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Fique a ver baleias!

Se voc√™ est√° no Facebook ou em algum grupo de WhatsApp, √© capaz que tenha recebido recentemente videos de baleias pulando em √°guas do litoral brasileiro. Um momento m√°gico! O Brasil √© um ber√ß√°rio para algumas baleias que vivem na Ant√°rtida. Quando chega o inverno, em julho, elas migram para c√° para parir seus filhotes e amament√°-los at√© o m√™s de novembro. Duas esp√©cies t√™m esse comportamento: a jubarte e a baleia franca. Mas elas costumam se deslocar para locais diferentes do Brasil. A jubarte segue pelo litoral brasileiro at√© chegar √† Bahia, onde fica Abrolhos, o maior ber√ßo reprodutivo dessa esp√©cie por aqui. J√° a baleia franca pode ser encontrada desde o Rio Grande do Sul at√© a Bahia tamb√©m, mas ela costuma se concentrar no Sul do Brasil. Ano passado, o Projeto de Monitoramento de Cet√°ceos estimou haver 842 jubartes entre Florian√≥polis e Cabo Frio, no Rio de Janeiro. Ali√°s, vale lembrar que as baleias s√£o protegidas por lei no Brasil desde 1987. Segundo Gabriela Godinho, pesquisadora do Instituto Baleia Franca, o fim da ca√ßa e as √°reas de conserva√ß√£o garantiram maior prote√ß√£o das esp√©cies, aumentando o n√ļmero de baleias em mares brasileiros. A Lista Vermelha da Uni√£o Internacional para a Conserva√ß√£o da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN) aponta um aumento da popula√ß√£o de jubartes no mundo. Sobre o risco que corre a baleia franca, a organiza√ß√£o n√£o tem dados suficientes. Se voc√™ quiser fazer um passeio de barco para avis√°-los, procure ag√™ncias credenciadas por √≥rg√£os p√ļblicos ou indicadas por ONGs. Deve-se manter cerca de 100 metros de dist√Ęncia do animal e permanecer com o motor desligado e sem m√ļsica alta.¬†

*Este texto foi ao ar no programa Desperta, da Rádio Transamérica, apresentando pelos queridos Carlos Garcia e Irineu Toledo. Uma vez por semana, minha coluna sobre sustentabilidade vai ao ar.

Dia Mundial dos Oceanos: Qual a sensação de praticar mergulho

Posso fazer aqui uma declaração de amor?

[youtube_sc url=”https://www.youtube.com/watch?v=PmtN-_umoLA”]

Imagine um mar que parece gelatina. De cima do barco, d√° para ver o fundo dele¬†a mais de quarenta metros abaixo de voc√™. Ainda da embarca√ß√£o, os cardumes de peixes que brilham como neon nadam lateralmente. Parecem nos olhar. Quando me jogo nessa √°gua quentinha (como n√£o se atirar?) ou√ßo o barulho dos corais. Sim, eles estalam! Vejo um tubar√£o-lixa beb√™, arraias, tartarugas t√£o lesadas como aquelas do filme “Procurando Nemo”, polvo assustado, moreias maiores que eu e muitos peixes coloridos de diversas formas. Corais de todas as cores, esponjas, uma √°gua transparente e uma areia macia.

mergulhonoronha

Eu já havia praticado snorkeling no  litoral brasileiro, pelo que me lembre, em São Paulo, Alagoas, Pernambuco, Rio Grande do Norte e Bonito (MS) Рeste merece um post à parte. Mas nunca havia visto nada como Fernando de Noronha, da descrição acima. Após me entregar para aquela água, minha vida mudou. Quando mergulhei de cilindro lá, então, entendi a paz que o mar nos traz.

Eu estava com medo de saltar na √°gua com presos pesos √† minha cintura e com aquele cilindro que deveria pesar mais que eu. Por sorte, estava com o instrutor mais paciente e carinhoso do grupo. Certamente ele pensou: “Essa vai dar trabalho”. Tremendo, n√£o sei se de frio ou nervoso, come√ßamos a afundar.

