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Como as Torres del Paine foram esculpidas

TORRESdelpaine
Fonte: Google Maps

Nem todas as montanhas gigantes que est√£o no Chile fazem parte da¬†Cordilheira dos Andes, por mais incr√≠vel que pare√ßa. Ou‚Ķ por mais perto que elas estejam da Cordilheira, como √© o caso das bel√≠ssimas montanhas do Parque Nacional Torres del Paine (Chile). Se n√£o me perdi na navega√ß√£o, o considerado¬†mais belo parque da Am√©rica do Sul¬†(n√£o duvido) est√° a cerca de 20 quil√īmetros pr√≥ximo √† Cordilheira dos Andes. E, apesar dos¬†maci√ßos de Torres del Paine alcan√ßarem quase tr√™s quil√īmetros de altitude¬†(!), eles n√£o foram formados como a gigante Cordilheira – o avi√£o parece que vai bater no¬†Aconc√°gua, maior montanha dos Andes com quase sete quil√īmetros de altitude. Torres del Paine foi criada gra√ßas √† for√ßa de ‚Äúvulc√£o interno‚ÄĚ (eu que inventei este nome, rs, o correto √© vulcanismo intrusivo, que acontece dentro da terra)!

√Č, querido leitor, nossa¬†Am√©rica do Sul foi um ninho de lavas¬†(O Brasil que o diga). A cordilheira Paine das famosas torres √© um sistema montanhoso formado, principalmente, por rocha sediment√°ria (depositada, como pelo vento) na parte mais alta e por granito – curiosidade, a maioria daquelas montanhas lindas do¬†Rio de Janeiro,¬†como o P√£o-de-A√ß√ļcar, tamb√©m tem origem no granito. A rocha que sempre est√° vis√≠vel no maci√ßo Paine √© o granito, que tem origem no magma. A mais escura em cima do¬†Los Cuernos¬†(aquela que parece ter dois chifres) √© argilito – como o pr√≥prio nome aponta, ela cont√©m argila. Na parte oeste das montanhas, h√° outras rochas plut√īnicas al√©m do granito (como este, elas tamb√©m se formam do¬†magma que resfria dentro da terra) e sediment√°rias como o arenito (derivado da areia).

Assim, as tr√™s torres do parque, marca registrada do lugar, s√£o feitas de granito!¬†Elas foram esculpidas pelo avan√ßo e retirada dos glaciares h√° mais de 12 milh√Ķes de anos. Afinal, o clima da Terra √© inconstante. O planeta j√° esquentou e esfriou in√ļmeras vezes – lembra-se do filme ‚ÄúA Era do Gelo‚ÄĚ? -, aumentando e diminuindo a quantidade e o tamanho dos¬†glaciares. A cada resfriada, as¬†“pedronas” de gelo¬†se arrastavam entre as montanhas desgastando o granito. Desenhando, dessa maneira, as tr√™s famosas torres.

Ah,¬†e a¬†Cordilheira dos Andes?¬†Segundo o ge√≥logo H√©lio Shimada, ela foi formada pelo encontro de duas¬†placas tect√īnicas, a¬†de Nazca e a Sul Americana. Na “colis√£o”, a Placa de Nazca come√ßou a descer sobre a Placa Sul Americana (subduc√ß√£o √© o nome cient√≠fico desse fen√īmeno)¬†causando um “amarrotamento” das rochas sedimentares acumuladas sobre a Placa de Nazca, l√° no fundo do Oceano Pac√≠fico, contra a borda da Placa Sul Americana. Esse “amarrotamento” das rochas sedimentares gerou a Cordilheira dos Andes. √Č por isso que encontramos f√≥sseis marinhos l√° em cima dos Andes. O mesmo acontece no Himalaia, com a √ćndia entrando sob a Placa Eurasiana.

