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A caça às baleias ajudou a dizimar um povo

IMG_1823Esta triste hist√≥ria mostra que o bater das asas de uma borboleta em um extremo do planeta pode provocar uma tormenta no outro extremo em semanas. Na regi√£o litor√Ęnea mais ao sul da Terra do Fogo, local austral do continente Americano, vivia o incr√≠vel povo Y√°mana. Essa regi√£o foi a √ļltima onde o homem chegou – exceto pela Ant√°rtida – e isso foi h√° cerca de 15 mil anos. Desde ent√£o, os Y√°manas viviam l√° ambientados ao clima extremamente frio.

Com a chegada dos europeus, por volta do ano de 1.500, a vida desse povo mudou para sempre. Os Yámanas viviam em famílias. Cada família em uma canoa Рa região da Terra do Fogo é toda formada por ilhas, em outro post pretendo falar sobre essa geografia. Quando estavam em terra, construíam cabanas redondas com galhos e dormiam no chão. Depois, abandonavam a cabana e voltam às canoas. Outra família poderia ocupar a cabana abandonada sem problemas.

Canal de Beagle ao fundo
Canal de Beagle ao fundo

Quando eles avistam uma baleia no Canal de Beagle, localizado em frente à cidade argentina de Ushuaia, a caçavam. Em seguida, faziam uma fogueira bem grande para avisar a todos os Yámanas que conseguiram uma baleia. O óleo dela era usado para eles manterem a pele do corpo seca. Ele era divido entre todos e guardado um pouco sobre a terra para caso aconteça alguma ecasses no futuro. A carne servia como alimento. Se fosse uma baleia que no lugar de dentes tinha cerdas bucais, estas eram usadas para forrar a parte de dentro e inferior da canoa.

Os europeus, principalmente, descobriram que haviam muitas baleias na regi√£o e na Ant√°rtida e come√ßaram a ca√ßada desenfreada. Muitas ainda correm risco de extin√ß√£o. At√© hoje n√£o conseguiram se recuperar – no Ushuaia, antes comum, atualmente √© dif√≠cil avistar baleias. Os colonizadores usavam o √≥leo de baleia, entre outros, para acender lampi√Ķes de rua.

Os Yam√°nas come√ßaram a sofrer com a falta das baleias. Menos alimento, menos prote√ß√£o para o corpo. Al√©m disso, a regi√£o litor√Ęnea onde viviam come√ßou a ser disputada pelos colonizadores que queriam se estabelecer l√° porque o local era a liga√ß√£o (para barcos) entre os Oceanos Atl√Ęntico e Pac√≠fico. Para piorar, os √≠ndios que viviam na regi√£o come√ßaram a morrer sem resist√™ncia √†s doen√ßas dos ‚Äúbrancos‚ÄĚ.

Por fim, brigaram pela sua terra, mas sofreram com a violência dos colonizadores. Se não me engano, em menos de 100 anos, a população de 2.500 índios que viviam no local foi reduzida para 500. Hoje, sua cultura praticamente se perdeu. Assim, junto com eles, perdeu-se a riqueza das pessoas.

Bahia Lapataia
Bahia Lapataia

Obs.: A foto acima foi tirada na lind√≠ssima Bahia Lapataia, dentro do Parque Nacional da Terra do Fogo, onde os √≠ndios viviam. Se n√£o me engano, esse ‚Äúmontinho elevado‚ÄĚ √© um sambaqui, chamado l√° de concheiro (concheiros ou concheira). Restos das cabanas ou de artefatos e alimentos usados por eles.

Dica sobre turismo no Parque: se for no inverno, pode visitar com vã (a entrada é gratuita). Devido à neve, algumas trilhas como a costeira ficam fechadas. No verão, indico dois dias para conhecer as principais trilhas Рseria prático ir com carro alugado. Ah, dá para acampar no parque.

Cuidado: arqueólogos trabalhando

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Toda vez em que passo pela regi√£o do Largo de Pinheiros, pr√≥xima √† esta√ß√£o Faria Lima do Metr√ī (na cidade de S√£o Paulo), fico curiosa em saber o que tanto escavam atr√°s daquelas placas de prote√ß√£o – coisas que s√≥ percebe quem anda a p√©, e n√£o de carro. V√°rias vezes vejo algumas pessoas com √°gua na m√£o, mochila nas costas, chap√©u de tecido bege ou capacete branco nos quais se leem a palavra: ‚ÄúArqueologia‚ÄĚ. Uniforme diferente dos macac√Ķes dos oper√°rios.

