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Cad√™ a ‚Äúgalinha‚ÄĚ brasileira que estava aqui?

Estava na ‚Äúcopa do beb√™‚ÄĚ, em um hotel fazenda a cerca de uma hora de dist√Ęncia de S√£o Paulo, procurando frutas para minha beb√™ comer quando uma ave estranha me olhou desconfiada do jardim. Sou daquelas pessoas que v√™ rosto at√© onde n√£o existe, um fen√īmeno psicol√≥gico chamado de pareidolia. Imagine um movimento estranho de uma ave com cerca de um metro camuflada entre as √°rvores. Na hora fui fisgada. E encantada.

Alguém sabe que ave é essa? #ave #bird #animal #silvestre

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Era uma ave que andava elegantemente e delicadamente, com um bico alaranjado neon, o entorno do olho azul turquesa, canto agudo e com um penacho na cabeça como se fosse desfilar no carnaval. Linda! Claro que abrimos a porta para o jardim para chegarmos perto. Claro que a criança correu atrás dela, mas a ave fugiu e ficou nos fitando de longe.

Aos poucos, nos aproximamos. Nunca tinha visto uma ave daquela. Amigos me contaram pelas redes sociais que se tratava de uma siriema. Fiquei até envergonhada. Como assim sou brasileira, trabalho com meio ambiente há mais de dez anos e nunca tinha visto uma siriema ao ponto de nem reconhecer o animal?

Outras aves que encontramos aos bandos por l√° foram jacus, patos de diversas esp√©cies e coloridos, minhas amadas curicacas, muitas andorinhas, gavi√Ķes, os barulhentos quero-queros e maritacas e diversos p√°ssaros. Ah, uma observa√ß√£o, voc√™ sabia que nem toda ave pode ser chamada de passarinho? Todo passarinho √© ave, mas os p√°ssaros s√£o da ordem Passeriforme ‚Äď que fica logo abaixo da classe Aves na taxonomia, uma t√©cnica cient√≠fica de classifica√ß√£o de seres vivos.

Em seguida, veio a reflex√£o: ‚ÄúOnde est√£o essas aves t√£o brasileiras que mal conhecemos?‚ÄĚ Apenas nos livros did√°ticos? Aves que deveriam ser comuns, que ‚Äúpastavam‚ÄĚ por toda a cidade de S√£o Paulo e outros locais degradados por n√≥s. Algumas conseguiram se adaptar ao nosso horroroso ambiente concretado ‚Äď conhecidos por animais sinantr√≥picos ‚Äď como os gavi√Ķes, os urubus e as maritacas.

Os gavi√Ķes, por exemplo, s√£o muito observados nas beiras das rodovias. Entre outros, se alimentam de restos de animais atropelados e de pequenos bichos como roedores que circulam pelas monoculturas. Sobre os urubus nem preciso falar muito, tamb√©m se alimentam de carca√ßa ‚Äď se bobear, ainda invadem sua casa e te d√£o umas bicadas, principalmente se voc√™ for um piloto de avi√£o, a vingan√ßa. As maritacas comem os frutos das √°rvores na cidade.

Já imaginou uma delicada siriema circulando pelo quase nulo canteiro da paulistana Avenida Bandeirantes, por exemplo? Ia morrer de estresse apenas com a infernal poluição sonora. Agora, se essas grandes aves brasileiras estivessem nos parcos parques paulistas, sendo respeitadas, poderia ser viável, não? Já temos tucanos, garças, patos… Neste caso, mais valeria uma ave retomando o ambiente que é dela do que voando para outros locais.

A caça às baleias ajudou a dizimar um povo

IMG_1823Esta triste hist√≥ria mostra que o bater das asas de uma borboleta em um extremo do planeta pode provocar uma tormenta no outro extremo em semanas. Na regi√£o litor√Ęnea mais ao sul da Terra do Fogo, local austral do continente Americano, vivia o incr√≠vel povo Y√°mana. Essa regi√£o foi a √ļltima onde o homem chegou – exceto pela Ant√°rtida – e isso foi h√° cerca de 15 mil anos. Desde ent√£o, os Y√°manas viviam l√° ambientados ao clima extremamente frio.

Com a chegada dos europeus, por volta do ano de 1.500, a vida desse povo mudou para sempre. Os Yámanas viviam em famílias. Cada família em uma canoa Рa região da Terra do Fogo é toda formada por ilhas, em outro post pretendo falar sobre essa geografia. Quando estavam em terra, construíam cabanas redondas com galhos e dormiam no chão. Depois, abandonavam a cabana e voltam às canoas. Outra família poderia ocupar a cabana abandonada sem problemas.