Mais curiosidades ditas pelo geólogo Shimada:

  • A parte da Placa de Nazca que desce sob a Placa Sul Americana acaba se fundindo devido √†s enormes press√Ķes e temperatura na astenosfera (camada que se situa logo abaixo da litosfera, ou seja, da camada s√≥lida mais externa do planeta, constitu√≠da por rochas e solo),¬†produzindo o magma. Este pode esfriar l√° em baixo e dar origem a rochas plut√īnicas¬†como o granito ou sair √† superf√≠cie na forma de vulc√Ķes (rochas extrusivas);
  • Do lado leste, no Oceano Atl√Ęntico, a Placa Sul Americana se afasta da Placa Africana em uma expans√£o que come√ßa na cordilheira meso-oce√Ęnica (no meio do oceano!), por onde sai continuamente magma que vai empurrando as bordas para leste e para oeste.

Sobre o parque

O Parque Nacional Torres del Paine foi criado em 13 de maio de 1959 e declarado Reserva da Biosfera em 1978 pela Organiza√ß√£o das Na√ß√Ķes Unidas para a Educa√ß√£o, a Ci√™ncia e a Cultura (UNESCO). Ele protege 227.000 hectares – o que corresponde √†¬†227 mil campos de futebol. Ele tem¬†17¬†ecossistemas¬†diferentes¬†– e alguns muito vis√≠veis devido √†s distintas vegeta√ß√Ķes mais secas ou √ļmidas. Animais selvagens e flora subant√°rtica √ļnica habitam o local.

Fonte: Dados disponibilizados pelo próprio parque. As fotos abaixo são de minha autoria e do @gustamn.

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Aconcágua, montanha mais alta à esquerda
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Maciço Paine visto do Lago Grey
granito
Granito refletindo o Sol
loscuernos
Los Cuernos
torresdelpaineperto
Torres del Paine: repare o “raspado” causado por glaciares

Queremos parques ‚Äúde bonito‚ÄĚ ou para serem curtidos?

IMG_6381Na √Āfrica do Sul,¬†quando caminh√°vamos – vendo uma foca brincar nas ondas¬†– pela areia da praia do¬†Parque Nacional Tsitsikamma¬†(foto acima) em dire√ß√£o a uma trilha, para subir 300 metros de morro, um homem nos parou. Abriu um sorriso: ‚ÄúOi, tudo bem? De onde voc√™s s√£o?‚ÄĚ Respondemos que √©ramos do Brasil. ‚ÄúO que acharam do parque, est√£o gostando?‚ÄĚ O lugar era lindo com animais marinhos, fant√°stico com pared√Ķes que despencavam na √°gua, bem cuidado, bem estruturado, com uma lanchonete que n√£o metia a faca na gente, seguro em rela√ß√£o a tudo, enfim, est√°vamos amando. ‚ÄúQue bom que est√£o aproveitando, desculpe-me a intromiss√£o, mas sou o diretor do parque e queria saber se estavam contentes.‚ÄĚ √Č por essas e por tudo o mais que amo a √Āfrica do Sul, mesmo com seus graves problemas sociais.

Na¬†√Āfrica do Sul¬†e nos maiores parques da Argentina e do Chile, √© poss√≠vel dormir dentro deles.¬†Aproveitar a lanchonete, geralmente, sem pre√ßos muito abusivos. Tamb√©m d√° para caminhar com seguran√ßa pelas trilhas bem demarcadas e obter informa√ß√Ķes sobre o local com os funcion√°rios. Os saf√°ris da √Āfrica dizem por si no imagin√°rio das pessoas –¬†√© tudo isso o que voc√™ pensa. Aqui do outro lado do Atl√Ęntico, gente, o Chile nem parece um hermano brasileiro. As entradas aos parques s√£o baratas e eles s√£o bem sinalizados, organizados, t√™m excelentes estradas e trilhas – cora√ß√£o para o Parque Nacional¬†Torres del Paine¬†(foto do Sol, abaixo)¬†e¬†Parque Nacional El Morado. Se perder neles, s√≥ se for em pensamento‚Ķ