Quando cheguei a mais de dez metros de profundidade (sem precisar subir para pegar ar, como teria que fazer com o snorkel) ao mar eu tinha certeza que pertencia. Era relativamente silencioso. Ouvia mais forte apenas minha respiração. Tudo azul. Senti uma paz que só havia atingido meditando.

Brinquei de “fechar” corais. Observei os animais marinhos. Me senti de volta ao √ļtero. Acolhida. Estava muito feliz e plena. Ficamos cerca de meia hora abaixo da √°gua, explorando aquele mundo maravilhoso, mas parecia apenas cinco minutos quando j√° era para voltarmos.

Eu não quis. Comecei a fugir do instrutor. Como se tivesse a capacidade de deslizar como um tubarão cheia daqueles penduricalhos presos ao meu corpo. O instrutor nadou atrás de mim e falou que não tinha jeito, precisávamos subir. Deu a entender que o ar poderia acabar. Começou a inflar minhas boias.

Relutei em voltar √† superf√≠cie tentando argumentar de baixo da √°gua por l√≠ngua de sinais de mergulho.¬†Lamentei muito. Subi contrariada. Eles explicaram que aquilo que eu senti aconteceu devido ao excesso de oxig√™nio no meu c√©rebro. Que “d√° barato” e a pessoa perde a no√ß√£o de tempo e de perigo.

N√£o, meus amigos. Aquilo aconteceu devido ao excesso de mar em volta de mim.

#DiaMundialdosOceanos

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Queremos parques ‚Äúde bonito‚ÄĚ ou para serem curtidos?

IMG_6381Na √Āfrica do Sul,¬†quando caminh√°vamos – vendo uma foca brincar nas ondas¬†– pela areia da praia do¬†Parque Nacional Tsitsikamma¬†(foto acima) em dire√ß√£o a uma trilha, para subir 300 metros de morro, um homem nos parou. Abriu um sorriso: ‚ÄúOi, tudo bem? De onde voc√™s s√£o?‚ÄĚ Respondemos que √©ramos do Brasil. ‚ÄúO que acharam do parque, est√£o gostando?‚ÄĚ O lugar era lindo com animais marinhos, fant√°stico com pared√Ķes que despencavam na √°gua, bem cuidado, bem estruturado, com uma lanchonete que n√£o metia a faca na gente, seguro em rela√ß√£o a tudo, enfim, est√°vamos amando. ‚ÄúQue bom que est√£o aproveitando, desculpe-me a intromiss√£o, mas sou o diretor do parque e queria saber se estavam contentes.‚ÄĚ √Č por essas e por tudo o mais que amo a √Āfrica do Sul, mesmo com seus graves problemas sociais.

Na¬†√Āfrica do Sul¬†e nos maiores parques da Argentina e do Chile, √© poss√≠vel dormir dentro deles.¬†Aproveitar a lanchonete, geralmente, sem pre√ßos muito abusivos. Tamb√©m d√° para caminhar com seguran√ßa pelas trilhas bem demarcadas e obter informa√ß√Ķes sobre o local com os funcion√°rios. Os saf√°ris da √Āfrica dizem por si no imagin√°rio das pessoas –¬†√© tudo isso o que voc√™ pensa. Aqui do outro lado do Atl√Ęntico, gente, o Chile nem parece um hermano brasileiro. As entradas aos parques s√£o baratas e eles s√£o bem sinalizados, organizados, t√™m excelentes estradas e trilhas – cora√ß√£o para o Parque Nacional¬†Torres del Paine¬†(foto do Sol, abaixo)¬†e¬†Parque Nacional El Morado. Se perder neles, s√≥ se for em pensamento‚Ķ

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A¬†√Āfrica do Sul, que h√° cerca de 15 anos estava em meio a uma guerra civil, conseguiu se reerguer economicamente sabendo usar o ecoturismo.¬†Ali√°s, o ecoturismo colaborou at√© para recuperar √°reas naturais e esp√©cies.¬†O Chile, apertadinho entre tanta beleza, tem parques desde o deserto do Atacama at√© o frio da¬†Patag√īnia. Quem nunca sonhou em conhecer uma das belezas¬†naturais do Chile? Digo o mesmo para a Argentina, que divide conosco as Cataras do Igua√ßu, que tem o Perito Moreno e o¬†Parque Nacional Tierra del Fuego¬†l√° no¬†Fim do Mundo. E o Brasil, o que tem? Desse tamanho todo, n√£o tem nada?

