Carpeaux e ” Que livros ficariam melhores se um pedaço fosse suprimido?”


Andy Warhol, “16 Jackies”, 1964

Acabo de ler o “Estadão” de hoje. Na seção “Antologia pessoal”, está a escritora gaúcha Letícia Wierzchowski, que escreveu “A Casa das Sete Mulheres”. Como escritora, ainda tem de melhorar e, certamente, vai melhorar, pois é muito nova para escrever romances. O que me intriga nessa tal seção é a presença constante da pergunta “Que livros ficariam melhores se um pedaço fosse suprimido?”. Será que essa pergunta teria sido formulada caso estivéssemos em outra época, mais remota ? Acho que não. Vivemos na era do videoclipe, das imagens profusas e alternantes, do videogame. Como escreveu o grande O.M.Carpeaux em sua coluna no mesmo “Estadão” em 19 de fevereiro de 1966 (“A época ótica”), “(…) o homem moderno é criatura essencialmente ‘distraída’, pelo fluxo ininterrupto das imagens da publicidade, pela acumulação de notícias heterogêneas numa página de jornal, pela mudança caleidoscópica dos aspectos e ruídos da rua; já teria perdido a capacidade de acompanhar estruturas mais complexas, ler um livro até o fim (…)”. Enquanto continuarmos vivendo nesse mundo que cada vez menos privilegia a leitura, em que cada vez mais vemos jovens comprando livros pelo número de páginas (quanto menos, melhor), a próxima pergunta a ser feita é “Que livros ficariam melhores se um pedaço fosse acrescido?” Bom final de domingo!

Discussão - 2 comentários

  1. Paulo Lima disse:

    Caro amigo…A arte quando é produzida pouco se importa com aqueles que irão apreciá-la, se irão. Por si só ela é completa.Da mesma forma o universo das letras, que também é uma arte, se importa com aqueles que lhe dedicarão minutos de seu ócio – produtivo ou não – para nele adentrar. Creio, sem medo de errar, que sua assertiva ao final do texto é mais válida (para os tempos atuais) do que a de “Carpeux”. Nesta era, a da informação, é verdadeiramente necessário estimular a leitura com profundidade. Que se possa criar um imaginário salutar através da leitura pois é ele, no dizer Lacan e seus discípulos: “a matéria-prima do trabalho de psicanalistas, poetas, artistas, sendo um conceito caro a todos os ofícios dependentes da criação, da criatividade”.Parabéns pelo blog…Paulo Lima

  2. Caro Paulo Lima, acredito também na arte como fim em si. Lendo o jornal ontem, em artigo bastante interessante da Regina Schöpke para o “Caderno 2″,encontrei a resposta que o grande estudioso da cultura grega Jean-Pierre VERNANT (falecido recentemente) deu a um entrevistador que lhe perguntou sobre a utilidade de seu trabalho. O grande helenista respondeu:”Isso não serve para nada, apenas para fabricar o cérebro, para compor aquilo que se chama de cultura”.Grande Vernant! Um abraço e aborigado pelo comentário.

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