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A¬†√Āfrica do Sul, que h√° cerca de 15 anos estava em meio a uma guerra civil, conseguiu se reerguer economicamente sabendo usar o ecoturismo.¬†Ali√°s, o ecoturismo colaborou at√© para recuperar √°reas naturais e esp√©cies.¬†O Chile, apertadinho entre tanta beleza, tem parques desde o deserto do Atacama at√© o frio da¬†Patag√īnia. Quem nunca sonhou em conhecer uma das belezas¬†naturais do Chile? Digo o mesmo para a Argentina, que divide conosco as Cataras do Igua√ßu, que tem o Perito Moreno e o¬†Parque Nacional Tierra del Fuego¬†l√° no¬†Fim do Mundo. E o Brasil, o que tem? Desse tamanho todo, n√£o tem nada?

Muitos parques (reservas) brasileiros, sejam eles p√ļblicos ou privados, se encontram em triste situa√ß√£o.¬†A maioria deles sofre com falta de planejamento e do famoso manejo.¬†Em alguns parques, onde o atrativo eram as aves, n√£o se observam mais aves. Outros quase tiveram que fechar as portas por conta da falta de dinheiro para mant√™-los.¬†Outros s√£o depredados pelos visitantes, que em vez de terem orgulho da beleza nacional, preferem destruir o nosso patrim√īnio. Claro que, j√° que Deus √© brasileiro, ainda h√° palmeiras onde canta o sabi√°.

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Existem in√ļmeros bons exemplos no Brasil.¬†O mais recente que eu visitei, a convite da Funda√ß√£o Botic√°rio que o mant√©m, √© o¬†Reserva Natural do Salto Morato¬†(foto abaixo)¬†distante apenas 170 quil√īmetros de Curitiba, capital do meu maravilhoso Paran√°. O lugar tem cachoeira de 100 metros, piscina natural, figueira de 350 anos,¬†quase 600 esp√©cies de plantas, cerca de 350 esp√©cies de p√°ssaros¬†(f√°ceis de serem avistados), mais de 80 esp√©cies de mam√≠feros‚Ķ D√° para caminhar por ele com seguran√ßa, d√° para acampar e ele tem lanchonete. A entrada inteira? Sai por sete reais.

Vamos aproveitar o que temos de lindo e de melhor. Vamos conhecer as reservas respeitando a cultura local, sem retirar nada do lugar, tendo cuidado com n√≥s e com os outros, guardando o meio ambiente. Assim,¬†com essas a√ß√Ķes, n√≥s estimularemos a conserva√ß√£o desse e de mais locais. O Brasil √© gigante. O Brasil √© lindo. A popula√ß√£o brasileira √© uma das mais simp√°ticas e generosas do mundo. Isso tudo √© o que temos de melhor. Alguns ecoturismo s√£o caros, sim. Ent√£o, vamos estimular aqueles que s√£o vi√°veis para que os invi√°veis economicamente se tornem mais acess√≠veis.¬†E, sempre, sempre com consci√™ncia.¬†O ecoturismo pode impactar um lugar, mas pode ajudar a preserv√°-lo.

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Obs.: Todas essas fotos do pots pertencem ao Xis-xis. Por favor, peça autorização para usá-las.

Como um glaciar é formado?

[youtube_sc url=”http://youtu.be/6yUKPA28b5w”]

Antes de viajar √† Patag√īnia, procurei informa√ß√Ķes em portugu√™s¬†sobre glaciares. Achei pouca coisa – n√£o temos glaciares no Brasil… A maioria das informa√ß√Ķes estava em ingl√™s e, algumas, em espanhol. Portanto, para ajudar pessoas como eu, fiz um v√≠deo explicando como os glaciares se formam. Parece m√°gica, mas n√£o √©! De quebra, voc√™ ainda ver√° em HD imagens exuberantes desse presente da natureza!