Muitos parques (reservas) brasileiros, sejam eles p√ļblicos ou privados, se encontram em triste situa√ß√£o.¬†A maioria deles sofre com falta de planejamento e do famoso manejo.¬†Em alguns parques, onde o atrativo eram as aves, n√£o se observam mais aves. Outros quase tiveram que fechar as portas por conta da falta de dinheiro para mant√™-los.¬†Outros s√£o depredados pelos visitantes, que em vez de terem orgulho da beleza nacional, preferem destruir o nosso patrim√īnio. Claro que, j√° que Deus √© brasileiro, ainda h√° palmeiras onde canta o sabi√°.

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Existem in√ļmeros bons exemplos no Brasil.¬†O mais recente que eu visitei, a convite da Funda√ß√£o Botic√°rio que o mant√©m, √© o¬†Reserva Natural do Salto Morato¬†(foto abaixo)¬†distante apenas 170 quil√īmetros de Curitiba, capital do meu maravilhoso Paran√°. O lugar tem cachoeira de 100 metros, piscina natural, figueira de 350 anos,¬†quase 600 esp√©cies de plantas, cerca de 350 esp√©cies de p√°ssaros¬†(f√°ceis de serem avistados), mais de 80 esp√©cies de mam√≠feros‚Ķ D√° para caminhar por ele com seguran√ßa, d√° para acampar e ele tem lanchonete. A entrada inteira? Sai por sete reais.

Vamos aproveitar o que temos de lindo e de melhor. Vamos conhecer as reservas respeitando a cultura local, sem retirar nada do lugar, tendo cuidado com n√≥s e com os outros, guardando o meio ambiente. Assim,¬†com essas a√ß√Ķes, n√≥s estimularemos a conserva√ß√£o desse e de mais locais. O Brasil √© gigante. O Brasil √© lindo. A popula√ß√£o brasileira √© uma das mais simp√°ticas e generosas do mundo. Isso tudo √© o que temos de melhor. Alguns ecoturismo s√£o caros, sim. Ent√£o, vamos estimular aqueles que s√£o vi√°veis para que os invi√°veis economicamente se tornem mais acess√≠veis.¬†E, sempre, sempre com consci√™ncia.¬†O ecoturismo pode impactar um lugar, mas pode ajudar a preserv√°-lo.

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Obs.: Todas essas fotos do pots pertencem ao Xis-xis. Por favor, peça autorização para usá-las.

Como destruir vários ambientes com espécies invasoras

IMG_1848Duas ideias de jerico. Na realidade, tr√™s se formos falar sobre as ovelhas, mas esta fica para outro post. Quem visita o Parque Nacional da Terra do Fogo, em Ushuaia, Argentina, pode observar o trabalho de castores canadenses fazendo suas represas. Sim, esses bichos s√£o geniais, derrubam √°rvores para conter √°gua. Acontece que, como deve ter reparado, eles s√£o canadenses! E o que fazem do lado oposto do continente? E por que as lebres-europeias, provenientes do outro lado do Atl√Ęntico, tamb√©m podem ser vistas ao lado deles no Fim do Mundo?

Bem, resumindo a hist√≥ria que voc√™ pode saber mais aqui, os castores foram introduzidos na regi√£o em 1946 pela ind√ļstria da pele. Sem predadores naturais, os 25 pares se transformaram em 100 mil indiv√≠duos! Um problema para a bicharada local, que tem que competir por espa√ßo e comida com eles, e para as √°rvores. Estas s√£o derrubadas sem tempo de recomporem bosques, agora, no ch√£o. Quer dizer, na √°gua.

