-se jogando t√™nis. Depois, que fizesse, mentalmente, o trajeto, a partir da entrada de sua resid√™ncia, por todos os c√īmodos da casa. Assim, apesar de n√£o exteriorizar qualquer vest√≠gio de percep√ß√£o, sua decis√£o de colaborar com os pesquisadores na realiza√ß√£o de tarefas espec√≠ficas t√£o sofisticadas pode ser interpretada como prova clara de que estava perceptiva de si pr√≥pria e do meio ambiente. Como disse Claude L√©vi-Strauss,”A ci√™ncia por si s√≥ √© incapaz de responder todas as perguntas e, apesar de seu desenvolvimento, ela nunca vai”. Ser√°?

Cocteau

“Quando uma obra parece avan√ßada para a sua √©poca, √© simplesmente porque a sua √©poca est√° atrasada em rela√ß√£o a ela”. De Jean Cocteau, essa √© a frase que resume o meu feriado.

Depois de algumas idas e vindas, é engraçado como acabo caindo em Cocteau. Qual será a origem dessa estranha capacidade Рou será coincidência Рque algumas pessoas possuem de falar, antes e melhor, aquilo que sublinha o nosso pensar e o nosso sentir em momentos tão singulares?

Categorias

Sobre ScienceBlogs Brasil | Anuncie com ScienceBlogs Brasil | Pol√≠tica de Privacidade | Termos e Condi√ß√Ķes | Contato


ScienceBlogs por Seed Media Group. Group. ©2006-2011 Seed Media Group LLC. Todos direitos garantidos.


P√°ginas da Seed Media Group Seed Media Group | ScienceBlogs | SEEDMAGAZINE.COM