Você sabe o que é uma lagoa de sistema fechado?

sarmiento1Alguns lagos ou lagoas s√£o chamados de “sistema fechado”. Ou seja, recebem √°gua, mas sua √°gua n√£o corre para outro lugar (apenas evapora ou infiltra no solo). No maravilhoso Parque Nacional Torres del Paine (Chile), existem dois exemplos divinos de sistema fechado: o Lago Sarmiento (acima) e a¬†Laguna Amarga (abaixo).

Nestes casos (de sistema fechado), os rios levam √°gua – e minerais – para eles que n√£o t√™m aonde correr (devido a sua posi√ß√£o). Quando isso acontece, os minerais ficam dentro deles. No caso da Laguna Amarga, conforme o tempo foi passando, essa acumula√ß√£o aumentou. E, consequentemente, a √°gua dela foi ficando mais salina‚Ķ Assim, micro-organismos encontraram o ambiente ideal para crescer e se proliferar, j√° que muitos deles n√£o conseguiriam sobreviver em locais com drenagem ou pH mais neutro – leia aqui sobre o pH da Laguna Amarga. ūüėČ

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Fonte: próprio Parque Nacional Torres del Paine. Ambos os ambientes das fotos podem ser vistos nas entradas dos parques. Fique atento!

Em tempo: lago tem √°gua doce e lagoa, salgada!

O que é o gosto amargo

IMG_3173Essa, da foto, √© a Laguna Amarga. Ela fica no considerado parque mais lindo da Am√©rica do Sul: o Parque Nacional Torres del Paine (Chile). Como uma boa curiosa, advinha qual foi a minha ideia quando vi esse lugar divino? N√£o, n√£o foi me jogar na √°gua – que deveria ter menos de 5 ¬ļC. Foi prov√°-la! Isso, mesmo prov√°-la! Sabe do que ela tem gosto? De bicarbonato de s√≥dio!

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Como voc√™ deve ter percebido, viajar para mim¬†√© muito mais do que apenas ‚Äúchecar‚ÄĚ o lugar bonito e tirar uma foto nele dizendo que estive l√°. Eu gosto de entend√™-lo e aproveit√°-lo em tudo o que o for poss√≠vel. O marid√£o e eu est√°vamos nos despedindo do parque quando paramos para tirar a foto acima em frente ao maci√ßo Paine que d√° nome ao parque, aquelas tr√™s bel√≠ssimas torres l√° tr√°s – depois, farei um post sobre essa geologia. O mapa do parque apontava esta como sendo a Laguna Amarga. AMARGA. Eu sabia que todas as √°guas do parque s√£o pot√°veis, mas, como alguns lagos t√™m peixes, recomendo beber as √°guas das fontes ou dos rios para evitar um piriri.

Perguntei para o marid√£o: ‚ÄúVamos provar a √°gua da Laguna?‚ÄĚ ‚ÄúS√©rio, mesmo?‚ÄĚ, ele retrucou. Claro! Depois de muito sorrir para ele, se disponibilizou a colocar a m√£o na √°gua friiiia para encher a garrafinha. Acho que bebi primeiro. Pouquinho. Ele bebeu: ‚ÄúNossa, que √°gua salgada!‚ÄĚ Eu, de novo: ‚ÄúHumm, gosto de bicabornato de s√≥dio‚ÄĚ. Por que ser√°?

Ah, r√°! Gra√ßas ao pH da √°gua! O pH varia de √°cido, neutro e b√°sico. Ele varia de 0 at√© 14, quanto maior o n√ļmero mais b√°sico (ou amargo) ele ser√°. Por exemplo, o suco de lim√£o tem pH 2 (√°cido de baterias, 0). O cloro que usamos para limpar a casa tem 14. O bicabornato de s√≥dio, 9. E a Laguna Amarga‚Ķ 9.1! N√£o √© divertido? Seu pH deu o nome √† lagoa! Ah, por curiosidade, o pH da √°gua ‚Äúnormal‚ÄĚ √© 7.