Por sua vez, as lebres-europeias foram colocadas na Patag√īnia para serem ca√ßadas pelos homens. Isso mesmo, como um instrumento esportivo. Mas elas foram longe‚Ķ Atualmente, podem ser encontradas aqui no estado de S√£o Paulo comendo planta√ß√Ķes! O caso da lebre-europeia √© t√£o s√©rio, que ela est√° causando a extin√ß√£o da lebre-da-patag√īnia. Esta √© rara de ser observada. Agora, a outra, eu mesma vi do √īnibus dentro do Parque Nacional Los Glaciares, onde est√° o famoso glaciar Perito Moreno (Argentina). Ali√°s, h√° alguns anos, creio que foi ela que observei no Paran√°. Para voc√™ ver como a a√ß√£o humana sobre os animais pode causar um estrago continental.

Turista: n√£o alimente os animais silvestres

IMG_1813Quem nunca, n√£o √© mesmo? Quando a gente, Fel√≠cia da vida, v√™ aquele animalzinho bonitinho ou gracinha de t√£o feinho tem vontade de apertar, passar a m√£o ou de perguntar, ‚Äúquer ser meu amigo‚ÄĚ? Mas resista √† tenta√ß√£o! Se voc√™ gosta mesmo dele, tem que deix√°-lo livre em sua natureza. Caso contr√°rio, pode prejudicar aquele que diz que ama. Um exemplo √© o problema com as raposas (Pseudalopex culpeus) da Patag√īnia que eu pude ver com meus pr√≥prios olhos, gra√ßas a um brasileiro.

Chegando ao Parque Nacional da Terra do Fogo, no Ushuaia, um brasileiro bagunceiro – pleonasmo – ficou mais animado ainda ao ver uma raposa se aproximando da v√£ que parava. Quando descemos do ve√≠culo, todos soltamos ao mesmo tempo: ‚ÄúQue lindinha!‚ÄĚ. Foi um alvoro√ßo geral. Todos queriam tirar foto da raposa e v√™-la de pertinho. Ela se aproximou de n√≥s, menos de dois metros de dist√Ęncia. Nesse momento, o brasileiro n√£o se conteve. Abaixou, esticou o bra√ßo e tentou passar a m√£o na cabe√ßa do bicho. A raposa em um piscar de olhos deu uma mordida na m√£o dele. Fiquei preocupada, mas ele disse ao amigo: ‚Äún√£o foi nada‚ÄĚ. Passada mais de uma hora, ouvimos um amigo exclamar: ‚ÄúNossa, ficou feio‚ÄĚ.

IMG_1920Elas são muito, mas muuuito lindinhas Рsaiba mais sobre essa espécie aqui. Têm um olhar e andar de gato Рaliás, li em algum lugar que as raposas em geral são parentes mais próximas de gato que de cachorro, alguém saberia dizer se a informação procede? As raposas ou zorro, como as chamam os hermanos, parecem dóceis. Além disso, é comum elas chegarem perto de pessoas nos parques, principalmente, da Argentina como aconteceu conosco. Por que será?

Simples, porque as pessoas as alimentam. Para que ca√ßar se voc√™ pode ganhar? Ou roubar um churrasquinho suculento? Quando n√≥s alimentamos os animais silvestres causamos uma s√©rie de problemas. Resumindo, eles ‚Äúdesaprendem‚ÄĚ a ca√ßar, podem passar mal com a nossa comida, desenvolver uma doen√ßa e infectar outros semelhantes. Tamb√©m, essa a√ß√£o pode causar um desequil√≠brio no ecossistema local, afinal, as raposas deixar√£o de comer suas ca√ßas que, consequentemente, poder√£o se multiplicar. Para piorar, as lindas raposas podem ficar agressivas contra os humanos. N√£o duvide, v√£o morder para conseguir comida ou quando se sentirem amea√ßadas.