Canal de Beagle ao fundo
Canal de Beagle ao fundo

Quando eles avistam uma baleia no Canal de Beagle, localizado em frente à cidade argentina de Ushuaia, a caçavam. Em seguida, faziam uma fogueira bem grande para avisar a todos os Yámanas que conseguiram uma baleia. O óleo dela era usado para eles manterem a pele do corpo seca. Ele era divido entre todos e guardado um pouco sobre a terra para caso aconteça alguma ecasses no futuro. A carne servia como alimento. Se fosse uma baleia que no lugar de dentes tinha cerdas bucais, estas eram usadas para forrar a parte de dentro e inferior da canoa.

Os europeus, principalmente, descobriram que haviam muitas baleias na regi√£o e na Ant√°rtida e come√ßaram a ca√ßada desenfreada. Muitas ainda correm risco de extin√ß√£o. At√© hoje n√£o conseguiram se recuperar – no Ushuaia, antes comum, atualmente √© dif√≠cil avistar baleias. Os colonizadores usavam o √≥leo de baleia, entre outros, para acender lampi√Ķes de rua.

Os Yam√°nas come√ßaram a sofrer com a falta das baleias. Menos alimento, menos prote√ß√£o para o corpo. Al√©m disso, a regi√£o litor√Ęnea onde viviam come√ßou a ser disputada pelos colonizadores que queriam se estabelecer l√° porque o local era a liga√ß√£o (para barcos) entre os Oceanos Atl√Ęntico e Pac√≠fico. Para piorar, os √≠ndios que viviam na regi√£o come√ßaram a morrer sem resist√™ncia √†s doen√ßas dos ‚Äúbrancos‚ÄĚ.

Por fim, brigaram pela sua terra, mas sofreram com a violência dos colonizadores. Se não me engano, em menos de 100 anos, a população de 2.500 índios que viviam no local foi reduzida para 500. Hoje, sua cultura praticamente se perdeu. Assim, junto com eles, perdeu-se a riqueza das pessoas.

Bahia Lapataia
Bahia Lapataia

Obs.: A foto acima foi tirada na lind√≠ssima Bahia Lapataia, dentro do Parque Nacional da Terra do Fogo, onde os √≠ndios viviam. Se n√£o me engano, esse ‚Äúmontinho elevado‚ÄĚ √© um sambaqui, chamado l√° de concheiro (concheiros ou concheira). Restos das cabanas ou de artefatos e alimentos usados por eles.

Dica sobre turismo no Parque: se for no inverno, pode visitar com vã (a entrada é gratuita). Devido à neve, algumas trilhas como a costeira ficam fechadas. No verão, indico dois dias para conhecer as principais trilhas Рseria prático ir com carro alugado. Ah, dá para acampar no parque.

Meu primeiro encontro com os guepardos

‚ÄúVoc√™s duas esperam aqui, do lado de fora‚ÄĚ, ordenou gentilmente um dos guias. A menina de dez anos olhou feio para ele, enquanto a que tinha cerca de cinco anos sentou conformada no banco de madeira, em frente ao ambiente cercado por grades com mais de dois metros de altura onde estavam as duas chitas (guepardos) tamb√©m irm√£s. Uma era f√™mea e a outra, macho. N√≥s seis (os dois guias sul-africanos, o casal americano, o meu marido e eu) seguimos em frente.

O guia tratador das chitas tirou o cadeado do bolso e abriu a porta de metal. Entramos naquela esp√©cie de ampla jaula e caminhamos atentos em busca dos animais. Eles s√£o amarelos, mas impercept√≠veis nas sombras nas plantas. O casal americano parou para ver como as filhas estavam do lado de fora. ‚ÄúVenham, temos que andar todos juntos! √Č perigoso nos afastarmos uns dos outros‚ÄĚ, ordenou o guia que nos acompanhou por todo o passeio dentro do Tenikwa Wildlife Awareness Centre, localizado na capital africana do surf Plettenberg Bay. Os americanos, que j√° estavam um pouco assustados, seguiram mais atentos. At√© que…

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Encontramos as duas maravilhosas chitas deitadas sob escassa sombra de uma √°rvore. N√£o pod√≠amos toc√°-las, apenas observar os elegantes felinos que tinham a fei√ß√£o de um gatinho. Enquanto o tratador contava particularidades desses animais como o fato de serem os mais r√°pidos mam√≠feros terrestres do mundo, atingindo at√© 120 km/h durante uma ca√ßada, os bichos ronronavam. Sim! Ronronavam – chitas n√£o rugem! E era porque estavam gostando de algo. As chitas s√£o, com exce√ß√£o dos gatos dom√©sticos, os √ļnicos felinos que ronronam na idade adulta.