Viu como podemos aprender ci√™ncia em uma bela viagem? A sigla pH significa Potencial Hidrogeni√īnico, diretamente relacionado com a quantidade de √≠ons de hidrog√™nio de uma solu√ß√£o. Quanto menor o pH de uma subst√Ęncia, maior a concentra√ß√£o de √≠ons H+ e menor a concentra√ß√£o de √≠ons OH-. Ou seja, o pH √© um indicador.

Quer saber se tivemos dor de barriga? N√£o!

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Dica de viagem: Da Laguna Amarga e da Laguna Azul (andando mais para frente na estrada de terra, foto logo acima), d√° para ver direitinho as tr√™s famosas torres que d√£o nome ao parque. Ambas ficam distantes das principais atra√ß√Ķes, acho que cerca de 20 quil√īmetros para frente, ent√£o, se estiver de carro, certifique-se de que tem combust√≠vel. Ali√°s, se for √† Torres del Paine de carro, leve tanque extra e planeje as trilhas de maneira que n√£o tenha que circular √† toa.

Lobos-marinhos acasalando

IMG_1743Huuuum, danadinhos. Peguei no flagra! Enquanto um pequeno lobo-marinho descansava sob a pedra fria, o casal do lado direito ‚Äúdan√ßava‚ÄĚ e rugia alto. Acho que era um macho e uma f√™mea acasalando – confesso que n√£o tenho certeza. Segundo esse texto, a √©poca de acasalamento desses animais √© no ver√£o. Vai ver que, para os dois da foto, -15¬ļC √© calor‚Ķ

Na região do Ushuaia (Argentina), na Terra do Fogo, vivem dois tipos de lobos-marinhos. Os lobos-marinhos de um pelo e, de dois pelos. Isto significa que a segunda espécie citada tem, em vez de um, dois pelos para se proteger do frio. Por isso consegue viver até na Antártida.

No inverno, √© comum encontrarmos esses animais no Brasil. Para entender, deve-se considerar que as correntes marinhas do Atl√Ęntico Sul, geralmente, funcionam assim: a corrente fria sobe margeando a costa da √Āfrica, esquenta no Equador e desce margeando a costa do Brasil. Nos meses mais frios, correntes podem subir pela costa da Am√©rica do Sul, trazendo consigo ao nosso pa√≠s animais marinhos mais comuns em regi√Ķes frias como os lobos-marinhos e pinguins. Meteorologia √© incr√≠vel, n√£o? Minha paix√£o.

Com certeza, j√° ouviu alguma garota do tempo dizer: ‚ÄúEntrar√° no Brasil uma corrente fria proveniente da Argentina‚ÄĚ. Agora, voc√™ pode entender melhor do que se trata.

Cad√™ os pinguins da Patag√īnia?

Est√£o aqui no Brasil, tirando uma onda. Afinal, nem os pinguins aguentam as temperaturas negativas da Patag√īnia Austral.

pinguimTodo mundo que vai para o Fim do Mundo espera ver pinguim, mas nem sempre eles est√£o por l√°. Eu os observei na √Āfrica do Sul, onde eles (Spheniscus Demersus, esp√©cie parente dos sul-americanos) mant√™m resid√™ncia fixa – d√° at√© para ajudar comprando uma casinha para eles, n√≥s investimos no sonho da casa pr√≥pria desses bichos. Na Patag√īnia, os famosos pinguins-de-magalh√£es (Spheniscus magellanicus) s√£o avistados nos meses quentes, principalmente, no ver√£o. Ent√£o, se quer ver aquelas col√īnias gigantes de pinguins, escolha entre eles ou a neve.

Segundo este site da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), principalmente os pinguins jovens migram para locais mais quentes em busca de alimento. Por isso, é comum no inverno ouvirmos notícias dessas aves encontradas no Sul do Brasil e até na Bahia e no Rio de Janeiro. A primeira vez que vi um pinguim no Brasil (e uma foca ou leão-marinho bebê!) foi no litoral do Paraná, há cerca de dez anos, perto da balsa que nos leva até a lindinha Ilha do Mel. Infelizmente, outros eu vi mortos nas areias do litoral de São Paulo. Muitos se perdem durante a volta, chegam exaustos ou sofrem com a interferência do homem no oceano e acabam morrendo. Triste.