IMG_1815Obs.: Outro problema semelhante ocorre na fronteira da também Argentina com o Brasil. Os quatis roubam a nossa comida no Parque Nacional do Iguaçu. Em uma ocasião, no parque do lado da Argentina, vi o animal subindo na mesa de uma gringa e tirando o lanche da mão dela. Atenção, os animais podem transmitir raiva. Se for mordido, vá a um pronto-socorro tomar vacina.
Dica de viagem: No inverno, algumas trilhas do Parque Nacional da Terra do Fogo, como a costeira, est√£o fechadas por causa do volume da neve – eu tentei fazer, andava com neve pelo joelho. Invi√°vel, perigoso cair em um buraco. Por outro lado, a entrada √© gr√°tis. Em um dia √© poss√≠vel ver as principais atra√ß√Ķes do parque. Se for no ver√£o e curte natureza, reserve dois dias para fazer as principais trilhas. Em ambos os casos, leve lanche e √°gua.

A caça às baleias ajudou a dizimar um povo

IMG_1823Esta triste hist√≥ria mostra que o bater das asas de uma borboleta em um extremo do planeta pode provocar uma tormenta no outro extremo em semanas. Na regi√£o litor√Ęnea mais ao sul da Terra do Fogo, local austral do continente Americano, vivia o incr√≠vel povo Y√°mana. Essa regi√£o foi a √ļltima onde o homem chegou – exceto pela Ant√°rtida – e isso foi h√° cerca de 15 mil anos. Desde ent√£o, os Y√°manas viviam l√° ambientados ao clima extremamente frio.

Com a chegada dos europeus, por volta do ano de 1.500, a vida desse povo mudou para sempre. Os Yámanas viviam em famílias. Cada família em uma canoa Рa região da Terra do Fogo é toda formada por ilhas, em outro post pretendo falar sobre essa geografia. Quando estavam em terra, construíam cabanas redondas com galhos e dormiam no chão. Depois, abandonavam a cabana e voltam às canoas. Outra família poderia ocupar a cabana abandonada sem problemas.

Canal de Beagle ao fundo
Canal de Beagle ao fundo

Quando eles avistam uma baleia no Canal de Beagle, localizado em frente à cidade argentina de Ushuaia, a caçavam. Em seguida, faziam uma fogueira bem grande para avisar a todos os Yámanas que conseguiram uma baleia. O óleo dela era usado para eles manterem a pele do corpo seca. Ele era divido entre todos e guardado um pouco sobre a terra para caso aconteça alguma ecasses no futuro. A carne servia como alimento. Se fosse uma baleia que no lugar de dentes tinha cerdas bucais, estas eram usadas para forrar a parte de dentro e inferior da canoa.

Os europeus, principalmente, descobriram que haviam muitas baleias na regi√£o e na Ant√°rtida e come√ßaram a ca√ßada desenfreada. Muitas ainda correm risco de extin√ß√£o. At√© hoje n√£o conseguiram se recuperar – no Ushuaia, antes comum, atualmente √© dif√≠cil avistar baleias. Os colonizadores usavam o √≥leo de baleia, entre outros, para acender lampi√Ķes de rua.

Os Yam√°nas come√ßaram a sofrer com a falta das baleias. Menos alimento, menos prote√ß√£o para o corpo. Al√©m disso, a regi√£o litor√Ęnea onde viviam come√ßou a ser disputada pelos colonizadores que queriam se estabelecer l√° porque o local era a liga√ß√£o (para barcos) entre os Oceanos Atl√Ęntico e Pac√≠fico. Para piorar, os √≠ndios que viviam na regi√£o come√ßaram a morrer sem resist√™ncia √†s doen√ßas dos ‚Äúbrancos‚ÄĚ.