chita

O macho deitado no ch√£o girava o corpo para um lado, girava para o outro, enquanto passamos a observar essa engenhosidade – estrutura leve e calda comprida que atua como um leme e d√° estabilidade durante a corrida – da natureza de perto. Que emo√ß√£o! Eu quis chegar mais pertinho, mas fiquei receosa. Pensei: ‚ÄúMelhor n√£o me aproximar muito e nem fazer movimentos bruscos para n√£o assustar os animais‚ÄĚ. As chitas n√£o costumam ca√ßar e comer humanos. Apesar dessas estarem bem alimentadas e tratadas (d√° para perceber pelo pelo brilhante) e j√° acostumadas com a presen√ßa humana (elas foram apreendidas de forma que n√£o podem mais serem soltas na natureza), s√£o carn√≠voras. Portanto, melhor n√£o arriscar. Os m√ļsculos pouco rasgados e uma leve sali√™ncia na barriga entregam que, apesar da amplitude do local, elas n√£o praticam muita atividade f√≠sica. N√£o correm atr√°s do alimento.

Completamente vidrada-apaixonada-encantada pela esp√©cie, tentei tirar uma foto com as duas chitas. O guia tratador me orientou: ‚ÄúPode ir atr√°s delas, elas n√£o far√£o nada. E pode abaixar l√° para a foto ficar bem bonita‚ÄĚ. Soltei uma risada nervosa. ‚ÄúSer√°?‚ÄĚ ‚ÄúSim, elas n√£o atacam quando o tratador delas est√° aqui‚ÄĚ, informou o nosso simp√°tico guia. Ah, olhei bem as garras delas, engoli e fui para tr√°s. Meu marido e eu fomos os √ļnicos que ‚Äúse arriscaram‚ÄĚ. Foi o tempo de tirar algumas fotos at√© a f√™mea levantar e sair com o olhar fixo num ponto. Admiramos um pouco mais o irm√£o que acompanhava a f√™mea pelo olhar (foto abaixo). ‚ÄúQuer apostar que ela foi observar de perto as crian√ßas?‚ÄĚ, disse o tratador. As chitas t√™m aquelas esp√©cies de ‚Äúriscos‚ÄĚ no rosto para evitar que a luz do sol reflita nos olhos. Diferente dos le√Ķes e outros felinos que preferem ca√ßar √† noite, no in√≠cio da manh√£ ou no finalzinho da tarde, as chitas ca√ßam durante o dia.

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Ficamos mais uns minutos, que nunca parecer√£o eternos (pena!), no local ao lado do macho. No caminho de volta por dentro da jaula, encontramos a f√™mea sentada com o pesco√ßo levantado e os olhos fixos nas duas crian√ßas do lado de fora. √Č a posi√ß√£o de aten√ß√£o em que elas permanecem por horas antes de correrem atr√°s da comida. O tratador soltou um sorriso. S√≥ faltou levantar a placa: ‚ÄúEu avisei‚ÄĚ. A f√™mea mal piscava e as crian√ßas l√°, sentadas no banco sob o sol, balan√ßando as pernas no ar. Neste caso, a f√™mea √© quem ca√ßa. E as chitas ca√ßam crian√ßas. Os pais voltaram rapidinho para perto das filhas. E a chita l√°, impass√≠vel.

O Tenikwa, um centro de reabilita√ß√£o de animais selvagens especializado em felinos, permite vermos de pertinho essas rea√ß√Ķes de cada felino enquanto o guia discorre sobre a natureza deles. Como no Brasil, na √Āfrica do Sul √© proibido manter animais silvestres em casa sem autoriza√ß√£o. Mas muitas pessoas capturam os bichos, como os felinos de pequeno porte, e os tratam como se fossem animais de extima√ß√£o. Devido a essa conviv√™ncia e educa√ß√£o, esses quando resgatados n√£o t√™m mais condi√ß√Ķes de sobreviverem sozinhos na natureza.