 

H√° mais de um ano, lembro-me de ter lido que as obras¬†atrasariam¬†um pouco mais porque acharam algumas pe√ßas arqueol√≥gicas, mas as mat√©rias sobre o assunto nunca diziam com detalhes que tipo de pe√ßas eram, em quais condi√ß√Ķes estavam ou quais as esperan√ßas dos arque√≥logos. Ali√°s, dizem as ‚Äúm√°s l√≠nguas‚ÄĚ que a maioria das empresas envolvidas com obras do tipo n√£o gosta quando encontra resqu√≠cios arqueol√≥gicos. Afinal, nestes casos, obrigatoriamente a obra deve parar para come√ßar a pesquisa – leia aqui uma mat√©ria bacana, da Pesquisa FAPESP, sobre escava√ß√Ķes no porto do Rio de Janeiro.

 

DSC00740A curiosa de plant√£o, aqui, se delicia com essas pesquisas. N√£o √© fant√°stico escavar um quintal e encontrar resqu√≠cios de algu√©m que viveu no mesmo lugar que voc√™? Portanto, semana passada n√£o resisti. Parei em frente a um dos locais que estavam sendo escavados e vi um rapaz com o capacete m√°gico escrito ‚ÄúArqueologia‚ÄĚ. Como uma t√≠pica conversa informal que antigamente trav√°vamos na rua com desconhecidos, a√ß√£o cada vez mais incomum, falei ‚Äúol√°‚ÄĚ para o arque√≥logo e perguntei: ‚ÄúTudo bem? Olhe, estou super curiosa, j√° encontraram bastante pe√ßa interessante a√≠?‚ÄĚ.

 

Gente boa, o arque√≥logo contou que, em √©pocas de chuva, antigamente o rio Pinheiros chegava at√© aquela regi√£o – isso explica a areia preta, bem t√≠pica de rio e √≥tima para adubo, debaixo dos nossos p√©s (foto logo acima). Quase peguei um punhado para colocar nos vasos das minhas plantinhas! Como l√° era uma √°rea alag√°vel, quase um p√Ęntano, algumas pe√ßas n√£o sobreviveriam √† umidade. Por enquanto, ele disse que encontraram fragmentos na casa do milhar (se n√£o me engano, mais de 110 mil).

 

A maioria das pe√ßas, inclusive as mais inteiras, eles acreditam que sejam de cerca de 1890 e 1950. S√£o lou√ßas como pratos, um at√© com a su√°stica nazista e tanques pintados (!), garrafas de leite antigas, entre outros. Segundo o arque√≥logo, ainda √© necess√°rio analisar a idade de cada objeto encontrado para ter certeza e aferir mais informa√ß√Ķes. Eles tamb√©m encontraram ossos de animais, ainda n√£o se sabe ao certo qual animal e de que √©poca. E descobriram que, em uma ruela, a galeria de esgoto √© de 1950.

 

Eu adoraria ver as pe√ßas, mas conforme s√£o encontradas, elas s√£o encaminhadas para estudo, claro. Questionei o que far√£o, depois, com elas: ‚ÄúAcredito que ser√£o realizadas mais pesquisas sobre elas e doadas a museus‚ÄĚ. A√≠, o grand finale: ‚ÄúDizem que uma tribo ind√≠gena, l√° pelos idos do ‚Äėdescobrimento do Brasil‚Äô, vivia bem aqui no local. Voc√™s j√° encontraram algo sobre ela?‚ÄĚ. O olhar do arque√≥logo encheu de brilho: ‚ÄúN√≥s estamos buscando, mas devido ao tipo de solo, n√£o sabemos se haver√° algo preservado‚ÄĚ. Voltar ao passado √© sonhar.

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Obs.: A obra de reforma da regi√£o come√ßou em 2007 (!), saiba mais sobre o projeto nesta mat√©ria publicada na Folha de S. Paulo. Ah (suspiro), essas escava√ß√Ķes me lembraram de Roma. Quando estive l√°, em 2007, a obra de extens√£o do Metr√ī estava parada porque eles encontraram mais resqu√≠cios dos antigos imp√©rios. <3 Em Roma, eu tamb√©m coloquei o cabe√ß√£o sobre os tapumes para ver, claro! Ali√°s, at√© peguei um √īnibus na √°rea para observar as escava√ß√Ķes do alto!