Anote na agenda, se voc√™ pretende ver um monte de pinguim tudo junto ao mesmo tempo, v√° √† Patag√īnia no ver√£o. Agora, se voc√™ ama a vida marinha, tem que ir √† Pen√≠nsula Vald√©s, na Argentina. Eu n√£o conhe√ßo o lugar pessoalmente, mas √© l√° que podemos ver as orcas (<3) ca√ßarem na areia da praia! Dica muito amiga: neste site, h√° um calend√°rio da fauna de Puerto Madryn, regi√£o da Pen√≠nsula Vald√©s. Parece ser imperd√≠vel! E super pertinho de n√≥s.

IMG_1754Obs.: A primeira foto acima foi tirada pelo Gustavo Mendes, em S√£o Sebasti√£o (SP). A foto mais abaixo foi tirada no Ushuaia, Argentina.

Por que se chama Patag√īnia

IMG_1707Vou come√ßar pelo come√ßo, pela origem do nome – apesar de ter descoberto o significado apenas no pen√ļltimo dia. Segundo o museu Centro de Interpretaci√≥n Hist√≥rica Calafate, localizado na cidade de El Calafate (Argentina), ‚ÄúPatag√īnia‚ÄĚ foi um nome dado pelos espanh√≥is, ‚Äúdescobridores‚ÄĚ daquela terra.

 

Na √©poca das Grandes Navega√ß√Ķes, in√≠cio do ‚Äúdescobrimento‚ÄĚ da Am√©rica, havia uma novela espanhola onde os mocinhos eram os espanh√≥is e os malvados eram os patag√īnicos – o nome √© esse ou parecido, n√£o sei se traduzi corretamente do castelhano. Esses patag√īnicos eram homens grandes e robustos.

 

IMG_2443Ao chegar √† regi√£o da Patag√īnia, os espanh√≥is se depararam com alguns √≠ndios grandes e fortes. Muitos usavam arco e flecha para ca√ßar. Al√©m disso, algumas ‚Äúetnias‚ÄĚ eram lutadoras. Tanto que os Y√°manas, habitantes do litoral da Terra do Fogo (regi√£o mais ao sul da Am√©rica), n√£o entravam muito para dentro das terras com medo de encontrar outras tribos da regi√£o.

Espertamente, os descobridores espanh√≥is chamaram os √≠ndios de patag√īnicos, sendo a terra onde eles viviam‚Ķ a Patag√īnia. Como os patag√īnicos eram ‚Äúdo mal‚ÄĚ, deveriam ser combatidos at√© o fim. E, claro, os mocinhos ficariam com a nova terra. Final feliz para quem?

Onde é possível encostar em um glaciar

[youtube_sc url=”http://youtu.be/oh2dC68xJpE”]

Conheça o Parque Nacional El Morado, que fica no coração da Cordilheira dos Andes, no Chile. Um lugar lindo ainda pouco conhecido pelos brasileiros. Além de ter encontrado um vulcão enquanto seguia para o parque e de ter caminhado entre as imponentes montanhas com mais de 5 mil metros de altura durante o dia inteiro, o mais incrível estava por vir: pude encostar em um glaciar de 20 mil anos. Quer mais?

Veja um vídeo sobre as flores dos Andes aqui. E saiba mais sobre a ciência e o meio ambiente relacionados ao país vizinho.

Picos dos Andes aparecem em frente ao avi√£o

Sempre quando estou nos ares, literalmente e n√£o em pensamento como gosto de me deixar levar, procuro saber o local que o avi√£o sobrevoa. Primeiro, porque a curiosidade faz parte do meu √Ęmago. E, al√©m das paisagens a√©reas incr√≠veis, essa √© a chance de visualizar a geografia do nosso belo planeta. Um conhecimento a mais sobre o mundo em que vivemos. Antes de embarcar para o Chile, em dezembro, eu estava ansiosa: queria ver de pertinho a Cordilheira dos Andes! Um acontecimento por si s√≥.