caracal

√Č o caso de um divino caracal (acima) que corria atr√°s de um tronco em forma de bola jogado pelo guia. Tamb√©m pudemos ver de perto um serval (ele quase nos tocou), um gato selvagem africano que estava dormindo escondido entre as folhagens como √© de costume, um leopardo, entre outros. No caso do leopardo, est√°vamos a menos de tr√™s metros do animal e n√£o conseguimos v√™-lo! ¬†N√£o entramos na gaiola dele. √Č t√£o proibido quanto encostar na grade de prote√ß√£o onde vive. Ele ataca humanos, embora na natureza foge de n√≥s assim que sente o nosso cheiro a dezenas de metros de dist√Ęncia. Isso porque eles costumam comer animais criados por fazendeiros como bezerros e ovelhas.

leopardo

Durante mais de 100 anos (at√© hoje, apesar de proibido), os fazendeiros matam os leopardos com tiros. Ali√°s, existe uma hist√≥ria recente de que em Pret√≥ria, capital executiva do pa√≠s, um leopardo atacou e matou cachorros e crian√ßas que estavam fora de casa at√© ser descoberto ele o autor dos ‚Äúcrimes‚ÄĚ, capturado e solto na natureza bem longe dali. Eles agem durante a noite e passam o dia poupando energia camuflados sob as sombras das √°rvores. Mesmo assim, bobear perto de um felino como le√Ķes e leopardos enquanto tiram aquela soneca pregui√ßosa da tarde √© perigoso.

Se voc√™ ama ‚Äúcats‚ÄĚ, animais selvagens (eles t√™m outros bichos como p√°ssaros), a natureza em geral e vai para a √Āfrica do Sul, recomendo conhecer o trabalho realizado pelo Tenikwa. Seu pagamento da entrada e compras que faz na lojinha ajudar√£o a devolver para a natureza animais machucados ou que foram encontrados em cativeiro. Apenas chegue cedo, pois o local sempre lota e s√≥ √© poss√≠vel visitar os animais acompanhado de um guia. Um √≥timo feriado felino para voc√™!

Gato selvagem africano
Gato selvagem africano
Serval
Serval


Evite comprar souvenirs de origem animal em viagens

porcupineVoc√™ v√™ como desconhecimento pode facilitar a extin√ß√£o de uma esp√©cie… No ano passado, durante minha viagem √† √Āfrica do Sul – vou continuar postando sobre ela aos poucos por aqui, s√£o muitas informa√ß√Ķes e pouco tempo para escrever sobre tudo -, eu caminhava pelos corredores de um grande mercado de souvenirs de Cape Town localizado no V&A Waterfront. Ele parecia uma gigante feirinha hippie repleta de estandes. Em alguns estandes, vi uma esp√©cie de palito de prender o cabelo preto e branco com cerca de 25 cent√≠metros de comprimento. A textura era como a de um osso. Perguntei para a vendedora o que era: ‚ÄúPelo de porco-espinho‚ÄĚ. Uau.

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Naquele momento, um bal√£o abriu ao lado da minha cabe√ßa: ‚ÄúComo eles recolheram esses pelos?‚ÄĚ. ‚ÄúQuando caem os pelos dos animais, as pessoas pegam esse material para vender.‚ÄĚ T√° bom. N√£o comprei, preferi algumas faquinhas para passar pat√™ feitas com osso de vaca e pintadas de preto e branco como se fossem zebrinhas. Mais seguro. Saindo de Cape Town vimos in√ļmeras cria√ß√Ķes de vaca holandesa.

thinktwicePassados cerca de dez dias de p√© na estrada pela √Āfrica do Sul, fomos visitar o centro de reabilita√ß√£o de vida selvagem – especializado em felinos <3 – Tenikwa Wildlife Awareness Centre, no munic√≠pio de Plettenberg Bay. Par√™ntese: esse centro merece um post √† parte, viu? Se voc√™ ama ‚Äúcats‚ÄĚ, deve conhecer o lugar (foi onde tirei a foto em que apare√ßo ao lado de duas chitas/ guepardos). L√°, antes de visitarmos os felinos e outros animais, somos obrigados a ver uma palestra e um v√≠deo sobre preserva√ß√£o (as informa√ß√Ķes sobre recupera√ß√£o animal s√£o dadas durante a visita aos bichos). Em seguida, voc√™ pode recolher folhetos com informa√ß√Ķes sobre os animais do pa√≠s. Foi quando descobrimos que porcos-espinhos (porcupine, em ingl√™s) s√£o mortos para terem seus pelos arrancados.