 

Aprenda com o passado da Ilha de P√°scoa

A dica de hoje √© o Museo de Arqueolog√≠a e Historia Francisco Fonck, na litor√Ęnea cidade com ar-condicionado natural Vi√Īa del Mar, no Chile. Ele primeiro atrai a aten√ß√£o por expor um grande moai (aquelas est√°tuas da Ilha de P√°scoa) com mais de dois metros em seu jardim – este, ali√°s, era o meu interesse inicial, pois queria novamente a euforia sentida ao ver um moai no British Museum. Pesquisando sobre o museu, vi que ele tinha, al√©m de uma √°rea destinada √† hist√≥ria natural, mais pe√ßas da polin√©sia chilena. J√° me deu coceira. Tenho loucura por essas ilhas do Oceano Pac√≠fico. Ali√°s, j√° que estou toda cultureba, se voc√™ tamb√©m gosta da cultura polin√©sia veja o filme ” Tabu, a Story of the South Seas” (1931), dos cineastas Robert Flaherty e Friedrich Wilhelm Murnau – a obra √© a vanguarda muda e em preto e branco dos document√°rios atuais.

Viajando de volta ao Chile, o museu exp√Ķe muitos textos sobre a Ilha da P√°scoa. Al√©m da j√° sabida (geralmente sem detalhes) hist√≥ria de que os pr√≥prios moradores da ilha, o povo Rapa Nui, a desmatou inteira, l√° descobri que sua cultura √© bem diferente das outras civiliza√ß√Ķes polin√©sias ou ind√≠genas contempor√Ęneas (antes do s√©culo XVII). Entre as informa√ß√Ķes que chamaram a aten√ß√£o: ningu√©m at√© hoje sabe sua origem exata, cada moai tem um nome (quem lembrar dos dados do que est√° exposto no Museu Fonck e no British Museum deixe nos coment√°rios deste post), eles eram mais guerreiros que o povo do Hawaii e do Tahiti (brigaram √† be√ßa entre os pr√≥prios povos e para que os europeus fossem embora da ilha) e praticavam a horticultura. Esta est√° diretamente relacionada ao desflorestamento do local.

Os rapanui pescavam, mas a horticultura era a base da sua subsist√™ncia – alguns ind√≠genas brasileiros s√£o coletores (vivem de colher frutos e afins da natureza, sem plantar). Eles cortavam e queimavam √°rvores para abrir lugar aos cultivos principalmente de: batatas, taro (“batata dos tr√≥picos”) e inhame. Para produzir o fogo, friccionavam um peda√ßo de madeira dura sobre o tronco de uma planta chamada hau hau. Nas festas, cozinhavam a comida em grandes fornos cobertos por folhas e h√ļmus. Os tocos de √°rvores tamb√©m eram usados em fornos de resid√™ncias, nas crema√ß√Ķes, nos cerimoniais. Por√©m, o uso indiscriminado da madeira ao longo do tempo causou a falta de mat√©ria-prima, dificultando a constru√ß√£o de embarca√ß√Ķes, o que impedia migra√ß√Ķes.

Enquanto isso, a popula√ß√£o crescia na ilha. Consequentemente, cada vez mais, o espa√ßo livre diminu√≠a e os conflitos entre grupos rivais aumentavam. Havia aristocracia, sacerdotes, guerreiros, gente “comum”. Segundo o museu, a batalha do Poike entre dois grupos foi o momento culminante da crise na ilha no fim do s√©culo XVII. Depois dessa guerra, os habitantes tiveram que se virar com os recursos naturais e pessoais que sobraram. As planta√ß√Ķes foram protegidas com jardins de pedras para conservar a umidade. Os cad√°veres deixaram de ser cremados: seus ossos eram guardados limpos dentro de c√Ęmaras debaixo de altares. As cerim√īnias asseguradas eram para proteger a fertilidade e para saber administrar com destreza os recursos para a subsist√™ncia.

Al√©m de v√°rias hist√≥rias, como essas informa√ß√Ķes, o museu tamb√©m conta com algumas pe√ßas do per√≠odo precolombiano (inclusive uma m√ļmia). Como o principal museu de arte precolombiana do mundo estava fechado para reformas de expans√£o, o Museo Chileno de Arte Precolombino, me contentei com o pouco que se mostrou muito. E fui feliz aprendendo com uma cultura que ainda vou conhecer mais de perto ao visitar sua terra natal. Sonhar √© preciso. Boa viagem!