Por fim, brigaram pela sua terra, mas sofreram com a violência dos colonizadores. Se não me engano, em menos de 100 anos, a população de 2.500 índios que viviam no local foi reduzida para 500. Hoje, sua cultura praticamente se perdeu. Assim, junto com eles, perdeu-se a riqueza das pessoas.

Bahia Lapataia
Bahia Lapataia

Obs.: A foto acima foi tirada na lind√≠ssima Bahia Lapataia, dentro do Parque Nacional da Terra do Fogo, onde os √≠ndios viviam. Se n√£o me engano, esse ‚Äúmontinho elevado‚ÄĚ √© um sambaqui, chamado l√° de concheiro (concheiros ou concheira). Restos das cabanas ou de artefatos e alimentos usados por eles.

Dica sobre turismo no Parque: se for no inverno, pode visitar com vã (a entrada é gratuita). Devido à neve, algumas trilhas como a costeira ficam fechadas. No verão, indico dois dias para conhecer as principais trilhas Рseria prático ir com carro alugado. Ah, dá para acampar no parque.

O Sol nasce e se p√Ķe no mesmo lugar

11 horas da manh√£
11 horas da manh√£

A qualquer momento do dia em que eu olhava ao Sol na cidade de Ushuaia, Argentina, principalmente para ter ideia de que horas eram, ele marcava cerca de quatro horas. E estava sempre acima das montanhas. Aquilo começou a me encafifar de tal maneira que observava de canto de olho só para ter certeza de que o astro não estava me trolando. Sério, não podia ser! Nunca estava a pino.

16 horas
4 horas da tarde

‚ÄúO Sol anda em linha reta! Ele nasce em uma montanha e se p√Ķe na ao lado! √Č sempre assim?‚ÄĚ, l√° vai eu perguntar √† dona da pousada. ‚ÄúIsso porque voc√™ n√£o viu no auge do inverno, ele nasce e se p√Ķe sobre a mesma montanha‚ÄĚ, ela respondeu. No pico do inverno, h√° poucas horas de luz (veja neste site). J√° no ver√£o, ela me disse que o dia come√ßa √†s quatro da matina e termina l√° pelas 11 horas da noite. O Sol nasce no centro do Canal Beagle (que fica em frente √† cidade). E que √© lindo. Deve ser.

Matutando sobre o Sol, tive uma luz – r√°. Como eu n√£o pensei nisso antes‚Ķ Ushuaia est√° bem ao Sul do planeta. A Terra √© inclinada, isto gera as esta√ß√Ķes do ano. No inverno, a parte virada mais para longe do Sol se ‚Äúesconde‚ÄĚ do astro. No ver√£o, ela permanece mais tempo perto do Sol (veja no v√≠deo abaixo). Agora, o curioso √© ver o Sol andando em linha reta na regi√£o noroeste e de repente sumir nas montanhas onde ele nasceu. Muito doido.

[youtube_sc url=”http://www.youtube.com/watch?v=qc1rzryczdw”]

Ah, eu ouvi dizer por l√° que Ushuaia significa algo como ‚Äúde onde vem o Sol‚ÄĚ. N√£o lembro a fonte, mas faria sentido.

Por que se chama Terra do Fogo

IMG_1857Um post da leva ‚Äúmas por qu√™?‚ÄĚ. Essa √© uma boa pergunta, j√° que o lugar √© t√£ooo frio. Bom, Terra do Fogo √© sin√īnimo para o Fim do Mundo, se refere √† regi√£o ao sul da Am√©rica mais perto da Ant√°rtida do que do Brasil!

Quando os ‚Äúdescobridores‚ÄĚ da Am√©rica passaram por l√° – eles usavam a regi√£o como liga√ß√£o comercial entre o Oceano Atl√Ęntico e o Oceano Pac√≠fico 400 anos antes do Canal do Panam√° ser inaugurado, mas essa hist√≥ria vale outro post – observaram um monte de luzinhas de fogo.