Segundo a organização International Fund for Animal Welfare (IFAW), muitos porcos-espinhos são perseguidos com cachorros e mortos com um golpe rápido na cabeça. Os pelos deles são limpos com desinfetante. Em áreas em que há grande concentração de porcos-espinhos, a IFAW afirma que é possível colher apenas cerca de 100 pelos naturalmente, pegando do chão os pelos que os animais perderam sem ser devido à ação do homem. Porém, essa quantidade, de acordo com a organização, não faz da colheita um exercício altamente lucrativo como acontece quando os animais são mortos. Veja aqui uma lista, em inglês, do que nunca comprar em suas férias. E boa viagem!

tenikwa

Crédito da foto do porco-espinho: Bohemianism. As outras são minhas e do maridón.

Como s√£o os saf√°ris na √Āfrica do Sul

Eu tenho tanta informa√ß√£o para escrever por aqui coletada durante os 20 dias da minha viagem pela √Āfrica do Sul e tanto v√≠deo para editar e subir que precisaria de um clone para fazer tudo isso por mim. Al√©m das incr√≠veis hist√≥rias da popula√ß√£o que hoje vive por l√° – muitas delas para se discutir em uma mesa de bar -, as paisagens e os animais tamb√©m s√£o envolventes. De tirar o f√īlego. Portanto, fa√ßo aqui uma revela√ß√£o (ao menos para mim): em cinco dias no mato voc√™ consegue ver os bichos ca√ßando, comendo sem parar (no caso dos herb√≠voros), amamentando, copulando, fazendo barulhos, distra√≠dos, lutando, curiosos, sem se importar com a sua presen√ßa ou te amea√ßando por estar no ambiente deles.

S√©rio, eu me senti dentro de um dos programas do Discovery Channel. Era como se fosse uma espectadora in loco. Por exemplo, em apenas cinco dias conseguimos perceber os sinais que a maioria dos grandes animais – como elefantes, ant√≠lopes, le√Ķes, girafas – transmitem de acordo com o que est√£o sentindo. Fizemos saf√°ri em uma reserva p√ļblica chamada Addo Elephant e em uma particular. Na p√ļblica, n√≥s mesmos pod√≠amos dirigir pelas trilhas com o nosso carro alugado ou contratar os guias locais para fazer saf√°ris como os noturnos.
O Addo Elephant, como diz o nome, é uma reserva repleta de elefantes. Em cerca de dois dias inteiros por lá, observamos bebês elefantes mamando. Elefanta guiando a manada, algumas com mais de 15 indivíduos. Sim, é a fêmea quem manda no grupo, sabe onde está a água para beber, para tomar banho, onde há a melhor comida. Pudemos ver jovens machos acompanhando, de longe, um grupo (foto abaixo). Isso porque ao completar determinada idade, creio que dois anos Рme corrija se estiver errada -, a fêmea guiadora expulsa o macho jovem do grupo. Ele tem que se virar sozinho. Traumatizado e sem saber o que fazer, muitos jovens seguem o antigo grupo por um tempo. Em seguida, como também pudemos observar, dois machos às vezes andam juntos para se defenderem de outros animais.

Vimos que até os elefantes conseguem se camuflar Рsua bundinha parece um montinho de terra no meio do mato. Que eles se alimentam cerca de oito horas por dia praticamente sem parar. Que geralmente não há leão e nem chita (guepardo) onde estão os elefantes. O leão é quem escolhe o melhor território primeiro Рque pode mudar com o tempo. Os elefantes expulsam as chitas de parte do território que sobrou e eleito o deles.

J√° √©ramos √°gua para elefante. Os animais do Addo est√£o acostumados com tanto carro passando. Mesmo assim, meu marido foi encarado por um jovem macho que veio em dire√ß√£o ao nosso carrinho, desviou praticamente em cima do cap√ī, passou pelo lado do motorista e virou a cabe√ßa para encarar olho no olho. Entortou o pesco√ßo at√© n√£o conseguir mais e seguiu seu caminho. Ficamos bem quietinhos – e meu marido g√©lido. Mas foi s√≥ isso e algumas olhadelas de mam√£es amamentando. At√© que…

Seguimos para a reserva particular com o carrinho prateado alugado, um Nissan Micra. Passamos por tantos elefantes, tantos passaram por n√≥s, que j√° est√°vamos acostumados em ver eles t√£o perto, cerca de um metro de dist√Ęncia do carro. Entramos na reserva, vimos as primeiras girafas da viagem – lindinhas e calmas. Seguimos pela estrada de terra at√© encontrarmos dois elefantes no meio da pista. Um deles, o macho, parou e nos olhou. Essa encarada do elefante √© um sinal de que o bicho est√° incomodado.¬†Pensei: ‚ÄúVou dar uma aceleradinha e andar um pouco para avisar que queremos passar‚ÄĚ.

