Como você pensa?

A linguagem pode ser entendida como um processo mental de manifestação do pensamento. Para alguns ilustres estudiosos da linguagem, como Wittgenstein e Nietzsche, por exemplo, a linguagem mal utilizada pode criar problemas filósoficos e, mais importante ainda, desnudar a maneira como o falante organiza e estrutura o seu pensamento. Há outra conseqüência que pode ser facilmente apreendida: cada idioma produz indivíduos com maneiras particulares de pensar. É fácil perceber isso por meio de comentários bastante comuns: “o alemão é muito frio, direto ao falar”; “o inglês é objetivo”; “o espanhol é muito prolixo”; “os orientais têm um jeito muito diferente de pensar e é por isso que eles são bons em matemática e desenho”, dentre outros. Essas observações me vieram à cabeça ao ouvir o dinamarquês, o norueguês e o sueco durante a minha viagem pela Escandinávia. Ficava tentando descobrir alguma excentricidade ou particularidade que pudesse justificar a maneira de ser, de agir, de raciocinar desses povos. Curiosamente, lendo J.L.Borges ontem, após uma ida à magnífica e tumultuada nova-velha Livraria Cultura, encontrei as seguintes palavras: “Nada sabemos sobre a sua origem (da linguagem). Sabemos somente que se ramifica em idiomas e que cada um deles consta de um vocabulário indefinido e mutável, e de uma qualidade imprecisa de possibilidades sintáticas”. Gracías, Borges.

Discussão - 10 comentários

  1. Paulo Lima disse:

    Será por isso que, neste País (Brasil) multicultural, todos nos “entendemos” tão bem??? Um bom abraço. Paulo

  2. Juca Azevedo disse:

    Comprei uma edição de bolso do Schopenhauer (“A Arte de Escrever”, L±), que é composta por alguns ensaios do “Parerga e Paralipomena”. Há um texto sobre este assunto. Ele comenta sobre a impossibilidade da tradução, já que cada língua possui sua própria personalidade. (O tradutor do livrinho até brinca com o fato de estar traduzindo um livro cujo autor odiava traduções).

  3. amigo de montaigne disse:

    É Juca, este é um dos problemas da tradução: a incapacidade de “traduzir”, de “decifrar” fidedignamente o pensamento (ou, para alguns, a intenção) do autor. Esse assunto já deu e continua dando “muito pano pra manga” e me interessa bastante. Abraço!

  4. amigo de montaigne disse:

    Paulo, esse é o mito do “bom brasileiro”. Somos todos muito parecidos, apesar das línguas. Nada mais certo do que a afirmação que diz “se você quer escrever sobre o mundo, se procura a literatura universal, é fácil: é só escrever sobre o seu mundo”. Viva o regionalismo universalista de J.Guimarães Rosa. Abraço e lembranças a todos!

  5. Anonymous disse:

    Talevz seja por isso que a poesia traduzida geralmente é uma nova poesia, diferente da original.A prosódia da língua também suscita muitas emoções aos que ouvem (e que não entendem o símbolo e apenas tentam advinhar pela “música”.

  6. amigo de montaigne disse:

    Caro (a) anônimo (a), bem observado. Para falar desse tema, teríamos que adiconar alguns outros ingredientes que passam, obrigatoriamente, pela música e pela etnografia. Quem sabe em breve?

  7. Viviane disse:

    mas o que seria o pensamento? seria a manifestação de algo pela linguagem? pensamento E imagem tb é possível… mas a imagem, por exemplo, tb não é linguagem? quais as relações do pensamento com a criação? deleuze: “pensar é criar”. a linguagem seria algo que ficaria no nível do “dito”? inquietações… abraços!

  8. amigo de montaigne disse:

    Viviane,o pensamento não é só linguagem, embora seja essa a manifestação mais refinada de sua existência. Quando se fala em pensamento, devemos evocar uma complexa rede de interações nervosas (sinapses)que culminam na formação de um modelo neural final que, quase sempre, é precedido pela formação de uma “imagem mental”. Pensamemto também inclui uma série de estratégias que fazem com que você se comporte de determinada maneira, o que não significa linguagem verbal, falada, e sim processo mental direcionado para o planejamento. O assunto é extenso e interessante. Mais posts…Abraço!

  9. viviane disse:

    Gracias! 🙂

  10. Anonymous disse:

    Cláudio,amicíssimo de Montaigne,acha que nós devemos pensar a universalidade da linguagem como Nelson Rodrigues pensava: o mundo maior é aqui mesmo,no Méier.Tudo que se processar nessa regiãozinha que você vive é o que se processa no mundo inteiro…Com vantagens e desvantagens,claríssimo não?

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