O que voc√™ n√£o sabia sobre a arqueologia da Amaz√īnia

H√° um tempo recebi da editora Jorge Zahar Editor o livro “Arqueologia da Amaz√īnia”, escrito pelo pesquisador Eduardo G√≥es Neves. Ontem de madrugada, em uma deitada s√≥, devorei a obra. O livro √© interessante. Ele sintetiza e contextualiza a arqueologia e outras informa√ß√Ķes importantes sobre regi√£o amaz√īnica – englobando todos os pa√≠ses da qual ela faz parte.
Segundo o autor, uma das ideias do livro √© que as informa√ß√Ķes sobre o passado podem ajudar a solucionar a ocupa√ß√£o atual da regi√£o. Afinal, ao contr√°rio do que muita gente pensa, a Amaz√īnia j√° foi populosa. Comunidades com culturas completamente diferentes viveram ao mesmo tempo nela. Algumas eram agr√°rias ou possu√≠am diversas fontes de alimentos – como planta√ß√Ķes e praticavam a ca√ßa -, outras formaram redes de cidades com estradas, algumas praticavam o com√©rcio.
E a ocupa√ß√£o √© antiga… Um dos s√≠tios arqueol√≥gicos mais remotos da Amaz√īnia √© de 12.000 a.C – localizado no vale do rio Guapor√©, em Mato Grosso. Temos muito o que descobrir e aprender com o passado do nosso pa√≠s. Al√©m disso, precisamos cuidar para evitar os saques e contrabandos que acontecem, possivelmente, todas as semanas. De acordo com o livro, a Coordena√ß√£o das Organiza√ß√Ķes Ind√≠genas da Amaz√īnia Brasileira (Coiab) est√° pressionando para que os arque√≥logos e √≥rg√£os p√ļblicos protejam o patrim√īnio. Como conhecer ajuda a preservar, selecionei algumas das informa√ß√Ķes interessantes que li no livro. Preciso compartilh√°-las:

  • A ocupa√ß√£o da Amaz√īnia nunca foi uniforme no espa√ßo e no tempo;
  • Cidades contempor√Ęneas como Santar√©m, Manaus, Manacapuru e Tef√© foram constru√≠das em cima de grandes s√≠tios arqueol√≥gicos;
  • Nas zonas de estu√°rio e do litoral, foram identificados s√≠tios com algumas das cer√Ęmicas mais antigas da Am√©rica do Sul;
  • Na bacia amaz√īnica, s√£o faladas l√≠nguas de ao menos quatro grandes fam√≠lias distintas – tupi-guarani, arawak, carib e g√™. A Europa, por exemplo, com exce√ß√£o das l√≠nguas que foram introduzidas da √Āfrica e da √Āsia, possui apenas uma grande fam√≠lia lingu√≠stica, a indo-europ√©ia;
  • Ao longo dos milhares de anos, o clima do planeta mudou e, consequentemente, a floresta amaz√īnica. Entre 10.000 a.C. e 8.000 a.C., as condi√ß√Ķes clim√°ticas e ecol√≥gicas da Amaz√īnia eram semelhantes √†s atuais;
  • Os √≠ndios domesticaram – processo anterior √† agricultura – uma s√©rie de plantas como o abacaxi, o amendoim, o mam√£o, a mandioca e a pupunha. √Č poss√≠vel que a mandioca e a pupunha foram domesticadas onde hoje est√° o estado de Rond√īnia;
  • Na domestica√ß√£o, algumas plantas desenvolveram uma depend√™ncia m√ļtua com rela√ß√£o aos seres humanos. Por exemplo, algumas variedades da mandioca n√£o lan√ßam mais sementes ao solo. Seus galhos precisam ser quebrados e plantados pelos agricultores;
  • O solo amaz√īnico √© pobre, mas possuem faixas chamadas de “terras pretas” que s√£o ricas em nutrientes – muito procuradas pelos agricultores atuais. Os arque√≥logos acreditam que elas s√£o o resultado do ac√ļmulo de restos org√Ęnicos de aldeias sedent√°rias de milhares de anos atr√°s.

Obs.: Quer saber mais sobre a Amaz√īnia? Sugiro a leitura dos posts “A Amaz√īnia n√£o √© virgem” e “Cientistas descobrem a idade do rio Amazonas“, este que escrevi para o Blog do Planeta. Tamb√©m indico a leitura da mat√©ria “Fique em dia com o planeta!“, no portal iG, para contextualizar mais.