Dei mais uma acelerada – est√°vamos com receio de nos perdemos dentro da reserva e quer√≠amos chegar logo √† sede para fazer os saf√°ris. Afinal, nas reservas particulares os saf√°ris s√£o feitos com os ve√≠culos delas, geralmente Land Rover abertas. O elefante se virou para n√≥s e abriu a orelha. P√©ssimo sinal que interpretamos bem. Sab√≠amos o que isso significava: ele queria mostrar que era grande, mais firmemente que n√£o estava gostando. √Äs vezes, os elefantes abrem as orelhas para se refrescarem. Elas t√™m veias que ajudam a trocar o calor quente pelo mais frio do ar. N√£o era o caso. Falei para meu marido: ‚ÄúVou acelerar e correr‚ÄĚ. ‚ÄúN√£o fa√ßa isso, ele est√° na parte de cima do morro, se der um passo para cima de n√≥s acaba com a gente‚ÄĚ, s√°bias palavras. Andei mais um metro com o carro. O elefante come√ßou a balan√ßar a cabe√ßa do lado direito para o esquerdo e vice-versa. Sua tromba, que encostava no ch√£o, chacoalhava no ar. Ferrou. Recuei rapidamente mais de dez metros com o carro! O bicho entendeu, arregamos – n√£o que quis√©ssemos brigar, apenas est√°vamos aflitos.

Falei: ‚ÄúTemos todo o tempo do mundo, qualquer coisa algu√©m da sede busca por n√≥s‚ÄĚ. E esperamos uns cinco minutos, ou seja, muito menos do que imagin√°vamos. At√© que o elefante subiu morro acima, parou de nos olhar e passamos devagar – mas espertos – menos de dez metros ao lado dele seguindo pela estrada de terra esburacada.

Nos dias que se seguiram, um le√£o rugiu para o carro em que est√°vamos – desta vez, com o guia ao volante – enquanto segu√≠amos o grupo de felinos em uma ca√ßada. Vimos le√Ķes e chitas correrem, literalmente, atr√°s do almo√ßo. Tr√™s machos chitas, um dos animais mais velozes do mundo que pode alcan√ßar cerca de 110 km/h,¬†atacaram um bando de guinus. Uma delas pegou um guinu, mas o bando voltou e come√ßou a tentar dar chifrada na chita, at√© que ela o soltou. Tamb√©m tivermos a sorte de observar um le√£o comendo ao lado de n√≥s (foto acima), ant√≠lopes brigando, b√ļfalos lutando, copulando, zebra e elefante tentando copular.

No total, calculamos ter avistado mais de 70 esp√©cies animais, sem contar as in√ļmeras aves. A nossa revela√ß√£o e emo√ß√£o foi v√™-los ‚Äúem a√ß√£o‚ÄĚ, como dizem os guias. N√£o imagin√°vamos que era t√£o f√°cil, t√£o comum, t√£o encantador observar as amamenta√ß√Ķes,¬†ca√ßadas, lutas. Apesar dessas brigas di√°rias entre predadores e presas, o ambiente parecia calmo. Os animais sabiam que estavam sendo observados por seus ca√ßadores, mas permaneciam por perto com exce√ß√£o de quando era vis√≠vel que o predador iria atacar. Nem os saf√°ris se comparam √† vida que levamos nas florestas de concreto. Isto, sim, √© vida selvagem.

Zebras e girafas s√£o vistas da estrada

Enquanto dirigimos nas rodovias do Brasil vemos vacas pastando e, eventualmente, sentimos o cheiro de cria√ß√£o de porco. Na √Āfrica do Sul, dependendo da regi√£o tamb√©m observamos vacas (holandesas) e cria√ß√Ķes de carneiros. Meigo. Agora, j√° imaginou ver zebras, girafas, ant√≠lopes, elefantes e at√© le√Ķes separados da rodovia por uma mera cerca el√©trica? Essa √© a vis√£o do c√©u – e sinal de que estamos na √Āfrica. √Ā-FRI-CA. Ai, √© emocionante!

‚ÄúN√£o entre, LE√ēES‚ÄĚ, dizem algumas placas presas √†s cercas el√©tricas na regi√£o de Port Elizabeth. A regra √© clara: se a cerca tem eletricidade, provavelmente, a reserva possui animais que podem se alimentar da carne humana. N√≥s dirig√≠amos com aten√ß√£o redobrada¬†sempre que pass√°vamos de carro pelas estradas de terra ou rodovias que tinham cercas el√©tricas dividindo a reserva do asfalto ou da terra. A chance de ver um animal silvestre era gigante!