Um monte, mesmo. Acredita-se que o litoral da região austral era habitada por 2.500 índios da etnia Yámana Рe não sobrou um para contar história. Para suportar o frio, eles faziam fogueiras. Se espalhavam pelas ilhas ao sul e passavam bastante tempo em canoas.

Ali√°s, os Y√°mana andavam pelados! Depois publicarei um post explicando sobre como eles suportavam o frio. Afinal, uma fogueirinha daria conta dos graus negativos?

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Fonte dos dados: Museo Y√°mana, em Ushuaia. Fonte do mapa: Google Maps.

Patag√īnia austral: posts sobre o Fim do Mundo

IMG_3201Acabei de voltar de uma viagem pelo tempo. Uma viagem sobretudo geol√≥gica, glaciol√≥gica, paleontol√≥gica e antropol√≥gica. Fui para a Patag√īnia austral chilena e argentina! Um sonho realizado! L√° √© o √ļltimo lugar da Terra, exceto pela Ant√°rtida, onde o homem chegou. Isso h√° 15 mil anos. Uma data recente se voc√™ pensar que o planeta tem mais de quatro bilh√Ķes de anos. Engra√ßado que, ano passado, fui para a √Āfrica do Sul, lugar onde o homo sapiens ‚Äúapareceu‚ÄĚ cerca de 200 mil anos atr√°s. Um ciclo fechado! Como deu para perceber, tenho muuuuita hist√≥ria para contar.

 

Nem acabei de publicar todos os posts que queria sobre a √Āfrica (ao menos alguns v√≠deos vou colocar no ar) e j√° quero partir para a Patag√īnia. Achei que fosse ‚Äúapenas‚ÄĚ contemplar paisagens deslumbrantes, caminhar muito, comer e beber bem, mas, no Fim do Mundo, consegui ca√ßar muita informa√ß√£o sobre os primeiros habitantes daquela in√≥spita regi√£o. Sem contar a paleontologia do nosso continente que consegui entender melhor – mas eu j√° imaginava que veria dados sobre os extintos animais como dinossauros e grandes mam√≠feros gra√ßas ao livro ‚ÄúA Viagem do Beagle‚ÄĚ, do mestre Darwin. Recomendo!

 

Enfim, estando no Fim do Mundo deu para perceber porque Darwin conseguiu coletar tanta informa√ß√£o sobre geologia e como aquelas terras incr√≠veis o ajudaram a formular a famosa Teoria da Evolu√ß√£o. Se voc√™ pode, n√£o deixe de ir √† Patag√īnia (me mande e-mail se precisar de dicas e informa√ß√Ķes). Ela me ajudou a entender mais sobre o nosso planeta, sobre o nosso continente, sobre os nossos vizinhos e sobre eu mesma. Uma viagem ao passado e ao nosso futuro.

 

IMG_3070Apesar desse não ser um blog de turismo, vou compartilhar algumas dicas ao fim de cada post (seria um dever meu, porque há pouca informação em português sobre como conhecer a região). Dica de museu para quem curte antropologia: Museo Yámana, em Ushuaia. Para quem gosta de palentologia, Centro de Interpretación Histórica Calafate; e para quem quer entender sobre glaciologia, Glaciarium, ambos em El Calafate.

 

Outras dicas b√°sicas. A Aerolineas Argentinas pode cancelar voos de √ļltima hora ou adiantar o voo sem avisar. Portanto, chegue com folga ao aeroporto. Apesar de a Argentina e o Chile serem vizinhos, o transporte entre eles √© complicado fora de temporada (depois quero fazer um post sobre o ran√ßo entre ambos). A maioria dos passeios duram o dia todo, v√° com tempo e reserve com anteced√™ncia. Leve roupas sint√©ticas para o frio, eu (sou muito friorenta) peguei -15 ¬ļC sem reclamar. Roupas ideais: segunda pele de tecido polar, blusa de tecido polar, corta vento e imperme√°vel. A cal√ßa deve ser segunda pele de tecido polar e cal√ßa corta vento. T√™nis imperme√°vel de caminhada. E aproveite o frio do mundo!