Rorty, por una cabeza

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O Brasil não ganhou dessa vez. Fomos o terceiro colocado. O grande campeão, na América Latina, foi a Bolívia. O segundo lugar no pódio foi ocupado pelo devastado Haiti. O sábio leitor já deve ter percebido que de coisa  boa não se trata. E acertou, pois estou falando do índíce de Gini, que mede o grau de desigualdade a partir da renda per capita. Nesse tipo de avaliação em que sempre é bom perder, parece que a dianteira é a nossa vocação. Nos últimos anos, a Belíndia só fez acentuar ainda mais a pujança belga de poucos e a miséria indiana de muitos. É possível ser feliz vivendo em meio a tantos e cada vez mais famintos e maltrapilhos compatriotas? Richard Rorty, em seu recomendadíssimo debate que virou livro “Uma ética laica” (editora Martins Fontes, prefácio de Gianni Vattimo), diz: “Para os que adotam o ideal utilitarista da maximização da felicidade (é o caso do Amigo de Montaigne)  o progresso moral consiste em ampliar a faixa de pessoas cujos desejos devem ser levados em conta (…) O exemplo mais evidente dessa ampliação é a mudança ocorrida quando os ricos começaram a ver os pobres como os seus concidadãos, e não como pessoas cujo lugar na vida havia sido decretado por Deus. Os ricos foram obrigados a deixar de pensar que as crianças mais desafortunadas estavam de algum modo destinadas a ter uma vida menos feliz do que a dos seus próprios filhos. Só então eles puderam começar a considerar riqueza e pobreza mais como instituições sociais modificáveis do que como parte de uma ordem imutável.” É claro que Rorty partiu da sociedade norte-americana e sua crescente rede filantrópica encabeçada por grandes magnatas e empresários, mas o discurso do filósofo é universal e perene. 

 Segundo o índice de Gini, a Argentina é o país menos desigual da América  Latina, a frente de nós por muito mais que una cabeza…     

Discussão - 4 comentários

  1. Mário disse:

    ” Nos últimos anos, a Belíndia só fez acentuar ainda mais a pujança belga de poucos e a miséria indiana de muitos.”
    Será mesmo, Amigo? Não creio que pelo fato de sermos um dos campeões do índice de Gini a miséria tenha aumentado no país. Não percebo isso, ao contrário, vejo muita gente melhorando de vida. Dizem que as estatísticas confirmam essa minha impressão, a de que os pobres estão menos pobres.
    Se pararmos para pensar como era o Brasil nos anos 50 e como está hoje, a diferença entre o poder de compra do trabalhador é abissal.
    Sou da região nordeste, e conheço de perto a realidade da pobreza extrema, particularmente das regiões rurais.
    Convivi com trabalhadores rurais e uma das perguntas que gosto de fazer aos mais velhos é sobre as condições de vida no passado e nos dias de hoje. Com todos aqueles com quem conversei, a resposta é a mesma: hoje a situação está muito melhor. E eu testemunhei parte dessa transformação.
    Transmito-lhe uma dessas histórias, contada por um senhor com quem convivo desde a infância. Pedreiro, funcionário de uma usina de cana-de-açúcar, hoje aposentado. A família desse senhor sempre foi pobre. No meu julgamento, esta família parecia ser das mais pobres entre as do vilarejo em que moravam. Eles sempre me pareceram mais carentes do que as outras famílias. Certa vez, toquei no assunto com este velho amigo: como tinha sido a sua infância? As coisas estão melhores ou piores hoje?
    Ele me falou como foi a infância, morando numa fazenda onde o pai era administrador. O dono lhes dava um pedaço de terra onde plantavam mandioca e criavam umas galinhas. Comer carne (charque ou peixe salgado) só no domingo. Durante a semana, só feijão e farinha. Para aplacar a fome, saía nosso personagem e seus irmãos com estilingues, a caçar calangos, lagartixas e rolinhas. Pois bem. Este senhor, que sempre foi muito pobre, hoje tem geladeira, fogão, tv, água encanada, luz elétrica, aparelho de som, dvd player, antena parabólica e recentemente, comprou uma motocicleta. Nenhum dos seus filhos, apesar da pobreza, chegou a passar fome como ele passou. Nenhum deles teve de comer lagartixa. Por sinal, já os vi algumas vezes desprezando os peixes que pescávamos no rio.
    Já entrevistei outros moradores da região. Os relatos são semelhantes. As coisas melhoraram, indubitavel e rapidamente, no espaço de uma geração. O acesso a bens de consumo e a melhoria na qualidade de vida é insofismável.
    Dessa forma, não enxergo a situação como o Amigo a descreve: os pobres estão mais pobres. Não creio que isso corresponda à realidade, nem que esteja em conformidade com as estatísticas. Os ricos ficaram mais ricos. Mas os pobres melhoraram seu padrão de vida.
    Abraço.

  2. Amigo de Montaigne disse:

    Caro Mário,
    obrigado pela visita.
    Sim, os ricos estão mais ricos. Os pobres, menos pobres.
    Não é sem motivo que, lado a lado, banqueiros e agricultores elegerão a sucessora do atual presidente.
    Esse mesmo governo assistencialista deixou de fazer as reformas estruturais necessárias que garantirão a manutenção dessa melhora “insofismável”. Educação, por exemplo.
    Abraço.

  3. Mário disse:

    Prezado Amigo,
    Ao tratar aqui da melhora inegável no padrão de vida e poder de compra do brasileiro, não estou atribuindo isso a este governo, especificamente, mas a um processo que é constatado desde os anos 40.
    Tais coisas se deram apesar de quem ora nos governa, não por causa deles (Lula, Dilma e o PT).
    A compra de votos legalizada que o governo espertamente denomina de “distribuição de renda”, não é a causa por trás das melhoras a que me refiro. Tais melhoras tem muito mais a ver com o acesso a produtos cujo consumo era proibitivo. E isto ocorreu por dois motivos: eles ficaram mais baratos e o salário aumentou.
    Não é um fenômeno restrito a esse governo. E você tem toda razão quando fala das reformas estruturais das quais esse governo fugiu como o diabo da cruz. Como certamente o Amigo deve ter deduzido, governo nenhum chega a 80% de popularidade porque reformou o que quer que seja. Tal patamar de aprovação só se consegue quando a prioridade é não desagradar nenhum interesse. A realidade, porém, cobrará o preço do populismo, da demagogia, do patrimonialismo e do saque organizado do estado. Hoje, já se fala que Dilma teria já engatilhado um projeto de reforma previdenciária (um desses assuntos delicados, porém urgentes, evitados pelo governo Lula).
    O crescimento brasileiro não será sustentável sem que tratamos de superar certos obstáculos. A educação, certamente, é um deles.
    Abraços!

  4. Amigo de Montaigne disse:

    Caro Mário,
    como você deve saber, a Previdência custa 11% do PIB anual brasileiro. Sem dizer nas regras arbitrárias que regem as aposentadorias do funcionalismo público e do cidadão comum. Gastar menos com a Previdência significa mais dinheiro para educação.
    Abraço!

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