Sem exce√ß√£o, todo mundo que sobrevoa os Andes fica admirado com sua altura e extens√£o. Nunca esqueci o que uma amiga comiss√°ria de bordo, acostumada com as paisagens a√©reas, me disse: “Depois de sobrevoar os Andes, percebemos que um avi√£o pequeno teria muita dificuldade para fazer essa travessia. Seria dif√≠cil ele conseguir”. Essas palavras ficaram por cerca de cinco anos no meu imagin√°rio. E, enquanto esse tempo passava, todos os meus amigos – conhecendo minha paix√£o pela geografia do mundo – voltavam maravilhados desses m√°gicos minutos sobre a maior cadeia de montanhas do mundo em comprimento. Eu perguntava o porqu√™. “Parece que o avi√£o vai encostar nelas”, diziam eles.

Observando as fotos, como as que ilustram este post (clique nelas para ampliar), parece mesmo que os Andes est√£o pr√≥ximos da aeronave. Mas h√° uma dist√Ęncia muito grande entre quase encostar nas montanhas e estar perto delas. Apenas voando consegui entender o que todos me diziam. E olhe que n√£o foi f√°cil, eu apresentava o in√≠cio dos sintomas de uma infec√ß√£o intestinal. Tremia com febre. Estava em um tempo paralelo dentro daquele avi√£o lotado com dez fileiras de assentos. Sabe quando voc√™ toma v√°rios rem√©dios, alguns contra enjoo, e n√£o se sente nem acordada e nem dormindo? Era nesse limbo que me encontrava. Mesmo assim, tenho certeza que as pontas das montanhas aparecendo na telinha em frente √† minha poltrona n√£o eram alucina√ß√Ķes.

O avi√£o levava uma c√Ęmera na parte de baixo dele. Eu poderia sintonizar o canal dessa c√Ęmera na tela em frente ao meu assento. Ao menos seis vezes, naquela c√Ęmera que mostrava o horizonte em frente √† aeronave, eu vi os picos das montanhas mais altas dos Andes. Toda vez que um pico aparecia, o avi√£o fazia uma leve curva para a direita ou esquerda. Tirei for√ßas da minha curiosidade para ficar em p√© no corredor – na ida ao Chile, estava no assento central, na volta, vim na janela (!) – para olhar a infinita cadeia de montanha.

Antes de sobrevoarmos os Andes, por um momento consegui segurar os sintomas da infec√ß√£o para olhar pela janela. L√° fora, s√≥ nuvens. Um avi√£o voa em torno de 11 mil metros de altura. Imagine, de repente, um pared√£o subir praticamente em sua frente. Em Caj√≥n del Maipo, uma regi√£o dos Andes distante cerca de uma hora de Santiago (indo de carro), a altura das montanhas passam os 5 mil metros. A capital chilena est√° aos p√©s dos Andes. Portanto, os pilotos come√ßam o procedimento de pouso sobre a Cordilheira. Sim, realmente, sobrevoamos pertinho dos picos e essa sensa√ß√£o √© indescrit√≠vel. Todos olham pelas janelas. Todos comentam. Todos soltam um “uau” ao mesmo tempo.

 

Na volta, recomposta da infecção intestinal e no assento ao lado da janela, pude me deliciar com aquelas imagens dignas de um documentário em alta definição. Lá de cima, consegui distinguir o Aconcágua creio ser o pico à esquerda da foto superior, montanha mais alta das Américas com 6.962 metros de altitude, entre toda a cadeia. E suspirar muitas vezes. Parece besta, simples, ordinário, se encantar com os 20 minutos sobrevoados. Mas, para mim, a Cordilheira dos Andes é indescritível. O voo já paga a viagem.