Em uma breve pesquisa que fiz, parece que a economia da √Āfrica do Sul est√° baseada na explora√ß√£o de min√©rios e na exporta√ß√£o agr√≠cola. Mas, gra√ßas ao turismo (refor√ßado ainda mais com a Copa do Mundo cediada por eles, os animais end√™micos da regi√£o que correm risco de extin√ß√£o conseguiram certa prote√ß√£o. As reservas garantem seu habitat, sua alimenta√ß√£o, sua explora√ß√£o econ√īmica com o turismo e, assim, sua exist√™ncia. √Č o caso desta esp√©cie de zebra ‚Äď existem tr√™s, uma outra parente j√° foi extinta.

Al√©m de garantir a sobreviv√™ncia dos animais, criar reservas particulares e governamentais √© uma maneira de proteger os habitantes locais das esp√©cies que oferecem riscos √† popula√ß√£o como le√Ķes e elefantes ‚Äď estes s√£o fofos, mas podem ser violentos. N√£o seria uma inspira√ß√£o para o Brasil? Existem reservas semelhantes no Pantanal, mas soube de muitos problemas relacionados a ataques de on√ßas-pintadas¬†– leia, no link, mat√©ria da jornalista Juliana Arini.

Bom, tenho muitas hist√≥rias para postar aqui sobre a minha viagem para a Mama √Āfrica. Esperto ter tempo para escrver os causos e compartilh√°-los com voc√™.

√Āfrica do Sul: como preservar a natureza usando o turismo

Saudades, leitor! Fiquei o m√™s de agosto fora, de f√©rias na √Āfrica do Sul. Foi uma viagem de tirar o f√īlego! Estou cheia de novidades. Tentei focar a viagem em passar mais tempo pr√≥xima √† natureza e em conhecer um pouco a hist√≥ria local. Apesar de o pa√≠s passar por alguns vis√≠veis problemas, podemos aprender com algumas a√ß√Ķes que parecem terem dado certo por l√°.

H√° menos de 20 anos a √Āfrica do Sul quase entrava em guerra civil… Segundo o que me contaram, boa parte das vegeta√ß√Ķes originais tinham sido desmatadas at√© ent√£o. Hoje, existem incont√°veis reservas p√ļblicas e privadas espalhadas pelo pa√≠s. E, claro, eles usam o turismo para mant√™-las de p√©. Como?

Quem n√£o quer fazer um saf√°ri? Ou ver baleias de perto? Ent√£o… Boa parte das reservas resgataram as vegeta√ß√Ķes end√™micas para receberem os animais – parece que as reservas p√ļblicas foram mais cuidadosas em inserir (com alguns rigores cient√≠ficos) esp√©cies de bichos que originalmente viviam naquele ecossistema.

√Č poss√≠vel dormir dentro das reservas – tanto nas p√ļblicas quanto nas privadas. Por exemplo, existe um parque marinho chamado Tsitsikamma. Ele preserva a vegeta√ß√£o e animais costeiros e, claro, esp√©cies marinhas. L√° n√£o h√° le√Ķes, girafas ou elefantes, mas voc√™ pode fazer trilhas para ver paisagens de tirar o f√īlego, remar e at√© nadar com as focas.

Se preferir, pode dormir no Addo Elephant. Como o nome sinaliza, √© um parque que possui um grande n√ļmero de… elefantes. Nesse lugar, √© poss√≠vel fazer saf√°ri com o pr√≥prio carro. L√° h√° mais de 30 esp√©cies de animais – entre eles os temidos le√Ķes e leopardos.

Ou, se quiser, pode pousar no maravilhoso De Hoop (sin√īnimo de dunas, baleias, florestas e mar transparente) perto das zebras e dos ant√≠lopes. Como n√£o h√° animais que atacam os homens, pode fazer trilhas a p√© e de bicicleta. Detalhe: sua reserva marinha √© famosa pelas baleias. Eu contei 15 juntas – incluindo beb√™s. <3

Nesses locais h√° restaurantes, cozinhas, passeios guiados e acomoda√ß√Ķes para diversos bolsos. S√£o super seguros – tanto com rela√ß√£o ao ataque de bichos como √† viol√™ncia ‚Äúhumana‚ÄĚ. Enquanto esse tipo de uso das reservas e dos parques gera dinheiro para a manuten√ß√£o dos pr√≥prios, os visitantes tamb√©m acabam sendo mais olhos para ajudar na preserva√ß√£o do lugar. Vi raras a√ß√Ķes depredat√≥rias.

Portanto, a natureza, lá, não é apenas para ser admirada e intocada. Ela pode ser respirada, sentida, vivida. Não seria um bom exemplo a se seguir?

Obs.: Para conhecer todos os parques e as reservas p√ļblicas da √Āfrica, clique aqui.

Conhe√ßa os pl√Ęnctons!

[youtube_sc url=”http://youtu.be/S83_rs_HVUc”]

Depois de muitas tentativas frustradas, consegui filmar os pl√Ęnctons – organismos bem pequenos que vivem na coluna de √°gua do mar – dos quais tanto falo por aqui. Eles impressionam. Quando agitamos a √°gua, esses organismos (algas, larvas, pequenos animais) emitem uma luz pr√≥pria. Em alguns locais mais preservados do litoral brasileiro, como no Saco do Mamangu√°, os pl√Ęnctons emitem luz com a quebra das ondas e quando um peixe ou outro animal marinho faz movimentos bruscos sob a √°gua. A luz emitida por eles forma c√≠rculos e pontos no mar como se fossem fogos de artif√≠cio. Apaixonante.

Adote a fauna da cidade

Resolvi que minha varanda seria verde quando compramos o apartamento ‚Äď h√° quase um ano. Mas n√£o sabia que cuidar das plantas vicia. De madrugada, 5¬įC, est√° a Isis l√° fora como uma est√°tua sorridente observando as filhinhas. Logo ao acordar, vai a doida de pijama amarelo e pantufas vermelhas regar as mudinhas. Antes de sair para trabalhar, uma √ļltima contemplada. Resultado? Em tr√™s meses, temos: dois cactos (√ļltima aquisi√ß√£o), dois ‚Äúbambus-da-sorte‚ÄĚ, uma carn√≠vora, √°rvore da felicidade, pimenteira, tr√™s violetas, rosa trepadeira (a beb√™), mini rosa, jardineira com v√°rias marias-sem-vergonha, orqu√≠dea, brinco-de-princesa e lavanda.

Cultivar plantas surgiu da tentativa de tornar o concreto mais aconchegante e em ajudar minimamente a capturar carbono. Por√©m, depois do ‚Äúreflorestamento‚ÄĚ, uma discuss√£o sobre ter ou n√£o ‚Äď e qual ‚Äď um ser animado de estima√ß√£o inspirou outra ideia. Um problema para adotar um gato, cachorro ou cacatua √© ficar o dia todo fora de casa e, sempre que poss√≠vel, viajar aos finais de semana. O bichinho poderia sofrer ao permanecer sozinho no apartamento por muito tempo. A solu√ß√£o deveria ser mais livre, mais “Era de Aqu√°rio”. Propus: vamos adotar a fauna da cidade. O marido topou.

O brinco-de-princesa foi pendurado para atrair beija-flor. Ainda n√£o vi nenhum sugando suas flores, mas um da esp√©cie visitou ‚Äď numa tarde dessas de domingo ‚Äď a varanda de cima. Que feliz! Pode ser que ele tenha ido at√© a nossa quando est√°vamos fora de casa. Outras plantas que atraem borboletas e abelhas tamb√©m ser√£o cultivadas na ‚Äúgigante‚ÄĚ varanda. Estou analisando quais seriam mais adequadas √† ilumina√ß√£o e ao espa√ßo. Mesmo assim, ainda √© insuficiente. Beija-flor, borboleta e abelhinha n√£o fazem primavera. Quero mais… quero maritacas!

Dei mais essa sugest√£o. J√° no dia seguinte, empolgados compramos semente de girassol ‚Äď dizem que essas aves pequenas, ruidosas e bagunceiras a-do-ram. Prendi na grade um pote leve de pl√°stico, que guardava na gaveta da cozinha, e tasquei um monte de sementes dentro. Nada. Coloquei mais um pouco. O vento derrubou as sementes l√° em baixo. Nada. Compartilhei meu mal resultado com meus colegas de reda√ß√£o. Eduardo Cesar, fot√≥grafo da revista Pesquisa Fapesp, emprestou sua habilidade para a marcenaria e fez um comedouro de bambu. Ficou perfeito. H√° cerca de um m√™s, o refeit√≥rio est√° preso √† grade.

Nada. Dizem que as maritacas demoraram cerca de dois meses para perceberem que colocamos o alimento. Tudo bem, serei paciente. Agora, além de observar as plantas e as flores de casa, todo dia chego correndo à varanda para saber se tivemos visitas. Quem sabe elas virão amanhã?

Obs.: Obrigada amigos que nos presentearam com plantinhas!